No episódio deste mês, recebemos mais uma das novas pessoas co-apresentadoras do podcast e falamos sobre a sua descoberta enquanto mulher Bissexual, sobre o Núcleo ISPride e a importância dos núcleos Queer universitários e, claro, sobre o recente vídeo polémico e preconceituoso sobre balneários e pessoas LGBT+.
Falamos ainda da importância das redes e grupos de apoio, bem como sobre a desconstrução de mitos e preconceitos.
Participem também nos comentários. 🦄
Venham Bialogar connosco! 💗💜💙
Publicação: 13/02/2026 | Duração: 44min 37s | Produção: 8,5h | Legendas: no YouTube
Avisos: Contém menções de bifobia, homofobia, invisibilidade, discriminação, preconceito, “saída do armário”, processo de “saída do armário”, violência (verbal e sexual) e insegurança . Contém breves menções de saúde mental (stress e ansiedade), questionamento identitário, bullying, perseguição, nudez e prática desportiva.
Pessoa(s) Convidada(s)
Não houve pessoas convidadas neste episódio.
Referências
Personalidades
- Diego Jesus: Homem Trans, Bissexual e Personal Trainer Português.
Eventos e Datas
- Bi Fest (2025): 1 a 30 de Setembro de 2025, 1.ª grande agenda de eventos da Visibilidade Bissexual em Portugal.
- 3.º LGBTQuê?: 13 de Dezembro de 2025.
- Dia do Preservativo: 13 de Fevereiro
Associações, Coletivos e Grupos de Apoio
- Núcleo ISPride – https://linktr.ee/neispride .
Termos e Expressões
(em edição)
Transcrição
[Bruna] Alô, alô! Sejam bem-vindes ao 15.º episódio do podcast Biologar. Eu sou a Bruna.
[Alexandre] Eu sou o Alexandre. E temos hoje connosco uma das novas pessoas co-apresentadoras aqui do Biologar,
a Bruna, mulher Bissexual, presidente do Núcleo ISPride e finalista da licenciatura em Psicologia.
Bruna, queres-nos falar um pouco mais sobre ti e sobre seres presidente deste coletivo Queer universitário?
[Bruna] Sim, olha, tudo praticamente começou desde que eu entrei para a faculdade de Psicologia, no ISPA,
e foi lá que comecei a desenvolver mais o meu gosto também por educação sexual, foi assim que começou.
E depois, através de algumas presenças também em eventos sobre esse tema, descobri o núcleo,
que não foi criado por mim, foi criado pela Catarina Mendes.
E ela também falava muito sobre educação sexual, a sexualidade no geral e também, obviamente, a orientação sexual.
E foi assim que depois eu a tive e, pronto, como me esforcei bastante e
ajudei a fazer em vários eventos, acabei por agora de estar como presidente
e ter também uma equipa para me ajudar a conseguirmos fazer estes eventos e campanhas de sensibilização, no fundo.
[Alexandre] Sobre estes núcleos, eles são, de facto, muito importantes para quem estuda nas universidades e é também Queer, certo?
Queres-nos falar um pouco dessa importância destes núcleos para quem não conhece,
porque aquilo que eu reparei quando fiz o Bi Fest é que não há assim tantos quanto isso,
e estão muito concentrados aqui na zona de Lisboa.
[Bruna] Sim, felizmente agora também ’tá a haver maior criação e adesão também a estes núcleos.
No nosso, eu acho que têm sempre muita importância, pelo menos falo por experiência própria,
para mim foi bastante importante, através também do meu processo de coming out [= saída do armário],
que não me juntei ao núcleo por causa disso, por acaso,
mas que foi um sítio que, com as pessoas que lá estavam, eu senti-me confortável
e que as pessoas ‘tavam lá para mim.
E foi o único sítio na faculdade onde eu senti realmente
que pertencia, e continuo a sentir isso, felizmente.
E acredito que para muitas outras pessoas isso é importante,
tanto pela contribuição para a visibilidade de diferentes orientações sexuais,
identidades de género e saúde sexual no geral, (não é?!)
que é uma coisa que é inerente a todas as pessoas,
independentemente de sentirem que pertencem à comunidade Queer ou não.
E então, eu acho que tem bastante impacto, até em conjunto com os professores,
inclusive já fui convidada para juntar-me a uma aula
para também abordar mais este tema,
porque nada é melhor do que ter as próprias pessoas que sentem e que passam
por diversas dificuldades, desafios, mas também oportunidades,
para serem elas próprias a falar sobre estes temas e terem essa voz.
[Alexandre] Portanto, é de facto muito importante para essas pessoas terem um porto seguro.
