Neste episódio, recebemos a última das novas pessoas co-apresentadoras do podcast enquanto falamos da sua descoberta identitária e sobre o que é ser Omnissexual. 🩷💗💜💙🩵
Falamos ainda sobre invisibilidade, rótulos e falta de referências, sobre o NuPRIDE (e a importância dos núcleos Queer universitários), abordando ainda o que é ser-se Agénero.
Participem também nos comentários. 🦄
Venham Bialogar connosco! 💗💜💙
Publicação: 13/03/2026 | Duração: 42min 42s | Produção: 8,5h | Legendas: no YouTube
Avisos: Contém menções de invisibilidade, “saída do armário”, processo de “saída do armário”, questionamento identitário, invalidação e transfobia. Contém breves menções de bifobia, saúde mental (stress), bullying e morte (em contexto de constatação da realidade da vida).
Pessoa(s) Convidada(s)
Não houve pessoas convidadas neste episódio.
Referências
Personalidades
- Lady Gaga: Cantora, compositora e atriz Bissexual Estadunidense.
Eventos e Datas
- 3.º Queer Summit (2025): 11 de Março de 2025, evento LGBTQIA+ realizado pelo NuPRIDE.
- 4.º Queer Summit (2026): 10 de Março de 2026, evento LGBTQIA+ realizado pelo NuPRIDE.
- QueerNatal Lisboa: 29/Novembro a 1/Dezembro de 2025
- Bi Fest (2025): 1 a 30 de Setembro de 2025, 1.ª grande agenda de eventos da Visibilidade Bissexual em Portugal.
- Expo FCT
- Arraial Lisboa Pride
Associações, Coletivos e Grupos de Apoio
- NuPRIDE – https://linktr.ee/nupride_aefct
- Núcleo ISPride – https://linktr.ee/neispride .
Termos e Expressões
(em edição)
Transcrição
[João] Alô, alô! Bem-vindes ao podcast Bialogar. Eu sou o João.
[Alexandre] Eu sou o Alexandre.
Hoje temos connosco uma das novas pessoas co-apresentadoras: o João,
pessoa Agénero, Omnissexual. Usa quaisquer pronomes.
Foi membro do NuPride. E acho que começo por aqui,
porque tu foste mais do que membro do NuPride, fizeste parte da direção.
[João] É verdade. Aliás, continuo a ser membro do NuPride,
mas fui direção no ano passado.
Fui secretário, mais concretamente.
Já agora, falando um bocado do que é o NuPride,
o Núcleo Pride, é o núcleo Queer da Faculdade de Ciências e Tecnologia
da Universidade Nova de Lisboa.
Fazemos vários eventos com base em visibilidade LGBT e de saúde sexual também.
Um dos nossos maiores eventos é o Queer Summit,
que aconteceu no dia 10 de março.
[Alexandre] Na última terça-feira, que estivemos nós também presentes.
[João] Pois, exatamente. E foi lá gravado o episódio do podcast também.
[Alexandre] Exatamente, que sairá daqui a duas semanas.
No fundo, o NuPride, à semelhança também do ISPride,
que foi falado no último episódio,
da nossa co-apresentadora Bruna,
é precisamente um núcleo universitário dedicado às pessoas Queer.
Portanto, para trazer essa visibilidade que falaste,
mas também para trazer estes grupos de apoio,
estes núcleos onde as pessoas se podem sentir bem
em ambientes em que, por vezes, não se fala tanto sobre isto.
[João] Sim, sim. Quando eu digo visibilidade,
é não só no aspecto de informar
e, pronto, falar destes assuntos mais tabu, às vezes, na sociedade
e sobre, às vezes, algumas informações ou identidades menos conhecidas,
mas também a ideia de criar um espaço seguro para qualquer pessoa,
inclusive as pessoas não-LGBT, fique já registado
que uma das fundadoras do NuPride, inclusive, era uma pessoa Cis-hétero.
Pronto, e então também temos esse objetivo de criar um espaço seguro,
apesar de, tecnicamente, não termos um espaço físico como núcleo.
[Alexandre] Mas que, lá está, nos eventos que fazem e nas coisas que vocês criam,
acabam por criar esse espaço em que outras pessoas sabem que podem recorrer
quando estão nesse ambiente universitário,
embora alguns dos vossos eventos não sejam só para quem está nessa universidade em específico, não é?
Muitos eventos são também abertos.
[João] Sim, sim. Inclusive, o próprio Queer Summit, que já mencionei.
Já fizemos eventos também fora da faculdade, em colaboração com outras associações.
Participámos também no QueerNatal, a convite do Bialogar.
‘Tou a dizer “participámos”,
pronto, eu ainda sou membro do núcleo, mas estou a falar como se ainda fosse direção.
[Alexandre] Não, mas sim. O NuPride participou, esteve presente lá com a sua banca num dos dias.
[João] Sim.
[Alexandre] E também participaram no Bi Fest.
Também na mesma conversa em que a Bruna esteve presente, esteve o Alex, o atual presidente do núcleo.
[João] Exatamente.
[Alexandre] Que esteve precisamente a representar o NuPride.
E espero também que este ano participem também connosco no Bi Fest outra vez.
Pretendemos levar eventos a Almada.
[João] Sim.
[Alexandre] Mas estes núcleos são, de facto, uma conversa que já se falava com a Bruna,
e que se falou também nesse evento do Bi Fest,
é que são mesmo importantes para pessoas da universidade, até porque
estamos a falar numa altura em que muitas pessoas começam a ter a sua independência
em relação aos pais, em relação à família,
e que também começam a explorar um pouco mais a sua identidade,
a entrar na vida adulta, a explorar toda uma série de coisas.
E às vezes o ambiente universitário é completamente diferente daquele em que estavam na escola,
onde muitas pessoas LGBT já sofrem invisibilidade, bullying,
e toda uma série de agressões e microagressões.
E é importante trazer precisamente estes grupos de apoio.
[João] Exatamente.
E vi muito isso, para além de eu próprio ter sentido,
apesar de não… Pronto, sou de Lisboa,
não sou de um ambiente assim tão isolado como algumas pessoas que vão prá faculdade,
pronto, já lá vou falar mais disso,
sinto que muita gente que na faculdade entra num ambiente que é mais aberto
à experiência do seu ser
e também a arranjar parceiros que nunca pôde ter no passado.
E vejo isso até em maior
escala nas pessoas deslocadas,
que vêm de zonas mais pequenas do país,
que vêm de vilas um bocado no meio do nada,
que vêm das ilhas, se calhar, que também são zonas mais isoladas.
[Alexandre] Sim, se calhar de regiões do país em que acaba por haver,
digamos assim, uma maior LGBTfobia,
ou que estes temas são muito tabu,
e as pessoas não podem ser quem são naquele espaço,
e de repente quando vão para outro sítio,
que já sabem que é mais aberto, que há mais visibilidade,
em que há mais pessoas LGBT,
acabam por poder experienciar-se e ser elas próprias.
