Neste terceiro episódio, falamos de representação Bissexual e pessoas LGBTI+ com deficiência, através do filme “Margarita with a straw”, que retrata a história duma mulher Bissexual com paralisia cerebral, que deixa a sua casa na Índia para ir estudar para Nova York. Tudo isto com a nossa primeira convidada: Pilar Monteiro!
Vem Bialogar connosco! 💗💜💙
Publicação: 13/12/2024 | Duração: 48min 9s | Produção: 15h | Legendas: no YouTube
Avisos: Contém menções de paralisia cerebral, capacitismo, infantilização, invalidação, bifobia, homofobia, transfobia, preconceitos, discriminação, pornografia, sexo e masturbação. Contém ainda menções de rejeição amorosa e traição referentes às personagens do filme “Margarita with a Straw”.
Pessoa(s) Convidada(s)
A convidada deste espisódio foi a Pilar Monteiro (ela/dela), a primeira mulher Trans cadeirante em Portugal e atleta federada de boccia (na Associação Diferentemente Iguais).
🔍 Descobre mais sobre a Pilar em:
Referências
Personalidades
- Pilar Monteiro: Primeira mulher Trans cadeirante em Portugal e atleta federada de boccia.
- Shonali Bose: Realizadora, escritora e produtora de cinema Bissexual Indiana. É a realizadora do filme “Margarita with a Straw”.
Personagens
- Laila: Rapariga Bissexual com paralisia cerebral do filme “Margarita with a Straw”
- Khanum: Rapariga Lésbica cega do filme “Margarita with a Straw”
Filmes e Séries
- “Margarita with a Straw”
Termos e Expressões
(em edição)
Transcrição
[Sofia] Alô, alô, sejam bem-vindes ao terceiro episódio do podcast Bialogar.
Eu sou a Sofia.
[Alexandre] Eu sou o Alexandre.
[Pilar] Eu sou a Pilar.
[Alexandre] É verdade, hoje temos connosco uma convidada, Pilar Monteiro,
a primeira mulher trans cadeirante em Portugal e atleta federada de bóccia,
que vai estar aqui connosco para podermos falar sobre representatividade, não é Sofia?
[Sofia] É verdade, e neste caso concreto gostávamos de falar de representatividade
de pessoas com deficiência Bissexuais na mídia
e, mais concretamente, do filme “Margarita with a Straw”,
sobre uma mulher Bissexual da Índia
que vai estudar para os Estados Unidos
e temos aqui a nossa convidada, Pilar,
para nos falar também um bocadinho sobre esta personagem.
[Alexandre] É verdade, e escolhemos este filme precisamente porque a personagem
é uma pessoa com paralisia cerebral, uma pessoa com deficiência,
e no passado dia 3 de dezembro
celebrou-se o Dia Internacional da Pessoa com Deficiência.
De destacar também que no passado dia 20 de novembro
também se celebrou o Dia da Memória Trans.
Muito obrigado por teres aceito o nosso convite, Pilar,
e por estares aqui presente.
[Sofia] Sim, muito obrigada.
[Pilar] Obrigada eu, porque é muito importante, estar com vocês neste podcast.
[Alexandre] Queres deixar algumas palavras sobre o Dia da Memória Trans?
[Pilar] Sim, o Dia da Memória Trans é um dia super importante para todas nós,
porque é um dia que assinala as mortes das pessoas trans
que foram assassinadas no passado.
E para que isso não volte a acontecer no presente e no futuro,
tem que ser relembrado cada vez mais.
[Alexandre] E relembrar só que, segundo dados [oficiais],
desde o ano passado foram assassinadas 350 pessoas trans no mundo,
e isto é algo que nos deve preocupar bastante.
[Pilar] Sim, porque nós somos pessoas humanas,
temos família,
trabalhamos, estudamos,
uma vida normal,
e então não fazemos nada mal a ninguém.
Queremos apenas é que nos deixem viver a nossa vida.
[Sofia] Exatamente, as pessoas trans, as pessoas LGBT,
e toda a gente, no fundo, apenas queremos viver a nossa vida em paz
e sem discriminação.
E, no fundo, a escolha pelo filme de que vamos falar hoje,
foi porque representa, lá está, uma pessoa com deficiência a viver a sua vida,
e a tocar em vários pontos do seu dia-a-dia
que as pessoas normalmente não pensam que existem,
e gostávamos muito de ouvir a Pilar dizer-nos o que é que achou desta personagem
e do filme, assim em traços gerais.
[Pilar] Sim, eu estive a ver o filme e achei o filme
tanto extraordinário,
como um pouco de infantilização.
Eu achei esse filme muito interessante, porque estive a ver,
é uma pessoa cheia de vida,
de cadeira de rodas, a querer viver,
a sair da Índia, um país conservador,
para ir para Nova Iorque estudar,
e é uma pessoa cheia de garra,
e é isso que nós, todas as pessoas com deficiência, ccc
ou Bissexuais, ou transexuais, o que for,
queremos apenas viver a nossa vida e que nos levem a sério,
não que nos infantilizem,
todos os dias, em todos os momentos,
mas que nos tratem como mulheres, como homens, e
como uma pessoa normal.
[Sofia] Referiste que sentiste também que em alguns momentos do filme
houve essa infantilização.
Gostavas de explicar melhor a quem nos está a ouvir
que momentos foram esses e…
[Pilar] Sim, um dos momentos que eu achei foi, por exemplo,
a mãe da…
[Sofia] da Laila.
[Pilar] …da Laila
abriu o computador dela e viu o conteúdo pornográfico
e foi uma grande discussão,
como se uma pessoa com deficiência
não pudesse fazer sexo,
como se fosse um crime,
como não pode ter um namorado, uma namorada…
Ver conteúdo [pornográfico], qual é o problema?
E isso não gostei, porque foi uma grande discussão
entre a mãe e a filha,
e a filha a dizer
“eu só quero ter a minha privacidade”,
como qualquer outra pessoa,
tanto que a Laila tinha um irmão,
e ao irmão isso não acontecia.
[Alexandre] E isso acaba por ser um flagelo
que as pessoas com deficiência em geral têm bastante,
em não terem a sua privacidade,
ou terem a sua privacidade constantemente invadida
por outras pessoas.
