Neste episódio, falamos sobre a dissecação pública que tem sido feita em volta da sexualidade do rei Filipe VI de Espanha, iniciada com a publicação do livro “Los novios de Felipe VI”, onde o jornalista espanhol Joaquín Abad afirma que o rei é Bissexual.
Aproveitámos ainda para falar dos ataques aos direitos LGBTI+ que têm surgido nas últimas semanas.
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Publicação: 24/04/2026 | Duração: 39min 53s | Produção: 6,5h | Legendas: no YouTube
Avisos: Contém menções de bifobia, homofobia, “terapias”/práticas de conversão (incluindo descrição de situações de tortura), Outing (Saída forçada do armário) e escrutínio público da sexualidade. Contém breves menções de violência transfóbica e suicídio.
Pessoa(s) Convidada(s)
Não houve pessoas convidadas neste episódio.
Referências
Personalidades
- Maria João Vaz: mulher Trans Não-binária Bissexual, atriz, dobradora, escritora, artista plástica e ativista LGBT+ Portuguesa.
Livros
- “Los novios de Felipe VI”, de Joaquín Abad
Filmes e Séries
- “Hurricane Bianca”
- “Hurricane Bianca: From Russia with hate”
Eventos e Datas
- 4.º Queer Summit (2026): 10 de Março de 2026, evento LGBTQIA+ realizado pelo NuPRIDE.
Termos e Expressões
(em edição)
Transcrição
[Diego] Alô, alô. Sejam bem-vindes a mais um episódio do Bialogar.
O meu nome é Diego.
[Alexandre] Eu sou o Alexandre.
[Diego] E hoje vamos falar sobre vários temas, inclusive um tema recente
que saiu de um livro sobre o rei Filipe VI,
que se chama “Os Namorados de Filipe”…
[Alexandre] De Joaquin Abad, e que expõe, como dizem,
“a alegada Bissexualidade” do rei de Espanha.
Até naquele primeiro comentário que a gente viu era…
Como é que era? “Acusado de Bissexualidade”.
Como se fosse tipo um crime, oh meu deus!
[Diego] Ya um crime.
[Alexandre] Foste acusado de Bissexualidade.
[Diego] Como se o gajo tivesse andado com a arma no bolso
e andasse aí a disparar uma sexualidade para toda a gente.
[risos]
[Alexandre] Tipo, tu agora és Bissexual, tu agora és Bissexual, tu agora és Bissexual.
[Diego] Agora é a tua vez. É tipo o toca e foge.
[Alexandre] É ridículo. E nós ‘tivemos agora antes a analisar um pouco em detalhe,
porque nós não lemos o livro, é muito recente,
mas por acaso gostaria de ver, porque falam ali,
em muitas, a comunicação social, seja espanhola, seja portuguesa,
é provas, escândalo.
É tipo, uau, o rei teve namorados.
Também deve ter tido outras namoradas antes da mulher atual, não é?
[Diego] Sim, exatamente. E ela tipo “ela aceita tudo”.
É a forma como ele é.
É a mesma coisa, se ela fosse Bissexual,
eu não acho mal nenhum das pessoas
fazerem o que querem da vida,
e se é ou não é Bissexual,
mas porque é alguém que é uma figura pública
é tipo, oh meu deus, já ’tá ali um filme todo
à volta com sequelas e tudo mais.
[Alexandre] Ya e como é que dizia o outro?
Ah! “Ele tem um tipo.”
É tipo: Ele tem um tipo.
Ok. Ele tem um tipo, mas
o que é que isso interessa?
Porquê é que também não foram escrutinar, por exemplo, as ex-namoradas?
Ele se calhar também tem um tipo de mulher.
[Diego] Claro, exatamente. É só porque é homem.
Porque ele é home e ’tá com um homem, é tipo “ah, vamos ver
que tipo de homens é que ele tá”.
Tipo… Querem tudo encaixado
dentro de caixinhas, que é para tudo fazer sentido
para eles, porque
eu não sei o que é que eles vêm em ‘tar a
colocar tudo nesta caixinha e nesta caixinha.
[Alexandre] E é tipo, ok, mesmo sem ler o livro,
que eu saiba que ele é casada com uma mulher,
que eu saiba, não é?
Não há sinais de que se vão divorciar,
não há sinais de que ele esteja a trair, pelo menos não
ouvi nada sobre ele estar a trair a mulher.
E se estivesse, era um problema de estar,
de caráter dele, não de ser Bissexual.
[Diego] Sim é verdade.
[Alexandre] Acho que é importante falar sobre esta parte.
Mas é tipo,
qual é o mal dele ter tido namorados?
Porque é o rei de Espanha?
[Diego] Possivelmente é por causa do estatuto que ele tem.
[Alexandre] É que é assim, se não é… Se vamos por aí,
há uma carrada de livros que falam sobre,
por exemplo, o rei Dom Sebastião,
de que ele ia,
há um livro até que se fala disso,
que ele ia à margem sul à procura de homens
para aquecer nas noites frias,
de Sintra e de Lisboa.
[Diego] Pá ya, vamos a ver: Sintra também é frio, né?
[Alexandre] É não é?
[Diego] Portanto, não havia muito
pra mantas, então o corpo humano,
o calor humano é melhor.
[Alexandre] Até porque os palácios e castelos normalmente eram frios.
[Diego] Sim, ’tás a ver aquela pedra fria.
É tipo: calor humano, ’tás ali…
[Alexandre] Conchinha.
[Diego] Ya! É um brocode, ao menos é aquilo.
[Alexandre] Será que Dom Sebastião ficava dentro ou por fora na conchinha?
[risadas]
[Diego] Pá, da maneira como ele era,
eu acho que ele ficava por dentro.
Agora que ‘tamos aqui a falar sobre isto.
Analisar tudo, acho que ele ficava por dentro.
[Alexandre] Até porque ele ia à procura de alguém para o aquecer,
era porque ele é que tinha frio.
[Diego] Exato, ele é que ficava por dentro da conchinha.
[Alexandre] Mas é tipo, lá está, temos o rei…
E não é caso único.
Há muito esta questão
de que as pessoas têm muito
uma ideia muito idílica
deste tipo de figuras monárquicas,
mas sabe-se perfeitamente
que muitos deles tinham amantes,
e amantes não estou a falar só de mulheres,
estou a falar também de homens,
que obviamente não é tão conhecido,
porque na altura dizia-se que era pecado.
[Diego] Exato, abafava-se tudo.
[Alexandre] Apesar de que temos um livro que está aí atrás de ti,
que fala sobre…
[Alexandre, apontando para o livro] Este aqui.
[Alexandre] …que fala sobre
relações entre pessoas do mesmo sexo na Idade Média,
inclusivamente sobre
casamentos católicos que existiram entre homens. Ya.
Portanto,
mas isso é antes do século XII,
se não me engano.