[João] Sim, e sei de relatos de pessoas que já ‘tavam na faculdade
antes da criação do NuPride,
que a simples existência do NuPride
marca uma alteração na forma como é visto as questões LGBT,
que mesmo que antes da criação do NuPride
não houvesse propriamente um clima aceso de homofobia,
e bifobia, transfobia, etc.,
também não era um clima propriamente aberto,
que era um clima onde essas questões ainda eram um bocado escondidas,
um bocado, como eu disse antes, tabu.
[Alexandre] Sim.
[João] E um dos grandes objetivos do núcleo é exatamente
abrir o espaço para que estes assuntos sejam falados de forma mais aberta,
e que não haja tanto medo em falar sobre estes assuntos.
[Alexandre] Sim, porque não falamos só de acolher estas pessoas,
falamos também de informar as pessoas que podem não fazer parte,
podem ser pessoas Cis-hétero,
mas informar as pessoas e precisamente também consciencializar.
A Bruna falava muito disso,
que no caso específico do ISPride,
eles fazem muito também campanhas de sensibilização,
das temáticas obviamente de sexualidade,
questões LGBT, mas também saúde sexual,
e portanto é mesmo muito importante,
e cada vez mais estão a aparecer mais núcleos deste género.
[João] Acho que já havia núcleos antes do NuPride,
agora assim de cabeça não sei dizer,
mas sim, há muitos núcleos LGBT, alguns
já com alguns anos,
mas muitos deles surgiram este ano, o ano passado.
E pronto, e como alguém que foi
direcção dum núcleo LGBT,
e que teve contactos com outros núcleos LGBT através do núcleo,
que teve contactos com pessoas doutras faculdades,
que depois também tiveram interessades em ver a possibilidade de ter núcleos,
na sua própria faculdade, semelhantes.
Dá uma certa forma, assim… (não me lembro da palavra em português)
fulfilled.
[Alexandre] Realizado.
[João] Exatamente, obrigado.
O facto do meu trabalho no NuPride
ter de certa forma incentivado muita gente a também criar os seus núcleos
e a também criar este espaço noutras faculdades.
[Alexandre] Sim, que é um espaço necessário,
até porque atualmente vivemos tempos em que as pessoas LGBT estão novamente sob ataque,
[João] Sim.
[Alexandre] E está a aumentar novamente os indicadores do nível de stress junto de pessoas LGBT.
E partindo aqui sobre esta parte,
que é algo que já falámos muito e que também há muito para falar,
começava até pela parte da tua apresentação pelas tuas identidades.
E uma delas
é, precisamente, o tema deste episódio,
portanto, ser Omnissexual,
que é uma identidade que muitas pessoas desconhecem.
Aliás, falávamos sobre isso antes de estar aqui a gravar o episódio.
E como é que ela se relaciona com outras identidades dentro daquilo que é
esta “umbrella”, este termo guarda-chuva que é a Bissexualidade,
ou as sexualidades em que a atração é por mais do que um género,
mas também, se quiseres, também podemos falar sobre a questão do Agénero,
que acho que também é interessante,
que muitas pessoas também desconhecem o que é que é Agénero.
o que é que é a experiência de uma pessoa que não reconhece o género,
ou que não tem género, ou que essa experiência é-lhe irrelevante.
Como é que relacionas estes termos com a tua própria auto-descoberta?
[João] Bem, começando pela parte do Omnissexual,
se calhar começava por explicar o que é que isto é, exatamente.
[Alexandre] Sim, sim.
[João] Para quem conhece o que é ser Bissexual,
se não conhecem, eu explico,
é ser atraído por pessoas de múltiplos géneros,
e pronto, e é um termo assim,
como disse o Alexandre, mais guarda-chuva,
um termo mais amplo, que pode significar desde gostar de dois géneros,
gostar de pessoas de qualquer género, etc.
[Alexandre] Muito abrangente.
[João] Exato.
[Alexandre] No seu todo.
[João] E pegando agora noutro termo, que também é muito semelhante à Bissexualidade,
e que muitas vezes se confunde com a Bissexualidade e qual é que é a diferença,
mas que também é um termo mais ouvido, que é a Pansexualidade.
A Pansexualidade, de certa forma, não é muito diferente da Bissexualidade,
no sentido que também indica uma atração por múltiplos géneros.
[Alexandre] Humhum.
[João] A diferença vai mais nos pormenores.
Bissexualidade, pronto, é uma coisa mais geral, como eu já disse.
A Pansexualidade é, especificamente, mais uma pessoa que sente atração independentemente do género.
[Alexandre] Sim, há aquele termo do “cego em relação ao género”, não vê género, é tipo…
[João] Exato.
Uma pessoa que se identifica como Bissexual pode ou não ter interesse pelo género,
pode ter atração dependente do género.
Uma pessoa Pansexual define-se como alguém que não tem interesse de todo
no género da pessoa, só vê mesmo a pessoa, a personalidade, outras características,
mas que não vê o género.
Pronto, o Omnissexual, assim como o Pansexual, também é algo que se enquadra aqui neste
guarda-chuva da Bissexualidade e que também é muito semelhante à Bissexualidade em vários aspectos
e que tem só diferenças, assim, mais nos detalhes.
O Omnissexual é alguém que tem atração sexual por qualquer género,
no entanto, a atração não é independente do género e existe uma atração diferente
dependente do género. Isto pode-se definir como gostar mais de… preferir pessoas de certo género
ou de certa expressão de género, ou até não preferir nenhum género,
mas a atração ser diferente dependente do género.
[Alexandre] No fundo, é parecido com o termo Pansexual, no sentido em que embarca várias identidades,
mas tem esta diferença enquanto que a pessoa Pansexual é cega ao género,
o género não lhe interessa, o género, a expressão de género,
como tu disseste, atrai-se por várias características, no Omnissexual o género pode ter uma importância
bastante relevante, não é?
Da forma como a pessoa se atrai, das expressões de género, como é que isso mexe com a sua atração, é isso.
[João] Sim, depois até posso dizer coisas mais específicas a mim,
como eu me sinto em relação a pessoas, tendo em conta a minha sexualidade.
Pegando só no termo geral e de como é que se aplica a pessoas no geral,
que se podem identificar com este termo:
Omnissexual é alguém que tem atração por qualquer género, mas não independente do género.
E como estava a falar contigo, previamente a começámos a gravação do podcast,
eu cheguei-me a identificar,
e ainda hoje me identifico com os termos Bi e Pan,
exatamente por me identificar mais com este termo que é, de certa forma, uma subdivisão de Bissexual,
no sentido que Bissexual é um termo guarda-chuva e isto é uma especificação dentro desse termo.