E como tu também estiveste presente no Bi Fest,
na conversa que tivemos em Coimbra com vários núcleos universitários do país,
em que falávamos sobre ser uma pessoa LGBT e também Bissexual em contextos universitários,
e muitas pessoas falavam de situações de homofobia, bifobia, que era muito latente.
Eu próprio falei que quando eu andei na faculdade,
isso eram temas que não existiam e que eram quase um tabu.
Na minha faculdade nem sequer existia e, que eu saiba, não existe um núcleo destes.
E as pessoas sentiam-se desconfortáveis e reparávamos que também, consoante as zonas do país,
havia mais ou menos conforto.
Da tua experiência pessoal, como é que sentes que é a tua universidade nestes aspectos?
[Bruna] Eu acho que é um bocado dividido, porque temos que falar,
enquanto comunidade estudantil, e aí eu acho que é tudo muito aberto e receptivo a isso,
e que inclusive reflete-se também na praxe.
Por exemplo, a questão de uma pessoa poder escolher se é o traje feminino ou masculino que quer,
que nós também dizemos “saia ou calças”, pronto, por assim dizer.
E não há problema nenhum com isso.
Até pessoas Trans nunca sequer é questionado em relação à comunidade académica.
É tudo muito bastante tranquilo e receptivo.
Depois, a comunidade docente…
Pronto, tem sempre as pessoas que apoiam,
pessoas que se identificam, pronto, neutralidade aí,
e outras pessoas que também é mais difícil abordar estes temas.
É como tudo.
Mas, felizmente, também temos muitos professores a quererem falar connosco,
a querer integrar também o núcleo,
e que nós integremos também partes de aulas para falarmos sobre os temas.
Mas acho que, no fundo, é importante termos também um conjunto de pessoas,
nós, no caso do núcleo,
para ajudar a dar essa abertura.
[Alexandre] E estes temas acabam por se relacionar muito
até com a tua faculdade, no sentido em que é uma faculdade de psicologia,
e estes temas acabam por estar relacionados.
Sentes que, naquilo que foi a tua formação académica,
estes temas são abordados como deveriam ser?
Ou sentes que ainda há aí muitas lacunas, muita informação em falta?
[Bruna] Eu acho que há lacunas.
Ao mesmo tempo, ’tou a perceber que,
à medida que eu vou avançando nos anos letivos
também existem mudanças para trás,
que agora as novas pessoas que ‘tão a ser formadas
têm integrado mais informação sobre educação sexual e orientação sexual,
o que é bastante positivo.
No meu caso, eu não tive nenhuma cadeira que falasse explicitamente sobre isso.
Sei que no mestrado também há, mas é em psicologia clínica.
Mas, por exemplo, questões de género,
temas de orientação sexual, sexualidade no geral, não é…,
não são muitas vezes abordados.
E o que eu acho que é importante, porque
sendo que dentro também da psicologia vamos trabalhar com diversas pessoas,
são sempre questões importantes, humanas,
que não podem ser deixadas de lado.
[Alexandre] Sim, ainda eu falava de, por exemplo,
a minha primeira experiência que eu tive de ir a uma consulta de psicologia,
que falo na altura da descoberta da orientação sexual da minha irmã,
e o psicólogo do outro lado, que era já uma pessoa com uma certa idade,
referiu-se a isso como uma “opção sexual”.
E eu fiquei tipo chocado.
E pensar assim: “eu acho que não são opções, eu acho que ninguém escolhe”.
[risadas]
[Bruna] Exato.
[Alexandre] Mas ainda existe muito… mais p’ra trás,
obviamente que isto vai-se rebatendo à medida que vem nova informação,
mas ainda existe algum deste pensamento.
[Bruna] Sim, exato.
Porque eu acho que uma coisa que é importante salientar sempre
é que não é uma escolha.
A partir do momento em que, por exemplo,
qualquer pessoa que nasce assumem a sua heterossexualidade, não foi…
a própria heterossexualidade também não é uma escolha.
[Alexandre] Claro.
[Bruna] E então o resto também não é.
É uma coisa que já faz parte de nós,
é uma questão também identitária bastante importante,
que tem um enorme peso também no desenvolvimento da pessoa
para saber quem é que eu sou,
e também ’tá relacionado com o autoconceito, com a autoestima,
e são pilares importantes para o desenvolvimento duma pessoa.
E o facto também, acrescento aqui a parte da representatividade,
eu acho que é alguma coisa importante,
mesmo dentro da parte da escola primária, por exemplo,
em que muitas vezes isso também acaba por ser um tabu
ou como é que eu digo à criança,
que há pessoas que têm duas mães ou dois pais, por exemplo.