[Diego] Na Grécia Antiga acontecia muito.
[Alexandre] Ya.
[Diego] ‘Tarem com homens, não havia problema algum.
[Alexandre] Na Grécia, no Império Romano.
[Diego] Sim.
[Alexandre] Aliás, falámos num episódio,
que o único problema para eles não era estares com um homem,
era seres o passivo.
[Diego] Alguém tinha que ser, não é??!
[Alexandre] Alguém tinha que ser,
mas para eles o problema era alguém ser passivo.
Para os romanos, havia muito esse problema,
porque ser passivo era ocupar o lugar da mulher,
e mesmo na sociedade romana,
mesmo sendo avançada,
as mulheres eram vistas como inferiores aos homens.
Então, se estivesse numa posição passiva,
estavas a ocupar uma posição inferior,
de acordo com a sociedade da altura.
[Diego] Então imagina como é que eles faziam.
É tipo luta de espadas, literalmente??
[Alexandre] Não, alguém tinha que ser o passivo.
Aliás, o escândalo, acho que, não sei se era Júlio César,
mas acho que era um imperador romano,
que o escândalo não era ele ter um amante homem,
o escândalo foi ele ser passivo.
[Diego] O Júlio César era passivo?
[Alexandre] Eu acho que era o Júlio César, espero não estar errado,
a enganar-me no nome, mas eu acho que era o Júlio César.
Mas vamos confirmar, vamos confirmar.
[Diego] Por acaso, agora é que eu tenho curiosidade.
[risadas]
[Alexandre] Mas era, tipo, eu li sobre isso há pouco tempo,
e o escândalo não era ele ter um amante masculino,
era ser o passivo.
[Diego] Porque imagina,
ele ‘tava numa pose alta…
[Alexandre] De poder.
[Diego] Ya, de poder
e ‘tar a ser,
‘tar no “papel de mulher”, entre muitas aspas, não é?!
[Alexandre] Sim, porque não é um papel de mulher.
[Diego] Era contraditório.
[Alexandre] Era contraditório para a sociedade da época,
assim como eu acho que as pessoas vêem isso ainda hoje em dia,
quando pensam aqui no rei:
“Ai, o rei Filipe teve namorados.
Então pronto, ele é…” .
Aliás, uma das coisas que a gente viu,
a pessoa que ‘tava a fazer a reportagem,
reportagem, programa, whatever [= o que seja],
diz logo:
“ai, eu…” .
Como é que tu há bocadinho salientaste outra vez?
É, eu li bem, os namorados do Filipe.
Uma presumível homossexualidade.
[Diego] Não vá ela ler mal, em vez de
dizer as namoradas e os namorados:
“Ai, onde é que foi a minha cabeça, meu deus?”.
[Alexandre] Mas é tipo: depois é a questão de, porquê homossexualidade?
É tipo,
se ele tem uma mulher,
e sabe-se que já teve outras namoradas,
provavelmente antes,
se ele não disse nada em contrário de que não gosta de mulheres,
então se também esteve com homens:
Bissexualidade! Porquê é que as pessoas viram logo:
“Ai, não, agora é só…”?
[Diego] Pá, como se ele ’teve com um homem,
é tipo: “não, não, aquela mulher deixou de existir,
ele já não é casado com uma mulher”.
Descobriu-se que ele esteve com homens,
então é homossexual. Tipo não…
[Alexandre] Ya! E eu acho que isto traz para uma questão,
que já se falou aqui anteriormente noutros episódios,
que acaba por ser uma repetição destes estigmas,
que é: ok, um homem que gosta de homens
é visto como menos homem,
é visto como menos masculino,
e depois, como ele está num cargo de poder:
ai, meu Deus, escândalo.
É tipo, não, não é um escândalo, gente, não é um escândalo.
[Diego] É, não pode ser.
Imagina se ele, digamos, existisse como quisesse.
[Alexandre] Ele já era Bissexual, se for,
não sabemos se é ou não.
Mas, se for Bissexual, ele já o era
antes de sair este livro.
Nada muda na forma…
[Diego] Como ele é.
[Alexandre] …como ele é e como ele trata
as questões que tem que tratar
pelo cargo que tem.
Até porque, que eu saiba,
a sexualidade não entra ali
na tomada de decisão.
Tipo, hum, vou…
Não sei como é que funciona o rei em Espanha,
se ele também é como o nosso presidente, se veta leis ou não.
Mas é tipo: hum, não sei,
se vou votar ou aprovar esta lei, deixa cá ver.
Olha, hoje vou sair com o João.
[risadas]
[Alexandre] Ah, então vou vetar.
Não é assim que funciona, gente.
[Diego, em tom irónico] Olha lá se fosse!
[Diego] Até era melhor se fossemos, então, assim, um bocadinho mais…
Verdadeiramente livres, não é?
[Alexandre] Ah, sim, sim, sim, eu acho que sim.
Eu acho que a nossa sociedade julga demasiado
e eu acho que as pessoas precisavam de ser mais livres sexualmente.
Acho que até resultava
para não andarem tão chateadas no dia-a-dia.
Já falámos disso anteriormente.
[risadas]
[Diego] E tu vês mais isso nos homens que são mais velhos,
quando vêm dois homens na rua, eles fritam a pipoca.
Parece que é tipo…
Só porque estão a ver dois homens e irmãos dadas na rua,
parece que ‘tamos a convidar para entrar.
Tipo, não. É tipo, fica na tua vida e nós vamos na nossa.
[Alexandre] ‘Tás-me a lembrar uma pessoa que diz…
Fez um comentário a qualquer coisa que era
contra o casamento…
contra o casamento, por exemplo…
[Diego] Homossexual?
[Alexandre] Sim, entre pessoas do mesmo sexo.
E alguém respondeu,
mas alguém do mesmo sexo que você está a pedi-lo em casamento,
porque é só recusar.
[Diego] Exato.
[Alexandre] É só recusar. Não tem que aceitar.
[risadas]
[Diego] Não é porque há uma…
algo que diz que homossexuais podem casar
que obriga
os homens
héteros a casar com outro homem.
[Alexandre] Sim. O facto de dizeres que qualquer pessoa se pode casar com qualquer pessoa
não vai impedir que é tipo…
Agora é obrigatório eu casar. Não, não é.
Primeiro ninguém, não é obrigatório casar.
E as pessoas casam com quem querem.
[Diego] Exato.
[Alexandre] É tipo: é assim que funciona.
Mas sabes que
eu e Sky ‘tivemos a falar sobre isto
num dos últimos episódios
(salvo erro foi o do Queer Summit),
que há montes de estudos
que já vêm sendo feitos há 40 anos,
há 30 anos, que revelam sempre o mesmo resultado
a nível…
Pronto, os estudos são Estudos científicos,
que normalmente as pessoas
que têm este tipo de atitudes
homofóbicas,
ou bifóbicas, ou até mesmo transfóbicas,
mas essencialmente homofóbicas e bifóbicas
são pessoas que têm a sexualidade reprimida.