E eu me identifiquei inicialmente mais como Bissexual, por sentir que não me sentia atraído apenas por pessoas femininas.
Mais tarde aprendi o termo Pansexual, mas de certa forma relacionar-me com ele,
de certa forma também não, porque nunca senti uma atração.
independentemente do género, apesar de não sentir que o género era um fator limitante à minha atração.
E só muito tempo depois é que fui a descobrir o termo Omnissexual,
que encaixa-se mais com aquilo que eu sinto.
Que pronto, tal como eu já expliquei e volto a explicar,
sinto atração por pessoas independentemente do género,
mas o género continua a ser um fator que determina a minha atração.
Sinto uma atração diferente por cada género e também da sua relação com a sua expressão de género.
[Alexandre] Ou seja, lá está, a forma como a pessoa expressa o seu género e o próprio género da pessoa
pode despertar diferentes tipos de atração para ti ou a forma como tu te vais atrair por aquela pessoa.
Ou seja, não és indiferente à experiência de género, embora tu próprio sintas que não tens um género. Nao é?
[João] Sim.
[Alexandre] É interessante.
[João] Bem, vamos pronto agora falar do que é ser Agénero.
Para quem já conhece o termo Não-binário, de certa forma é semelhante ao termo Não-binário.
Não-binário é alguém que não se identifica
nem como sendo homem nem mulher.
[Alexandre] Exato. Portanto, é fora desse binário.
[João] Exatamente.
[Alexandre] É um termo também muito abrangente que pode incluir várias identidades lá dentro.
[João] E da mesma forma que Omni e Pan são meio que subsecções de Bi,
Agénero é meio que uma subsecção de Não-binário.
Ser Não-binário pode expressar-se de várias formas.
Pode-se expressar de Género Fluido,
que às vezes sentir-se de uma forma, outras vezes sentir-se de outra,
às vezes sentir-se de forma mais…
[Alexandre] Sim. Ou uma mistura de ambos.
[João] Ou uma mistura de ambos, sim.
Falando em mistura de ambos, também há o Bigénero, não é?
[Alexandre] Sim, Bigénero, Trigénero, também existe.
[João] Trigénero, por acaso, nunca tinha ouvido falar.
[Alexandre] Não, mas eu, por acaso, encontrei há pouco tempo.
Também existe, ou seja, acaba por ser, tipo, pode ser vários géneros dentro…
[João] Sim, sim.
[Alexandre] Há até uma das descrições que eu encontrei que fala de pessoa sentir-se,
portanto, homem, mulher ou pessoa não-binária,
um pouco tudo em conjunto ou em certas alturas haver estas variações.
Portanto, há Queer-género ou Género-queer.
[João] Sim, também.
[Alexandre] Eu nunca sei como é que se traduz bem em português,
porque já ouvi das duas maneiras.
[risos]
[João] Os termos em português também fazem-me sempre confusão.
[Alexandre] Não, e porque eu já ouvi das duas maneiras,
Queer-género e Género-queer,
e pode incluir outras identidades Não-binárias,
inclusive Não-binário pode ser uma identidade em si mesma.
[João] Sim.
Muita gente identifica-se somente como Não-binário.
[Alexandre] Sim, como também mesmo a própria identidade Bi,
portanto, são identidades que podem ser em si mesmas.
E depois também existe, portanto, Agénero.
[João] Sim, voltando ao Agénero.
Agénero é alguém que não sente…
não se sente como um género.
Para mim, especificamente, é a ausência completa de género.
Eu quando penso em género,
e tenho piada porque devido à minha sexualidade
até experiencio género mais pela minha atração
do que por eu mesmo.
Eu, quando penso em mim mesmo,
custa-me pensar o que é que é um género.
[Alexandre] Ok.
[João] Eu não entendo bem o que é que é um género.
Então, tenho um bocado de indiferença a ser chamado
seja homem, seja mulher, seja neutro, seja o que for.
Inclusive, por ser uma pessoa que se apresenta de forma masculina,
até é costume normalmente, apresentar-me e ser referido de forma masculina,
e não tenho problemas com isso.
Mas, pronto, para mim, o ser Agénero é uma ausência completa
duma percepção de género.
Mas, falando do que é ser Agénero no geral,
ser Agénero tem a ver com essa ideia de
não identificares-te com nada em termos de género.
Usando uma analogia (que inclusive foi a tua irmã
que me falou esta analogia pela primeira vez, se não me engano),
há duas ilhas:
uma delas é homem, a outra é mulher.
Depois, há tudo o que há no…
Há o trajeto entre as duas ilhas.
Há aquele oceano todo entre as ilhas.
Depois, o oceano todo à volta das ilhas.
O Agénero não ’tá no oceano sequer.
O Agénero ’tá para lá, disto tudo.
[risos]
[João] É um bocado essa a ideia.
[Alexandre] Sim, é quase também como uma própria rejeição
daquilo que é o género.
[João] De certa forma, sim.
[Alexandre] Porque depois, as pessoas às vezes perguntam,
e eu conheço mais pessoas Agénero,
e precisamente o que eu noto é precisamente pessoas que
mesmo a sua própria expressão de género
é muito fluida, porque também não estão a tentar
estar, de certa forma,
a parecer um género.
Não estão sequer preocupadas se
‘tão com uma postura mais masculina,
ou com uma expressão mais masculina, ou mais feminina,
ou mais neutra, ou fluida.
É, portanto, uma completa libertação
também das próprias expectativas
que existem para o género.
A verdade é que existem para homem
e para mulher. E eu noto que
algumas pessoas também criam expectativas para aquilo que é
uma pessoa Não-binária, que acham que é quase como
uma mistura das duas coisas. E precisamente
o ser Agénero é estar-se também completamente a borrifar
para tudo isso, no fundo.
[João] Sim, Sim! Sim, e já agora, pegando no…
naquilo que acabaste de dizer,
aproveito para acrescentar aqui que
ser Não-binário, Agénero
ou qualquer outro termo dentro desta…
deste guarda-chuva
não significa ser andrógeno, não significa
ser alguma espécie de mistura entre os dois.
Pode significar ser uma pessoa que se apresente
de forma masculina, pode ser uma pessoa que se apresente
de forma feminina, pode ser até alguém que altera:
às vezes gosta de se apresentar duma forma,
outras vezes doutra. Ou até uma pessoa que
de apresentação
é só de uma forma, de…
de atitudes é só de outra.
Pronto, só pra salientar
que estas questões…
[Alexandre] Não tem que ser uma mistura, não tem que ser alguém andrógeno,
nem tem que ser uma pessoa Intersexo.
Porque às vezes também há muito esta confusão
de que uma pessoa Não-binária é regra geral
uma pessoa Intersexo, e não tem que ser.