[Pilar] Sim, além de muitas, não é o meu caso,
mas até era o caso da Laila,
mas por exemplo não é o meu caso,
mas muitas pessoas precisam de ser os pais
ou ter alguém para ajudar a vestir,
a despir, a transportar,
como já foi o meu caso durante muitos anos.
E isso também nos afeta um bocado
porque a nossa privacidade aí
já é tremendamente invadida.
Agora, como aconteceu no filme,
a mãe ‘tar a ir mexer no computador dela,
ver o conteúdo pornográfico que ela estava a ver,
sim, é um uma coisa normal [ver conteúdo pornográfico],
que a sociedade acha anormal
porque estamos a falar de sexo.
Ali, se alguém me dissesse isso,
eu perguntaria:
“Então, como é que eu fui feita?”,
[Alexandre e Sofia] Exato.
[Pilar] “Veio por uma cegonha e deixaram-me aqui?”
Ou “Como é que o meu irmão foi feito?”.
Porque é que eu não posso ter alguém?
Isso não é crime.
Sou feita de carne e osso.
[Sofia] Exatamente.
Isso é uma das coisas que não se fala muito,
de que as pessoas com deficiência
também podem ter desejos e também têm.
E lá está, como tu disseste,
acontece muito essa infantilização
de se achar que não.
E foi um…
Apesar de também mostrar
os preconceitos da própria mãe da Laila,
eu acho que foi um dos pontos positivos deste filme
foi mostrar que esse desejo também existe.
[Pilar] Sim, exatamente.
Porque, por exemplo,
na vida real, aquilo é um filme,
mas na vida real
acontece exatamente o mesmo.
Por exemplo,
eu já estive a viver numa residência autónoma,
já estive a viver num lar,
e, por exemplo, nesses locais,
se eu tiver um namorado ou uma namorada,
nunca posso levar alguém para essa casa,
para esse lar, para essa residência,
porque é proibido.
E como antigamente se fazia muito,
e hoje também se faz às vezes,
que quando uma pessoa
com deficiência nasce é…
[Alexandre] Esterilizada.
[Pilar] é esterilizada à força,
porque os pais assim o decidem.
Acho que isso é um crime,
brutalmente,
porque estão a cortar
a sexualidade, a nossa sexualidade,
de uma pessoa.
[Alexandre] Sim, e literalmente
à nascença, quando a pessoa nem sequer tem
qualquer forma de protestar contra isso,
estão literalmente a decidir sobre o corpo
de uma pessoa que ainda nem sequer tem possibilidades
de decidir sobre o seu corpo.
E Portugal ainda faz isso,
e ainda é um grande ataque contra os corpos
das pessoas com deficiência.
[Pilar] Sim, e pode prejudicar
e prejudica mentalmente
uma pessoa com deficiência
para a vida toda.
Não é achar que
não.
É que é uma vida toda… Castrar em uma pessoa
à toa,
só porque é uma pessoa com deficiência?
É inadmissível.
[Sofia] É mesmo.
[Alexandre] Sim, isto é um flagelo que acaba por afetar
a vida sexual das pessoas com deficiência,
e aqui no caso do filme não vemos só a Leila
à procura de pornografia,
também a vemos a masturbar-se,
também vemos ela a começar a desenvolver
os primeiros sentimentos
pelos dois rapazes da faculdade,
e também a ideia com que ela parece ter tido ali
algum interesse na rapariga da banda,
Sentes que isto representa estas primeiras…
Sentes-te bem representada nestas primeiras paixões,
nesta primeira descoberta de sentimentos,
as rejeições que ela sofre?
O que é que achas sobre isto, Pilar?
[Pilar] Sim, isto é o início de vida
de uma pessoa com deficiência
e de uma pessoa sem deficiência,
isto engloba tudo,
porque é a nossa primeira descoberta
sobre o sexo,
sobre a atração,
sobre o amor,
que a pessoa tem.
Isto é completamente normal.
E por exemplo, uma pessoa com deficiência
sendo eu, ou sendo a Laila
uma pessoa com deficiência,
é: temos sempre grande receio
de dizer a “alguém que ande”,
não vou dizer “normal”,
porque a normalidade não existe,
mas que ande e que seja completamente autónoma,
a namorar com uma pessoa com deficiência,
porque nós vamos achar
que vamos dar muito trabalho
a essa pessoa,
porque vai ter que levar a vida toda
a cuidar de nós.
Então temos sempre muito receio
e muita cautela ao dizer,
porque lá está como se viu
a Laila disse e foi rejeitada
pela sua deficiência.
[Alexandre] Exato, e foi extremamente rejeitada,
dá mesmo para ver que ele nem a via
como uma potencial namorada…
Nunca viu.
[Sofia] Exatamente, para ele era inconcebível
que ela algum dia pudesse ter algum interesse nele,
ele nem sequer tinha pensado nessa ocasião
e viu-se a surpresa
na cara desta personagem.
[Alexandre] Sim, a Laila acabou por ficar de coração partido
como seria normal nesta situação.
Paralelamente, aqui ao romance
temos ao mesmo tempo a situação
em que a Laila escreveu uma música,
a banda da qual faz parte
esse rapaz, o vocalista em
que ela mostrou interesse amoroso e que a rejeitou,
ganha ali no concurso
e todo aquele momento da atribuição
do prémio em que
parece que “oh meu Deus, a música foi escrita
por uma pessoa com deficiência,
agora o prémio não vai para a banda, vai para a escola” e
“toma lá o prémio que tu és uma pessoa com deficiência”
como se fosse uma coisa extraordinária
uma pessoa com deficiência parece que não pode
fazer grandes feitos. Como se fosse um escândalo.
[Pilar] Sim, como se não fosse capaz
então era uma coisa muito estrondosa
e daí a Laila
ter mandado um manguito para a mulher
e ter fugido.
[Alexandre] Sim, ao ponto que a Laila acaba por estar a chorar
e a questionar-se, quer dizer, será que me deram o prémio
por eu ser realmente boa naquilo que fiz
ou é só porque
me vêem como uma “coitadinha”?
Depois disto, a Laila
acaba por ir estudar
para fora e nós vemos a diferença da reação
da mãe versus o pai.
Como é que isso te fez sentir Pilar?
