#2 – Referências Bissexuais

Segundo episódio do podcast Bialogar, em que falamos das nossas referências Bissexuais, da importância da visibilidade Bissexual e de como as mesmas podem influenciar a saúde mental.
Vem Bialogar connosco! 💗💜💙

Publicação: 08/11/2024 | Duração: 27min 45s | Produção: 26h | Legendas: no YouTube
Avisos: Contém menções de saúde mental, nomeadamente sobre burnout (esgotamento).
Contém breves menções de homofobia, bifobia e bullying.

Não houve pessoas convidadas neste episódio.

Personalidades

  • Brenda Howard: Foi uma ativista Bissexual e Feminista Estadunidense
  • Michael Page: Ativista Bissexual Estadunidense, criador da bandeira Bissexual e co-criador do Manifesto Bissexual
  • Wendy Curry: Ativista Bissexual Estadunidense e co-criadora do Manifesto Bissexual
  • Gigi Wilbur: Pessoa escritora e Ativista Bissexual e Intersexo Estadunidense e co-criadore do Manifesto Bissexual
  • Blaya: Cantora, compositora e dançarina Bissexual Luso-Brasileira
  • Halsey: Cantora, compositora e poetisa Bissexual Estadunidense
  • Ana Carolina: Cantora e compositora Bissexual Brasileira
  • Beth McCarthy: Cantora e compositora Bissexual Estadunidense
  • Alexandre O Grande: homem Bissexual e antigo rei da Macedónia
  • Miley Cyrus: Cantora, compositora, atriz e produtora Bissexual/Pansexual Estadunidense
  • Billie Joe Armstrong: Cantor, compositor, ator e multi-instrumentalista Bissexual Estadunidense, mais conhecido por ser vocalista e guitarrista da banda Green Day
  • Madonna: Cantora, compositora, produtora, atriz, escritora, dançarina e empresaria Bissexual Estadunidense
  • Lady Gaga: Cantora, compositora e atriz Bissexual Estadunidense
  • Jason Mraz: Cantor e compositor Bissexual Estadunidense
  • Freddie Mercury: Foi um cantor, pianista e compositor Bissexual Britânico
  • Safo: Foi uma poetisa Bissexual Grega, conhecida pelas suas poesias sáficas.
  • Marielle Franco: Foi uma socióloga, ativista e política Bissexual Brasileira
  • Oscar Wilde: Foi um escritor e poeta Bissexual Irlandês
  • Virginia Woolf: Foi uma escritora, ensaísta e editora Bissexual Britânica
  • Sara Tavares: Foi uma cantora e compositora Bissexual Portuguesa, de ascendência Cabo-Verdiana
  • David Bowie: Foi um cantor, compositor, ator e produtor Bissexual Britânico.
  • Ludmilla: Cantora e compositora Bissexual Brasileira
  • Kristen Stewart: Atriz, diretora e guionista Bissexual Estadunidense
  • Cardi B: Rapper, compositora e atriz Bissexual Estadunidense
  • Angelina Jolie: Atriz, cineasta e ativista humanitária Bissexual Estadunidense
  • Frank Ocean: Cantor e compositor Bissexual Estadunidense
  • James Baldwin: Foi um romancista, ensaísta, dramaturgo, poeta e crítico social Bissexual Estadunidense

 

Personagens

  • Nick Nelson: Rapaz Bissexual da série “Heartstopper” e dos Livros de “Heartstopper”, de Alice Oseman
  • Korra: Rapariga Bissexual da série “The Legend of Korra” (PT: A Lenda de Korra) e da banda desenhada “The Legend of Korra” (PT: A Lenda de Korra) de Michael Dante DiMartino e Bryan Konietzko
  • Petra: Mulher Bissexual da série “Jane the Virgin”
  • Waverly: Mulher Pansexual da série “Wynonna Earp”
  • Adam: Rapaz Bissexual da série “Sex Education”

 

Livros

  • “Heartstopper”, de Alice Oseman
  • “The Legend of Korra” (PT: “A Lenda de Korra”), de Michael Dante DiMartino e Bryan Konietzko
  • “Os Sete Maridos de Evelyn Hugo”, de Taylor Jenkins Reid

 

Filmes e Séries

  • Heartstopper”
  • “The Legend of Korra” (PT: “A Lenda de Korra”)
  • “Jane the Virgin”
  • “Wynonna Earp”
  • “Sex Education”
  • “Vermelho, Branco e Sangue e Azul”

 

Eventos e Datas

  • 1.ª Marcha do Orgulho (28/06/1970)
  • Dia da Visibilidade Bissexual: 23 de Setembro

(em edição)

[Alexandre] Alô, alô! Sejam bem-vindes ao 2.º episódio do podcast Bialogar.

