#4 – Rumo ao Casamento

Este episódio começa com uma viagem muito Bissexual por 2024, que termina dando lugar à celebração, em janeiro de 2025, dos 15 anos da aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo em Portugal. Falamos sobre alguns debates em torno desta aprovação e ainda sobre a representação Bissexual no filme “A New York Christmas Wedding” (PT: “Um Casamento de Natal”).

Vem Bialogar connosco! 💗💜💙

Publicação: 10/01/2025 | Duração: 44min 27s | Produção: 23h | Legendas: no YouTube
Avisos: Contém menções de invalidação, bifobia, apagamento bissexual, homofobia, transfobia, preconceitos, discriminação, casamento, Natal e religião.

Não houve pessoas convidadas neste episódio.

Personalidades

  • Judith Teixeira: Foi uma escritora e poeta Bissexual Portuguesa.
  • Billie Joe Armstrong: Cantor, compositor, ator e multi-instrumentalista Bissexual Estadunidense, mais conhecido por ser vocalista e guitarrista da banda Green Day.
  • Vitória Strada: Atriz e modelo Bissexual Brasileira.
  • Marcella Rica: Atriz, cantora e diretora Lésbica Brasileira.
  • Kristen Stewart: Atriz, diretora e guionista Bissexual Estadunidense.
  • Katy O’Brian: Atriz Lésbica Estadunidense.
  • Richard Gadd: Ator e escritor Bissexual Escocês.
  • Brenda Biya: Mulher Bissexual Camaronense e filha do presidente dos Camarões (à data da publicação do episódio).
  • Chappell Roan: Cantora e compositora Lésbica Estadunidense.
  • Julie d’Aubigny: Cantora de ópera Bissexual Francesa, também conhecida como “La Maupin”.
  • Sara Norte: Atriz e escritora Bissexual Portuguesa.
  • Marielle Franco: Foi uma socióloga, ativista e política Bissexual Brasileira.
  • Cynthia Erivo: Atriz Bissexual Britânica.
  • Pilar Monteiro: Primeira mulher Trans cadeirante em Portugal e atleta federada de boccia.

 

Personagens

  • Lou: Mulher Lésbica do filme “Love Lies Bleeding” (PT-PT: “Amor em Sangue” | PT-BR: “O Amor Sangra”).
  • Jackie: Mulher Bissexual do filme “Love Lies Bleeding” (PT-PT: “Amor em Sangue” | PT-BR: “O Amor Sangra”).
  • Donny Dunn: Homem Bissexual do filme “Baby Reindeer” (PT-PT: “Baby Reindeer” | PT-BR: “Bebê Rena”).
  • Evelyn Hugo: Mulher Bissexual do livro “Os Sete Maridos de Evelyn Hugo”, de Taylor Jenkins Reid.
  • Nick Nelson: Rapaz Bissexual da série “Heartstopper” e dos Livros de “Heartstopper”, de Alice Oseman.
  • Elphaba: Mulher presumidamente Bissexual do filme “Wicked” e do livro “Wicked” (PT: “Maligna”) de Gregory Maguire
  • Jennifer: Mulher Bissexual do filme “A New York Christmas Wedding” (PT: “Um Casamento de Natal”)

 

Livros

  • “Os Sete Maridos de Evelyn Hugo”, de Taylor Jenkins Reid
  • “Heartstopper”, de Alice Oseman

 

Filmes e Séries

  • “Love Lies Bleeding” (PT-PT: “Amor em Sangue” | PT-BR: “O Amor Sangra”)
  • “Baby Reindeer” (PT-PT: “Baby Reindeer” | PT-BR: “Bebê Rena”)
  • “Hacks”
  • “Heartstopper”
  • “Wicked”
  • “Friends” (referência a um episódio com um casamento entre duas mulheres)
  • “A New York Christmas Wedding” (PT: “Um Casamento de Natal”)

 

Eventos e Datas

  • Dia da Visibilidade Bissexual: 23 de setembro (criado em 1999)
  • Semana da Visibilidade Bissexual de 2024
  • Exposição “Dar Visibilidade à Invisi.Bi.lidade” de 2024
  • Aprovação do Casamento Igualitário em Portugal: 8 de janeiro de 2010

(em edição)

[Alexandre] Alô, alô! Sejam bem-vindes ao quarto episódio do podcast Bialogar.
Eu sou o Alexandre.

[Sofia]
E eu sou a Sofia. E este é o nosso primeiro episódio de 2025.
E antes de avançarmos, queria desejar um bom ano a todas as pessoas que nos estão a ouvir
e também agradecer todas as interações, todo o feedback que temos recebido até ao momento,
os comentários, os stories, as partilhas.

[Alexandre]
E agradecemos muito todo este feedback.
Ao mesmo tempo, gostaríamos de saber que coisas é que vocês gostariam
que nós trouxéssemos aqui para o podcast.
Temas que nós pudéssemos falar, assuntos, notícias.
Portanto, saber, no fundo, o que é que a comunidade quer saber
e quer ouvir falar sobre Bissexualidade.

[Sofia]
Exatamente. Nós, quando criámos este podcast, a ideia é mesmo termos aqui uma plataforma
onde qualquer pessoa possa falar sobre questões Bissexuais
e temos as nossas caixas de comentários ou as mensagens diretas disponíveis
para nos dizerem tudo o que quiserem ouvir, tudo aquilo que gostariam que nós falássemos
e também tudo aquilo que quiserem partilhar das vossas experiências
enquanto pessoas Bissexuais.

[Alexandre]
Sim, porque mesmo nós tendo temas sobre os quais queremos falar
e coisas que queremos trazer para aqui, ao mesmo tempo também queremos receber
o vosso feedback, para perceber que temas é que vocês também querem saber
e que temas é que vos interessam para que o nosso podcast e o nosso conteúdo
vá de encontro àquilo que as pessoas também estão à procura
a nível de visibilidade Bissexual.

[Sofia]
Exatamente.

[Alexandre]
E para começar o episódio, queríamos trazer-vos 12 momentos
relacionados com Bissexualidade que tenham ocorrido no ano passado,
um por cada mês, só que não conseguimos encontrar momentos para todos os meses
e em alguns meses encontramos mais do que um.
Por isso, sugerimos a quem nos ouve, se conhecerem mais notícias e momentos
relacionados com Bissexualidade do que estes que nós vamos falar,
deixem-nos nos comentários para podermos partilhar esta informação com mais pessoas.
Queres começar, Sofia?