Essa situação, a mãe por um lado apoia
e quer deixar a filha ir
para lá e o pai está muito
“não, tu tens que estar aqui, eu não te posso proteger lá”.
[Pilar] Sim, o pai
nesse caso queria,
e como sempre quer,
que ela ficasse
ali naquele nicho,
naquela vidinha,
naquela “aldeiazinha”
assim dizendo, naquela vidinha…
naquela vidinha
que achava que podia
estar debaixo do olho dele
e ela não. Ela quis ir
para Nova Iorque para poder ser uma pessoa autónoma
e realizar o sonho
de estudar o que queria.
E a mãe só lhe disse assim
“eu aceito, queres ir?”. Tanto que a mãe
diz assim “Não! Olha para mim, não
olhes para o teu pai! Queres ir? Queres ir?”.
E ela disse “sim, quero”.
E então foi aí,
viu-se a diferença entre o pai
a rebaixá-la,
a pensar que
ela não conseguia ir,
não conseguia fazer as coisas
e tinha que estar ali em casa,
e vê-se a mãe, a encorajá-la:
“sim, se queres ir
eu vou contigo, se o pai não for,
vou eu contigo sozinha”.
[Alexandre] Exato
[Pilar] E foi o que aconteceu
[Alexandre] E tu sentes isto no teu dia-a-dia também?
[Pilar] Sim o meu dia-a-dia
também às vezes é muito isso…
Vêem que a pessoa,
a mim e outras pessoas todas [com deficiência]
que não somos capazes
que não podemos sair,
sair para outros sítios…
Por exemplo, o facto de eu morar no Algarve
e querer vir viver para Lisboa
já é do tipo
“Ah! Alguma vez vais para Lisboa?”,
“Como é que vais fazer isso?”,
“Não te vais safar…”.
[Sofia] Também foi importante vermos aqui
esta complexidade das personagens,
por exemplo a mãe dela
que, apesar dos preconceitos que tinha,
na verdade
também sempre puxou pela filha
e sempre acreditou que a filha era capaz de fazer aquilo que quisesse
e de perseguir os seus sonhos
de estudar num país estrangeiro,
o que eu também achei
bastante importante.
E aqui então estamos na parte em que ela vai
para os Estados Unidos, para Nova Iorque
e é aqui que ela conhece outra das personagens do filme,
que é a Khanum,
e que também começa a descobrir-se
enquanto pessoa Bissexual
e passamos aqui
para uma nova fase da vida dela.
O que é que achaste de como foi a adaptação
dela em Nova Iorque
e o conhecer os novos colegas
e as novas pessoas
que apareceram no filme nesta altura?
[Pilar] A adaptação da Laila
acho que foi muito boa,
porque a mãe
até brincava com ela
que “se não tiveres às quatro da tarde em casa,
chamo a polícia”,
isso é uma parte de ironia,
mas os colegas
deram-se bem com ela
e a turma também
ninguém a falou mal, niguém…
O professor assumiu
que ela não conseguia escrever,
cá está a diminuí-la
por ser uma pessoa com deficiência,
e ela ia dizer
“não, eu não preciso”,
mas quando o professor apresentou logo
“pois é que ia ser este rapaz aqui”
ela mudou logo
“sim, sim, preciso, preciso”.
Foi logo uma paixão
também aí
à primeira vista que ela engraçou
com o rapaz.
[Sofia] sim, mais uma altura em que vemos
um momento como qualquer outra
pessoa adolescente
que tem as suas primeiras paixões.
Viu que o rapaz era giro
então, apesar dela estar chateada com o professor,
depois aceitou logo ali,
por mais uma vez este desejo se ter manifestado.
E ao longo do filme,
as atrações que ela tem sentido pelos outros rapazes
tem sido bastante explícitas:
o colega de escola, que também estava
numa cadeira de rodas, em que vimos o primeiro beijo,
o outro colega da banda
por quem ela depois teve o desgosto amoroso;
enquanto que a atração dela
por raparigas
é uma coisa ainda muito implícita
nesta fase: foi apenas um mero olhar
mais alargado
em que se viu o interesse dela
mas que ela própria não reconhecia
como uma atração.
Portanto voltando aqui às relações,
ou às quase relações
que ela teve até agora,
o que é que nos queres dizer
sobre as mesmas?
[Pilar] Ela, as relações que teve até agora
foi uma que ela é que rejeitou,
que era um rapaz da escola
de cadeira de rodas,
que foi ela que rejeitou
por causa do outro da banda
e o rapaz até foi um bocado severo
com ela, mas foi uma coisa muito
bem pensada.
Ele lhe disse “não é por namorares
com pessoas “normais”
que vai fazer de ti
uma pessoa “normal””.
Pode ter dito isso
de cabeça quente, mas
foi uma frase, uma dica
muito bem conseguida.
Enquanto o outro
da banda, o vocalista,
deu-lhe uma nega enorme
simplesmente
porque nunca a viu
nem nunca a veria a
ela como namorada
dele, por causa da sua deficiência.
Foi preconceituoso
e nem ele estava à espera
de tal coisa que ela dissesse.
[Alexandre] E por outro lado
esse primeiro rapaz com deficiência
acaba por agir
não só de uma maneira de magoado
mas quase por um estigma não é?
Como se é por ela ter deficiência
tivesse que namorar com alguém com deficiência?
[Pilar] Extamente.
[Alexandre] E pelo próprio medo
se calhar dele acabar sozinho, não é?
[Pilar] Exatamente, porque não é… Uma pessoa com deficiência
não tem que namorar
com outra pessoa com deficiência
e vice-versa.
Pode ser sim duas pessoas com deficiência
ou pode ser uma pessoa com deficiência
e outra dita
“normal”, que ande.
[Alexandre] Exato. E depois das relações que ela teve na Índia
voamos para Nova Iorque,
onde a Laila acaba por se sentir muito mais livre,
uma mulher muito mais livre,
e acaba por começar a rolar sozinha
por Nova Iorque
a descobrir novas pessoas,
novos pontos da cidade,
e acaba por rolar para uma manifestação
onde vai conhecer Khanum
e tudo se desenrola.
Como é que foi para ti ver esta parte
desta descoberta dela, Pilar?
[Pilar] foi uma parte muito gira e muito autónoma
e de grande felicidade
porque viu-se
viu-se que ela era capaz.