Eu acho que os adultos tendem a dificultar muito mais isso
e a fazer uma maior complexidade do que aquilo que realmente é.
[Alexandre] Sim. Da experiência que eu tenho, por exemplo, com o meu afilhado e com o [irmão] dele,
eles chegaram a conhecer, por exemplo, um dos meus ex-namorados
e chegaram a conhecer um amigo meu que é Gay,
e isso para eles nem é uma questão que se põe em cima da mesa,
é tipo “ok, estas duas pessoas amam-se, está tudo bem,
porreiro”, não há isso.
As crianças não fazem assim tanta confusão,
porque se elas não forem ensinadas a ter preconceito,
também não terão esse preconceito à partida.
E falaste aí também da questão da educação sexual,
no fundo, falarmos sobre orientações sexuais e sobre género é educação sexual.
[Bruna] Exatamente.
[Alexandre] E faz parte daquilo que nós somos. E, obviamente,
há formas diferentes consoante as idades das pessoas.
[Bruna] Sim.
E a forma mesmo, os termos usados,
o que é que se vai dizer ou o que é que não se vai dizer,
porque eu acho que muito associado à sexualidade ’tá “SEXO”.
[Alexandre] Sim.
[Bruna] E não é verdade, há muito mais sobre isso.
Há muito mais sobre sexualidade do que apenas sexo, é apenas uma fração,
e negligencia-se o resto.
Por exemplo, a questão do consentimento,
a questão de igualdades ou desigualdades de género, por exemplo,
os afetos, no geral, não necessariamente a atração sexual,
por isso, há muito, há todo um mundo que é muito pouco explorado
e é sempre centrado numas mesmas coisas, que acaba por não fazer sentido.
[Alexandre] Sim, eu acho que é muito também isso, é tipo, tu falas em educação sexual,
as pessoas pensam imediatamente em sexo e em métodos contraceptivos,
é só isso.
[Bruna] Exato.
[Alexandre] Mas esquecem-se, como tu falaste, do consentimento.
Eu ouvi há uns tempos num vídeo duma psicóloga em que ela falava
que a educação sexual para crianças da primária é ensinar-lhes
como se protegerem de uma situação de abuso, por exemplo.
[Bruna] Exato.
[Alexandre] E que isso é tão importante, sabendo nós que
os casos de abuso sexual e pedofilia ainda existem,
e as crianças são sempre vulneráveis quando não se sabem defender nem proteger.
[Bruna] Exato.
Ou até também ‘tão a descobrir o que é que é o certo, o que é que é errado,
o que é que se pode ou o que é que não se pode fazer.
Porque não são coisas que as pessoas nascem ensinadas.
É uma questão de educação, de falar abertamente sobre as diversas situações.
Eu vi também que fizeram uma campanha de sensibilização,
já não me lembro onde em Portugal,
mas que fizeram uma campanha de sensibilização
para a questão da violência sexual infantil,
em conjunto com crianças da primária,
e foi aí que uma criança fez uma denúncia
de um parente, cujo sofria de abuso sexual
e isso foi uma oportunidade para falar sobre isso,
para dizer “ok, isto acontece comigo, então afinal não é certo”.
Não é?! Porque as crianças regem-se muito pelo que é que as pessoas dizem,…
[Alexandre] Sim.
[Bruna] …e as pessoas que gostam, que são importantes para elas,
o que é que dizem e é isso, é essa a verdade delas.
[Alexandre] Sim, ao ponto que se calhar se não houvesse essa campanha,
essa criança nem sequer sabia que aquilo que lhe estava a acontecer
não era certo.
[Bruna] Exato.
[Alexandre] E o quão mal isso lhe estava a fazer.
E realmente isso é importante.
A nível, por exemplo, do trabalho de núcleos como o teu,
o que é que sentes que é mais gratificante e importante
no trabalho que vocês fazem?
[Bruna] Eu acho que é mesmo o conseguirmos chegar às pessoas
e explicar duma forma clara,
mas também… não é básico o que eu quero dizer, mas simples.
Muitas vezes as pessoas acham que é muito complexo
e apresentamos logo temas que nós achamos que é básico e simples,
mas que não é.
Temos que explicar o óbvio também,
porque senão esse óbvio nunca será óbvio.
E eu acho que as coisas mais gratificantes é mesmo ver mudanças
dentro da faculdade, ver também mudanças nas pessoas
e a forma como pensam
e também se posicionam em relação a questões políticas, por exemplo.