[Diego] Mas nota-se quando…
[Alexandre] Aliás, outra vez não falámos em detalhe
no estudo, mas o estudo basicamente
foi…
Eles pegaram num conjunto tipo de
homens
e põem-lhes tipo um inquérito
para
perceber se eles se identificavam
como heterossexuais, homossexuais
ou Bissexuais.
Este é um dos mais recentes que eu me lembro.
Depois a se seguir,
e também acho que não sei se o estudo
também perguntava quais eram… Ya perguntava quais eram as visões
que as pessoas tinham em relação a homossexualidade e Bissexualidade.
E separavam em dois grupos.
Os que não tinham quaisquer
problemas, estavam num lado.
Os que tinham problemas com isso, estavam noutro.
E expunham ambos os grupos
a conteúdo erótico.
E primeiro tinhas conteúdo erótico
heterossexual,
ou presumívelmente heterossexual, portanto
tinhas homens com mulheres.
E portanto todos os grupos,
regra geral, aqueles que identificavam como
hetero ou Bissexual, neste caso específico,
tinham excitação
com o que estavam a ver.
A seguir mostravam
conteúdo erótico
sáfico
e os grupos tinham também, regra geral,
alguma excitação.
Quando mostravam conteúdo erótico
entre homens, o grupo que se identificava
como héteros e que não tinham quaisquer
problemas, que diziam por escrito
que não tinham quaisquer problemas com a homossexualidade,
não mostravam excitação nenhuma com esse conteúdo,
nem aversão, simplesmente não me interessa.
E aquele grupo que se identificava
como héteros, mas que tinham
visões negativas para a homossexualidade
ou Bissexualidade, tinham excitação
ao ver conteúdo erótico
de homens.
Só com homens.
[Diego] Mas é verdade que eles
são os mais reprimidos. Mas viam o quê? A nível de ereção? Viam se…
[Alexandre] Eu não me lembro ao
pormenor, mas eles hão de ter
visto de alguma maneira que…
[Diego] É porque alguns conseguem reprimir
bem que não ‘tão…
[Alexandre] Há formas de medir isso.
A questão é que o estudo já aprovou várias vezes, que é tipo
as pessoas, regra geral, que têm visões
homofóbicas e bifóbicas
têm simplesmente uma sexualidade reprimida.
O que explica muita coisa.
É aquela questão de… É a mesma coisa
também quando as pessoas são livres para
mostrar o seu género, ou para assistir como
querem, ou para se
pintarem, maquilharem, whatever [= o que seja]
como querem, que as pessoas ficam chateadas
porque é “no meu tempo não se podia fazer isto”.
E as pessoas ficam tipo: “se eu não pude,
também não és tu que vais fazer”. As pessoas têm
aquilo bué reprimido lá dentro, ’tás a ver?
[Diego] Sim, é verdade. Mas na verdade, se calhar eles
podiam, mas iam ser…
Iam ter consequências.
[Alexandre] Sim, tens aquela situação que para muitas pessoas
aquilo era “errado”, interiorizaram aquilo
como super errado, aprenderam a vida inteira
a reprimir, então é do estilo estilo: “não, eu não
sou livre para fazer isso, então
tu também não vais ser”.
[Diego] Podiam pensar ao contrário, que é tipo: “ok, eu não pude fazer
pelo menos estamos num país mais livre do que
era no meu tempo, então pelo menos
tu já consegues fazer”, mas nada impede
que não faça, não conseguiu fazer
na altura quando tinha, sei lá, 20 anos,
agora se calhar com 50, pode fazer na mesma.
[Alexandre] Sim, eu concordo, mas acho que é:
para chegares a esse nível, acho que é preciso fazeres uma
desconstrução, tipo, de toda uma série de
estigmas e traumas e ideias que ‘tão na cabeça.
[Diego] Ya, muitos não querem fazer esse
trabalho, porque custa.
[Alexandre] Ya.
[Diego] Imagina:
custa tu sentares contigo próprio,
olhares para dentro e veres o que é que ’tá
a falhar em mim pra conseguir
ser melhor também comigo e com os outros.
[Alexandre] Ya.
[Diego] Por isso é que nem toda a gente
faz terapia, porque não conseguem olhar
pra dentro.
[Alexandre] Sim. E repara, todos nós,
eu sinto um bocado a isso, mas todos nós
‘tivemos em situações em que
por falta de conhecimento ou
por toda uma série de coisas que tivemos na nossa
vida, também reprimíamos coisas
nossas.
Aliás, eu reprimi a minha sexualidade durante
muitos anos. Tu se calhar também,
provavelmente, nalguns aspectos.
[Diego] Fugia, sim.
Primeiro fugi da parte de
“ser Lésbica”, tipo…
[Alexandre] Sim, quando
ainda não tinhas iniciado o teu processo de [transição].
[Diego] Sim, exatamente.
E depois… Mas sempre tive
aquela sensação
por rapazes, mas não era tão grande
antes, mas fugia
dessa parte, sim.
Agora é que ’tou um bocadinho mais
livre, porque também ’tou bem comigo próprio.
Então, não quero muito saber
o que é que as pessoas pensam ou deixam de pensar,
o que interessa é a minha felicidade e com quem
eu estou, na verdade.
[Alexandre] Mas lá está, todos nós
partimos de pontos em que reprimimos partes de nós,
seja a nossa sexualidade, seja o nosso género, a nossa
identidade, aquilo que nós somos,
para tentarmos encaixar
e, epá, eu
como toda a gente, eu já ouvi esta frase
de várias pessoas, que é que: todos nós, em certa altura
da nossa vida, já fomos transfóbicos, homofóbicos
bifóbicos, racistas, machistas,
porque fomos incutidos
com uma série de “valores” em relação a isso
e simplesmente replicávamos.
[Diego] Sim, é verdade.
[Alexandre] E é o que eu acho que essas pessoas também
acabam por fazer: elas ‘tão só a replicar aquilo
que na cabeça delas é o “certo”, e então é tipo:
se eu não pude fazer isto porque não é “certo”
tu também não podes fazer.
[Alexandre] Sim, eles não tiveram
tempo pra pensar e
refletir, tipo, porque é que não é certo.
Não é certo porque eu acredito que não é certo
ou porque veio de trás.
[Alexandre] Ya.
[Diego] É que muitos
é por pensamentos de trás.
[Alexandre] E por razões, tipo, às vezes absurdas.
Ai, porque é que não é… Lá está, tipo, eu gosto [ironia] quando as pessoas
tipo, vêm com cenas de
“ah, eu sou contra porque
a Bíblia diz”. Primeiro, a Bíblia não diz
em lado nenhum.
[Diego] Ya, mesmo.