[Sofia] Obrigada por virem Bialogar connosco. O meu nome é Sofia.

[Alexandre] Eu sou o Alexandre.

[Sofia] E o episódio de hoje será sobre as referências Bissexuais.
Ou seja, aquelas pessoas Bissexuais que conhecemos na nossa vida ou nos media,
que nos ajudaram a descobrir e a aceitar a nossa própria orientação sexual
e a termos alguém com quem nos identificássemos, no fundo,
e pessoas que simplesmente nos inspirem.

[Alexandre] Mas antes de seguirmos para as nossas referências,
deixar também um grande agradecimento a todas as pessoas que ouviram o nosso 1.º episódio
e que, quer através dos comentários, quer através de forma privada,
nos enviaram o seu feedback [retorno/opinião] e aquilo que gostaram imenso,
e perceber que impactámos positivamente várias pessoas
e que recebemos um enorme carinho de várias pessoas que nos ouviram.
Muito obrigado por estarem desse lado.
É realmente isso que nós queremos fazer com este podcast,
é criar esta pequena comunidade.
E partimos então agora
para eu te perguntar, Sofia, quais são as tuas referências Bissexuais?

[Sofia] Antes de começar a responder, também gostava de dizer que
nós criámos este podcast também para servir como referência
porque tínhamos necessidade destas referências.

[Alexandre] É verdade.

[Sofia] E é por isso que queremos falar das referências que nós temos,
se são assim tantas, se não são, e porque é que não existem mais.
E eu vou começar pelas minhas referências que
só começaram a surgir para mim por volta de 2018,
apesar de eu já me identificar enquanto Bissexual desde 2012 ou 2013.
Portanto, neste período, eu praticamente não tinha nenhuma referência Bissexual
com quem me pudesse identificar.
E vou começar por quem?
Pelas minhas referências no próprio ativismo.
Vou começar pela Brenda Howard,
que para quem não sabe é conhecida como a “Mãe do Orgulho”,
porque esteve na organização da primeira marcha do orgulho.
É uma mulher super ativista pelos direitos LGBT,
pelos direitos Bissexuais
(em particular), pela liberdade sexual no geral.

[Alexandre] Pelo próprio feminismo, até.

[Sofia] Sim, sim, pelo feminismo.
Eu estava a ver se me lembrava de mais coisas,
porque eu fiz um pequeno texto sobre ela para a exposição,
que estivemos a falar no episódio anterior,
e estava a tentar lembrar-me de mais coisas que tenha escrito,
mas não me estou a recordar.
Mas, no fundo, continua a ser uma referência para mim,
porque era uma mulher de coragem.
Era uma mulher que levava tudo à frente.
Há frases sobre ela que dizem:
se tu querias
marcar uma manifestação, seja pelo que fosse,
ligavas à Brenda e ela dizia-te o dia e a hora,
e a manifestação acontecia.
Coisas assim deste género.

[Alexandre] Damn.

[Sofia] E é uma pessoa que se identificava publicamente como Bissexual.
Outras referências que eu tenho…
Eu vou muito também para o ativismo,
para os criadores da própria bandeira,
(o Michael Page),
para os criadores do dia da Bissexualidade
(Michael Page, Wendy Curry e Gigi Wilbur),
que também já falámos no episódio anterior.
Não tinha nenhuma referência portuguesa.
Hoje em dia, pronto, já sei que a Blaya é Bissexual.
Eu gosto da música dela, mas também não sei muito
sobre a vida dela.
Não tenho pesquisado,
porque na altura em que eu precisava de referências
ainda não conhecia.

[Alexandre] Ok.

[Sofia] E então, hoje em dia, como já não preciso tanto
como na altura e como já tive outras,
acabei por não seguir tanto.
Mesmo agora, sei lá,
a personagem que eu acho que está melhor representada
a nível de Bissexualidade, que seria o Nick Nelson,
acabou por não ser também uma referência tão grande para mim,
porque não surgiu na altura em que eu precisava da referência.
Se isto fizer algum sentido…

[Alexandre] Sim, faz sentido.
Porque para mim, por exemplo, é uma grande referência.

[Sofia] Exatamente.
E tenho certeza que vais falar mais sobre isso [risos]
quando eu te perguntar a ti quem são as tuas. [Sofia a rir]

[Alexandre] As minhas referências.