[João] O que tem piada, porque uma pessoa Intersexo
normalmente é sempre metida numa caixa
de masculino ou feminino à nascença…
[Alexandre] Sim, sem ter qualquer…
[João] Sim, exato.
[Alexandre] …voto no assunto.
[João] Sim.
[Alexandre] É ridículo.
[João] Pois, até porque é metida
nessa caixa logo à nascença.
A pessoa nem voz tem.
A pessoa mal sabe o que é respirar, já é metida na caixa.
[Alexandre] E em alguns casos que eu já vi, nem os próprios
pais chegam a saber.
Há casos de decisões
que são tomadas pelo
médico sem sequer consentimento
sequer dos próprios pais.
Portanto, nem sequer os próprios pais sabem.
E às vezes mais tarde, quando a pessoa desenvolve
algum problema de saúde, alguma coisa, é que descobre
que é Intersexo.
[João] Sim, até porque, pronto, até há casos
de Intersexo que às vezes nem se percebe à nascença.
Por isso, há aqui toda uma complexidade
dentro do que é ser Intersexo.
[Alexandre] Sim, o próprio sexo
é mesmo uma coisa muito grande
e infelizmente não tão estudada quanto devia ser.
Por acaso, há um artigo muito interessante
que foi a minha irmã que me mostrou,
há coisa de quase dois anos,
que explica aquilo que foram as mais recentes
descobertas em termos do sexo.
E o sexo, tal como tudo o resto
e não estou admirado nisso, é também ele
um espetro.
[João] Sim.
Que, obviamente podemos ter aqui como analogia,
que a Naomi faz das ilhas, e temos aqui
uma ilha que é o típico, digamos,
“homem XY” e a típica
“mulher XX”, mas aqui no meio
há muitas nuances,
portanto, que fazem parte
daquilo que é a diversidade humana.
[João] E ‘tamos aqui a falar de cromossomas XX e XY,
mas depois também há muitos outros
aspetos, há em termos hormonais,
em termos físicos
muitas vezes…
[Alexandre] Em termos da própria ativação e desativação dos genes,
porque existem mulheres com cromossomas…
mulheres cis, que nos foram indicadas
como mulheres à nascença e que nasceram com cromossomas
XY e o reverso,
homens cis, assignados como
homens à nascença e que têm
cromossomas XX. Portanto,
existe, porque isto tem a ver com a ativação e desativação de genes
[João] Sim, para não falar de
mosaiquismo, que é uma
condição que algumas pessoas
Intersexo têm, que dependendo das células
até muda os cromossomas.
Não é o mesmo, não é XY
nos cromossomas todos, não é XX nos cromossomas
todos.
[Alexandre] Sim, portanto
há muitas nuances e, lá está,
é a mesma coisa
que acontece com tudo aquilo que costuma estar
como diz a Naomi, fora do binário
seja num binómio
homem-mulher, seja num binómio
sexo masculino vs sexo feminino, ou seja mesmo nas atrações
entre homossexual
e heterossexual. Portanto, tudo o que
está aqui no meio, as pessoas gostam de ignorar
portanto, se as pessoas Bi já são invisibilizadas
as pessoas Pan também são
e as pessoas Omni então…
[João] Sim, aliás, eu já nem me lembro como é que descobrir o termo,
mas eu descobri
anos depois de me assumir
como Bissexual,
já numa altura em que já ‘tava…
já ‘tava no núcleo, já tinha
ido a marchas do orgulho,
já… Pronto, já tinha andado
muito tempo
na internet a ver questões de LGBT:
notícias, conversas,
cenas do género,
mesmo antes de entrar no núcleo, já tinha
conhecido gente do núcleo, já tinha
interagido com atividades do núcleo.
E só muito depois,
coincidentemente ‘tava na internet, e
só aí é que eu descobri o termo Omnissexual,
que é um termo que não…
que ainda não é muito…
muito falado
[Alexandre] Aliás, acho que és mesmo a única pessoa
Omni que eu conheço e por isso é que
também achámos que era tão importante
fazeres parte também do biologar, porque
é um termo pouco conhecido. Mesmo os stickers [= autocolantes]
que nós temos lá na nossa, quando temos a nossa banquinha,
temos uma caixinha com stickers
Omni e muitas pessoas estão a ver,
porque até as cores da bandeira são parecidas,
e eu depois tou a dizer “não, mas esses são Omni” e as pessoas ficam tipo
“o que é isso?”. Como se eu tivesse
sei lá, a falar tipo… “É o que? Omnivoro?”
Já me perguntaram isto uma vez: “é Omnivoro?”.
[risos]
[João] Nunca tinha feito essa associação.
[risos]
[Alexandre] Sim, tipo
Não, não é Omnivoro, não é bem…
Não é bem a mesma coisa.
[risos]
[João] Também sou Omnivoro, não ’tá relacionado
com a minha sexualidade.
[risos]
[Alexandre] Sim, Exato. Mas exato,
é um termo que é mesmo… Aliás eu não sei em que contexto
é que eu o conheci.
Ou foi uma vez na preparação dum
Arraial Lisboa Pride ou uma coisa qualquer
assim, eu descobri o termo
e na altura não sabia o que é que era
e só depois quando foi o Queer Summit e que tu
falaste sobre ser Omnissexual, aí é que
eu percebi o que é que era mesmo o termo
em concreto.
[João] O que tem piada porque,
nesse Queer Summit, já nem foi o último
que houve, já foi o do [ano] anterior,
eu por acaso
até fui comprar
à vossa banca
um sticker… stickers [= autocolantes] com a bandeira
Omni exatamente naquela do
onde é que eu vou arranjar isto se não for aqui.
[risos]
[Alexandre] Lá está, tipo, quando nós encontramos
esses stickers, eu fiquei impressionado por haver
stickers Omni porque eu já compreendia
o que era a identidade, mas não conhecia ninguém
e, lá está, uma coisa é tu veres a definição,
e muitas das vezes não entendes,
outra coisa é conheceres alguém dessa identidade
e tens a oportunidade de haver esta partilha
de experiências e de conhecimento.
[João] Sim.
[Alexandre] E fiquei mesmo espantado com termos os stickers,
daí que achei que eles deviam ficar numa caixinha só deles,
que assim como temos também os Pan.
Mas é mesmo bué difícil encontrar coisas, porque
chegámos a tentar querer procurar,
por exemplo bandeiras: temos as bandeirinhas de mão.
Agora neste momento ainda só temos Bi
e temos Progresso.
A Sofia até me disseram “olha, acho que devíamos ter Pan
e outras identidades tipo dentro da
daquilo que eu guarda-chuva as Bissexualidades”.
Eu disse “ya ok”. Fartei-me de procurar
por bandeiras Omni, não encontro.