Rolar sozinha
numa cidade desconhecida,
nem toda a gente com deficiência
tem essa capacidade.
E ela rolava e fazia,
tanto que foi-se enfiar numa rua
onde estava a
dita manifestação.
E em vez de se ir embora,
o que é que ela fez?
Enfiou-se por dentro da manifestação
e foi para lá ao lado da Khanum
E ao lado da Khanum,
ela olhou para ela
sentiu-se ali logo uma química
tanto que quando ela
olhou para Khanum ali
ela começou logo a gritar
como ‘tavam todos a gritar
e foi aí que tudo se conectou.
[Alexandre] Sim e depois acaba por haver a situação
do fumo, do gás lacrimogéneo…
[Pilar] E ela [a Khanum] cai para o colo dela
e foi aí que ela,
com a outra mão livre,
agarra ela e tira ela
da parte da manifestação onde estava o gás.
E depois levou-a
para um canto sossegado
onde não havia nada de confusão
e foi aí que começaram a se descobrir,
foi nessa altura que
começaram a ser amigas,
começaram a combinar mais saídas e mais encontros,
tanto que foram
a um museu
onde ela…
Era um museu com pedras
antigas,
e ela começou a mexer na pedra,
a Khanum,
para ver como é cega,
ela começou a sentir o tato.
E então aí,
ela agarra na mão,
para a Laila sentir também a pedra.
Entretanto
foi aí que se deu o flash [se deu o flash = fez-se luz]
depois, porque
a Khanum pede licença
para lhe mexer na cara
e foi aí que ela disse
tu és uma mulher extraordinária,
uma mulher muito bonita
e muito linda.
E a Laila nunca, nem das outras relações,
nunca tinha ouvido ninguém dizer isso
em tantos anos de vida
e foi aí que se deu o clique,
o flash [se deu o flash = fez-se luz].
[Alexandre] Exato, e elas acabam por começar a sair as duas juntas
a Laila vê que a Khanum mesmo tendo aquela deficiência
era também completamente autónoma…
[Pilar] Isso também.
O facto de ela ter dito
isso à Leila
de nunca…
E ela dizer nunca
ninguém me disse isso,
isso também foi uma conexão forte
de atração
de carinho, compaixão,
amor,
que ela estava a ouvir
da outra.
[Alexandre] Exato.
[Pilar] E foi aí que tudo começou-se
a rolar e começaram a sair
sozinhas até que chegou ao ponto de
irem morar juntas.
[Sofia] Sim e até então
a única atração que nós sabíamos
que ela tinha sentido por raparigas
foi algo muito de longe,
muito aquela visão ao de longe.
E aqui ela deu-se espaço também para explorar
isso, até porque se sentiu confortável
precisamente porque a Khanum
disse-lhe que era muito bonita
e que se sentia atraída por ela.
E ajudou o ter sido dela também
a ter essa primeira iniciativa,
que a deixou mais à vontade.
E depois também é muito bom
vermos como elas
conseguem morar juntas
com completa autonomia
que é uma coisa que também não se costuma ver muito em filmes,
uma pessoa com deficiência numa cadeira de rodas
e uma pessoa invisual
a terem uma relação perfeitamente autónoma,
que é perfeitamente possível efetivamente de ter.
[Pilar] Sim, exatamente. A Laila ajudava
numas coisas
a Khanum
fazia outras coisas,
porque os olhos de uma
era o que a outra não via,
os braços de uma
era o que a outra não conseguia ter.
Completavam-se uma à outra.
[Sofia] Exatamente. E depois aqui também seria importante
referir que para além
das questões da sexualidade
e das relações amorosas
e do desejo
não ser algo que se fale e que se mostre
em relação a pessoas com deficiência,
mesmo pessoas heterossexuais,
pessoas dentro depois da comunidade LGBT
ainda há um maior preconceito…
[Pilar] É um escândalo…
[Sofia] Exatamente, e depois também queria que falássemos
um bocadinho sobre esta questão…
[Pilar] sim porque imaginemos
nós na rua vemos um casal
dito “normal
para a sociedade”,
porque isso é tudo menos de verdade,
que é “um homem com uma mulher”
e está tudo bem se estarem a beijar ou isso,
está tudo ok,
tudo bem, é amor…
Mas se virmos duas mulheres
ou dois homens aos beijos,
já começa a “cheirar mal”
perante a sociedade
e perante quem vê.
Agora se forem duas mulheres
com deficiência,
ou dois homens com deficiência,
ou uma mulher e um homem com deficiência
isso então cai o Carmo
e a Trindade [expressão],
porque é horrível,
não pode ser…
Como se as pessoas com deficiência
não fossem pessoas de carne e osso
com cérebro
e com vontades.
Neste caso as únicas deficiências que a Laila tinha
era a dificuldade em andar
e a dificuldade de articular
bem as palavras.
[Alexandre] E para além deste preconceito
que já existe para com as pessoas com deficiência em geral,
como é que sentes o preconceito que existe
dentro da comunidade LGBT
para com pessoas LGBT [com deficiência]
que acaba por muitas das vezes
parece estar ligado com esta infantilização que se faz das pessoas com deficiência
como se elas não pudessem ter sexo,
desejo sexual.
Sentes que isso se liga com este preconceito
que existe dentro da comunidade
para com pessoas LGBT com deficiência?
[Pilar] Eu acho que dentro da comunidade LGBT
também há pessoas
muito transfóbicas,
também há pessoas muito preconceituosas,
que é o que não deveria haver,
porque nós não gostamos,
nós pessoas LGBT
na comunidade,
não gostamos de ser discriminadas
por ninguém.
E eu estando na comunidade,
por vezes,
sinto discriminação
e sinto que não sou bem
aceite na comunidade
por ser uma pessoa
com deficiência.
Por exemplo, na comunidade LGBT
já me perguntaram até
“mas vais mudar?”,
“podes mudar com a tua deficiência?”,
“mas tens a certeza?”.
E isso é uma questão do tipo:
what? [= O quê?/Como assim?]
Eu sou uma pessoa, um ser humano como tu.
Tu transicionaste,
eu posso transicionar,
qual é que é o problema?
[Alexandre] Quase como uma invalidação da tua identidade
apenas por teres uma deficiência.