[Sofia] Eu vou então passar, se calhar, para a minha ultimate celebrity crush [maior paixão por celebridade],
que é a Halsey, que é uma referência Bissexual para mim também.
Era uma pessoa que falava abertamente sobre a Bissexualidade,
sobre o ativismo dela.
Tem, inclusive, algumas canções que falam abertamente sobre a Bissexualidade dela,
que eu gosto muito de seguir.
Mas lá está.
É uma pessoa das…
Também é uma das pessoas que costuma estar naqueles chats
de que eu falei também no episódio anterior,
porque lá está, não é conhecida uma relação pública dela com outra mulher.
Então as pessoas invalidam muito a Bissexualidade dela também por causa disso.
De qualquer maneira, continua a ser uma referência para mim.
Outras referências em português tenho, por exemplo, a Ana Carolina,
uma cantora brasileira.
Ela tem uma música que começa com:
“Eu gosto de homens e de mulheres, e você o que prefere?”.
E eu na altura ouvia bastante.
Gosto de ouvir músicas que falam abertamente sobre a Bissexualidade.
‘Tou-me a lembrar, por exemplo, de outra que se chama “Good Bi”,
da Beth McCarthy.
Mas, de resto, referências mesmo na minha vida
de pessoas que conhecesse não tive
e gostava de ter tido,
maioritariamente era mesmo nos media ou personagens,
como, por exemplo, a Korra de The Legend of Korra [PT: A Lenda de Korra],
a Korra e a Asami,
a Petra de Jane the Virgin.
É uma personagem um tanto problemática no início da série.
É suposto ser uma vilã de telenovela.
Esta série é inspirada numa telenovela venezuelana.
E então não recomendo esta personagem no início,
mas depois ela vai evoluindo, vai tendo a sua redenção.
E mais tarde, inclusive,
há uma parte em que se apaixona por outra mulher
e se descobre também Bissexual.
E eu acho que eles fizeram esta parte de forma bastante boa, esta representação de forma bastante boa.
Acho que representaram muito bem tanto o desejo que ela sentia pelo Rafael,
que é outra personagem da série e o homem de quem ela gostava,
como o próprio desejo que ela descobriu sentir por mulheres
depois por uma personagem que também se chama Jane,
mas não é a mesma Jane protagonista.
Outra personagem que eu gostei bastante é a Waverly, de Wynonna Earp.
Ela agora identifica-se como Pan.
Fica também este spoiler do episódio especial para quem ainda não viu.
Mas é uma personagem que também serviu de referência Bissexual para mim,
apesar de ser Pansexual.
E uma referência mais recente,
gostei bastante do livro “Os Sete Maridos de Evelyn Hugo”.
E eu acho que também aborda muito bem a questão da Bissexualidade.
Isto foi um livro que esteve na sessão do Clube de Leitura das Bibliotecas de Lisboa,
e apesar do livro dizer claramente que ela é Bissexual,
ainda houve muitas pessoas a achar que ela era lésbica,
mesmo apesar de lerem o livro.
Estes foram então alguns exemplos de referências Bissexuais.
E vou passar então a pergunta para o Alexandre.
Quais é que foram as tuas referências Bis, Alexandre?

[Alexandre] Pergunta complexa.

[Sofia ri]

[Alexandre] Porque…
Lá está.
Só assumi a Bissexualidade há um ano,
ou pouco mais de um ano,
como referi no 1.º episódio,
e não posso dizer que tenha mesmo muitas referências.
A nível mais pessoal, tenho a minha irmã,
apesar de atualmente a minha irmã se identificar como Pansexual,
inicialmente o come out [saída do ármário] dela foi como Bissexual.
E, portanto, foi uma referência para mim na forma como…
como ela começou também a sair do armário e a expressar-se livremente.
E ver tudo isso,
ver também a luta ativista dela.
Para mim tornou-se numa referência
que me permitiu explorar com ela, por ser alguém muito próximo de mim,
com quem eu pude começar a debater as questões da minha Bissexualidade,
inicialmente disfarçadas apenas de questões de curiosidade.
E ser essa a minha primeira referência, alguém muito próximo de mim.
Ainda de referências próximas, para além da minha irmã,
tenho uma antiga amiga que, por volta de 2018 ou 2019,
mais ou menos por volta dessa altura, assumiu a sua Bissexualidade.
E foi também uma das primeiras pessoas a par com a minha irmã,
com quem também pude falar sobre estas questões.
E que foi muito importante para mim, porque era um pessoa que… Lá está, tinha duas pessoas muito próximas de mim
que assumiam a sua Bissexualidade
e que, de certa forma, me fizeram sentir acolhido e confortável
para poder começar a explorar estes temas
com elas, mesmo que inicialmente fossem perguntas aparentemente só por mera curiosidade, não é?
Pergunta para o amigo.