Tipo bandeirinhas pequenas, se calhar das grandes é capaz de haver,
mesmo assim não encontrei. Portanto é uma identidade
pouco falada, pouco conhecida e se calhar
muitas pessoas até vão ouvir e até vão pensar
assim “ah pera, mas isto até se relaciona
comigo”, que no fundo acaba por ser um bocado
o teu caso, não é? Tu falas que ‘tavas…
assumes-te como Bi, mas depois encontras
Pan, que era algo que sentias que se calhar era
mais de encontro a quem tu és
e depois de repente ouves Omni e tipo
“oh meu Deus, é isto”.
[João] É! E pronto, nunca tive problemas com o termo Bi
e até hoje não tenho problemas com ele
e em descrever-me como Bi,
exatamente porque vejo também Bi como este
termo amplo, que aborda
todos estes termos.
Mas sim, que se eu quiser
ser específico sobre aquilo
que eu sinto,
o termo que eu uso é Omni, porque é
o termo que eu sinto que me descreve melhor.
É uma daquela
de: se eu disser a alguém que sou
Bissexual, acho que a pessoa entende
mais ou menos
aquilo que eu sou e entende
a ideia de como é que eu funciono,
pronto.
[Alexandre] Da tua atração por vários géneros.
[João] Exatamente. Entende que, pronto,
posso namorar com alguém
que seja mulher, ou que seja homem,
[ou] que seja outra coisa.
[Alexandre] Exato.
[João] Enquanto que Omni
é algo que é mais concreto
para definir aquilo que eu sinto, é uma coisa mais concreta
[Alexandre] Sim, que vai a fundo.
[João] Exatamente.
[Alexandre] explica,
tal e qual, como uma pessoa Pan, quando usa
esse termo, é para explicar precisamente
que a sua atração é bastante ampla…
[João] sim.
[Alexandre] …e livre, lá está,
desta percepção de género.
O teu vai ao encontro de dizer, no fundo,
quase que um reverso daquilo que é
o Pan, neste sentido do género, que é: ok
a minha atração também é ampla, mas
o género tem um papel importante para mim.
[João] sim.
[Alexandre] E, portanto, como estavamos a dizer
neste caso se já há invisibilidade
de pessoas Omni, como estávamos a falar…
Por exemplo, celebridades ou pessoas
que são históricas, conheces alguma
referência, ou seja, tens referências mesmo
especificamente Omni?
[João] Não, de todo. Por acaso não.
Acho que a única vez que me lembro de
ver alguém a dizer que é Omni,
foi numa…
num evento do núcleo,
ainda no ano em que eu era
direção, foi um
EXPO FCT, que é um
dia aberto da faculdade, vão lá
pessoas, maioritariamente
do secundário, conhecer a faculdade
e pronto, e costumam os núcleos também fazer…
ter bancas ao longo da faculdade,
ter atividades pra, pronto, pra apresentar
os núcleos da faculdade aos possíveis futuros
alunos. E passa lá uma pessoa que, por acaso,
mencionou ser Omni. Acho que foi a única
experiência que eu tive com alguém Omni.
[Alexandre] O que nos demonstra de facto esta falta de visibilidade,
não é?
[João] Sim!
[Alexandre] Porque, lá está,
e mesmo quando falamos mesmo dentro da…
da questão, por exemplo, Não-binária,
Agénero, há falta de visibilidade, mas mesmo assim já tem.
Agora mesmo Omni…
[João] Sim.
[Alexandre] É mesmo o mesmo absurdo.
Absurdo, porque lá está, o facto de ser um termo
pouco conhecido, também se calhar faz com que
muitas pessoas não conheçam
e muitas se calhar estão na tua… estão na situação
em que tu já estiveste.
[João] Sim!
[Alexandre] Que é “eu não tenho
um termo melhor, então vou ficar neste termo
que é o termo que eu conheço e com o que eu conheço
e com o que eu me sinto confortável”. E muitas das vezes,
se calhar há mais pessoas que vão ouvir este termo e que vão…
[João] São termos um bocado mais específicos
que vão se aplicar a pessoas que têm
esses sentimentos mais específicos. A maioria das
pessoas provavelmente vai ficar bem
com Bissexual, depois tem estes termos
mais descritivos. E pronto,
não podemos inventar termos
para descrever todas
as coisas especificamente.
[Alexandre] sim, isso é uma conversa que a própria Naomi já teve, que é:
chegas a um ponto em que estás a descrever uma identidade
que só tu é que cabes nela
[João] Pois, exato. Se me perguntarem quantas
sexualidades é que há, digam-me quantas pessoas é que há no mundo, é exatamente o mesmo
número.
[Alexandre] Há uma psicóloga que fala disso até mesmo
sobre a questão de género, que é quantos géneros
é que há no mundo, e ela responde quantas pessoas é que há
no mundo.
[João] Sim!
[Alexandre] Porque cada pessoa
experiencia o seu género de forma diferente.
Eu, por exemplo, lá está, identifico-me como homem,
mas há muitos outros homens
que eu conheço e nenhum deles é igual a mim.
[João] Claro.
[Alexandre] Portanto, não há ninguém que é mais ou menos
homem ou mais ou menos mulher.
É como cada pessoa depois vive essa identidade
até para si mesma. Portanto até mesmo
dentro de pessoas Pansexuais, Omnissexuais
Bissexuais, nem todas elas vivem a sua sexualidade
da mesma maneira. E aqui quando
entramos nestas sexualidades menos
conhecidas, dentro por exemplo do espetro Assexual,
das Demissexualidades e tudo isso, são
sentimentos que podem coexistir,
mas que lá está, se calhar nem toda a gente
se vai identificar com eles, aliás
a questão da Assexualidade, estudos
indicam que é capaz de ser inferior a 1%
da população humana.
Mesmo assim, 1% é muita
gente!
[João] Sim!
[Alexandre] Muita gente, atenção.
Não são identidades irrelevantes, muito pelo contrário.
Mas lá está, não…
Também não vão descrever necessariamente todas as pessoas,
mas são identidades que permitem
refletir também como é que a nossa própria sexualidade
funciona, e que também advém dum grande
questionamento identitário.
[João] Sim, e ‘tavas a dizer
que às vezes diz-se que é 1% ou até
pouco assim falando em percentagem.
Se formos ver, faz-se muitas vezes a comparação
entre algumas identidades LGBT e o “ser ruivo”,
às vezes as porcentagens são assim
próximas. É pá! Também uma pessoa
ruiva, não vês todos os dias uma pessoa
ruiva, é raro haver pessoas ruivas.
Não é por isso não existem pessoas ruivas, não é por isso não se
fala de pessoas ruivas como sendo uma realidade.
[Alexandre] Uma das comparações que eu também já vi,
foi com a população da Rússia, que era a questão
por exemplo, acho que tinha mesmo a ver
com pessoas Intersexo.