E eu acho que o mais gratificante é mesmo isso:
é ver as mudanças, ver as pessoas a quererem saber,
a quererem compreender,
a desafiarem os próprios preconceitos e estereótipos que têm,
porque todas as pessoas têm estereótipos, não é?
[Alexandre] Sim, não somos imunes ao preconceito.
[Bruna] Exatamente.
E é mesmo uma forma de organização cerebral, cognitiva.
Pronto, se estudarmos isso, vemos que é básico,
é o que nos permite também categorizar as coisas.
Mas ter a iniciativa de procurar quais é que são os estereótipos e preconceitos que tenho,
desafiá-los e também lutar contra eles,
de forma lógica também, compreender,
acho que isso é mesmo o mais importante e gratificante.
[Alexandre] Sobre a tua descoberta enquanto mulher Bissexual,
queres-nos falar sobre isso?
Sim. Olha, como nós falámos há um bocado,
é uma coisa que já nasce connosco.
Por isso eu lembro-me, ou seja,
ao fim de algum tempo após o meu coming out [= saída do armário],
é que percebi que na primária já havia também algum tipo de interesse
pelas raparigas e não só pelos rapazes.
Só que, lá está, com a falta de representatividade,
eu nem sequer sabia que era uma coisa possível
ser alguma coisa fora da heterossexualidade.
E então as coisas foram-se reprimindo,
as coisas foram também evoluindo,
não nesse sentido,
mas apenas no da heterossexualidade.
Só que as coisas importantes voltam sempre.
E foi isso exatamente que aconteceu.
Crises de identidade, no fundo,
que praticamente na adolescência já é ali uma obra de arte
de crises identitárias e existenciais, não é?
E as coisas voltam aí.
Elas acabam sempre por voltar.
E pronto.
E foi aí que ao fim de muito sofrimento,
que são coisas que também acabam por passar pelos bastidores,
e que as pessoas, principalmente com preconceitos,
não conseguem ver,
é o sofrimento que isso causa na própria pessoa.
[Alexandre] Ya!
[Bruna] Exatamente pelo facto de não ser uma escolha.
Felizmente, tive sempre o apoio, principalmente da minha mãe,
que está aqui.
[risadas]
[Bruna] Mas também, lá está, o núcleo foi uma coisa importante para mim,
que, não sendo por esse motivo, acabei por ir lá parar.
E o facto de estar rodeada de pessoas
com orientações sexuais e identidades de género diferentes,
que não é o típico hétero e cisnormativo,
foi eu perceber que “ok, as coisas existem,
as coisas são ok”
e aqueles preconceitos que nós próprios vamos adquirindo
como mecanismo de proteção…
[Alexandre] Aquela homofobia e bifobia internalizada…
[Bruna] Exatamente.
[Alexandre] …com que crescemos, no fundo.
[Bruna] Exato. E, principalmente, quando ’tás a reprimir coisas,
esse preconceito também acaba por ser um mecanismo de defesa.
[Alexandre] Sim, sim.
[Bruna] E então, o facto de eu ter ido e percebido “ok, estas pessoas estão aqui,
eu estou a fazer perguntas estúpidas,
mas ninguém me está a julgar,
e não estão a olhar de lado para mim,
estão a ser receptivos àquilo que eu estou a dizer,
muitas coisas erradas,
mas que têm o à-vontade para me explicar,
para me acolher aqui”.
E isso dá muita mais segurança também.
E depois permite também nós conseguirmos
compreender aquilo que realmente somos, a nossa identidade,
e internalizar isso em nós,
duma forma mais positiva e saudável.
[Alexandre] Sentiste, então, que o núcleo teve um papel muito importante
no teu processo de sair do armário?
[Bruna] Sim, sim, bastante.
Mas foi, literalmente, as pessoas.
As pessoas é que fazem toda a situação.
[Alexandre] Sim, sim, as pessoas é que fazem o núcleo, no fundo.
[Bruna] Sim, exato.
E ter pessoas…
Porque, muitas vezes, acho que também há o preconceito do:
“Ah, não podemos dizer nada porque é tudo homofobia
e as pessoas depois vêm para cima de nós”.
E isso não é verdade.
[Alexandre] Todos nós partimos dum ponto de ignorância.
Há aquela diferença de:
“eu estou a falar porque eu não sei melhores palavras”
ou “eu estou a falar para ofender”.
[Bruna] Exatamente
[Alexandre] Acho que essa diferença é preciso ser feita.
Porque, no teu caso, tu, se calhar, não sabias os melhores termos.
Tinhas os teus preconceitos e estavas a querer desconstruí-los
ou obter informação.