[Sofia] Eras o grande aliado. [ironia]

[Alexandre] Exatamente, era um grande amigo aliado. [ironia]
Todos fomos um pouco, se calhar.
Acho que mais pessoas se irão identificar, se calhar, com isso.
Depois, tirando estas duas pessoas, não tive mais referências assim próximas de mim,
que me esteja a recordar, que sejam Bissexuais, obviamente.
Tenho vários amigos não Bissexuais, mas de dentro da comunidade,
que também são referências para mim e inspiração,
com quem pude também falar sobre estas temáticas.
E até tenho amigos heterossexuais com quem pude também falar sobre estes temas
ainda antes de assumir a minha Bissexualidade.
Uma das minhas melhores amigas, por exemplo, é médica.
Foi com ela também que eu falei sobre muitos destes temas.
E de pessoas da minha vida pessoal,
foram estas as referências.
Ah, ‘pera, não! Falta uma!

[Sofia] Quem?

[Alexandre] A minha prima. [risos]

[Sofia] Tens uma prima bi.

[Alexandre] Ya, eu acho que até referi isso no primeiro episódio e ‘tava-me a esquecer.
Tenho certeza que alguém iria reparar nisso.

[Sofia] Há sempre uma prima bi.
Eu sou a prima bi. [Sofia ri]

[Alexandre] Tu és a prima bi.
Eu sou o primo bi.
Mas sim, tenho uma prima bi, que é 2 ou 3 anos mais velha do que eu.
Agora não me estou a recordar.
Ela vai-me corrigir certamente quando ouvir o episódio ou quando eu lhe perguntar. [Alexandre ri]
Basicamente, também foi uma referência para mim,
não sendo uma pessoa que está totalmente sempre presente na minha vida,
porque ela vive na Alemanha,
mas é uma pessoa também muito importante para mim.
E que…
Também quando ela assumiu a sua Bissexualidade, para mim foi tipo
“wow, mais gente da minha família”, não é?
E então, também se tornou uma referência.
Depois disso, pessoas fora da minha vida pessoal,
acho que a primeira personalidade que ouvi falar
que poderia ser Bissexual,
que foi mais ou menos pouco depois de ter ouvido a palavra Bissexual
pela primeira vez,
era Alexandre o Grande,
que eu sempre ouvi falar dele toda a minha vida,
porque eu me chamo Alexandre. [Sofia ri]
E portanto, em qualquer situação,
o meu pai, ou alguns dos meus avôs,
ou até outras pessoas que às vezes eu nem conhecia,
arranjavam forma de meter Alexandre o Grande na minha vida,
e mal eles sabiam que tal como ele, eu também sou Bi. [Sofia ri]
É impressionante.
É capaz de ser do nome. [ironia]
Vou culpar o nome.
Exato. É mais fácil.

[Sofia] Agora todos os Alexandres a insurgirem-se contra ti neste episódio. [Sofia ri]

[Alexandre] Espero bem que não. [Alexandre ri]
Mas pronto, foi assim uma das primeiras personalidades que eu ouvi falar,
apesar de que muitas das coisas que às vezes só ouvi falar também era que
se calhar não era hétero, era gay.
Esta dinâmica que as pessoas se esquecem que existem pessoas bis.
Contudo, mais ou menos pouco tempo depois de ter ouvido pela primeira vez a palavra Bissexual,
que não sei se repito no 1.º episódio, mas foi em 2008,
comecei a encontrar vários artigos históricos sobre Alexandre o Grande
que falavam sobre a sua Bissexualidade,
e então, para mim, a imagem dele como uma personalidade Bissexual
ficou solidificada.
Depois passaram alguns anos, até sensivelmente 2015,
quando depois numa entrevista a Miley Cyrus dizer que nem todos os seus relacionamentos foram heterossexuais,
se começou a especular que ela seria Bissexual,
e mesmo ela mais tarde se tendo declarado como Pan,
para mim continuou a ser uma referência Bissexual.

[Sofia] Por acaso, o ano passado, ela referiu-se a ela própria enquanto Bissexual,
quando estava a comentar uma fotografia e disse algo do género
“Se ninguém adivinhou que eu era Bissexual a ver esta foto”,
ou qualquer coisa desse género, portanto talvez se identifique com os dois termos.