[Alexandre] Isso foi
é uma tradução incorreta, a Bíblia não continha a palavra
homossexualidade
até 1950, se não estou em erro
mas foi no século passado que apareceu,
no pós Segunda Guerra Mundial.
E mesmo a passagem
que lá está, está incorretamente traduzida.
As passagens que usam
estão incorretamente traduzidas,
estão num livro
que é o Levíticos, que supostamente
quem é cristão, o Antigo Testamento
nem sequer é lei para os cristãos
é lei para os judeus.
Eu tive isto em aulas de educação moral
religiosa e católica com um padre, portanto…
[Diego] Tu sabes.
[risadas]
[Alexandre] Eu acredito que a informação que ele me deu
está correta: o Antigo Testamento não é
lei para os católicos e para os cristãos,
é só o Novo Testamento.
E mesmo que a Bíblia
dissesse, isso aplica-se
a quem segue a Bíblia.
Se eu não sou cristão,
isso não se aplica a mim.
[Diego] Sim!
[Alexandre] É tipo, quem é cristão e quer viver por essa “lei”
’tá totalmente ok,
desde que não ponha em causa
o direito doutras pessoas,
estão totalmente ok para viverem com essa “lei”,
entre aspas, “lei
religiosa”.
[Diego] O que eles acreditam,
mas a cena é que depois começa a entrar
na vida da outra pessoa.
[Alexandre] É isso.
Eu tenho uma antiga colega de trabalho
que ela falava muito isso,
precisamente que ela nesta questão de:
a religião dita para quem é da religião.
Que ela diz: “eu sou católica,
eu acredito,
por aquilo que é a minha religião e as minhas convicções,
que eu não devo fazer um aborto,
mas eu não posso impedir qualquer outra
pessoa que possa engravidar
de fazer um aborto,
porque eu acho que qualquer pessoa tem que ter esse direito.
Agora, eu não o faria pelas minhas convicções”,
dizia ela,
“mas qualquer outra pessoa tem que ter esse direito…”
[Diego] Exato!
[Alexandre] “…porque a minha convicção religiosa não pode ditar
os direitos dos outros”.
[Diego] Exato! Porque a religião é dela, digamos assim.
Se ela acredita na religião, ok tudo bem,
mas ela não pode ‘tar a implementar
a religião dela nas outras pessoas.
E isso acontece com muitos cristãos.
[Alexandre] E não só cristãos, eu acho que em muitas religiões.
Aliás, eu diria que isso acontece
essencialmente nas religiões abraâmicas
que é cristianismo, judaísmo e islamismo.
Essencialmente,
acontece demasiado isso. Obviamente
não é com todas as pessoas, felizmente
(não é?), mas acontece com
demasiadas pessoas. Porque é tipo:
religião diz respeito a si próprio.
[Diego] Sim.
Se ela acredita, tudo bem, mas nem toda a gente tem que acreditar.
[Alexandre] Exato.
[Diego] Eu não acredito e respeito quem
acredita.
[Alexandre] Exatamente.
[Diego] E eu também não vou…
Aconteceu uma coisa, há pouco tempo
que um colega meu comentou,
no posto do meu namorado,
“ah, os cristãos, não sei o quê” ou
“o melhor paraquedas é Jesus”, qualquer coisa assim.
Na minha cabeça faz sentido que é: ele não tem que ‘tar,
digamos, já que eles têm a mania de dizer
tipo “deixem as crianças em paz”,
ele também não tem que estar a espalhar o cristianismo
para o post doutras pessoas e ‘tar ali a vomitar
informação, como se pudesse, tipo,
dizer as coisas como ele
quer e bem lhe apetece, porque eu também não faço
as coisas assim, estas pancadas.
[Alexandre] Sim, sim. Tem que haver um bocado de noção
que acho que é isso, é tipo…
[Diego] Falta um pouco.
[Alexandre] Eu acho que não há problema nenhum em falar-se
sobre religião, eu acho que não há problema nenhum,
mas tem que haver um certo…
tem que haver um certo respeito e um contexto,
um respeito pelas outras pessoas, que já agora
a Bíblia fala muito em respeitar
o próximo, em amar o próximo.
[Diego, fazendo palas nos olhos] Mas isso aí eles ‘tão assim.
[Diego] Isso eles já não vêm.
[Alexandre] Retomando aqui a questão do rei de Espanha,
que é tipo:
ok
ele pode ser Bissexual.
‘Tá tudo bem. Ele pode não ser.
É que o facto dalguém escrever um livro
a dizer
“eu sei que o rei esteve…”,
porque nem sabemos o que diz o livro em concreto
e nessas reportagens
eles também não falam muito em concreto,
mas dizem que o livro apresenta provas
de que o rei teve
encontros com “amigos”.
Com “amigos”…
[Diego] Pois ela também disse isso, foi.
[Alexandre] Era os “amigos”.
[Diego] O ênfase que ela meteu nessa palavra,
ela ‘tava mesmo incomodada.
[Alexandre] Eles ‘tavam todos sistematicamente a dizer os “amigos”.
Pá, se calhar não têm encontros
com “amigos” como o rei de Espanha tinha.
[Diego] Se calhar. Olha, assim um bocadinho de dor de cotovelo, tás a ver?
Tipo: aquele gajo conseguiu sacar o outro bonito
e eu não…
[Alexandre] Ya… Mas é bom é isso, tipo, é
“amigos”, “ai, teve encontros com homens”,
“ai…”. ‘Tá bem,
e então? Primeiro:
pá, o jornalista ’teve lá? O jornalista que escreveu o livro ’teve lá?
‘Teve a ver em full HD?
[Diego] Se calhar, imagina, estavam os dois debaixo dos lençóis e ele assim
“ok, espera, deixa-me só aqui apontar.
não, fijam que eu não ’tou aqui, ok”.
[Alexandre] Ya!
[Diego] “só continuar”. Devia ser engraçado,
acho que ele gostava de ver também.
[Alexandre] Ou então ‘tava
tipo com um telescópio…
[risos]
[Alexandre] …tipo voyeur, tipo com um telescópio assim ao longe:
“hum, aham, sim”
[Diego] Ya… “interessante, espera, deixa-me só aqui…
olha, mas está aqui, estou a aprender,
não sabia que era possível fazer esta posição” e
‘tava ali tipo a desenhar e o caraças.
[Alexandre] Pá, não sei, há aquele ligeiro interesse
em perceber o que é que diz o livro
porque uma pessoa fica curiosa,
’tás a ver, no sentido de “ok, ‘tão a falar sobre isto”.
Mas, por outro lado, é estarem a dissecar
a sexualidade dalguém
e isso não é correto.
[Diego] Eles pensam que ‘tão no direito de fazer tudo o que lhes passa pela cabeça.
É tipo: metam só na vida deles [mesmos].