[Sofia]
Sim. Portanto, em janeiro, aquilo que eu me lembrei em janeiro foi, por exemplo,
da Open Call para uns escritos de textos
queers por autoras de “As 7 Bonecas”
(a plataforma chama-se “As 7 Bonecas”, podem ver o site as7bonecas.pt),
em que a homenageada desta edição, que creio que é a segunda edição,
foi a Judith Teixeira, que é uma poeta Bissexual de que eu gosto muito.
Eu aproveito todas as oportunidades para falar sobre a Judith Teixeira que apanho,
portanto, acabei por escolher este momento, que não é propositadamente sobre Bissexualidade,
mas que como homenageia a Judith Teixeira, acaba por incluir
e procurem, por favor, os poemas da Judith Teixeira,
que é uma poeta Bissexual portuguesa muito importante
e que teve os seus livros queimados em 1923,
simplesmente por escrever também sobre a sua sexualidade com outras mulheres.
Para fevereiro. Para fevereiro, como eu não me lembrei de nada
e do que estive à procura também não encontrei…

[Alexandre]
Sim, não encontramos nada.

[Sofia]
…assim, um momento específico, se calhar vou ver aqui então,
mesmo em tempo real, quais é que são as pesquisas de notícias.
Se pesquisarmos “Bissexual” no Google Notícias,
entre 1 de fevereiro de 2024 e 29 de fevereiro de 2024, o que é que aparece?
Portanto, “Após ter expulsa, evangélica Bissexual cria igreja para acolher cristãos LGBTQIAP+”.
“Bissexual assumido, vocalista do Green Day fala sobre ser um ícone da comunidade”
e diz que gosta disso, segundo este título.
E “Vitória Strada fala sobre se descobriu Bissexual com Marcella Rica,
a primeira mulher que beijei”. Por acaso já ouvi falar muito disto no Twitter.

[Alexandre]
Em março estreou em Portugal o filme “Love Lies Bleeding”
(em português de Portugal: “Amor em Sangue”,
já em português do Brasil o título é “O Amor Sangra”),
onde temos uma atriz Bissexual, a Kristen Stewart, a interpretar uma das personagens que é a Lou.
E temos também uma personagem Bissexual, a Jackie, interpretada pela atriz Katy O’Brian.
Já em abril tivemos a estreia da série “Baby Reindeer” [PT-PT: “Baby Reindeer”, PT-BR: “Bebê Rena”],
onde temos a personagem Bissexual Donny Dunn,
protagonizada pelo ator também Bissexual, Richard Gadd.
Temos aqui uma dupla Bissexualidade. É sempre fixe termos atores
Bissexuais a representar personagens Bissexuais.

[Sofia]
Eu concordo. Mas por acaso no filme anterior foi um bocadinho ao contrário.
A atriz lésbica faz de uma personagem Bi e a atriz Bi faz de uma personagem lésbica.
E lembrei-me agora que há bocadinho queria mencionar um vídeo, uma entrevista,
onde a Kristen Stewart afirmou novamente e confirmou a sua Bissexualidade,
que é uma dúvida que algumas pessoas vieram pôr depois do episódio anterior.

[Alexandre]
Sim, que continuam em teimar e em achar que ela é lésbica,
quando já várias vezes ela referiu que é Bissexual.

[Sofia]
Em maio estreou a terceira temporada da série “Hacks”,
que tem… uma das protagonistas é Bissexual, também interpretada por uma atriz Bissexual.
É uma série de comédia que ganhou uma série de Emmys e eu gosto muito e recomendo.

[Sofia]
Em junho…
Em junho também não…
Acho estranho que em junho não encontramos nenhum momento mais…

[Alexandre]
Ya, no mês do orgulho, não haver nada…
[Sofia]
…importante sobre a Bissexualidade.
Das notícias, procurando assim também por notícias,
o que aparece em junho…
Olha, a primeira notícia que aparece diz:
“Verde lésbico e vermelho Bissexual. Como trazer a tendência ao lar?”
Esta é a primeira notícia que apareceu quando pesquisei Bissexual no Google em notícias.

[Alexandre]
Portanto, decoração para o lar.

[Sofia]
Exatamente.
Olha, por acaso, vermelho é a minha cor preferida.

[Alexandre ri]

[Sofia]
“Bissexuais sofrem apagamento dentro e fora da comunidade LGBT”.
Ok, ao menos falou-se sobre invisibilidade Bissexual no mês de junho.

[Sofia surpreendida com a notícia seguinte]
Eu nem sei…
Bem…
“Vidente que diz que CR7 é Bissexual prevê fenómenos catastróficos já em junho”.
Eu não sei… [Sofia ri]

[Alexandre a rir]
Não sei o que dizer sobre isto.

[Sofia a rir]
O que dizer sobre isto.

[Alexandre, em tom humorístico]
Não sei o que dizer sobre isto.
Passamos para julho, é melhor.

[Sofia]
Sim, vamos ignorar esta para terminar junho.
E em julho também não encontrámos nada.
E até estou com medo de ir ver os títulos do mês de julho depois deste. [Sofia ri]

[Alexandre]
Sim, não vamos ter outra vidente.

[Sofia]
Que na verdade começava com 7 anos de apocalipse,

[Alexandre]
Exato.

[Sofia]
o título que eu li.

[Alexandre]
Passemos então para agosto, Sofia. Concordas?
[Sofia a rir] É melhor.

[Alexandre]
Em agosto temos a Brenda Biya, a filha do presidente dos Camarões,
que declarou publicamente ser Bissexual.
E esta notícia acabou por ser amplamente difundida dentro da comunidade,
por ela ser… acabar por ter uma certa notoriedade pública.
E ao mesmo tempo, porque os Camarões é um país onde a comunidade LGBT+
ainda recebe muita repressão,
e onde pertencer à comunidade LGBT+ pode dar direito a uma multa
até 305 mil euros
ou a ser preso entre 6 meses a 5 anos.
E chegamos ao mês de setembro, um mês bastante Bissexual,
em que a dia 23 celebrámos o dia da visibilidade Bissexual.
E uns dias antes, anunciámos o lançamento do nosso podcast.
De destacar também a semana da visibilidade Bissexual,
organizada pela ILGA e pelo CDOC.
E tu, Sofia, dinamizaste vários destes eventos,
e por isso podes-me ajudar aqui a falar sobre eles.
E o primeiro evento foi logo aqui no dia 24 de setembro.
Fala-nos um pouco mais sobre ele.

[Sofia]
Começamos com uma atividade das BLX, as Bibliotecas de Lisboa,
que tê um clube de leitura LGBTI, em parceria com a ILGA,
e que este ano, em 2025, vai haver uma nova edição.
E porquê que este está aqui?
Porque o livro de setembro, por ser o mês da visibilidade Bissexual,
tinha como livro “Os Sete Maridos de Evelyn Hugo”,
que eu na altura escolhi por achar que é um livro com boa representação Bissexual.
E nessa sessão, fiquei bastante impressionada
como é que as pessoas, mesmo depois de lerem o livro,
continuam a achar que a Evelyn Hugo é lésbica
e que o livro não explicava o suficientemente bem a Bissexualidade dela,
como se as pessoas Bissexuais tivessem que provar, mais do que as outras,
qual é que é a sua orientação sexual.
Portanto, houve muita invisibilidade Bissexual nesta sessão,
mas, no dia 25 de setembro, inaugurámos a exposição,
de “Dar Visibilidade à Invisi.Bi.lidade”.
E é exatamente momentos como estes que queremos colmatar.
Nesta exposição, falámos um bocadinho sobre as pessoas que criaram o Dia da Visibilidade Bissexual,
sobre a bandeira Bi, o manifesto, entre outras pessoas Bissexuais homenageadas.
E o próximo evento, que foi no dia 26 de setembro, se calhar passa para ti, Alexandre.