[Alexandre] Sim, é possível. Há muitas pessoas Pans que se identificam à mesma com o termo Bissexual.
Contudo, eu sinto que foi algo que provavelmente dei pouca importância
e que quase que acabei por esquecer também,
até porque só em 2018, quando começo a ter referências mais próximas de mim,
como já referi a minha irmã e a minha antiga amiga,
que assumem a sua Bissexualidade,
e que eu acabo por começar a ter conversas com elas,
especialmente com essa minha ex-amiga,
sobre Bissexualidade, porque lá está, fazia-me sentir bem,
eu precisava dessas referências e já há muito tempo que eu me questionava sobre a minha Bissexualidade,
então ter pela primeira vez pessoas com quem eu podia abordar esses temas e falar sobre isso
era espetacular.
E foi de facto uma altura em que eu comecei a abordar muito o tema da minha sexualidade.
E foi aí nessas conversas que acabam por surgir nomes,
de pessoas famosas que também são bis,
e portanto volta-se a tocar na questão da Miley Cyrus.
Acabamos também por falar da Blaya,
que ainda por cima nesse ano estava a lançar uma série de músicas que se tornaram grandes hits [sucessos],
e houve mais nomes, mas não me ficaram necessariamente na memória,
ou não se tornaram referências para mim,
porque provavelmente não eram pessoas que eu acompanhasse o seu trabalho
ou que tivessem especial relevância para mim.
As personalidades que acabam por ficar para mim são a Miley Cyrus e a Blaya,
que são duas artistas que eu acompanho e que eu admiro,
e mesmo não sendo pessoas do ativismo como as tuas,
são artistas que falaram abertamente sobre a sua Bissexualidade.
E só isso já criou, p’ra mim, toda uma visibilidade que eu precisava na altura.

[Sofia] Tu não foste a um concerto da Blaya há poucos dias?

[Alexandre] É verdade, eu fui aos dois concertos do Lado B, em Torres Vedras e em Almada,
e para quem se estava a perguntar porque é que eu fui duas vezes,
era porque havia um amigo que era para ter vindo ao concerto em Torres Vedras,
um dos meus ex-namorados, e que depois não me dava para vir,
e então acabei por ir com ele depois ao de Almada,
e foi muito fixe porque pudemos conhecer a Blaya, falar com ela.

[Sofia] Também podias ter ido só por seres fãs, ninguém te julga, Alexandre. [risos]

[Alexandre] Exato. [risos]
Sinto que estas referências em conjunto com as pessoas que me eram próximas
que tinham assumido a sua Bissexualidade e outras que não sendo Bissexuais
também me ajudaram na minha descoberta,
faz aqui todo o avanço até à altura em que eu começo a assumir a minha Bissexualidade
e começo a descobrir outras pessoas que eu já conhecia,
que eu já acompanhava, pessoas, figuras públicas,
e que de repente fica-se a saber que são bis,
como o vocalista dos Green Day, a Madonna, Lady Gaga,
e eu fiquei, ok, eu já admirava estas pessoas antes,
mas agora o facto de serem bis faz-me sentir que há uma conexão mais fixe
com elas. E assim de repente são as grandes referências que eu me lembro.
Gostava de ter mais referências, especialmente no masculino,
porque como puderam perceber as minhas referências são praticamente todas só mulheres
e gosto muito disso porque são pessoas que eu admiro imenso,
mas gostaria de ter também mais referências no masculino,
porque sinto que há poucas ou que se fala muito pouco dessas referências.

[Sofia] Sim, há menos homens a falar sobre a sua Bissexualidade do que mulheres,
e quando falam, nem sempre essa informação acaba por nos chegar.
Há ali um período em que saem muitas notícias,
como por exemplo o vocalista dos Green Day, mas depois não se fala mais nisso…
Lembro-me por exemplo, o cantor daquela música “I’m Yours”,
que eu não me lembro do nome.

[Alexandre] Não me estou a recordar, sou péssimo com nomes de pessoas.

[Sofia] Sim, eu lembro-me da música, que na altura ouvia-se muito,
e ele mais tarde também se assumiu como Bissexual.
Ah, já me lembrei, o nome é Jason Mraz,
não sei se se lembram deste cantor
e da música I’m Yours, que tocava bastante na altura.
Ah, e como eu estava a dizer, isto sai uma notícia em que refere-se a alguém a Bissexual,
que alguma seguridade a Bissexual, depois não se fala mais,
e mais tarde, se essa celebridade, se estiver com uma pessoa do mesmo género,
é percepcionada enquanto gay ou lésbica,
se estiver com uma pessoa do género oposto é percepcionada enquanto hétero…
E isto, lá está, acontece tanto para homens como para mulheres.