A percentagem que se estima era uma percentagem…
Agora não sei dizer, mas acho que era superior
a 4 ou 5%, falavam qualquer coisa assim…
E há alguém que nos comentários estava a dizer
que isso era irrelevante, e há alguém que disse
que era maior, ligeiramente
maior do que a população da Rússia.
A população da Rússia é um país enorme.
[João] Pois!…
[Alexandre] Portanto,
pode parecer pequeno em termos percentuais,
mas nós não nos podemos esquecer que existem
no mundo.
[João] Pois, exato.
[Alexandre] 1% disto
é muita gente.
[João] Sim. Também é outra coisa
que eu ia a dizer. Lembro-me, já há muito
tempo, de ver aqueles
posts nas redes sociais a gozar a dizer
“se achares que és feio, pensa assim
se 1% das pessoas no mundo
gostarem de ti, já são
não sei quantos milhões”, agora não sei
qual é que é o número exato.
E pronto, é meter as coisas em perspetiva.
da população mundial,
ainda é muita gente, ainda é
um país inteiro.
[Alexandre] Sim, sim, sim.
[João] E não dos pequenos.
[Alexandre] sim, sim, sim. E aliás,
quando nós pensamos, por exemplo, Portugal tem 10 milhões de habitantes.
Na população mundial
de 9 mil milhões,
completamente irrelevante, não é um número
significativo, mas também não é completamente irrelevante.
nem que se nós tivermos
Assexuais, que eu acho que são muitas mais até de acordo
com as próprias estatísticas, é muita gente.
E quando falamos até da…
do guarda-chuva da Bissexualidade
que supostamente, de acordo com a ciência,
até pode chegar aos
de acordo com aquilo que é observado
nas restantes espécies e especialmente
nas espécies da mesma família
da nossa, portanto que rondar ali
os 70% ou 80% das populações,
é muita gente.
[João] Pois.
[Alexandre] E no entanto, muita invisibilidade
ao mesmo tempo.
[João] De certa forma, como
sexualidade e género e até sexo
são coisas tão fluídas,
muito mais do que aquilo que a maioria das pessoas
têm noção e daquilo que é estudado,
que se formos a analisar coisas a detalhe
a maioria das pessoas realmente é Bissexual.
Se calhar a maioria das pessoas realmente não está
E quando digo isto, digo em termos de sexo também:
não está 100%…
Se calhar se formos já analisar as coisas todas ao promenor…
É pá…
[Alexandre] Sim, ninguém é aquele
tipologia de sexo
masculino e do sexo feminino
a 100%.
[João] Sim, exato!
[Alexandre] Todos nós temos nuances.
[João] Exato, e não é por isso que uma pessoa é dum sexo mais masculino
que o outro.
[Alexandre] Sim. Também não é por aí que se vai
invalidar, por exemplo, a existência Trans,
porque sempre existiram pessoas Trans. Não é de agora.
E eu diria que é o mesmo na sexualidade,
eu tinha uma conversa destas com uma amiga minha
há pouco tempo, e que ela se identifica
como hétero, mas que está a falar disto
que é: ela sempre achou
que todas as pessoas são Bissexuais.
A questão é: nós vivemos condicionados
numa determinada direção consoante o nosso género,
em que somos assignados à nascença.
Não se fala sobre isto abertamente, é um tabu.
E, mais do que isso,
as pessoas também podem ter preferências
e a forma como vivem a sua sexualidade,
dependendo já de toda esta
base que já foi de
apagar (não é?!): tu tens que seguir pra este lado
ou tens que seguir pra aquele, consoante do teu género.
E muitas das vezes as pessoas, até durante
anos, desvalorizam certas e determinadas
atrações que se calhar tiveram por outros géneros,
mas que na sua cabeça
nunca foram mais do que
se calhar uma amizade ou uma coisa, porque se calhar nem sequer
viam essa possibilidade
e mais tarde… Aliás, isso acontece comigo,
após assumir a minha identidade e
me aperceber, eu comecei a olhar para cenas do meu passado
e pensar assim “hum, será que eu
aqui”… Só vi esta
pessoa desta maneira…
[João] Posso dizer também o mesmo sobre mim,
já agora!
[risos]
[Alexandre] Tipo haver pessoas que eu olhava e pensava assim… Eu realmente
já tive esta conversa com muitas pessoas Bissexuais que é
“eu gosto desta pessoa” ou “eu quero ser
como ela” ou um pouco das duas coisas, não é?!
[João] Sim. E especialmente
em pessoas Trans já é uma conversa que eu vejo muito.
[Alexandre] Lá está, porque acaba por afetar
várias identidades, não é?
Porque a minha irmã dizia isso na conversa
no episódio com ela, que era se ela gostava
da Lady Gaga ou queria ser a Lady Gaga
e no final eram as duas. Mas também, quem é que não gosta
da Lady Gaga ou não quer ser a Lady Gaga?
[João] Se calhar admirávamo-nos com a quantidade de pessoas que diria que não quer…
[risos]
[Alexandre] Mas é um bocado isso…
Tipo, a nossa própria identidade é fluida
enquanto pessoas, enquanto a nossa sexualidade,
portanto…
[João] Sim, eu já conheci também muita gente
que se identifica como Bissexual,
mas tem uma preferência
por um género, ou que
não tem preferência, mas
que ’teve com pessoas de mais de um género.
Ou… Eu já conheci também
pessoas Gays que, pronto
são homens Gays
que só namoram homens, mas que
às vezes vêem uma celebridade feminina e
“Ai, adoro-a!”
ou até uma pessoa fictícia feminina que “Ai, adoro-a!
Ai, acho-a muito gira!
Acho-a muito…”.
[Alexandre] Sim, e pode haver espaço dentro das identidades até
para isso, porque pode também ser só uma atração platónica, nalguns casos.
[João] Sim, sim
[Alexandre] Mas mesmo do que estavas a falar, há muito essa questão de…
da mesma forma que
existe muito um policiamento dos corpos
e pessoas Trans, como aconteceu até recentemente
num reality show aqui em Portugal
de termos, portanto, a apresentadora
super conhecida, mas que eu não vou dizer o nome,
estar a perguntar precisamente a uma pessoa Trans
pela sua genitália.
O que é isto?? Isto é uma invasão
do corpo das pessoas que é absurda!
[João] É!
[Alexandre] E existe…
[João] Por acaso não vi o clipe, só ouvi pessoas a falar dele…
[Alexandre] Eu também ouvi falar sobre isso e fiquei…
porque assim, fiquei chocado
com a situação em si, não por ter vindo
do programa que veio e da pessoa que veio,
porque honestamente…
[João] Pronto, sim…
[Alexandre] As coisas que já vi virem daí, não me choca isso… Choca-me o conteúdo em si.
[João] É um bocado… O tipo de conteúdo que vem desse tipo de programas
também normalmente…
[Alexandre] Sim, e não acontece só cá.