[Alexandre]
Sim, no dia 26 de setembro, foi a inauguração do mural “Se é Bi, escreve aqui”.
Basicamente, era um espaço onde as pessoas podiam deixar mensagens
sobre a Bissexualidade, e de celebração da visibilidade Bissexual.
Depois, no dia 27 de setembro, tivemos a tertúlia
“Nick Nelson e a Visibilidade Bissexual em Heartstopper”,
na qual eu fui um dos dinamizadores,
e foi a primeira vez que eu dinamizei uma tertúlia sobre Bissexualidade,
e foi uma experiência bastante boa,
até porque eu gosto bastante de falar sobre Nick Nelson,
e aproveito quaisquer oportunidades que tenha para o fazer.

[Sofia]
E no mesmo dia, tivemos o Queeraoke Bi,
que tinha como subtítulo
“Come by the Pink, Purple and Blue Pony Club”,
o que me lembra outra questão.
A Chappell Roan (que não é Bissexual,
ela se identifica como lésbica,
mas que foi usada aqui como inspiração para este título),
em setembro, também teve uma performance
que, na verdade, deixou muita, muita gente a falar
sobre uma ícone Bissexual,
que é Julie…
Eu não sei dizer o nome dela,
tu se calhar sabes francês.

[Alexandre]
Julie d’Aubigny?

[Sofia]
Isso.
Que é uma ícone Bissexual que muita gente descobriu
a partir desta performance,
e eu achei que deveria referir para as pessoas também,
a irem procurar quem é que ela é.

[Alexandre]
Eu próprio desconhecia a existência dela
e fiquei bastante impressionado.

[Sofia]
Sim, é muito fixe.
Por favor, pesquisem.
E a programação terminou com um Bi Quiz
no dia 28 de setembro.
E passamos para outubro.

[Alexandre]
E em outubro, tivemos o lançamento
do primeiro episódio do nosso podcast Bialogar,
e tivemos também o lançamento
da terceira temporada da série “Heartstopper”.
Estão a ver como eu arranjei outro momento
para falar de “Heartstopper”?
E passamos então para novembro.

[Sofia]
E em novembro tivemos aqui um momento importante
na televisão portuguesa.
Não sei se viram,
eu não vi, mas depois vi a notícia
de que no programa “Passadeira Vermelha”
da SIC Caras, a 1 de novembro,
a comentadora Sara Norte
assumiu a sua Bissexualidade em pleno direto
e disse mesmo:
“Eu sou Bissexual e afirmo-o com toda a liberdade do mundo,
não é uma escolha, é o que eu sou.”
E eu acho que isto é muito importante
ter acontecido na televisão portuguesa,
porque não vemos representação Bissexual
em Portugal em muitos sítios.
Nós fomos confirmar,
e a página da Wikipédia
que nós falámos,
em episódios anteriores,
em que dizia que só havia 3 pessoas Bissexuais
em Portugal, já atualizaram,
e afinal já temos 4 pessoas Bissexuais em Portugal.

[Alexandre]
A Sara Norte juntou-se à lista, finalmente.

[Sofia]
Exatamente, nós temos que perguntar
como é que também entramos aqui nesta lista
sem termos que ser nós a editar.
Antes de passar para dezembro,
acho que também é importante referir
que em novembro,
aqui um tema mais pesado,
foram finalmente condenados os executores
do assassinato da Marielle Franco,
uma mulher Bissexual, uma ativista Bissexual
que foi assassinada,
juntamente com o motorista
que a acompanhava
e que é sempre também um ícone
a relembrar e a reforçar e a não calar.

[Alexandre]
Sim, concordo contigo
e no fundo fez-se pouca justiça
que podia ser feita neste caso.
Passando para dezembro e para momentos
mais alegres, estreou em Portugal
o filme “Wicked”,
com a atriz Bissexual Cynthia Erivo
no papel de Elphaba
e neste momento é o filme de imagem real,
com uma pessoa LGBT+
como protagonista, com a maior receita
de sempre.
E terminamos assim esta viagem por 2024
e passamos para janeiro de 2025,
que nos traz o tema central
do episódio de hoje.

[Sofia]
Exatamente, e o que é que aconteceu
em janeiro de 2025, Alexandre?

[Alexandre]
Há dois dias atrás, celebraram-se os 15 anos
da aprovação em Portugal
do casamento entre pessoas do mesmo sexo,
que foi aprovado no dia 8 de janeiro de 2010.

[Sofia]
Com 126 votos a favor,
E acho que é importante referir que foram votos
a favor do PS, PEV, PCP e BE,
e contra do CDS-PP e do PSD.
Esta aprovação só entrou em vigor
em junho e logo no primeiro dia
tivemos dois casamentos entre pessoas
do mesmo sexo. O primeiro a ser entre
as duas mulheres Helena Paixão e Teresa Pires,
que já se estavam a tentar casar
desde 2006. Portanto,
houve aqui uma luta bastante grande
até chegarmos a este momento, que nós agradecemos bastante.

[Alexandre]
E o segundo casamento
foi entre dois homens.
E por acaso, eu não sei se tu te lembras, Sofia,
dos anos que antecedem esta aprovação,
mas eu lembro-me particularmente ali
do final de 2008 e de 2009
de todo o rebuliço e debates
que havia sobre este tema
e, por exemplo, a minha escola
participava num programa de debate,
promovido por um jornal português,
que era o “Entre Palavras”,
se eu não me engano, e um dos temas
desse ano era precisamente o “casamento
entre pessoas do mesmo sexo”.
E pelo meio da discussão
do casamento também se acabava por falar
no tema da adoção, por casais
do mesmo sexo e tudo o que circundava isto.
E era… é impressionante
para mim agora, quando olho para trás,
a questão de colocarem
crianças nos seus
a debaterem sobre temas
sobre os quais, regra geral,
e especificamente este, tinham
nenhum conhecimento
ou sobre os quais não havia
muita informação fidedigna
ou que não fosse cheia de
discriminação e preconceito.
Foi nesta altura que eu
descobri a existência da ILGA
porque lá está nas pesquisas de informação que acabei por fazer
acabei por dar com artigos em que
entrevistavam pessoas da ILGA
ou que se citavam entrevistas
e precisamente foi aí que
acabei por conhecer
a ILGA. Lá está, eu acabei
por participar nestes debates e era
impressionante às vezes ouvir os argumentos
contra e, por exemplo,
eu tinha aulas de educação moral
religiosa católica e
precisamente também se falava
deste tema nessa
disciplina, e eu não me
lembro totalmente da abordagem
dessa minha professora, que era uma
católica devota. Se eu bem
me recordo, acho que ela não era contra
o casamento entre pessoas do mesmo sexo,
mas falava-se muito de
misturar a religião com este tema
e “Ah, isto é contra a “Bíblia”
e contra Deus e contra”…

[Sofia]
Por acaso, ia-te perguntar mesmo,
do que te lembras destes
debates, que tipo
de argumentos
é que se usavam?