[Alexandre] Sim, tudo o que referiste
acontece independentemente do género.

[Sofia] Sim, mas lá está, os homens Bissexuais que eu conheço
são mais personagens do que pessoas em si.

[Alexandre] Sim, depois lá está, faltava aqui entrarmos na parte das personagens,
no Nick Nelson, mas antes do Nick Nelson, o Adam de Sex Education,
que apesar de ser uma personagem controversa por vários aspectos,
foi um primeiro contacto que eu tive,
tipo no “grande ecrã”, duma referência bi,
que não foi uma cena super escandalosa como aquela que falei no 1.º episódio,
e que foi uma referência que apesar de controversa,
tornou-se uma primeira referência mais p’ro positiva que eu tive.
E depois disso é mesmo o Nick.
Que, como falei no episódio anterior, é uma personagem que me surge
numa altura importante do questionamento e da exploração da minha Bissexualidade,
e que criou toda uma visibilidade que me fez sentir muito bem,
porque eu olhava para o Nick e identificava-me com aquilo que ele sentia
e com aquilo que ele estava a passar.
E isso ajudou imenso no meu processo também de aceitação da minha Bissexualidade.

[Sofia] Viste aquele filme do…
Eu às vezes troco a ordem das cores, mas é qualquer coisa como
“Vermelho, Branco e Sangue e Azul”, o que é que achaste da personagem?

[Alexandre] Não vi.

[Sofia] Ah, ok. Também tem uma personagem masculina Bissexual?

[Alexandre] Já me disseram.

[Sofia] Tens que ver.

[Alexandre] Já me disseram várias vezes para ver.
Mas eu como estava muito obcecado com Heartstopper,

[Sofia, a rir] Sim.

[Alexandre] e acabei por não ver.
E depois para ver filmes ou séries tem de ser uma cena que me cativa efetivamente.

[Sofia] Claro

[Alexandre] Eu não vou ver um filme ou uma série só porque tem uma personagem Bissexual.

[Sofia] Ah, eu por acaso faço isso.

[Alexandre] Eu não.
Eu tipo, p’ra mim tenho que olhar e aquilo tem que me cativar.

[Sofia] Hoje em dia também não tanto, mas eu lembro-me de há alguns anos
ver séries às vezes,
com imensas temporadas até aparecer a personagem que eu queria ver
para ter alguma representação LGBT, Bissexual nem havia muita,
mas para ter alguma representação LGBT e felizmente hoje em dia
as pessoas estão cada vez menos a ver temporadas e temporadas
de algo que não lhes interessa só por aquela personagem
e a focarem-se mais em séries com representação que já cativem efetivamente.

[Alexandre] Sim, até porque hoje tens muito mais filmes e séries
que nos trazem essa representatividade.
Nem que seja o exemplo gritante
de Heartstopper, que acho que é um dos maiores exemplos atualmente,
mas não só.
Já não tens de percorrer uma série inteira ou um filme inteiro
que não te interessa para encontrares dois minutos

[Sofia] Exato.

[Alexandre] de uma personagem que te representa.
Já tens mesmo séries completas sobre estes temas.

[Sofia] Sim, e também hoje em dia tens pessoas que já fazem uma compilação
desses momentos nessas séries gigantes
p’ra não teres que ver a série toda e veres só…
Lá está, que às vezes são só mesmo dois minutos de representação.

[Alexandre] E às vezes tu queres só ver aquele momento e não te interessa todo o resto.

[Sofia] Exatamente.

[Alexandre] Também acontece comigo, noto isso,
porque já me apanhei a apanhar partes de séries e de filmes
e depois às vezes ser por causa desses pequenos momentos
que eu acabo por ir ver o resto da série, mesmo não tendo nada a ver.
Estás a ver? Mas sim.

[Sofia] Lá está, e isto acontece exatamente pela necessidade
que temos de ter referências.
E se calhar aproveitamos para dizer mais alguns nomes
que podem não ser referências para nós,
mas que poderão ser referências Bissexuais para outras pessoas.
Por exemplo, não referimos Freddie Mercury, que também era Bissexual.

[Alexandre] Não referimos a Safo.

[Sofia] Safo também tinha textos sobre mulheres e sobre homens,
que também podemos considerar como Bissexual.
Outros nomes importantes de referir, por exemplo,
Marielle Franco é uma referência para muitas pessoas e era Bissexual.