O mesmo tipo de programas no Brasil,
também já vi bastantes relatos
de coisas similares.
E esse policiamento dos corpos e pessoas Trans
também existe noutras identidades
e especificamente nas pessoas que se identificam
dentro deste guarda-chuva da Bissexualidade.
Um policiamento de:
és Bissexual? Então com quantos homens já tiveste?
Com quantas mulheres já tiveste?
Com quantas pessoas Não-binárias já tiveste?
Este policiamento de querer validar a identidade
duma pessoa pelo parceiro
ou parceira ou pela pessoa parceira atual,
ou pelo número de pessoas parceiras
que teve e de quantos géneros é que
essas pessoas eram? Portanto, esse policiamento
também. E deixar também essa nota
importante que ninguém é mais ou menos
Bi, Pan ou Omni por estar a namorar
ou não, por já ter estado com pessoas
de vários géneros ou não, porque cada
pessoa vive a experiência da sua forma. Há pessoas que até só
descobrem que são Bissexuais quando já
estão casadas com o amor da sua vida…
[João] Sim.
[Alexandre] E tá tudo bem, não faz delas
menos Bissexuais.
[João] Há uma história engraçada
que às vezes aparece
em memes aí na internet que foi
uma mulher Trans que
se assumiu como Trans à mulher
dela e que a mulher na mesma altura
assumiu-se como Lésbica. Então
pronto, funcionou.
[Alexandre] E fez sentido, não é?
[João] E acho que até se casaram novamente
[Alexandre] Isso é bué giro!
[João] Foi uma de casar como as nossas…
[Alexandre] Renovação
do laço.
[João] É! Da nossa forma verdadeira,
desta vez.
[Alexandre] Isso é bué bonito.
A história que eu conheço, que é uma história que eu vi
em que basicamente é uma rapariga
que num jantar de família
se assume como Bissexual.
E a avó dela diz
“ó filha, mas todas as mulheres olham
para o rabo das outras mulheres. Isso não é
nada do outro mundo.”. E as outras mulheres
à mesa basicamente disseram
“não, nós não fazemos isso”. E mais tarde
a avó manda uma mensagem a dizer à filha
“olha, eu acho que sou um bocado Bi”.
[risos]
[João] Já, já ouvi essa também.
[risos]
[Alexandre] Eu acho isso super giro, super fofo. Mas é,
às vezes as pessoas não têm um termo
para aquilo que sentem. E muitas das
vezes nós pensamos que aquilo que sentimos é o que
todos os outros sentem.
[João] Sim, e muita gente
seja por não conhecer estes termos,
por ‘tar num clima mais chato ou mesmo
‘tando num clima mais aberto, mas
por tabu ou até mesmo por fobia…
[Alexandre] Ou por falta de informação.
[João] …ou por falta de informação também,
que se identificam como
heterossexuais, mas
que na verdade se calhar
até podem gostar mesmo
do sexo oposto, mas que se calhar até têm
alguma parte mais de gostar
de pessoas não só do…
[Alexandre] Sim, até é daí que acabam por surgir
alguns termos como hétero-curioso
ou bi-curioso que é
pessoas que estão a explorar a sua identidade,
mas também por muitas das vezes por falta de informação,
por tabu, por medo,
estes termos surgem como
uma forma também das pessoas
explorarem a sua identidade
e procurarem,
lá está, perceber como é que se relacionam
com a sua sexualidade. E muitas pessoas
têm muitos tabus, porque há muita
crítica em relação a estes termos e eu percebo
donde é que essa crítica vem, mas
ao mesmo tempo não nos podemos deixar também de esquecer
que estes termos permitem que muitas pessoas
explorem também a sua sexualidade.
[João] É assim, qualquer termo é bem-vindo,
desde que não seja usado como forma de
diminuir os outros, ou de atacar
os outros, ou algo que se pareça.
E, é pá, por acaso, até
se calhar uma opinião um bocado
controversa, até gosto desses termos
de hétero-flexível, esses termos que
mesmo a barreira
entre o hétero e o Bi
que quebram um bocado
e que deixam esse…
a entender essa exploração,
esse descobrimento.
[Alexandre] Sim, até porque podem ser termos transitórios,
só para alguém que está a explorar
a sua identidade. E muitas das vezes
o que acontece quando se está a explorar identidades,
e especialmente na sociedade em que vivemos,
muitas pessoas… aconteceu-me o mesmo,
quando eu comecei a explorar a minha sexualidade e a assumir-me,
o meu receio era
“e se eu vou descobrir que afinal não sou Bi e sou hétero,
e agora disse que sou Bi?”. E isto também pode ser,
muitas das vezes, uma forma das pessoas se aguerrarem
a uma identidade e permitir também uma exploração.
E é tipo totalmente ok.
[João] Sim.
[Alexandre] Aliás, nós devemos poder explorar a nossa
sexualidade em segurança, por isso é que é preciso
educação sexual.
[João] E que, de certa forma, também acaba por esse questionamento
de “ah, mas se me
assumo agora como Bi e
depois não sou”, acaba por ser uma ideia
um bocado parva
de “como assim? Agora
não podes mudar mais. Fica registado”.
[Alexandre] Sim, e não só.
É aquela questão, mas é uma questão que eu tive
muito na altura e conheço outras pessoas que também tiveram
que é: estás-te a assumir e depois não tens a certeza.
Mas é tipo, na vida nós não temos a certeza de nada.
[João] Pois, exato.
[Alexandre] Só a morte. Mas o resto é tipo:
ya pode mudar, ou podemos
autodescobrir-nos, descobrir-nos melhor.
Lá está, tu próprio, como já falaste,
passaste por esta descoberta
de vários termos e outras pessoas, por exemplo, como
a minha irmã e outras que eu conheço que também
fizeram quase que aqui uma viagem
de autodescoberta por vários termos. Não temos
que nos agarrar definitivamente.
E não é por eu agora dizer que sou Bi, que amanhã não posso
dizer que sou Pan, ou que sou Omni, ou
outra identidade que eu descubra
que se encaixa mais com aquilo que eu sou.
[João] Sim.
[Alexandre] O que é que tu sentes
neste caso, por exemplo, da visibilidade
que falta para a visibilidade das pessoas
Omnissexuais? Além do próprio
conhecimento e disponibilização de informação sobre
o tema?
[João] De certa forma, eu sinto que devia de haver
mais flexibilidade na ideia de…
isto não só relativamente a Omnissexualidade,
relativamente a estas, vou-lhe chamar
de “microlabels” [= Rótulos mais pequenos]…
uma de haver
mais incentivo a conhecer-se
estas identidades
dentro das grandes identidades, vamos dizer.
Se tu quiseres
meter toda a gente em
Gay, hétero, Bi, Ace
(Ace de Assexual),
provavelmente conseguias.