[Alexandre]
O mais comum, era aquele bué clássico  de
“ah, isto é antinatural”
ou “agora se aprovares o casamento
entre pessoas do mesmo sexo a humanidade vai-se extinguir”,
porque de repente pelo visto devia
passar a ser obrigatório casares-te com
uma pessoa do mesmo sexo.
[Sofia]
É interessante
refletir donde é que, sei lá…
nos debates que tu referiste, em crianças que
podiam ter 12, 13, 14 anos, onde é que
elas vão buscar estas ideias, não é? Ouvem
dos adultos à volta, enfim…

[Alexandre]
No fundo era aquilo que também se falava muito na televisão
ou de muitos dos
argumentos contra que também ou se ouviam
em debate, e ainda quando estivemos aqui a pesquisar
para este tema
eu encontrei de outros países também
o que é que antecedeu à aprovação
(noutros países onde o casamento entre pessoas
do mesmo sexo também é legal)
e um dos principais argumentos é sempre este,
e especialmente vindo de grupos mais
ligados à religião
duma forma mais fundamentalista.
É sempre isto, é
“ah, isto é contra Deus” ou “é contra
a natureza” ou “é
errado”, é
sempre este tipo de argumentos que regra geral vêm,
porque não há mais nenhum tipo, não havia
mmais nenhum outro tipo de argumento.
[Exclamação] Oh! Pronto, havia um outro
que era “ah, mas já se podem…
já se podem… ter uma união
de facto”, pronto era o único fora
deste contexto.

[Sofia]
Eu por acaso não me lembro
de ter participado neste tipo
de debates, mas é assim, eu também não me lembro onde é que
eu estava em 2010. Por acaso,
lembras-te em que ano é que estavas em 2010?

[Alexandre]
No início de 2010 estava no 9.º ano

[Sofia]
No 9.º ano, portanto…

[Alexandre]
Mas quando foi este debate estava no 8.º ano, porque eles foram
durante o início de 2009

[Sofia]
Eu no 9.º ano acho que estudava em Lamego.
Não me lembro se fizemos
este tipo de debates por lá.
No… No 8.º também.
No 7.º estava num
colégio
religioso também em
Calvão, que fica no distrito de Aveiro.
Não me lembro se já se começava a falar
ou não sobre estas questões. Eu acho que só comecei
a ouvir mais sobre questões de LGBT
precisamente quando vim para Lisboa
em 2013.
[Alexandre]
Ok.

[Sofia]
E eu fiz
faculdade de Direito e havia muito
estes debates também lá
e, infelizmente,
continua a existir mesmo
nos jovens adultos muito preconceito
em debates,
ainda por cima entre estudantes de Direito
que deviam zelar mais pela justiça
deste país. Por exemplo, eu nunca
tinha ouvido falar sobre ILGA
antes de vir para Lisboa.
E eu acho que assim,
a única coisa
que me fez chegar mais na realidade
do casamento entre pessoas do mesmo sexo foi na verdade
séries de TV, aquele casamento
que… Não sei se viste “Friends”?

[Alexandre]
Eu conheço “Friends”, porque a minha mãe
adora a série, mas não posso dizer
que tenha assistido à série

[Sofia]
Há um episódio em que vimos um casamento
entre duas mulheres, já não lembro
em que ano é que foi, mas eu creio que ainda não
tinha sido aprovado o casamento
em país nenhum nessa altura. Já havia
uniões de facto em alguns países,
mas não havia aprovação,
portanto eu creio que o primeiro país
a aprovar foram os Países Baixos em 2001,
portanto eu acho que este episódio
foi antes
desse ano.
Em que duas
das personagens, duas mulheres
lésbicas,
se casaram nessa série e
para mim aquilo foi um episódio
bastante especial e bastante surpreendente.
E vimos o tempo que demorou
entre este episódio e a ser aprovado em Portugal.

[Alexandre]
Sim, e já desde o final
dos anos 80 que vários países
tinham uniões de facto,
ou registos legais
similares, para pessoas do mesmo sexo
e falaste do ano
a aprovar as uniões de facto.

[Sofia]
Exatamente

[Alexandre]
Portanto, vê-se aqui o tempo que ainda demora de uma coisa para a outra.
Ainda sobre
os debates, era precisamente
esta questão: os argumentos que não fazem
sentido e ao mesmo tempo haver
muitas reações homofóbicas,
muitos insultos homofóbicos,
porque depois malta que se
posicionava muito a favor…
Por exemplo, eu claramente posicionei-me a favor
e irritava-me completamente haver
malta contra. E eu na altura não sabia
explicar totalmente o porquê que isso me irritava
tanto. Hoje obviamente que percebo.
E precisamente,
também isso contribuiu para algum
bullying homofóbico à minha parte, por exemplo.

[Sofia]
Sim, é horrível
pôr qualquer pessoa,
mas principalmente uma criança,
um adolescente,
nesta posição,
[Alexandre]
Sim.

[Sofia]
em que tem que defender a sua própria existência
quase. Em que tem que defender os seus próprios direitos.

[Alexandre]
Sim. E eu lembro-me que, por exemplo,
quando foi um dos últimos debates.
Porque obviamente aquilo, imagina:
era feito dentro da mesma turma,
para escolher as pessoas que iam
debater, e depois era feito entre várias turmas
até escolher pessoas para representar a escola,
para competirem nos debates com outras escolas.

[Sofia]
Ainda por cima?!
[Alexandre]
Pronto, exato.
E então o que é que acontece?
Eu lembro-me perfeitamente disto, porque neste tema
eu e uns colegas que estavam,
éramos para estar a debater a favor,
só que depois houve
pessoas que iam para estar a debater contra
na nossa, entre aspas, “eliminatória”
que faltaram.
E então tentaram arranjar pessoas,
e então pegaram em mim
e no outro colega meu
e puseram-nos a debater no lado do contra.
E, basicamente,
tinhas tipo acho que era mais
três
rapazes connosco no contra
e, basicamente,
aquilo começa, eles os três falam
e nós os dois completamente calados
De repente, uma das moderadoras
tipo tenta dizer alguma coisa
para nós falarmos
e eu fiquei tipo
“o que é que eu vou dizer?
Eu não consigo estar a dizer
que sou contra uma coisa
da qual eu sou a favor”. Tipo…

[Sofia]
Não, é mesmo horrível.