Porque, no fundo, partias, tal como todos nós partimos,
dum ponto de ignorância.
[Bruna] Exatamente.
[Alexandre] Em que falta-nos o desconhecimento, porque, como tu disseste,
nós crescemos e não há representação,
não há educação para a sexualidade,
não há nada.
Nós crescemos a reprimir partes de nós
e chega, a algumas pessoas, ao ponto de odiarem essa parte,
porque, como nós já falámos aqui, não é uma escolha.
Mas, por exemplo, falaste que tiveste o suporte da tua mãe,
mas há muita gente que não teve sequer esse suporte
e para essas pessoas muitas das vezes começam a odiar esse lado
porque têm que o esconder.
E depois torna-se, lá está, em preconceitos,
cenas internalizadas e…
É muito.
E por isso é que é bom estes espaços de acolhimento,
e aconchego com estes núcleos,
precisamente para nos apoiar nestes processos.
[Bruna] Exatamente.
[Alexandre] São sempre difíceis fazê-los sozinhos,
mas quando os fazemos em conjunto não deixam de ser difíceis necessariamente,
mas temos um apoio diferente.
[Bruna] Exato.
E eu tenho muitos casos, de pessoas que eu conheço,
que infelizmente não têm esse apoio e suporte da família.
E, ao mesmo tempo, então é importante ter redes de suporte,
redes de apoio,
para que este processo possa ser feito e construído
duma forma mais positiva também.
Ter essa própria relação consigo própria
e conseguir olhar para ela de uma forma mais positiva.
[Alexandre] Sim, no fundo, aceitar-se e desconstruir
e perceber que é ok sermos como somos.
[Bruna] Exatamente.
[Alexandre] Nós não vamos mudar isso, não não.
E por isso mesmo é que é importante a existência destes núcleos
que organizam também eventos,
como o que vocês organizaram agora no ISPride, do “LGBTQuê?”.
Queres-nos falar um pouco mais sobre estas iniciativas?
[Bruna] Sim.
O “LGBTQuê?” é o nosso main event [= principal evento]
que acontece no final de todos os semestres da faculdade.
E é praticamente um evento de um dia inteiro,
onde nós temos várias palestras e mesas redondas
para falar sobre diversos temas relacionados à sexualidade.
No último evento que tivemos foi já o 3.º LGBTQuê?
e que pudemos contar com diversas pessoas
especialistas e competentes nestas áreas,
maioritariamente também psicólogos,
para falarem sobre diversos temas.
Portanto, tivemos desde as práticas de conversão,
como também “ser uma pessoa Trans e a gravidez”, também tivemos,
que acho que são temas pouco falados.
Tivemos também de educação sexual nas escolas
e também como é que podíamos falar com as crianças
dependendo da faixa etária
e o que é que também ’tá dentro da compreensão delas.
E estes eventos eu acho que são bastante importantes,
porque existe praticamente um senso de comunidade
também para falar sobre estes assuntos.
São pessoas que têm também as suas bagagens
dentro da sua prática profissional e dos seus estudos.
E, no fundo, existe ali um brainstorming de ideias [=grande conjunto de ideias/discussão de ideias],
de perspetivas diferentes,
porque isso é uma coisa que acho que deve ser bastante valorizada.
[Alexandre] Enriquece o debate.
[Bruna] Exatamente. Perspetivas diferentes.
Mesmo que eu não concorde com tal perspetiva,
e se eu a juntar aqui, o que é que isto tem para me dizer?
Porque muitas vezes essas perspetivas, que podem parecer desajustadas,
podem ter também alguma base que diga
“ok, ’tá aqui um preconceito, o que é que eu posso fazer para desmistificar isto?”.
Então, acho que é importante também dentro da comunidade
pensarmos nestas perspetivas mais desajustadas
e perceber o que é que está por trás delas
e de que forma é que é possível educar
e informar as pessoas,
para combater esta invisibilidade, estes preconceitos.
[Alexandre] Sim. Assim também, enquanto ativistas, enquanto parte de associações ou de núcleos,
perceber também o que é que podemos fazer,
que mecanismos é que temos que usar,
nomeadamente, se calhar, campanhas de sensibilização, por exemplo,
que vocês também fazem.
[Bruna] Exatamente. Sim.
Exato. Eu acho que é importante não ser só comunidade,
não só esse fator.
Acho que estes núcleos, no geral, devem ter também o objetivo
de sensibilizar e informar as pessoas fora da comunidade LGBT,
mas também para perceber de que forma é que podem passar informação,
passar conhecimentos.