[Alexandre] Ya, porque, lá está,
há um ponto ali em que eles entravam
nestas coisas que a gente teve a ver
que entravam “ai, a intimidade do rei
não tem que ser revelada.
ai, pode pôr em causa…”. Primeiro,
ya, não tem que ser revelada,
então porque é que estamos a falar sobre isto?
[risadas]
[Diego] E ‘tavam mesmo dentro do assunto.
[Alexandre] “E pode pôr em causa…”
Mas pode pôr em causa o quê,
em concreto?
[Diego] Nada…
[Alexandre] O rei ser Bissexual vai pôr em causa
o quê?
Se a mulher dele souber,
mesmo que não soubesse, mas é tipo
não parece que esteja incomodada com isso.
[Diego] Verdade.
[Alexandre] Não me pareceu.
[Diego] E é uma coisa que é entre eles os dois enquanto casal.
[Alexandre] Sim…
[Diego] Nós não temos nada a ver com isso, na verdade.
[Alexandre] Tal como se calhar não está incomodada
dele ter tido outras namoradas antes
de ter namorado com ela e casado, etc, etc…
[Diego] Sim, verdade.
Tipo, todos nós já tivemos uma vida antes dos nossos cônjuges de agora.
[Alexandre] Sim, sim, sim.
E o que é que tem uma coisa a ver com a outra?
Depois a Bissexualidade do rei entra onde,
lá está, estávamos a dar um bocado,
’tou-me a repetir, mas
entra onde naquilo que é a gestão
das tarefas que ele tenha que fazer
ou da sua função enquanto rei?
Onde é que entra?
[Diego] Nada.
[Alexandre] É que…
Onde é que a Bissexualidade entra aqui?
É o quê? acham que ele agora vai casar com um homem?
Vai-se divorciar da mulher e vai casar com um homem?
[risadas]
[Alexandre] E se for?
Qual é a cena?
[Diego] E todas as relações acabam… Até podia ser com outra mulher…
[Alexandre] Não, porque…
[Diego] Mas se fosse com outra mulher não diziam nada
[Alexandre] Tu tens atualmente
acho que é a princesa
dum reino qualquer aqui na Europa,
não me estou a lembrar qual é que é, eu li isto há pouco tempo,
que assumiu a sua Bissexualidade.
E é tip:
ok, está tudo bem.
Não houve um “escândalo”.
É tipo…
[Diego] Eu acho que é:
homem com homem é “pior”.
[Alexandre] Sim, é visto…
[Diego] Sim…
A É mal visto
na sociedade, duma maneira diferente.
[Diego] Porque o contrário é mais naquela questão erótica,
porque o homem
pensa que as mulheres estão juntas para ele.
Acho que depois entra um bocadinho mais nessa questão.
[Alexandre] Sim, sim, fetichização.
[Diego] Fetichização, sim, exatamente.
[Alexandre] De relações entre duas mulheres, sim.
Não só, e é visto só como
estando à procura da atenção.
Tipo: é visto como uma mulher hétero que está confusa
à procura da atenção
e é desejável, como nós já falámos
num episódio, é quase desejável,
porque fetichização.
Enquanto quando são dois homens
é visto como o homem é Gay
automaticamente, mesmo que já tenha namorado com 50 mulheres e é visto lá está como menos homem, menos masculino
(o que quer que isso queira dizer).
[Diego] E vamos ver como é que vai ser daqui
pra a frente, tendo em conta que pronto já ’tá a circular
nas notícias o livro
e que ele esteve com vários homens;
quando ele aparecer nas notícias se
depois vão tentar buscar aquele assunto
“ah, é porque há um mês atrás
saiu um livro que ele ’teve com homens”,
Será que eles vão ‘tar sempre a puxar esse tema?
[Diego] Ya. Mas e… E a certo ponto
é chato,
porque imagina…
Vamos imaginar a situação de que
ele até é Bissexual, porque
não sabemos, lá está,
nem temos que saber, por um lado.
Obviamente eu percebo que há aquela curiosidade,
porque é sempre interessante ver mais figuras LGBT
publicamente, mas ao mesmo tempo
este tipo de situação em que é literalmente,
se ele for, é literalmente um outing [= saída forçada do armário],
em que não é consentido,…
[Diego] Verdade.
[Alexandre] …em que não dá para a pessoa…
[Diego] Ser por ela?
[Alexandre] …ser por ela
e preparar-se, porque obviamente
a pessoa tem um cargo de relevo
e há este choque na sociedade,
como se fosse um escândalo que não é,
e a pessoa também
tem que ter o seu espaço
para se preparar psicologicamente
para essa situação
e para decidir.
Vamos imaginar que ele é Bissexual.
Ok, porreiro.
[Diego] Ele podia não querer dizer nada.
[Alexandre]
[Diego] Ele podia não querer dizer.
Não tem que se assumir,
porque sabe que na posição em que está
isto iria acontecer, porque somos uma sociedade completamente retrógrada,
mas
é um direito dele escolher se quer ou não divulgar isso,
nos termos dele.
E, lá está, como tu dizes:
será que agora vão trazer isto para cima da mesa
noutras situações?
Não é? tipo…
Porque depois
isto fica numa situação um bocado
de impasse para a pessoa,
porque neste momento, por
aquilo que eu percebi, até agora
há um silêncio por parte
da casa real espanhola.
Que é normal,
porque é assim
mesmo que eles viessem a dizer
“não, isto é mentira”…
[Diego] Ia-se espalhar na mesma, da mesma maneira.
[Alexandre] Ia-se espalhar na mesma
e as pessoas nunca iriam acreditar.
[Diego] sim, é verdade.
[Alexandre] E se vierem dizer que é verdade
“ah, pois
andaram aqui a tentar esconder isto,
não sei quê”.
[Diego] Aí fogo… Imagina duma maneira ou outra as pessoas falam.
Mas agora
pela negativa ou pela positiva,
não sei o que é que iam falar mais…
Será que iam esquecer mais o assunto se dissessem
“olha, realmente o rei é Bissexual”?
[Alexandre] É pá, não sei, não sei.
Honestamente,
tipo, não sei,
porque
é um bocado como aqueles não-assuntos.
Eu lembro-me que quando era miúdo
falava-se também bué
que o Cristiano Ronaldo deveria ser Bissexual ou Gay.
[Diego] Também falavam do Justin Bieber também.
[Alexandre] Ah, sim, o Justin Bieber.
Mas o Justin Bieber acho que era por razões diferentes.
Acho que era porque quando ele era adolescente
tinha uma vozinha muito mais fininha
e isso, e então gozavam com isso.
[Diego] Tudo para eles, tipo, que foge ali um bocadinho é Gay.
[Alexandre] Mas o Ronaldo eu nem sei bem donde é que isso começou,
mas era tipo…
E ainda hoje em dia de vez em quando há quem traga isso para cima da mesa.