[Pilar] Sim, exatamente
[Alexandre] Invalidação essa que acontece,
seja dentro seja fora da comunidade,
e certamente terás muito mais exemplos
como este.
[Pilar] sim, vou dar-vos aqui um exemplo
que aconteceu há pouco tempo.
Eu quando fui às urgências
uma enfermeira com outro enfermeiro
em conversa disse “como é que era
possível os meus pais
terem-me autorizado
a fazer a transição?”
e “como é que a minha médica endocrinologista
e psiquiatra
me autorizaram
o início da toma das hormonas,
quando eu era uma pessoa com deficiência?”.
Isso calhou muito mal,
porque eu sou uma pessoa com deficiência,
ok, mas a minha mentalidade
está não é a 100%,
é a 1000%.
Eu trabalho,
eu tenho uma vida, eu não
sou uma pessoa sem noção.
[Sofia] Estás plenamente consciente
daquilo que queres
e da maneira como te sentes
e sentiste que as pessoas achariam que não
apenas por teres uma deficiência?
[Pilar] sim, porque há deficiências
e deficiências.
E o tipo da minha deficiência
como o da Laila,
é só motora,
porque o resto estamos perfeitamente normal.
Estudamos,
trabalhamos,
sabemos dizer “queremos isto”, “não queremos isto”,
“amanhã eu é que sei”, “hoje não quero”.
Não, ninguém diz por mim
o que eu vou decidir.
Eu decido
a minha vida
por mim própria.
Sou que que digo “quero ir para Lisboa,
vou sozinha” e vou;
“quero fazer isto”
e faço.
Por isso essa questão,
dessas enfermeiras, bateu muito mal.
[Alexandre] Sim, porque foi uma completa invalidação
e até questionarem
como se eles tivessem
sequer que questionar…
Nem deveriam…
[Pilar] É que nem há questionamento aqui!
Como essas duas enfermeiras
também, na vida real,
comentam essas coisas
mas as pessoas nem têm que…
Para já, eu não peço opinião sobre isso.
Depois as pessoas
não têm que dizer
“ai mas deixaram?”,
“mas foi aceite?”,
“mas como é que é possível?”.
[Sofia] Sim, isto também é um exemplo que estás a dar
que nos fala muito sobre a própria discriminção
dos profissionais de saúde
para com as pessoas trans e pessoas LGBT,
ainda mais quando têm deficiência.
[Pilar] Exatamente, é uma…
Não têm… Não têm noção. Não têm
carácter. Não têm…
Ao dizerem isto,
porque pensaram que eu estava a dormir,
mas estava bem acordada
e ouvi tudo.
Pá! Só me deu vontade de,
se conseguisse andar,
saltar p’ra cima delas…
[risos]
[Alexandre] Exatamente, e vemos ao longo do filme
que a Laila está sempre
consciente e segura
das suas decisões, das suas
ações e tudo isso,
mas que sistematicamente
não é levada a sério ou é até um pouco
desconsiderada. E vemos isso,
por exemplo, quando ela clarifica
à mãe dela o que é que é a sua sexualidade,
o que é que é ser Bissexual.
Já agora, para quem nos ouve vejam também
o momento em que ela se assume perante a mãe,
que é uma situação diferente mas que tem
um momento um bocado mais cómico,
pela barreira linguística.
Mas este momento de assumir
Bissexualidade, em que a mãe
desconsidera completamente
e quase que faz ouvidos moucos.
E, que é um momento
importante em que a Laila estava
numa posição vulnerável e
decide assumir perante a sua mãe
a sua sexualidade e a sua relação
com a namorada, como é que
viste este momento?
[Pilar] Foi um momento até um pouco
engraçado,
mas um pouco discriminado,
infatilizado,
porque,
cá está,
a mãe ficou depois muito revoltada
a falar com ela
até ligou um
liquidificador para não ter
que responder nem ouvir
ela.
Foi um pouco,
como se a Laila
não pudesse ter escolha
na parte sexual da vida dela,
na parte amorosa,
que é uma coisa que a mãe
apoiou-a em tudo
o que a Laila fazia, ir
para os Estados Unidos
estudar, apoiava em tudo,
mas nesta parte
foi um pouco
preconceituosa e
como se dissesse entre aspas
“não, tu és suficiente
não podes ter relações”.
[Alexandre] sim, e até aquela
a Khanum que já era conhecida da mãe dela,
que já era vista como uma amiga,
uma pessoa muito querida,
de um momento para o outro
passou a ser quase que como se estivesse ali
naquela casa e já nem com ela
ela falava, já nem havia interações à mesa com ela.
[Pilar] Foi posta de parte…
[Sofia] Como se se tivesse aproveitado
da filha dela, é um bocado a sensação
com que ela fica.
Aqui depois esta questão até vai um bocadinho
para além,
porque mistura aqui
os vários preconceitos em relação
à sexualidade da filha por ser uma pessoa com deficiência,
mas a própria sexualidade de ser
neste caso Bissexual,
porque nós vimos quando
a Laila fala com a mãe da primeira
crush [=paixão] que tem num rapaz,
que ela reagiu bem. Ela viu-se que ficou atrapalhada,
do género “como assim a minha filha
a falar de relações”, portanto vê-se que existe este
preconceito pela filha ter uma deficiência
e começar a falar em relações,
mas a reação que ela teve para com a filha foi boa.
Portanto esta diferença de reação,
acho que até tem muito mais
a ver com o facto de ser…
por ser uma atração por uma mulher,
do que ser por a Laila ser uma pessoa com deficiência,
embora também haja esse preconceito e que foi muito
patente na cena em que ela lhe está
a lavar o cabelo da filha e a filha
está a falar da atração que tem por um rapaz
e ela responde-lhe bem, mas vê-se
pela cara dela que está preocupada com a situação.
[Alexandre] Sim, nota-se cá uma profunda
relação entre a Bissexualidade
da Laila e a forma como a mãe reage,
e que obviamente a reação da mãe é muito
motivada por isso, pelo facto da filha
ser Bissexual, pelo facto de ser
uma atração por uma mulher.