Algumas pessoas não ficavam lá bem, mas provavelmente
daria. Mas não era o mais
correto. Há aqui termos
aqui no meio que…
[Alexandre] Muitas nuances.
[João] Exato, há aqui nuances, há aqui
muitas coisas no meio que…
Cada pessoa é uma pessoa e
podes meter estas pessoas,
como já foi metido, as pessoas em homem
e em mulher durante anos
e que, entre aspas, “deu”,
mas que não. ‘Tá-se a ver agora
que não é o mais correto e que
não foi o…
[Alexandre] Que nem toda a gente
encaixa. E é este problema que nós temos de seres
humanos, que queremos meter tudo em caixinhas
simples. Portanto…
[João] Digo isto no sentido de: que se está a fazer um
incentivo não é de “Ah, agora
vai-se acrescentar mais uma, agora é
saber estas sexualidade todas”.
Isto não é TPC! Isto nós não vamos fazer
teste. É dar a conhecer-se das identidades
numa de: isto existe,
há pessoas que se identificam
com isto, que deve haver esta…
[Alexandre] Abertura?
[João] …abertura
a explorar estas
coisas e…
[Alexandre] É bonito que as pessoas
explorem.
[João] Sim, e que às vezes até
“olha, tenho um amigo meu que
’tá-se a questionar e que as coisas que ele
conta, que se calhar encaixa-se com isto”,
apresenta-lhe este termo, pode ser que
se identifique com ele, pode ser que
seja algo para ele que faça sentido.
[Alexandre] No fundo, lá está, é também disponibilizar
informação, obviamente, de forma
isenta e sem tabus às pessoas,
não é? Trazer este conhecimento
para…
[João] Sim.
E às vezes usa-se
o argumento do “Ah, a biologia é
básica, é homem e mulher”.
Eu penso assim: “’tá bem, e matemática
básica é que o dois vêm depois do um. Matemática
avançada diz que há números antes do um,
diz que há números entre o um e o dois,
diz que há números que nem
sequer existem, que são imaginários.
Lá porque o básico diz “homem e mulher”,
quando se vai falar do mais avançado
e das identidades das pessoas, existe
todo um espetro no meio.
E o mesmo se aplica também
à sexualidade, que podes falar
só de atração por homens e de atração por mulheres,
mas que existe muito mais pra além daí.
E que deve haver uma maior abertura
e também, pronto, dar a conhecer, se calhar, estes termos
menos conhecidos.
E, não, num sentido de
é a nova coleção do…
[Alexandre] Das orientações, dos géneros.
[João] …dos funkopops das orientações sexuais.
[risos]
[João] Agora há mais…
Adicionaram personagens novas pra mostrar…
Não, é: existem estas
identidades que as pessoas já conhecem e já ouviram
falar. Existem estas identidades que não são tão
conhecidas, que têm estas nuances
e esta intersecção
com as entidades já existem. E se calhar,
até estão dentro destas entidades. Não significa
que…
[Alexandre] Que não sejam válidas.
[João] que não sejam válidas, que não existam.
[Alexandre] Sim.
[João] E que pronto. E que qualquer pessoa que seja Omnissexual,
tu podes meter na caixa do Bissexual
e aquilo encaixa
ali, até que não fica mal,
mas que há aqui uma caixinha que encaixa
melhor.
[Alexandre] É como a Naomi faz essa coisa
com as roupas, não é? Que é…
[João] Por acaso
fui eu que falei disso pela primeira vez.
[Alexandre] Olha, boa, boa.
[João] E ela pegou nisso e, pronto,
fez à forma dela.
[Alexandre] Sim, porque no fundo é
como se tu vestisse aquela t-shirt
que é a que te assenta melhor e com quem tu te sentes
confortável.
[João] É. E pronto, e já agora vou repetir
essa analogia da forma como eu fiz inicialmente.
O Bissexual é como se fosse uma
camisola que ficasse-me grande.
Ela serve-me e consigo ir pra a rua,
fico bem, mas ’tá-me ali um bocadinho larga.
O Pansexual é uma
que ainda me serve, mas que já me ’tá
a ficar apertada. É aquilo já quase
que fico com a barriga de fora, mas
que ainda serve, que ainda consigo vestir.
Enquanto que o Omni é aquela que me fica
perfeita, não fica justa, não fica
larga, fica exatamente no tamanho exato.
E pronto, e às vezes, se calhar, até
gosto de usar uma camisola mais apertada, uma camisola
mais larga, depende da situação.
Mas aquela que me serve realmente é esta.
Da mesma forma que eu
identifiquei-me como Bissexual e, entretanto,
apesar de ainda utilizar
esse termo, identifico-me mais com o termo
Omnissexual, também há pessoas que
já se identificaram como
Drags ou
Travesti, que
agora identificam-se como
Trans.
[Alexandre] Sim, sim, sim.
Podem se identificar como pessoas Trans. Há pessoas que
durante anos se identificavam como pessoas
Trans binárias e, quando descobriram o termo
Não-binário, passaram a identificar-se com esse termo
porque sentiam que esse termo fazia mais sentido
com elas.
[João] Sim, exato.
[Alexandre] Ou pessoas que
antes se identificavam como homens Gays ou mulheres
Lésbicas e, de repente, descobriram esse termo e perceberam
“ya realmente a minha experiência de género
bate mais com isto do que
propriamente com esta”. Portanto, é
perfeitamente fazível.
Ou pessoas que antes se identificavam como…
Eu conheço pessoas que se identificavam
como Gay ou como Lésbica
e que, numa descoberta identitária,
perceberam que, afinal,
até são pessoas Bi ou Pan,
mas que têm uma preferência muito maior
pelo mesmo género que elas.
[João] Sim.
[Alexandre] Portanto, isso é totalmente válido.
Nós ‘tamos sempre a descobrir mais sobre nós
e acho que nunca vamos saber tudo.
Nunca vamos ‘tar, como disse a Naomi, 100% seguros
de quem nós somos.
[João] Sim, e
se não ‘tamos 100% seguros de quem nós somos,
então quanto mais saber todos
os mecanismos e as nuances
da população humana como um geral
e da identidade humana como um geral.
[Alexandre] Ya! Que é complexa.
[João] Pois.
[risos]
[Alexandre] Isto dá tema para muito mais episódios, até porque
temos que trazer alguma visibilidade
também para pessoas Omni e irmos procurar,
porque deve haver pessoas que já se identificaram
publicamente. Temos de descobrir isso.
[João] Por acaso não conheço ninguém,
também não tenho procurado.
[Alexandre] Vais ser tua a grande referência
Omnissexual em Portugal.
[João] Quem sabe!?
[Alexandre] Hoje ficamos por aqui.
O próximo episódio vai sair daqui
a duas semanas. É o episódio 17
que foi gravado no passado dia 10,
no Queer Summit.
[Todes] Venham Bialogar connosco!