E uma das campanhas de sensibilização que nós vamos fazer agora é dia 13,
que é o dia do preservativo.
E então vamos estar no ISPA a falar sobre, nesse caso, esse método contracetivo
e perceber também qual é que é o conhecimento que as pessoas têm.
Porque muitas vezes mesmo nos temas mais falados existem muitos mitos,
que devem ser desconstruídos.
[Alexandre] Exato. Muitos mitos, muitos preconceitos, muitas informações falsas também.
E que depois, sendo propagadas, e se não houver estas campanhas
que façam esta desmistificação, as pessoas vão ouvir isto,
vão assumir que é verdade.
Principalmente se vem, hoje em dia, com os meios mediáticos,
se é dito por pessoas que estão numa determinada posição,
pessoas mais jovens ou com menos conhecimento
ou que já têm algum preconceito que aponte naquela direção,
vão captar isto e vão fixar.
E tivemos agora até um exemplo bastante recente disto,
que impacta pessoas Bissexuais como nós, mas não só,
que foi um vídeo sobre balneários.
[Bruna] Exatamente.
[Alexandre] Que andámos a tentar procurar o vídeo original,
não conseguimos encontrar, deduzimos que a autora o deve ter retirado.
Encontrámos carradas de reacts [= vídeo de reação ao vídeo original],
e eu vou dizer a minha reação.
Basicamente eu fiquei parvo a ver aquilo.
Como é que foi para ti?
[risadas]
[Bruna] É assim.
Honestamente e infelizmente,
não me surpreende, [risada]
[Bruna] porque, pronto, eu acho que é mesmo o nível da desinformação.
Acho que, neste sentido, e também com a minha bagagem dentro da psicologia,
é perceber o que é que motivou aquela crença e pronto,
o facto da pessoa se sentir assim.
É assim, os sentimentos e as emoções, por si só,
podem ser validadas e é ok sentir-se assim,
mas o que fazer com isso depois é que é diferente.
E neste caso alimentou mais um estereótipo e preconceito,
que neste vídeo tinha a ver com mulheres que gostam de mulheres dentro dum balneário
e então que uma pessoa heterossexual estaria a ser vigiada, vista.
[Alexandre] Quase que comida com os olhos.
[Bruna] Exatamente.
E eu acho que, pronto, não funciona assim.
É um facto.
Mas o que é que a pessoa então vai fazer com o “sentir-se desconfortável”?
E neste caso é uma generalização.
Dum preconceito que é “ok, as pessoas que gostam de mulheres que neste caso ‘tão aqui”
então quase como se tivesse uma hipersexualização
e que neste caso a minoria é vista quase como predadores sexuais.
[Alexandre] Exato.
No fundo é isso.
A Sofia já tinha tocado nisso até quando falámos também aqui sobre balneários, no episódio 8.
A própria Sofia falou nisso, que é: há muito esta visão de olharem para pessoas LGBT+,
como se fôssemos predadoras.
Como se o facto…
Vi um texto sobre isso, por acaso, que era
se uma pessoa, por gostar de determinado tipo de pessoas,
se atraísse, ficasse atraída ou louca por todas as pessoas que viessem à sua frente,
então pessoas Bissexuais e Pansexuais, coitades de nós, estaríamos completamente exaustes,
porque bastava sair à rua, era uma loucura.
E não é isso que acontece.
O facto de nós sermos Bissexuais não quer dizer que vamos olhar
e que vamos estar a sexualizar cada homem, cada mulher ou cada qualquer pessoa que nos aparece à frente.
Não é assim que funciona. Não é?!
E se por um lado é isto, também o que é que leva a pessoa a sentir-se daquela forma,
como tu própria disseste, que é tipo, a pessoa tem aquele preconceito
e esse preconceito serve como um mecanismo de própria defesa, não é?
E a pessoa está tipo “ok, mas agora o que fazer com isso?”. Não é?!
E a pessoa desconstruir esse próprio preconceito que ela tem.
[Bruna] Exato, e tem a ver também com outra questão, que é, ‘tamos a falar de grupos minoritários,
o que por si só, independentemente de qual seja a minoria, é mais alvo de discriminação e destes estereótipos.
E depois também é outra coisa, que é: “eu sou eu e eles são eles”.
É quase divisão em grupos, em que eu sou assim e eu sei o que é que eu penso
e o que é que as pessoas como eu pensam, e eles não sei… Esse distanciamento entre os grupos.
E neste caso, ainda aumenta mais a probabilidade de estereótipos e discriminação.