[Alexandre]
Foi um momento super estranho,
porque na altura eu não sabia explicar
mas aquilo era maior do que eu, percebes?
Não era tipo “ah, eu
agora vou conseguir fingir… fazer que sou contra,
porque isto é uma questão de debate”.
Não, eu não consigo!

[Sofia]
Nem seque devia ser uma questão de debate…

[Alexandre]
Sim, não é! Não é… Não devia ser uma questão de debate.
E foi, para mim, foi tipo
eu não consegui… E basicamente eu só, tipo,
virei-me e repeti o mesmo argumento
que todos os outros estavam a dizer
tipo “ah, isto não é uma cena normal”.
Então e porque é que não é uma cena normal? [questão que foi feita pela moderadora/parte a favor]
Olhe menina, não sei… [Ironia/tom cómico]

[Sofia num tom cómico]
É o que você está a dizer professora, é o que você diz.

[Alexandre]
Olha menina, não sei… [Ironia/tom cómico]
Foi o que me apeteceu dizer [em resposta à moderadora].
Fogo! Eu sei lá…
Até que… Eu já não me lembro
se o debate continuou
ou se eu tipo agarrei e me levantei e me fui embora.
Tipo, não me lembro.
Sei que foi bué de estúpido
e no final eu fui ter com a minha professora de português
e disse-lhe tipo “ah, isto correu super mal,
porque aconteceu isto, isto e isto,
e tipo, eu não posso estar a debater contra
numa cena em que eu sou claramente a favor”.
E bati mesmo o pé.
E tipo hoje, mais tarde, eu percebo o porquê, né?
Porque obviamente era uma cena que me afetava
e tipo…
Se bem que eu na altura não pensava
na situação de um dia me vir querer a casar com um homem,
mas…
liga-se com a minha Bissexualidade.
E obviamente afetava-me… Afetava-me
e incomodava-me bastante
[Sofia]
Claro, as pessoas…
tipo isto ter objeto de debate com argumentos
completamente…

[Sofia]
Claro, as pessoas sentem-se naturalmente
atacadas e às vezes sem ainda
saberem o porquê
desde muito cedo, até às vezes desde criança,
que uma pessoa quando ouve algum ataque
homofóbico
fica logo na defensiva.

[Alexandre]
Sim, sim.
Isto lembra-me quando tu falaste no nosso primeiro episódio
sobre a situação daquele chat,
tipo…
…e como aquilo te incomodou, não é?

[Sofia]
Ah, sim!

[Alexandre]
E lembra-me bastante este incómodo.
Quando começámos a planear este episódio
e que eu comecei a refletir sobre este tema
e a lembrar-me destas memórias,
lembrei-me “ya, isto chateava-me bué”.
[Sofia]
Claro.

[Alexandre]
Tipo, só isto ser um debate,
porque precisamente eu achava que não fazia sentido
debater sobre isto, era uma cena tipo:
as pessoas deviam ter o direito
de amar quem quisessem e casar-se com quem quisessem.

[Sofia]
Imagina, eu nem sequer é que te consigo dizer
com certeza se estes debates
não ocorreram
na escola onde eu estava
ou simplesmente eu é que os removi da minha memória,
porque certamente se tivessem acontecido…
[Alexandre]
Eu sei que isto não acontecia em muitas escolas.

[Sofia]
eu não queria ter essa memória comigo.
Porque do género, eu já debati
sobre… em posições, não é?
em partes, sobre coisas em que eu era contra
mas que tinha a apresentar
argumentos a favor e é perfeitamente possível,
mas não quando é algo que vai contra
a nossa própria identidade, 
[Alexandre]
Sim. 
[Sofia]
que vai contra
direitos humanos, isto nem sequer devia ser
debatido, mas pronto…

[Alexandre]
Sim, e depois também
juntamente com isto falavam sobre a adoção
e aqueles argumentos absurdos
de “ah, as crianças precisam
de ter que ter um pai e uma mãe
para crescerem bem”
e é tipo: pá, não, há imensos exemplos
que provam o contrário e exemplos de famílias
monoparentais e de famílias
de casais
do mesmo sexo que provam
literalmente o contrário deste argumento.
Ou aquela questão de “ah
se os casais de pessoas do mesmo sexo
adotarem crianças eles vão
influenciá-las a serem
homossexuais” como se isto fizesse qualquer sentido.

[Sofia]
Eu referi
que me lembrava de alguns debates
por exemplo na faculdade
e os argumentos não mudam de um sítio para o outro,
era a mesma coisa.
Eu lembro-me, por exemplo,
de uma colega minha usar um argumento
“ah, porque a sociedade não aceita”.
E como é que?… sei lá…
No âmbito ainda de uma faculdade de direito,
como é que uma pessoa de direito diz
que um argumento é “a sociedade não aceita”? Se nós não fossemos
fazer as coisas porque a sociedade não aceita,
ela nem sequer estava ali a debater naquela sala de aulas,
porque as mulheres não podiam ir à faculdade,
porque as mulheres não podiam falar, etc, etc…

[Alexandre]
sim sim sim.

[Sofia]
E… Enfim…

[Alexandre]
Aliás, se fossemos pela “sociedade não aceita”,
nós nem evoluíamos enquanto sociedade.
[Sofia]
Lá está!

[Alexandre]
E, basicamente,
é isto que eu me lembro.
Depois lembro-me de
ser finalmente aprovado…
E, por exemplo,
lembro-me também
ainda há bem pouco tempo a minha irmã falou sobre isto
(porque isto é uma das poucas coisas da infância dela
que ela se lembra muito bem)
que era precisamente sobre esta questão
do casamento
e agora não sei dizer se foi antes de ser aprovado
se foi depois de ser aprovado,
a única coisa que eu sei é que a minha irmã estava na escola primária
e eu era um adolescente
e basicamente
o meu pai
estar meio que…
Ou seja o meu pai não era
nem é contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo,
mas era tentar fazer uma analogia
de como de certa forma
era “antinatural”
(na época,
o meu pai felizmente já mudou a forma de ver as coisas).