Tipo há uns anos
quando eu e a Sofia ’távamos a gravar no início de 2025
o episódio no início do ano
aparecia lá uma notícia tipo de junho de 2024
que era “vidente
que diz que Cristiano Ronaldo é Bissexual
prevê o apocalipse” ou uma coisa assim qualquer do género.
Portanto de vez em quando
ainda vão buscar isso.
[Diego] Mas isso deve ser somente para…
é tipo clickbait,
que é para começar a subir visualizações
[Alexandre] Epá, não sei.
Não sei. É tipo…
Eu acho que,
por um lado, é tipo:
só o dissecar este tema já é mau,
mas é tipo
o jornalista que escreveu o livro é tipo…
Qual é o propósito?
Qual é a cena?
[Diego] Se calhar queria ser mais um
debaixo dos lençóis como ele, só pode.
Eu não vejo outra coisa…
[Alexandre] Pá, imagina,
às vezes eu gostava francamente de perceber
donde é que vêm estas ideias,
porque
enfim…
Claro que
se ele for Bissexual
era um ponto importante se calhar
para a comunidade,
até mesmo em Espanha,
pela visibilidade que traz
uma figura
como um rei
dum país tão grande como Espanha
ser uma pessoa LGBT
e se isso fosse abertamente,
mas lá já deveria ser nos termos dele,
se ele o quisesse assumir ou não, se for.
[Diego] Sim, mas acho que ele agora que saiu esta notícia
ele tem duas hipóteses: ou ignora ou então
diz-se que se é ou não é.
[Alexandre] Sim.
[Diego] Mas agora temos que esperar.
[Alexandre] Sim.
Não, o que eu estava a dizer era na perspectiva de:
obviamente uma figura deste género
poderia ter um impacto bastante positivo
para a comunidade.
[Diego] Tendo em conta que ele é uma…
É respeitado.
[Alexandre] Sim, e com a visão que tem ’tás a ver
e com…
Epá,
e se tiver um perfil em que
seja uma pessoa
que se alie à comunidade,
isso pode ajudar imenso,
tendo em conta os retrocessos que estamos a ver no mundo
pode ser um ponto importante para…
Pode marcar um ponto, sabes, importante.
[Diego] Sim.
[Alexandre] Mas, por outro lado,
se não for
também não é um problema.
É uma pessoa como qualquer outra
e tem o direito
de ter a sexualidade que tenha
seja um homem hétero,
seja Bissexual
ou seja Gay
ou seja o que for.
[Diego] Sim ele pode ser um…
um ally [= aliado], né?
[Alexandre] Humhum.
Para ‘tar,
digamos, do nosso lado
e se calhar até
deixarmos ser tão perseguidos como
vamos começar a ser, infelizmente…
[Alexandre] Não vamos, já estamos.
[Diego] Sim, sim.
[Alexandre] Já estamos.
No último episódio falávamos
do retrocesso em direitos Trans e Intersexo em Portugal,
que obviamente eu imagino que preocupa qualquer
pessoa, seja ela Trans ou não,
mas especialmente as pessoas Trans.
[Diego] Sim.
[Alexandre] Porque eu conheço pessoas que foram
à pressa
tratar de fazer,
ou seja aceleraram o processo
de mudança de nome
e do marcador,
com medo de que a qualquer momento
deixe de ser possível.
E que se calhar não era uma coisa que queriam fazer já já já,
porque estão a fazer o seu processo,
mas que aceleraram porque…
porque não se sabe o dia de amanhã.
[Diego] Sim, infelizmente é uma icógnita que ‘tamos a viver neste momento
e há tanta coisa no mundo
(em Portugal vá, neste caso)
que há para mudar,
tiveram que ir primeiro às minorias.
[Alexandre] E há coisas mais preocupantes tipo: a saúde,
educação,
transportes públicos,…
[Diego] A habitação!
[Alexandre] …energia, habitação.
[Diego] Ninguém consegue comprar casa.
[Alexandre] Ya! Ninguém consegue comprar ou arrendar uma casa,
a não ser
que tenha muito dinheiro.
[Diego] Vais pra uma casa de pedra, olha lá,
depois pedes um aconchego…
[Alexandre] Uma casa de pedra, Diego?
Aqui na nossa zona…
[risadas]
[Alexandre] Não…
Aqui na nossa zona tens ruínas,
tipo ruínas,
tens tipo 4 paredes, ruínas,
tudo cheio de ervas,
com um mini terreno…
[Diego] Sem tecto!
[Alexandre] Ya, à venda por 300 mil euros!
[Diego] Imagina, é grande luxo.
Tu vais dormir e olhas pra as estrelas.
[Alexandre] Pra as estrelas, ya.
[Diego] Exatamente.
E vês a lua a passar.
[Alexandre] Ya.
[risadas]
[Alexandre] Iluminação natural.
[risos]
[Alexandre] Não precisas de gastar energia.
[Diego] Não precisas de despertador,
acordas com o sol.
[Alexandre] Ya, e com os pássaros.
[Diego] Exatamente.
[Alexandre] Ou no inverno com uma chuvinha.
Mas é tipo…
E tens toda uma série de problemas agora também
tinha sido,
e falámos disso no último episódio,
umas semanas antes
tinha sido
não aprovado,
portanto,
um projeto de lei que era pra proibição de bandeiras
que não fossem as bandeiras
nacional ou de símbolos locais
ou como eles lhe chamam
“bandeiras de cariz partidário,
ideológico
ou”…
‘Tá-me a faltar o outro termo.
Mas depois agora aprovaram um diploma qualquer
que proíbe bandeiras de cariz
“político, ideológico ou partidário”
[Diego] Provavelmente vão meter na mesma…
[Alexandre] Eu gostava de saber tipo mesmo
o que é que o texto de lei diz,
porque isto é ridículo,
porque: ok
uma bandeira…
Proibição de bandeiras de cariz político:
uma bandeira nacional
ou uma bandeira duma autarquia
é uma bandeira de cariz político,
porque defende um movimento político
e defende as aspirações políticas
das pessoas que representa.
[Diego] Sim, é verdade.
[Alexandre] Portanto.
E depois também é:
o que é que hastear
uma bandeira,
seja ela qual for,
Porque isto proíbe
qualquer tipo de bandeira.
Portanto,
nos edifícios públicos
costumam-se hastear
bandeiras,
obviamente bandeiras LGBT
como a bandeira
seja uma bandeira arco-íris,
bandeira progresso,
seja uma bandeira Trans,
para assinalar esses dias,
mas também são hasteadas
bandeiras de,
pela celebração,
por exemplo:
bandeiras comemorativas
de determinadas coisas
ou até por exemplo
bandeiras de clubes,
quando ganham campeonatos
ou prémios relevantes.
Portanto toda uma série
de celebrações
que são legítimas
e, de repente,
“ai não
agora não”.
[Diego] Não é só pra as nossas.