[Alexandre] Oscar Wilde…

[Sofia] Oscar Wilde, Virginia Woolf…

[Alexandre] Também temos a Sara Tavares, que eu sei que gostas muito
das músicas dela.

[Sofia] Sim e esqueci-me. Nem sei como é que me esqueci de referir a Sara Tavares.
Eu adoro as músicas dela e quando descobri que ela era Bissexual
fiquei super contente.

[Alexandre] Temos também, por exemplo, David Bowie.

[Sofia] Sim, que também gosto.
Outra cantora que gosto é a Ludmilla, por exemplo.
E também de referir a Kristen Stewart, que muitas pessoas pensam
que é lésbica, mas que é Bissexual.

[Alexandre] Ou a Cardi B, que é um pouco o oposto, que muitas pessoas pensam
que é hétero e não Bissexual.

[Sofia] Outra atriz, por exemplo, a Angelina Jolie.

[Alexandre] Lembro-me também agora do cantor Frank Ocean.

[Sofia] E fora dos cantores, lembro-me também do escritor James Baldwin.

[Alexandre] Sim, e certamente existirão muito mais personalidades
que serão também referências Bissexuais para muitas pessoas
e muitas mais referências estarão também para surgir.

[Sofia] E ter referências é muito importante para o nosso crescimento.
É o termos pessoas com quem nos identificamos
que nos permite sentir que pertencemos,
que nos permite contrapor os preconceitos à nossa volta,
que nos permite ultrapassá-los.

[Alexandre] Sentir que não estamos sozinhos.

[Sofia] Exatamente.

[Alexandre] Que há mais pessoas que têm características,
ou coisas, ou histórias de vida em comum connosco.

[Sofia] Exatamente.
E sentir que, por exemplo, uma coisa que eu sentia muito
quando era uma criança, sentir que não vim estragada.
E que é uma coisa que as pessoas, quando crescem,
já a lidar com preconceitos LGBT, sentem muito.
E estas referências são muito importantes para combater
essa invisibilidade e esse preconceito que existe.

[Alexandre] Sim.
E p’ra nos mostrar que é totalmente ok sermos como somos
e nos fazer não só sentir bem, mas também perceber que existem
mais pessoas como nós e que não estamos sozinhos,
ao contrário do que muitas das vezes os preconceitos nos fazem pensar.

[Sofia] Sim.
E como tu disseste, que não temos nenhum defeito.
E quando temos falta de referências e crescemos num mundo preconceituoso,
acabamos por não nos conseguir descobrir,
por não nos conseguir experienciar e por ter também problemas
a nível da saúde mental.

[Alexandre] Exato.
E os problemas de saúde mental, a falta de saúde mental
é um flagelo que afeta bastante a comunidade LGBT.
E é um tema que temos que trazer para um próximo episódio em mais detalhe.
Mas de referir que no dia anterior ao lançamento do nosso 1.º episódio,
no dia 10 de outubro, celebrou-se o Dia Mundial da Saúde Mental.
Que nós, na altura, com toda a preparação para o 1.º episódio do podcast,
nem nos lembrámos desse dia que é tão importante
para ressalvar a importância de dedicarmos tempo também à nossa saúde mental.
E referenciar que há imensas pessoas e profissionais na área
que nos podem ajudar e que é totalmente ok pedirmos ajuda quando precisamos,
porque não temos de fazer tudo sozinhos.
Aliás, eu também falo por mim.
Falámos aqui da falta de saúde mental e eu, em 2018, tive um burnout [esgotamento].
Não está totalmente ligado com as questões da minha sexualidade,
mas tenho noção que a não aceitação da minha Bissexualidade
está muito ligada com o meu burnout [esgotamento].
E tenho noção que, lá está, que essa falta de aceitação,
na altura, foi mesmo…
E várias experiências que eu tive correlacionadas com essa não aceitação
e que, na altura, me deixaram muito ansioso, constrangido,
com self-hate [auto-ódio].
Não sei como dizer isto em português.

[Sofia, incerta e meio a rir] Auto-ódio… [risos]

[Alexandre] Acho que sim. Deve ser auto-ódio. Passa a ser.
E isso, na altura, lá está.
Juntamente com uma série de outras coisas que se passavam na minha vida,
pronto, levou-me ao meu burnout [esgotamento].
Daí, a importância de dedicarmos tempo à nossa saúde mental,
de recorrermos a profissionais quando precisamos de apoio
para resolver as nossas questões.
E lá está.
E a importância desta representatividade,
porque é após o meu burnout [esgotamento], que foi em 2018,
que eu começo a explorar mais as questões da minha Bissexualidade
e que, ao mesmo tempo, a pouco e pouco, começo a ter mais referências na minha vida.
E é este gradual de ir tendo mais referências, podendo explorar mais e ter esta…
e começar a ter esta visibilidade para as questões da Bissexualidade,
que me permitiu, entre 2018 e 2022, aceitar a minha sexualidade.
Gradualmente, ao ponto de depois, em 2023,
acabo por assumir a minha Bissexualidade, como te falei no episódio passado.