[Sofia]
Já evoluiu.
[Alexandre]
Já evoluiu.
Mas na altura era explicar isto
com aquela analogia
que muitas vezes surge nestes argumentos
que é o das “fichas e das tomadas”
e que tu não consegues ligar uma tomada com uma tomada
e uma ficha com uma ficha
tem que ser uma ficha com uma tomada.
[Sofia]
Enfim…

[Alexandre]
E é tipo eu acho que não tem uma coisa a ver com a outra.
Portanto este tipo de argumentos
que não fazem qualquer sentido.
já que estamos a falar de casamento,
é importante referir efetivamente
o primeiro país que aprovou, por via parlamentar,
o casamento entre pessoas do mesmo sexo
foi os Países Baixos no ano 2000,
que entrou em efetividade em Abril de 2001.
Depois
temos também o primeiro país
que aprova por referendo
é a Irlanda,
e eu não concordo com esta questão
de se referendar a direitos humanos,
mas é interessante porque o referendo
na Irlanda 62% das pessoas votaram
para que se alterasse efetivamente
a constituição
e passasse a constar o texto na constituição
é que o casamento pode ser contraído
por duas pessoas sem distinção de sexo.
Juntamente
com Portugal (não é só Portugal
que celebra esta conquista em janeiro),
em janeiro de 2009
(no ano anterior) foi a Noruega
a aprovar o casamento entre pessoas do mesmo sexo.
Também no ano de 2010,
a Islândia aprovou,
sem quaisquer votos
contra, o casamento entre pessoas do mesmo sexo.
Temos também em janeiro de 2015
o Luxemburgo, janeiro de 2019
a Áustria,
janeiro de 2024
(há um ano atrás) a Estónia, entrou em vigor
o casamento entre pessoas do mesmo sexo.
Em fevereiro [de 2024] a Grécia aprovou finalmente
o casamento entre pessoas do mesmo sexo,
foi o primeiro país cristão ortodoxo a fazê-lo.
E temos também a notícia,
para começar bem o ano,
agora em janeiro de 2025 entrou em vigor
no Liechtenstein
o casamento entre pessoas do mesmo sexo.
Também ainda no mês de janeiro
vai entrar em vigor o casamento entre pessoas
do mesmo sexo na Tailândia,
país que em junho já tinha aprovado
esta medida que foi promulgada
pelo rei em setembro de 2024.

[Sofia]
Portanto, nós escolhemos o tema
do casamento como tema central
do nosso episódio
por motivos óbvios
como também já fomos falando,
mas como é que conjugamos então
o tema do casamento
com a bissexualidade?
E isto fez-me lembrar logo de um filme
que se chama “A New York Christmas Wedding” [PT: “Um Casamento de Natal”],
que tem uma protagonista
bissexual
que se casa.
Portanto achei que
seria um bom tema
e um bom filme para trazer também
para este episódio

[Alexandre]
E casa-se com uma mulher?

[Sofia]
Neste… O filme
tem aqui uma particularidade interessante
porque tem duas
linhas temporais alternativas.

[Alexandre]
Duas realidades paralelas?
[Sofia]
Sim.
[Alexandre]
Ok.

[Sofia]
E aliás…
Sim, duas realidades paralelas
alternativas
e para quem não quiser spoilers
pode pausar o episódio, ir ver o filme e depois voltar.
[Alexandre]
Exato.

[Sofia]
Mas espero que tu não te importes
com spoilers, Alexandre,
porque eu ia aproveitar para te contar um bocadinho
[Alexandre]
Sim.

[Sofia]
e para ir vendo também qual é a tua opinião…

[Alexandre]
Eu depois hei de ver, apesar do Natal já ter passado.

[Sofia]
Sim. Portanto
nós começamos
o filme
a ver a relação que ela tem com um homem,
está a noiva.
[Alexandre]
Ok.

[Sofia]
E…
E estão
nos preparativos para o casamento,
portanto.
Entretanto ela encontra
uma espécie de anjo…
Portanto, estás a ver aqueles filmes de Natal com anjos?
[Alexandre]
Sim.

[Sofia]
Ela encontra uma espécie de anjo,
que a leva
para outra linha,
para outra realidade alternativa
de como é que a vida dela
estaria naquele momento,
se ela não tivesse
negado os seus sentimentos
por uma amiga de quem ela estava apaixonada na altura
e etc, etc…
Portanto estás a ver mais ou menos
para onde é que o filme vai.
Nesta primeira
linha temporal,
ela tem lá uns estresses
com a sogra, quer que o casamento dela
seja no Natal, dela e do filho
seja no Natal,
e ela não gosta da época
natalícia porque foi a época em que perdeu
o pai.
[Alexandre]
Ok.

[Sofia]
E…
E não sei se também foi a época em que
esta amiga dela,
que vamos ver na outra linha temporal,
também acabou por falecer.
Portanto ela tinha perdido muita gente,
muita gente à volta do Natal.
[Alexandre]
Compreensível.

[Sofia]
Já não tinha a família dela,
não queria um casamento no Natal
e o anjo está do género
vamos lá ver então se não gostavas de um casamento
no Natal se não tivesse
acontecido tal e tal e tal.
[Alexandre]
Ok.

[Sofia]
E nós somos transportados para outra linha paralela.
Em que, nesta linha paralela,
ela acorda como se estivesse no mesmo dia,
mas
noiva
da tal amiga.
Portanto estás a ver uma pessoa acordar:
“o que é que se está aqui a passar?”
“Como é que eu vim parar aqui?
Ainda por cima esta pessoa devia já ter falecido
e está aqui à minha frente.
O que é que se está aqui a passar?”.
E vemos um bocadinho
essa história contada,
de como ela estava apaixonada,
mas
a amiga na altura
não lhe retribuiu os sentimentos.
Depois ela chateou-se numa discussão
e acabaram por nunca mais falar.
E, no fundo,
o anjo queria que…
que ela refletisse sobre isso,
sobre a própria reação
que ela teve nessa discussão
e de com ou reação como é que…

[Alexandre]
Como é que a história se teria desenrolado?

[Sofia]
como é que a história se teria desenrolado…
E nós vemos aqui
que elas estão noivas
e que se estão a tentar casar
na mesma igreja em que foram batizadas,
portanto estamos a falar de um filme religioso.
É um filme LGBT Queer religioso
e em que elas se querem casar pela igreja.
Naquela igreja delas não é permitido,
mas estão a tentar conversar com o padre
para ver se oficia na mesma o casamento delas,
porque noutras igrejas
alguns padres oficiavam alguns casamentos,
noutras igrejas dos Estados Unidos,
que ste filme passa-se nos Estados Unidos.

[Alexandre]
Sim, e não é caso único.
Também sei que na Escócia
há uma igreja de matriz católica protestante
que celebra casamentos entre pessoas do mesmo sexo.

[Sofia]
Exatamente
e haviam lá várias igrejas
que a delas também o fizessem
e lutaram por isso.
Nós vamos acompanhando esta história,
eu achei interessante trazer este tema
também para o debate
e nós acabámos já por falar um bocadinho da religião
e de como a própria religião
pode ensinar pessoas a terem argumentos
preconceituosos,
mas a verdade é que também
podem existir ensinamentos religiosos
contra o preconceito,
contra as desigualdades
e até na luta
para ajudar as pessoas mais desfavorecidas
noutras situações sociais
que existem.
E nós temos inclusive as pessoas LGBT
que são religiosas.