E pronto, são coisas que são explicadas em termos de psicologia,
mas que é importante então pegarmos nesses conhecimentos que existem
e pegar na sensibilização e sensibilizar, sensibilizar, sensibilizar.
[Alexandre] Sim, até porque é interessante porque ela própria começa a dizer o vídeo, a dizer
“eu não tenho preconceitos”
[Bruna] Mas!
[Alexandre] Mas! “Eu também tenho amigos que são, mas”…
[Bruna] Mas!
[risadas]
[Alexandre] É sempre aquele “mas” que uma pessoa fica “ok, mas se vais pôr aqui um mas é porque o que está para trás,
não interessa para nada”.
[Bruna] Exato, é o “mas e risca pra trás”.
[Alexandre] É, porque é tipo: ok, eu também tenho amigos de várias orientações sexuais
e tive, por exemplo, eu gosto muito de dar este exemplo, eu quando era adolescente,
eu estava no armário, eu tinha amigos Gays e isso não me impediu também nessa altura
ter atitudes homofóbicas.
[Bruna] Exato.
[Alexandre] Todos nós temos preconceito.
Também ter tido atitudes transfóbicas e tenho uma irmã que é Trans.
Portanto, isso não é explicação para nada.
Se fosse por aí não havia racismo porque quase todas as pessoas têm uma pessoa conhecida
ou amiga que é negra e, portanto, era o fim do racismo, mas não é assim que funciona.
[risadas]
[Bruna] E em termos, a parte dos grupos que eu ‘tava a dizer, essa é outra, é:
“o meu amigo é diferente porque eu dou-me com ele e eu sei.
Mas os outros, o problema são os outros”.
[Alexandre] Exato!!
Tinhas um documentário sobre racismo em Portugal que, precisamente, uma moça, ela falava precisamente isso que estás a dizer.
Ela dizia que ‘tava no grupo de amigos, os amigos ‘tão a falar mal de pessoas racializadas.
E ela diz “eu faço parte desse grupo também”.
E as pessoas dizem “ah não, mas tu não és como eles.
Tu nem sequer falas com aquele sotaque, não sei quê.
Tu és como nós!”. E… [suspiro]
[Bruna] Exato.
[Alexandre] E como ela se sentia desconfortável com isso, porque é tipo, as outras pessoas também são como eu.
[Bruna] Sim.
[Alexandre] E cada pessoa é uma pessoa.
É essa divisão em grupos que falas que também é muito desumanizante até certo ponto, não é?
[Bruna] E o melhor que as pessoas, que fazem parte desses grupos minoritários,
mas também estão com pessoas de grupos maioritários,
uma das melhores coisas que se pode fazer é “não, eu não sou o diferente.
Eu estou neste grupo e as outras pessoas também têm atitudes corretas.
Não é porque eu sou teu amigo que sou diferente”.
[Alexandre] Exato.
[Bruna] “Eu não sou diferente.
Eu sou uma pessoa que pertence a esse grupo.
E eu continuo a fazer parte desse grupo”.
[Alexandre] Exato. E até Porque se uma pessoa, por exemplo, estiver a sexualizar alguém,
seja qual for a sua orientação sexual ou o seu género,
isso é uma questão da própria pessoa.
Não é a sua sexualidade ou o seu género que fazem aquela pessoa ser sexualizadora
ou estar a sexualizar alguém ou estar a assediar alguém.
Não é a orientação sexual que vai fazer isso.
Até porque, e lá está várias pessoas também em resposta a esses vídeos falaram
e até, no episódio 8, eu e a Sofia falámos um bocado sobre isso,
a Sofia em muito mais detalhe,
que era a situação que já comentávamos aqui no início,
que era em balneários eu fui sistematicamente assediado por gajos supostamente héteros.
[Bruna] Exato.
[Alexandre] E sentia-me constrangido de estar num balneário cheio de homens,
porque já sabia que havia essa probabilidade disso acontecer.
Ou de ver gajos literalmente a quererem se tocar uns nos outros,
a fazer brincadeiras, que eu achava completamente infantis,
mas com uma conotação extremamente sexual.
E a Sofia partilhou imensas perspetivas também do lado dela.
E várias mulheres que eu conheço falam-me exatamente da mesma situação:
de haver mulheres, que supostamente heterossexuais,
que faziam brincadeiras sexuais, que se tocavam no corpo umas das outras,
que apalpavam do nada alguém ou uma palmada no rabo.
Sentes que isso também é uma experiência que de certa forma
tenhas visto ou vivenciado ou que conheças?
[Bruna] Sim, sim. E a questão é exatamente o facto de: não é a orientação sexual
que vai definir o carácter ou a forma como a pessoa é.