E ao mesmo tempo também temos a situação
de que a Bissexualidade da Laila
acaba por ser posta em causa
se calhar pela mãe e por outras pessoas
só pelo simples facto de ela ter deficiência,
esta questão que falávamos de
infantilização e de como se
a Laila não tivesse, não pudesse
ter consciência de quem é que ela é
e sobre a sua própria sexualidade e ter a sua
Bissexualidade
invalidada. E que acaba por ser similar
àquilo que Pilar tu dizias há bocado quando
contavas a tua história de seres
trans e de alguém na comunidade
inviabilizar a tua transexualidade
só por seres uma pessoa com deficiência,
como se tu não pudesses ser consciente
de quem tu és.
[Pilar] Sim, exatamente, porque
nós neste tipo de deficiências,
que é a deficiência motora,
não tem nada a ver com o mental,
nós
o único problema que temos é
a locomoção e a motricidade
fina, de resto conseguimos
nos expressar e saber o que queremos
e o que não queremos.
Isso não… Ninguém neste mundo nos pode
pôr em causa essa questão
[Alexandre] Claro! Notaste que
a reação da mãe dela também é muito motivada
por esta questão da Bissexualidade que falávamos?
[Pilar] Sim, a questão da mãe
em relação à filha, à Laila
foi muito
por causa da Bissexualidade
e da deficiência dela, foi muito,
chamemos um duplo preconceito.
Porque
como é uma pessoa com deficiência,
e o que é que a sociedade vai dizer,
o que é que vão achar,
o que é que vão falar…
É mais por esse assunto.
[Sofia] Sim, se as próprias pessoas
que não têm deficiência
já são tão invalidadas e já acaba
por haver este…
este duvidar da existência da Bissexualidade
ou este duvidar da atração
de mulheres para com mulheres,
essa descredibilização acaba
por ser ainda maior em relação
a pessoas com deficiência.
[Pilar] Sim, exatamente, porque se ditas em pessoas
“normais” já é o
que é no dia-a-dia,
então com uma pessoa com deficiência
é toda a gente a falar,
toda a gente a comentar,
toda a gente a questionar…
[Alexandre] E a invalidar.
[Pilar] E a questionar a nossa maneira de ser
e a nossa identidade.
Que acho que é um interferir
no nosso corpo
brutal.
[Sofia] Exatamente.
Eu com essa parte obviamente
não me identifico tanto,
mas deu para me identificar
com esta parte da Laila
em que a mãe simplesmente
tirou qualquer credibilidade
à atração que ela sentia por mulheres,
até porque ela já tinha manifestado
interesse em rapazes anteriormente,
e a mãe simplesmente ignorou a situação,
não falou mais do assunto,
nem sequer a deixou confrontar a mãe
novamente com esse assunto
e como tu disseste ligou o tal aparelho
que impediu-a sequer de ser ouvida.
[Pilar] E como, no caso da Leila
e como no teu caso
e como no meu caso
e em caso todo,
as pessoas quando nós,
e já me disseram isso,
de gostar de pessoas do mesmo sexo
ou de transexualidade
é que temos o diabo no corpo,
que temos que ser internadas,
que não estamos bem,
que isto não é normal,
e não se focam
principalmente
em se sentarem connosco
e ter uma conversa franca
a perguntar
o que é que sentimos,
em vez de estarem todos os dias
a julgarem-nos, a julgarem-nos, a julgarem-nos
e a levarem-nos a médicos e psicólogos
à força.
[Sofia] Exatamente. Isso também puxa aqui muito
pelos preconceitos que às vezes vêm da religião,
essa questão de ser o diabo no corpo, e etc etc…
E ser visto
como algo demoníaco ou como um pecado,
que também acontece.
[Alexandre] As próprias pessoas com deficiência,
durante a história, eram vistas como
uma literal encarnação do diabo.
[Sofia] Exatamente
[Pilar] As pessoas com deficiência
antigamente só podiam estar fechadas em casa
e nem podiam vir para a rua sequer.
E hoje em dia
já vemos muita gente na rua
a fazer a sua vida normal,
o que é bom.
[Alexandre] Ainda ligado com a Bissexualidade da Laila,
temos a situação,
ainda antes de ela vir para a Índia,
em que acaba por se envolver
com aquele colega de faculdade
que foi indicado pelo professor
para ajudar com a escrita
e no momento em que ela precisa
de ir à casa de banho
eles acabam por se envolver.
E aqui acabamos por ter dois temas,
por um lado a sensação com que ficámos de
que parece que ele se aproveita um
bocado deste momento de fragilidade dela
e do facto dela ter deficiência
para acabar por consumar o sexo,
e por outro lado
temos aqui uma situação
que acontece frequentemente
na mídia
de conotarem a Bissexualidade
com a traição.
Sobre este primeiro tema,
dele se aproveitar da fragilidade
eu e tu Pilar já tínhamos falado um pouco sobre isto.
[Pilar] Sim.
[Alexandre] E a Sofia até tinha uma ideia diferente da nossa.
Nós acabámos por concordar que nota-se,
que parece que ele se aproveita dela.
[Pilar] Eu acho que
ele se aproveita muito dela
porque ela é frágil,
está num momento de descoberta.
Já tinha havido conversas
e os olhares dela para ele
notava-se que
sentia-se alguma coisa
e que era ela bonito.
[Alexandre] Sim, e acaba por parecer que ele se aproveita
dela ter deficiência
para haver aquele avanço que houve.
[Pilar] Sim, só o facto de ir à casa de banho baixar…
A forma como ele
abaixa as cuecas,
porque a filmagem até foca
a forma como ele
baixa e levanta as cuecas
e como ela se agarra a ele.
Isso tudo foi
uma forma de fragilidade
dela que ele
se soube aproveitar
[Alexandre] Tu tinhas uma ideia diferente Sofia.
[Sofia] Eu agora também consigo perceber esta parte,
mas na altura achei que,
ou seja,
ela precisava de ajuda,
ele foi ajudá-la,
até aqui está tudo assente.
E achei que ela própria, naquele momento,
quis também aproveitar
aquela situação para se explorar
a sua própria sexualidade com aquela pessoa
que ela já sentia essa atração.
[Alexandre] Uma coisa até não invalida a outra…
[Sofia] Lá está, eu acho que até temos
os dois momentos: ele a aproveitar-se
da vulnerabilidade dela,
ela a aproveitar-se para explorar,
mas fica sempre aquela
questão dúbia de
será que ela se apercebeu que ele se estava
a aproveitar dela, será que não se apercebeu?