[Alexandre]
Sim, até porque nem todas as religiões
se apresentam contra,
contra as pessoas LGBT.
Há várias religiões
noutras regiões do mundo
que sempre foram
acolhedoras das pessoas LGBT
e que não discriminavam contra,
sem estar a falar nas maiores religiões,
obviamente.

[Sofia]
E mesmo nas religiões em que há pessoas
que se apresentam contra,
também há pessoas que se apresentam a favor.
[Alexandre]
Exato.

[Sofia]
Portanto a mesma religião
também pode ser exercida de forma diferente
por diferentes pessoas.
[Alexandre]
Exato.

[Sofia]
E pode efetivamente
não ser auto-exclusivo.
Eu falo
sem ser uma pessoa religiosa,
portanto eu não sei que argumentos
uma pessoa LGBT usaria
para explicar o porquê de ser uma pessoa religiosa
e até seria interessante ter essa conversa,
eventualmente num outro episódio, mas
não é só a conversa que vamos ter aqui.
Para mim foi… Este filme teve muitos
mixed feelings [sentimentos mistos],
porque por um lado,
daquilo que tenho ouvido da religião,
afastei-me,
porque era bastante homofóbico,
bifóbico, transfóbico, etc…
Mas por outro lado,
também achei importante
retratar esta realidade
e estas pessoas LGBT religiosas,
que querem casar-se nas suas igrejas
e estarem a lutar por isso.

[Alexandre]
Sim, até porque no fundo
a nossa sexualidade
ou a nossa identidade de género
não têm que…
Ou seja
a nossa fé não tem que mudar
por nós sermos quem somos,
e obviamente a religião
é muito mais do que
os livros que a suportam
ou as tentativas de regras
que existam nessa religião.
A religião no fundo baseia-se na fé
e a fé das pessoas não tem necessariamente que mudar,
obviamente pode haver alterações
na forma como exprimem a sua fé.
Dentro de uma mesma religião,
várias pessoas vivem a sua fé e a sua religião
de forma diferente.
Eu também falo, não sendo religioso,
apesar de eu ter tido aulas de educação moral
religiosa católica
e ter sido criado numa família católica.
Não sou batizado,
porque os meus pais decidiram
que isso seria uma escolha que eu deveria fazer,
a escolha da minha religião e da minha fé,
e eu decidi não ter nenhuma religião. Portanto… [risos]
Mas percebo aquilo que queres dizer,
ao mesmo tempo também percebo que,
lá está… Eu conheço pessoas LGBT
que são religiosas
e a questão é que,
lá está, o facto de serem
pessoas da comunidade não as impede de terem uma fé,
obviamente não a exercem da mesma maneira
que se calhar outras pessoas…
Por exemplo, eu conheço pessoas LGBT que são católicas
e que não vêem a bíblia ou a igreja católica
se calhar da mesma maneira que alguns fundamentalistas
religiosos católicos,
porque nem todos os católicos são contra pessoas LGBT
ou contra o casamento de pessoas LGBT
ou contra o acolhimento de pessoas LGBT
na igreja católica,
mas certamente vêem-no de maneira diferente
do que aquelas pessoas que são claramente contra
e que são homofóbicas
e bifóbicas, transfóbicas,
entre outras
LGBTfobias.

[Sofia]
Sim, lá está, eu sou completamente
a favor da liberdade religiosa
e de que as pessoas exerçam a sua fé,
desde que, lá está,
não entre…

[Alexandre]
Não comprometa os direitos humanos. Os direitos doutras pessoas.

[Sofia]
Sim, lá está
desde que não seja a religião
usada como argumento para
atacar pessoas,
seja por serem LGBT,
seja por outro motivo qualquer.
[Alexandre]
Sim.

[Sofia]
Até porque eu acho que isso vai
contra os princípios de qualquer religião,
se as pessoas aplicassem
efetivamente o amar o próximo,
etc, etc…

[Alexandre]
Sim, até porque muitas religiões falam,
daquilo que eu tenho conhecimento,
é que tu só és responsável
por ti próprio,
as outras pessoas,
especialmente se não forem da tua religião
é tipo tu não tens nada que julgar sobre a vida delas
ou decidir sobre a vida delas.

[Sofia]
Mas antes de retomar a questão do filme,
queria ainda
comentar que,
ok, é possível
conjugar, mas
não podemos nos esquecer que
a religião também
tem sido muito usada para atacar,
inclusive com terapias de conversão
e etc, e é preciso
que as pessoas também tenham
o apoio
de alguém que lhes diga que, ok,
tu podes sair da tua religião,
se precisares disso.
[Alexandre]
Sim.

[Sofia]
E não tens que mudar quem és,
não tens que te converter,
entre aspas,
muitas aspas,
só porque dizem que a religião
não aceita, porque se Deus
existir certamente que não vai punir
ninguém por simplesmente
ser como nasceu.

[Alexandre]
Sim, e no fundo tu podes abandonar
a religião enquanto
instituição, mas não tens que abandonar
a tua fé.

[Sofia]
Exatamente. Voltando ao filme,
portanto,
nestas duas realidades paralelas
ela depois no final
tem a possibilidade de escolher
em qual delas quer permanecer.
Eu esta parte não sei se foi assim
tão bem feita.
[Alexandre]
Ok.

[Sofia]
E mais na parte até da
representação Bissexual dela.
É referido, ok.
Ela…
Eu gostei de que inicialmente
ela só tinha 48 horas
naquela realidade e depois voltava para
original. E quando voltou para
original e lembrou-se destas questões todas,
fez questão de ir visitar
essa tal igreja onde foi batizada com
o noivo e de lhe contar
que tinha sido
naquela zona em que viveu
e que tinha conhecido o seu primeiro amor que era uma mulher.
Portanto ela conta ao noivo que é
Bissexual, aqui neste momento,
e eu gostei dessa
parte do filme. Só que
depois parece que obrigam
o personagem a escolher entre um homem e uma mulher,
quando obrigam o personagem
a escolher entre uma realidade e outra.
E não é esse o objetivo
na verdade, porque
as escolhas que ela tem que fazer
entre uma realidade em que já não tem
o pai, já não tem a amiga
que faleceu e etc, e uma realidade em que pode
também trazer estas pessoas à vida.
E que se calhar há pessoas que
só vão focar ali: escolheu a mulher em vez do
homem, etc, e não me parece que seja essa a mensagem
que o filme queira passar.

[Alexandre]
Sim, no fundo a mensagem que se calhar
o filme queria passar é que ela escolheu aceitar-se
a ela própria.
[Sofia]
Exatamente.

[Alexandre]
E escolhendo
aceitar-se ela própria, obviamente
toda a realidade da vida dela muda,
não é?
[Sofia]
Exatamente.

[Alexandre]
Era a mesma coisa,
se eu já tivesse
aceite a minha bissexualidade há mais anos
atrás, se calhar a história com o primeiro homem
com que me apaixonei teria sido completamente
diferente.