Vais ver que o pessoal
vai continuar a andar
com a bandeira de Portugal
quando joga Portugal,
quando joga o Benfica,
o Sporting…
[Alexandre] Sim mas isso não é o problema,
tu podes andar
com uma bandeira na rua,
estamos a falar em hastear
em edifícios públicos,
tipo na Câmara Municipal de Lisboa,
por exemplo,
que costumam hastear
sempre a bandeira
a bandeira LGBT
no dia 17 de Maio.
[Diego] Com algum esforço,
mas sim.
[Alexandre] Sim.
Ou que quando ganha
seja o Benfica,
seja o Sporting,
hasteiam a bandeira
e recebem lá
a equipa campeã.
Isto passa a ser proibido.
A questão é:
qual é que era o problema aqui,
em qualquer uma destas situações?
[Diego] Imagina, não vejo problema nenhum,
mas vá-se lá saber
o que vai na cabeça deles.
[Alexandre] Qual é que é o problema? “Aí hasteou-se…”
Qual é que é o problema? A bandeira fez mal a alguém?
[Diego] É só um tecido, é um pedaço…
[Alexandre e Diego] É um pedaço de tecido!
[Alexandre] É um pedaço de tecido!!
[risadas]
[Diego] É a mesma coisa
que as roupas,
o que é que…
Se eu quiser andar de saia
na rua,
esquece.
Aí vou ser… Olhares
e se não for
passar para
agressões físicas
e verbais…
[Alexandre] Mas pelo menos
ainda podes andar de saia,
se quiseres.
[risadas]
[Alexandre] Ainda não se lembraram
de proibir
homens de andar de saia,
porque acho que
calhar é a próxima medida
a seguir.
A seguir os homens
não podem andar de saia
e as mulheres
não podem andar de calças.
Deve ser a próxima medida
a seguir,
porque
este governo
só tem tratado de
coisas muito importantes. [ironia]
[Diego] Ya, realmente. [ironia]
[Alexandre] Entre aspa.
Estou a ser bastante irónico.
[Diego] Até porque nós conseguimos
fazer tudo né?
Só a roupa é que ’tá um bocadinho… [ironia]
[Alexandre] É tipo…
É como a questão
das leis Trans
e Intersexo.
Quem é que isto
afetava?
Ninguém.
Qual é que era o problema?
Ninguém. Nenhum,
as vamos reverter.
Bandeiras
que não sejam
as bandeiras
dos locais
ou nacionais
em edifícios públicos,
quem é que afetava?
Ninguém.
Qual é que era o problema?
Nenhum,
mas pronto…
E agora também
com aquela petição (que acho que mal passou das das 17 mil,
não sei, assinaturas) que era para reverter a lei que proíbe as
“terapias” de conversão. E eu aqui ponho umas aspas enormes, porque aquilo de terapia não tem nada. Eu gosto mais de lhes
práticas abusivas de tentativa de conversão à heterossexualidade.
[Diego] Sim, é verdade. É tipo, entrava-se no consultório: “Bom dia, olhe sou Gay”, epá lançavam assim um feitiço
“ah pois olha, realmente, obrigado doutor, era isso que eu ‘tava a precisar. Pá hoje acordei mesmo a sentir-me mesmo Gay”. [ironia]
[Alexandre] Não, há um filme, agora que ’tás-me a lembrar disso,…
[Diego] Que eles usavam a homossexualidade para…?
[Alexandre] Não, não. Que brincam com essa questão. É um filme que se chama “Hurricane Bianca”. Basicamente, o plot
tem a ver com um homem,
acho que é Gay, que ele é uma drag queen
e que vai ser professor numa escola
e quando vai lá enquanto homem Gay é depois
expulso por ser Gay e regressa
lá disfarçado em drag,
para dar uma lição às pessoas,
basicamente. E esta é
no segundo filme. É
quando há uma trama que
ele vai parar a Rússia
e precisamente
falam da questão
da opressão na Rússia. E há essa brincadeira, porque aquilo é uma
comédia. E portanto tem que…
O amigo Gay dele que ‘tava com ele é preso
e precisamente
depois a seguir iam fazer as terapias para
“converter” e basicamente era:
contrataram a drag queen e a outra pessoa
que é disfarçada, que achavam que eram prostitutas,
que eram para pô-las junto
do homem e ele todo ligado a umas
máquinas e com cenas de choque e não sei o que.
Obviamente aquilo é brincadeira, lá está
mais uma vez. É comédia. Mas era
tipo à espera de que as mulheres o fizessem ter uma ereção
e se isso se fizesse, então ele estava “curado” e já não
era Gay.
[risos]
[Diego] Eu tenho que ir ver esse filme!
[Alexandre] Mas basicamente, as terapias de conversão…
Há um vídeo,
que nós até depois de conhecer o episódio podemos partilhar,
que é duma mulher Trans
do Reino Unido,
que ela fala do que é que foi passar nos anos
“terapias”.
E precisamente ela descreve… Eu nunca consegui
ver o vídeo todo. O vídeo, se não me engano, tem tipo
[Alexandre] Imagina, é pesado o que ela está a
contar. Só a parte que ela diz,
isto agora é um bocado
pesado, se calhar, para quem não está a ouvir, mas
vou tentar parafrasear. Que ela
tinha, portanto, era elétrodos colocados no pulso
e nas mãos, dentro de…
Portanto, amarada a uma cadeira, os elétrodos
ligados às mãos, dentro de água
com sal para melhorar
a passagem da eletricidade.
[Diego] Sim.
[Alexandre] E depois tinhas tipo um
ecrã à frente, ou um projetor, whatever [= o que seja],
em que passava tipo imagens
de mulheres, pronto:
mulheres bonitas, mulheres cis.
E quando, ao fim
duma ou duas imagens, aquilo dava-lhe tipo
choques cada vez mais fortes.
[Diego] Ya.
[Alexandre] E basicamente
ela explica: aquilo era para ela associar
dor à forma como
ela se via, àquilo que ela queria ser.
[Diego] Ei, isso era horrível!
[Alexandre] Ya! E tinhas, desde…
Estas práticas, incluem desde cenas como:
privação de fome,
agressões,…
[Diego] de sono também.
[Alexandre] agressões psicológicas. Sim, privação de sono também,
agressões verbais e psicológicas.
E estamos a falar
de coisas como amarrar pessoas,
submeter-las a choques elétricos,
submeter-las a
sufocamento, seja
a privação do ar, seja
tipo de baixo de água.
Basicamente: tortura,
do mesmo tipo de tortura que se vê
naqueles tipos de filmes de guerra antigos,
de torturar prisioneiros para obter informações,
basicamente. Torturas desse género,
que acabavam por levar muitas pessoas
ao suicídio, ou até a graves
problemas mentais para o resto da sua vida.
[Diego] Ficavam traumatizadas.