[Pilar] Eu acho que se estava a aproveitar
também. E também ela, também deixou-se levar,
porque estava, cá está, a ela
estava “confusa” com a sua
Bissexualidade.
Ela se calhar precisava de sentir
algo, tanto que depois
ela disse que
não sentiu nada, foi só uma vez.
[Sofia] Sim, era mais nesse
sentido. Eu não
reconheci tanto a parte desse aproveitamento,
porque estava mais focada na parte em que ela
também queria fazer essa
exploração. E vê-se
um bocadinho no final da relação que ela não
ficou muito contente com a decisão que tomou,
porque lá está
sentia-se mal por estar a trair a namorada,
mas teve aquela necessidade naquele momento
para ter a certeza
de que conseguia ter uma relação com
alguém com que ela se sentia
atraída e que não a rejeitasse, como
os rapazes anteriormente a tinham rejeitado.
[Pilar] Foi uma sensação
se calhar de
euforia no momento
e como ela estava também vulnerável,
pelo que os outros rapazes
lhe fizeram, pelo que aconteceu,
e ela está também na descoberta,
se ele
se dispôs a fazer,
ela cedeu
e foi. Mas tanto que ela diz que,
depois que
foi só uma vez e não sentiu nada.
[Alexandre] Sim, exato, mas ao mesmo tempo não deixamos
de ter aqui o tema da traição,
que é algo que pode acontecer em qualquer
sexualidade, mas que aqui acaba por
parecer quase associada à Bissexualidade
e vemos a reação
que tem a Khanum quando ela lhe
conta, não é? Como “tu
atraíste-me”, “tu usaste-me…
[Pilar] P’ra te cuidar…
[Alexandre] p’ra te descobrires…
[Pilar] Mas ela também diz:
não, eu gosto de ti e quero ficar contigo
e não senti nada.
[Sofia] Sim, não invalida que tenha
efetivamente existido uma
traição, mas esta traição
não tem nada a ver com o facto dela ser Bissexual,
embora por vezes a mídia
tenha muito
esta associação,
e tem mais a ver com uma pessoa…
uma pessoa adolescente com deficiência que se estava
a tentar descobrir e a relacionar-se com pessoas
pela primeira vez.
A única experiência sexual que ela tinha tido até então
era efetivamente com a namorada.
E acho que foi mais por aí, por ela sentir
que queria explorar-se com mais
pessoas, independentemente de ser com um rapaz
ou outra mulher inclusive.
E era deixar então este ponto
muito assente, porque
uma pessoa fica, ok, eu percebo
porque é que ela fez, o que é que ela fez
e percebo que foi importante para o
filme e para a descoberta dela, mas
irrita às vezes um bocado o porquê de
quase todos os filmes com pessoas Bissexuais
acabarem ou culminarem em traições.
[Pilar] É quase sempre em todos os filmes…
Não há…
Nada é perfeito.
[Sofia] Exato.
[Alexandre] sim, e no momento em que ela
confessa esta traição
à namorada, a Laila acaba
por dizer “eu queria ser vista”
e isto acaba por ter aqui
uma situação
chata porque parece que é uma discriminação
também para com a namorada, mas ao mesmo tempo
a sensação de que a namorada…
de que a namorada só estava com ela
[Pilar e Alexandre] porque não a podia ver.
[Alexandre] Exato. Aqui o preconceito também
que a própria Laila tem para com
a deficiência da namorada.
[Pilar] Sim, também há essa.
[Sofia] Exato.
O que
no fundo é a explicação
que nós temos no filme para
a traição que ela cometeu.
[Alexandre] Exato.
[Pilar] Exato. Como ela nunca esteve com
nenhum rapaz, da forma que esteve com ele,
também se vai descobrir, não é…
[Sofia] Mas eu acho que isto vai para além do facto de ela
nunca ter estado com nenhum rapaz
e tem mais a ver com o facto de ela nunca ter estado
com ninguém que a fizesse sentir-se vista,
que é um bocadinho a explicação
que ela dá quando fala com a namorada.
[Alexandre] E agora para terminarmos aqui a nossa reflexão sobre o filme,
gostava também de saber a vossa opinião
sobre esta representação Bissexual.
Por exemplo, para mim
eu acho que foi uma boa representação
tirando aqui a questão da traição que já falámos
mas acho que poderia ter havido mais,
se calhar mais pormenor do momento
de descoberta.
[Pilar] Eu acho que o filme foi bem conseguido,
porque retrata a vida
duma rapariga
que seja Bissexual.
Por exemplo, que é a fase de descoberta,
ela teve que se descobrir
tanto a estar
com um homem,
como a namorar com uma mulher.
E tanto que ela no fim,
quando diz à namorada
o que aconteceu,
ela diz: foi só uma vez
não senti nada, eu gosto de ficar contigo.
[Sofia] sim, eu também acho que
aquilo que é mostrado, não é mostrado muita coisa
a nível das reflexões pessoais e etc,
mas eu acho que aquilo que é mostrado
representou bem, lá está tirando também
a parte de traição que foi a que gostei menos,
mas que também percebi dentro do contexto da história dela.
Eu acho que representou bem
uma personagem
efetivamente Bissexual.
Acho que vimos a atração que ela sentia
pelos rapazes, a atração que ela depois
sentiu pela namorada.
Já antes disso, havia indícios
de outros olhares para outras raparigas,
que depois ela acabou
por explorar
em Nova Iorque com a namorada.
E acho que… Eu gostei
muito do momento em que ela
decide fazer o seu coming out [= saída do armário].
Eu não vou contar como é que foi,
porque acho que é um momento engraçado
que as pessoas vão gostar de ver no filme.
E gostei do facto de a Laila
ser uma personagem bastante
direta, bastante
desinibida, ela falava
da vida dela sem
grandes pudores e também
teve logo necessidade de se abrir com a mãe e
de lhe contar sem grandes pudores. E gostei disso,
do facto de ser uma pessoa direta a falar sobre si
e sobre a sua Bissexualidade.
[Alexandre] Sim, mesmo tendo também
crescido se calhar num ambiente tão conservador
ela acaba por explorar até com bastante
à vontade a sua sexualidade.