[Sofia]
Exatamente. E houve… As pessoas LGBT,
que se tenham aceite mais tarde na sua vida,
certamente que perderam várias oportunidades
de se realizar,
de se relacionar com pessoas das quais
fugiram, precisamente por não se aceitarem.

[Alexandre]
Eu falava disso com a minha irmã no outro dia,
que enquanto eu não aceitava
a minha bissexualidade e não estava
a refletir sobre isso, isso afetava
obviamente uma parte de mim,
porque eu tinha que
ocultar e fingir que não gostava de,
por exemplo de homens,
mas afetava os relacionamentos que eu tive
com mulheres, porque havia toda
uma enorme pressão
para ter esses
relacionamentos, vá.
E ao mesmo tempo aquelas questões,
que até nós já falámos, que é tipo:
“ah, mas será que eu estou a fingir que gosto de mulheres?”,
“será que eu não gosto e estou só a fingir
para ocultar que gosto de homens?”, mas ou mesmo tempo:
“mas será que eu também estou a fingir
que gosto de homens?”.

[Sofia]
Olha, eu identifico-me bastante com essa questão
e sinto mesmo
que até ter
aceite a minha
Bissexualidade, fugia muito
de me relacionar com pessoas, fosse de que género fossem.

[Alexandre]
Completamente, eu
tenho muito essa
memória também.
E depois mexe com tudo.
A aceitação da minha bissexualidade
não mexeu só com esta questão,
eu falava há pouco tempo com a minha psicóloga,
eu há muitas coisas que
eu não senti tanta
liberdade para fazer antes e que hoje em dia faço
e uma delas é, por exemplo, dançar em festas,
dançar em público.
E deixei,
já há uns anos atrás eu não me importava
muito com isso, mas hoje em dia então importo-me
ainda muito menos com o que é que as pessoas acham
de mim ou pensam de mim.
Senti uma liberdade muito maior, lá está,
para ser quem eu sou
[Sofia]
É efetivamente…

[Alexandre]
e isso aplica-se a todas as áreas da minha vida.

[Sofia]
É efetivamente libertador
[Alexandre]
Ya.

[Sofia]
quando nos aceitamos.

[Alexandre]
Claro, se isso tivesse acontecido
há mais tempo atrás,
se calhar a minha adolescência teria sido muito diferente, não é?
Podia ter vivido muito mais romances
de adolescente, quer com
raparigas, quer com rapazes.
Se calhar a história com o primeiro homem com que me apaixonei,
e que quase nos beijámos,
se calhar teria sido muito diferente, se calhar tínhamos
beijado mesmo, não sei.
[Sofia]
Exatamente.

[Alexandre]
Portanto havia
muito mais coisas que podiam ter acontecido, mas…

[Sofia]
Bem, mas lá está,
nós não podemos ir para realidades… paralelas…

[Alexandre]
Alternativas, não me vai aparecer aqui um anjo. [risos]

[Sofia]
… como no filme
e infelizmente esta é
uma das consequências
da homofobia e bifobias.
É haver sempre
aquele “E se? E se? E se?”,
que às vezes nos fica daquilo que
perdemos.
[Alexandre]
Sim…

[Sofia]
Voltando um bocadinho ao filme,
acho que também não há assim
muito mais para dizer sobre
o plot [enredo] em si.
Obviamente que há mais no filme e convido as pessoas a ver.
Vale a pena ver, nem que seja
para ver um filme
onde há uma mulher bissexual que se casa.

[Alexandre]
Exato
e que se casa com uma mulher.

[Sofia]
Neste caso que se casa com uma mulher,
mas acaba por não ser
propriamente essa relevância.
Mas gostava também de comentar que não gostei
muito da maneira como
retrataram o próprio noivo.
Parece que para justificar ela ter “escolhido”
uma mulher
usaram um noivo assim mais distante,
que não a apoiava tanto quando…

[Alexandre]
Quando ela precisava?

[Sofia]
Por exemplo,
acontece muito isto
em relações em que
existem conflitos entre
uma das pessoas
e a sogra ou o sogro.
Se existe algum conflito, eu
espero que a pessoa que está comigo intervenha, não é?
E não que tenha que ser eu
a ter que me expor a criticar
a minha sogra ou o meu sogro
que me está a atacar naquele momento.
E é uma coisa que não acontece
neste filme, portanto tens uma personagem
que é a mãe do noivo
que quer controlar o casamento todo
e ela fica ali um bocadinho
desamparada, porque…

[Alexandre]
Até pode dar a ideia que ela escolheu a outra realidade
para fugir a essa situação de
conflito e…

[Sofia]
A questão é que eles
os dois nem tinham muitos conflitos,
mas pois claro que isto gerou um conflito
e claro que ela também não gostou de não ter aquele apoio.
[Alexandre]
Sim

[Sofia]
Portanto pode, efetivamente,
ser apontada como uma das razões.

[Alexandre]
Sim. Lança muitas outras questões.

[Sofia]
Lá está, lança muitas outras questões,
como se não pudessem haver bons
exemplos de uma mulher
Bissexual que tem um
namorado e que uma mulher bissexual para ser
validada tem que acabar

[Alexandre]
Com uma mulher.
[Sofia]
com uma mulher.
[Alexandre]
Sim.

[Sofia]
Isto falou em validação dentro da
comunidade LGBT, porque
obviamente se formos falar em validação
na sociedade em geral
a sociedade vê uma relação com o homem
como mais válida, do que uma relação
com uma mulher, mas isto não significa
que valida a Bissexualidade,
porque está a invalidar a Bissexualidade
quando diz “ok tu agora é que és
boa porque estás numa relação com o homem
e a seguir já não és”.
E isto é uma visão que a própria comunidade Bissexual
também quer combater.
Até porque se estão a validar uma relação
em que eu estou com o homem
sem validarem a minha Bissexualidade,
não me estão a validar a mim.
E qualquer pessoa que se sinta
invalidada não é uma pessoa feliz,
portanto a comunidade Bissexual luta
contra todas as formas de invalidação
e a sua própria luta conjuga-se com
as restantes
identidades da comunidade LGBT.

[Alexandre]
Concordo totalmente com aquilo que disseste
e sei perfeitamente como é que te sentes
e precisamente para contribuir
para essa luta é que também criámos aqui o nosso
podcast e este espaço,
para falar, e este é um
tema que vai certamente
continuar para próximos episódios.
O de hoje fica por aqui.
Deixar só aqui uma nota,
no episódio anterior,
eu referi que iríamos ter nas descrições
no youtube e no spotify os links
para as páginas da Pilar. Devido a um erro
isso não estava disponível,
neste momento já está corrigido.
Os nossos episódios saem na 2.ª sexta-feira
de cada mês.
O próximo é no dia 14 de fevereiro.
Até à próxima

[Sofia e Alexandre]
Venham Bialogar connosco.

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