Olha se me fizessem isso? Aí eu não sei o que é que…
[Alexandre] Portanto, ‘tamos a falar
disto e, obviamente, também, toda uma série de…
em práticas que envolvem, portanto,
também medicação forçada e não
controlada nem regulada, ya,
e este tipo de coisas.
Há toda uma panóplia ali de coisas,
porque isto não são terapias, isto não tem qualquer eficácia.
As pessoas nascem com a
sexualidade com que nascem
e nada as vai
fazer mudar isso. Até porque
se fosse possível mudar, como disse há pouco tempo
uma comentadora na televisão,
a maioria das mulheres estariam a deixar de ser
héteros e a serem todas Lésbicas, porque:
gostar de homens nesta economia?! Não, muito obrigado! [ironia]
[risos]
[Diego] Verdade!
[Alexandre] Não é? Portanto, se fosse uma escolha,
não havia tantas pessoas a gostar de homens.
Sem ofensa a nós dois,
porque somos homens, mas a nós próprios reconhecemos isso.
[risos]
[Diego] Infelizmente.
[Alexandre] Infelizmente. Portanto, a realidade é essa. Se fosse uma escolha,
não havia tantas pessoas a gostar de homens
e os coitados, especialmente sos homens héteros,
não iam passar muita fome.
[Diego] Mas se tivessem dois dedos de teste e conseguissem pensar
pela própria cabeça, a cabeça de cima,
percebiam que aquilo
que nós sentimos, por exemplo, nós gostar
de homens não é porque ‘tamos
a ir contra a sociedade e queremos
ser rebeldes. É como nós nos sentimos.
[Alexandre] E faz parte. Faz parte daquilo que cada pessoa
é. Faz parte biologicamente.
Se entrarmos na parte
científica e biológica, isto acontece em
praticamente todas as espécies de animais
que se consegue observar.
A maioria das espécies
chega a ultrapassar
os 80%. Na espécie humana
estima-se que é entre os 70% e os 86%.
Há espécies com percentagens ainda maiores.
E aqui, quando falo em 70% a 80%, estou a falar
de Bissexualidade.
[Diego] Não é os pinguins? Acho que os pinguins é que têm a taxa maior.
[Alexandre] Eu acho que os pinguins é bem mais alto.
Mas, por exemplo, também acontece nas baleias,
golfinhos. Mas é tipo…
Basicamente, existe em todas
as espécies. E isto faz parte daquilo que nós
somos. Não há nada de errado
com isso. E é tipo: ok,
não queres… És um homem
e não queres namorar com um homem.
É só não aceitares um pedido de namoro dum homem.
Não te queres casar com um homem. É só não aceitares
um pedido de casamento dum homem.
[Diego] Exato, voltamos ao início da conversa.
[Alexandre] Não queres ter sexo. É só se um homem quiser
ter sexo contigo, dizes que não. E se ele continuar
a insistir, Vais à polícia porque está
a assediar-te.
[Diego] Ya.
É simples…
[Alexandre] É tão simples quanto isso.
[Diego] Mas ficam logo todos ofendidos.
Mas depois eles também ficam ofendidos, que é…
Por exemplo, tu dizes que és Bissexual:
“ei, mas não venhas pra cima de mim”. E se disseres “ah não, olha não sinto nada
por ti”: “Ei! Como assim não sentes? Olha para mim,
sou todo gostoso”.
[Alexandre] Ya, ya, ya.
[Diego] Eles ficam logo ofendidos.
[Alexandre] “Ah ya, não és sequer o meu tipo”
“Como assim não sou o teu tipo?”
[Diego] Ya! Eles ficam logo bué ofendidos.
[Alexandre] Ya!
[Diego] Como se fossem ali um deus grego.
[Alexandre] É o ego.
Problemas de ego. Acho que os homens sofrem demasiado disso.
[Diego] Eles são frágeis.
Esquece, eles são muito frágeis.
[Alexandre] Ya.
[Diego] Há muitos homens cis que então…
[Alexandre] Mas ainda tocando aqui na questão das “terapias”,
“terapias”,
destas práticas de conversão,
depois surgiu agora a
contrapetição que já ultrapassava
as mais de 70 mil assinaturas,
que é… Completamente extravasou a outra.
[Diego] Abateu a outra.
[Alexandre] Foi um enorme trabalho da Maria João Vaz,
que foi a primeira signatária
e proponente da petição.
Portanto, foi mesmo um trabalho espetacular.
[Diego] Parabéns!
[Alexandre] Aliás, esta petição já deu entrada na Assembleia,
agora no dia 22.
Portanto, esperemos que quem está desse lado
também tenha contribuído para este grande número.
Vamos lá ver se este retorcesso não acontece.
Gostava de ver uma união da comunidade
à volta das questões Trans e Intersexo,
como houve, em relação às “terapias” da conversão.
[Diego] Sim. É importante ‘tarmos todos juntos.
[Alexandre] Sim.
[Diego] E remarmos todos pra o mesmo lado,
que é para não haver mais retorcesso
do que aquilo que já está a haver, infelizmente.
[Alexandre] Sim. Vamos ver se não há mais este
retorcesso, não é? Porque…
[Diego] Esperemos que não.
Porque se não, as pessoas que ‘tão agora a iniciar
a parte da transição, elas vão
sofrer muito mais.
E, infelizmente, espero que não aconteça,
a taxa de suicídio
é capaz de aumentar um pouco.
E temos que ‘tar todos pra o mesmo lado
pra evitarmos que isso aconteça.
[Alexandre] Sim. E mesmo na questão das “terapias”,
das práticas de conversão,
lá está, é importante
que não se volte atrás,
porque essa legislação
foi muito importante, e a nível europeu
está-se também a tentar agora avançar
na proibição, a nível da União Europeia,
das práticas de conversão sexual e de género.
Portanto, acho que
é algo que não podemos deixar,
porque se começamos a deixar cair
estes direitos,
a seguir vêm atrás dos outros todos.
E se calhar daqui a uns tempos ‘tamos a discutir
a revogação do casamento,
a revogação da adoção e co-adoção,
da procriação medicamente assistida,
que ainda não existe para casais de homens.
Portanto…
[Diego] É importante não deixarmos as coisas…
[Alexandre] Em vez de ‘tarmos a avançar,
‘tamos num período em que parece que está cada vez
mais propício para
andarmos para trás em várias coisas,
e não podemos deixar que isso aconteça.
[Diego] Temos de ‘tar a zelar
sempre pelos nossos e pelos outros,
não só sermos egoístas e pensarmos em nós,
porque hoje somos nós, amanhã podem
ser vocês, e assim sucessivamente até
eles chegarem até onde querem chegar,
que é acabar com toda a gente.
[Alexandre] Ya! O episódio de hoje fica por aqui.
Os nossos episódios atualmente saem a cada
duas semanas, por isso o próximo será daqui
a duas semanas.
[Diego] Fiquem bem até lá e…
[Todes] Venham Bialogar connosco!