E de referir aqui também que a própria
realizadora do filme
também é Bissexual.
[Pilar] É!
[Alexandre] E apesar da atriz
não ser uma pessoa com deficiência,
nem com paralisia,
achas que a representação de uma pessoa
com deficiência e com paralisia ficou bem feita
aqui no filme, Pilar?
[Pilar] Sim, eu acho que este filme
se eu não soubesse que a atriz
não tinha paralisia
cerebral,
não descobriria, porque
estava completamente
bem feito, mesmo
o facto da espasticidade,
das mãos,
da fala,
do conduzir a cadeira,
da má postura
na cadeira.
Todo esse facto
foi impressionante como é que uma atriz
sem a deficiência
conseguiu fazer este papelão,
que não é fácil,
porque a espasticidade
que nós temos no dia a dia
que vai aparecendo
assim de vez em quando
e as mãos e isso tudo,
não é fácil para uma pessoa dita
“normal”
fazer este papel.
Foi muito bem conseguido.
[Alexandre] Por outro lado seria uma representatividade muito melhor
se tivesse sido uma pessoa com deficiência
a fazer o papel.
[Pilar] Exatamente! É isso que eu acho mal,
que é…
Tanto no mundo todo,
como em vários filmes,
como neste filme,
fazem com pessoas
com deficiência,
não só com paralisia cerebral,
mas com outros tipos de deficiência,
são pessoas que
não têm rigorosamente nada
que têm que treinar
diria muitos meses
para poderem fazer
o papelão que esta atriz está a fazer,
que é uma coisa
absolutamente
ridícula para mim,
porque uma pessoa com paralisia cerebral
não precisava
de treinar meses.
Era saber o guião e fazer.
[Alexandre] Exato.
[Pilar] Porque o dia-a-dia,
a espasticidade,
a fala,
o pentear,
isso tudo
é o que a pessoa vive no dia-a-dia.
E é isso que me entristece cada vez mais.
[Alexandre] Sim, não haver essa representação
feita por alguém que efetivamente
vive aquilo todos os dias.
[Pilar] Sim, porque nós,
e eu vou falar em Portugal, por exemplo
em Portugal não é muito evoluído
nesse sentido,
mas temos várias associações,
vários grupos de dança,
vários grupos de teatro
onde estão várias pessoas
com deficiência
a representar e fazem
pequenos espetáculos,
porque não temos visibilidade
necessária e possível,
que queremos.
Então quando se faz um filme,
uma novela, uma série
não custaria nada
ir a essas associações,
a esses grupos
de teatro, grupos de dança
e ir buscar e fazer
um casting para escolher
a melhor personagem com deficiência.
[Sofia] Exatamente,
e dar essa oportunidade às pessoas.
[Pilar] E dar essa oportunidade
de trabalho a essa pessoa
e de realização,
porque para uma pessoa com deficiência
seria uma grande realização
poder ter esse orgulho de fazer um papel
de um filme que se calhar
é mundialmente visto.
[Alexandre] E para as outras pessoas com deficiência verem alguém
como elas, com quem se possam identificar
e que está ali a fazer aquele papel,
não é outra pessoa a “fingir”
que tem uma deficiência
só para fazer aquele personagem.
[Pilar] Eu no meu caso
quando fui ver o histórico do filme,
antes de ver o filme,
e reparei que a atriz
não tinha poderes de cerebral
já fiquei com a pulga atrás da orelha.
[Alexandre] Sim, já a pensar:
será que fez uma boa representação,
será que não?
[Pilar] Já fiquei com aquela sensação de
“isto não vai correr bem, isto vai ser muito artificial”,
mas por acaso foi muito bem conseguido.
[Sofia] Lá está, porque acontece muitas vezes
caírem estereótipos que eu acho que
neste filme não aconteceu
e efetivamente foi bem conseguido como tu dizes.
[Pilar] Foi muito.
[Alexandre] Sim, ficou bem conseguido
[Pilar] Foi muito bem, muito bem.
[Alexandre] E terminamos assim o tema do filme “Margarita with a Straw”.
Convidamos também a quem nos ouve,
se não conhecem ou não viram o filme,
poderem ver. Está disponível
nas plataformas de streaming.
Achámos importante escolher este tema
para conjugar a visibilidade Bissexual
e a visibilidade das pessoas com deficiência,
porque, lá está,
as visibilidades sofrem de preconceitos
e de temas similares
e percebermos aqui esta interseccionalidade
é bastante importante.
Aproveito também para te perguntar Pilar,
queres-nos falar também dos teus projetos
enquanto atleta federada de bóccia
e também da associação que tens?
[Pilar] Sim, sou presidente da associação “Diferentemente Iguais”,
cujo slogan é “todos diferentes mas todos iguais”.
Sou a única atleta de bóccia
em toda a região algarvia
e isto está a ser
muito complicado
gerir tudo,
por isso tive que fazer a associação
para poder prosseguir o meu sonho
de competir,
para poder arranjar patrocínios
e para me deslocar
para as provas que são todas
na zona de Lisboa
e Norte do país.
A associação também tem
trabalhado em algumas
coisas na acessibilidade
na cidade de Olhão,
mas o objectivo será
captar novos atletas de bóccia,
não que seja em Olhão
mas pode ser em outro lado,
porque eu quero sair de Olhão,
para poder ter mais qualidade
como atleta e como pessoa.
[Alexandre] E podem encontrar as páginas
da Pilar, tanto a de atleta
como a da associação
tanto na descrição no vídeo do YouTube,
como nos posts no Instagram.
Vamos lá deixar as identificações
para que vocês também possam seguir
e saber mais sobre a Pilar.
[Sofia] E para terminar este episódio
queríamos então agradecer aqui à Pilar
ter aceite o nosso convite,
muito obrigada por estares aqui connosco.
[Pilar] Eu é que agradeço o convite,
é super importante falarmos nestes temas.
[Sofia] Concordo e concordamos,
e por isso é que também escolhemos este tema
para este episódio.
[Alexandre] Os nossos episódios saem na 2.ª sexta-feira de cada mês.
O próximo sai dia 10 de Janeiro.
[Alexandre, Sofia e Pilar] Venham Bialogar connosco!