[Sofia] Sim, é muito importante que estejas a falar sobre esta tua experiência.
Eu identifico-me com algumas coisas.
Inclusive, também já passei por um burnout [esgotamento].
E, às vezes, o que as pessoas não percebem…
Às vezes, as pessoas não percebem a necessidade que temos de falar da nossa orientação sexual
ou da nossa identidade de género.
Mas o facto de não podermos falar de uma parte de nós,
tem sempre repercussões em todos os aspectos da nossa vida.
Qualquer coisa que alguém reprima vai ficar…

[Alexandre] A prejudicar.

[Sofia] Vai ficar a prejudicar-nos e a cansar-nos mentalmente,
enquanto não lidarmos com aquilo que temos que lidar.
E, neste caso, seria enquanto não lidarmos com a nossa orientação sexual
ou com a nossa identidade de género.
Mas isto pode servir para qualquer questão que não estejamos a lidar
ou que não tenhamos a liberdade para tal.
E é muito importante termos esta liberdade
de podermos lutar contra os preconceitos que existem
para conseguirmos ser nós próprios e nós próprias
em todos os aspetos da nossa vida sobre os quais isto também repercute.

[Alexandre] Sim, e até porque a nossa sexualidade não nos define enquanto pessoas,
mas é uma parte importante de quem nós somos,
da nossa experiência enquanto seres humanos.
Que entra em imensas áreas da nossa vida.

[Sofia] Exatamente.
Eu posso dizer, por exemplo, na altura do meu burnout [esgotamento]
houve um semestre da faculdade em que eu não fui a nenhum exame.
E o que é que isto tem a ver com a minha orientação sexual?
Supostamente nada, mas tem tudo.
Porque era exatamente o não estar a conseguir lidar com os preconceitos,
sejam externos ou até internalizados, relativamente à minha orientação sexual
que depois não me permite viver todos os aspetos restantes da minha vida em…

[Alexandre] Sim, até porque qualquer coisa que nos esteja a afetar
ou a deteriorar a nossa saúde mental
vai acabar por influenciar negativamente outras áreas da nossa vida.
E isto é válido para questões de bullying, para as homofobias e bifobias internalizadas,
para estigmas ou preconceitos que tenhamos contra nós próprios
vindos de nós ou vindos de outras pessoas à nossa volta,
problemas que tenhamos com o nosso corpo, com a nossa imagem…
Tudo isto acaba por nos afetar negativamente e, portanto,
daí a importância desta saúde mental e lá está.
As referências aqui têm um papel importante.

[Sofia] Exato, porque são as referências, quando falam destas questões,
que nos permitem sentir que: ok, há outras pessoas como eu, eu posso…
As coisas ficam melhores, eu posso combater este preconceito,
eu posso ouvir as pessoas que me estão a dizer que quem tem este preconceito não é bem assim.
E este contraponto é muito necessário.
Daí termos escolhido também o tema das referências para este episódio
e gostávamos também de que nos contassem quais é que são as vossas referências
nos comentários nas nossas redes sociais.

[Alexandre] Sim, e se tiverem mais referências que nós não tenhamos referido aqui
será ainda mais interessante para descobrirmos ainda mais referências
que também podem ser importantes para nós.

[Sofia] Exatamente.
E estamos a chegar ao fim do nosso episódio, este foi um episódio mais curto,
mas esperamos que tenham gostado.
Podem também deixar sugestões de outros temas que gostassem de ouvir
nos comentários nas nossas redes sociais.

[Alexandre] Exato, ficamos a aguardar as vossas sugestões,
até porque o objetivo deste podcast é precisamente também ficarmos a saber
o que a comunidade Bissexual gostaria de ouvir
e podermos trazer estes temas aqui para falar sobre eles.
Os nossos episódios saem na segunda sexta-feira de cada mês.

[Sofia] Ou seja, no próximo dia 13 de dezembro.

[Alexandre] Uh, sexta-feira 13.

[Sofia] Exatamente.

[Alexandre] Fiquem bem, até à próxima.

[Todes] Venham Bialogar connosco!

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