Isso é uma fração.
[Alexandre] Exato.
[Bruna] E usar esse ponto para explicar tudo e mais alguma coisa é que não está certo.
[Alexandre] Sim, até porque lá está uma situação dessas,
uma situação de assédio que ocorra num balneário, sim, é claramente incorreto.
Mas não é a orientação sexual da pessoa que a provocou.
[Bruna] Exatamente.
[Alexandre] Até porque aquilo que eu noto muitas das vezes é que as pessoas LGBTI+,
e o Diego falava disso porque tem experiência com isso estando num ginásio
e estando a estudar numa faculdade a nível de desporto,
muitas pessoas LGBT até se sentem muito mais constrangidas num balneário,
porque, precisamente, já sabem que vão estar a ser olhadas como sendo predadoras,
já sabem que vão ter pessoas a olhar para elas porque têm alguma coisa,
têm aquele medo de serem descobertas,
ou mesmo porque sabem que estão num ambiente mais inseguro.
Portanto, até estão muito mais subjetivas à violência, seja sexual ou não,
do que, se calhar, uma pessoa cis-hétero.
[Bruna] Sim, e não só.
E também o facto de ter noção que esse é um tema
e não querer faltar ao respeito nem intimidar ninguém,
porque sabemos que grupos minoritários estão mais alvos de discriminação
e nada melhor que essas pessoas sabe o que é que é ‘tar a sentir essa discriminação e esses olhares.
Então, essa pessoa vai perpetuar isso?
[Alexandre] Exato.
[Bruna] Não me parece que seja o caso.
[Alexandre] Exato. Um dos vídeos que eu vi falava precisamente sobre isso,
que era uma mulher a dizer que estas mulheres, sejam Bissexuais, sejam Lésbicas,
em primeiro lugar, são mulheres.
Sabem o que é ser hipersexualizada no seu dia-a-dia por homens.
Sabem o que é que é
ter o seu corpo visto como um objeto.
Será que elas vão estar a querer fazer isso a outras mulheres num balneário?
Provavelmente não.
[Bruna] Exato. E até, se calhar, o mais provável é nem se trocarem lá.
Ou ‘tão-se a trocar e ‘tão a olhar para baixo e super atentas,
para não estarem a ser acusadas dalguma coisa que não é o ponto.
[Alexandre] Sim.
Ou como eu conheci, por exemplo, muitos colegas meus ou colegas que ‘tavam mais constrangidos
nessas situações, tipo que se fechavam numa casa de banho e trocavam-se lá.
E, por exemplo, eu, quando andava a fazer Educação Física, não tomava banho.
Tomava banho em casa.
Porque era uma coisa que, tipo, não…
Eu já me sentia observado, já me sentia olhado e com situações chatas pelos meus colegas,
quanto mais ter que tomar banho e ter que me despirar à frente daquelas pessoas.
Tipo, não.
Isso deixava-me bué constrangido.
E acredito, daquilo que vejo, muitas outras pessoas LGBT passaram pela mesma situação.
É tipo, ou ’tás ali a olhar pra baixo e a querer despachar-te e do estilo:
“Eu só quero sair daqui”,
ou então a outra de evitar completamente esses espaços,
que também afasta pessoas LGBT dos ginásios e do desporto em geral, não é?!
É precisamente esses constrangimentos.
[Bruna] Exatamente.
E pronto.
E é mais uma forma também que acaba por influenciar a parte psicológica e da autoestima
das pessoas que passam por essas questões,
porque já não podem estar num sítio qualquer, que têm do seu direito,
e não estar preocupadas com estas questões.
[Alexandre] Sim. E acabamos, depois, por ter estas pessoas a difundir este tipo de desinformação
quando o que se calhar essa pessoa,
muito mais facilmente, podia ter tentado desconstruir esse preconceito,
do que propagá-lo.
Porque a realidade é:
o vídeo tornou-se viral,
as respostas tornaram-se virais.
Não é?
Tivemos até pessoas a falar sobre isso em programas de televisão.
Portanto, e ainda a classificar aquilo como um claro discurso homofóbico e preconceituoso.
Mas depois, também sinto, não sei se concordas comigo,
que não foi também feito o debate que era preciso fazer
como… a fundo de explicar estas situações
e também tentar perceber que: “sim, se calhar esta pessoa sente isto,
vamos desconstruir isto”, não é?
Há muitos reacts [= vídeo de reação] que também fizeram isso,
mas tentar aproveitar esta situação para debatermos o real problema
e informarmos a comunidade.
[Bruna] As pessoas.
Sim. Eu acho que aí há praticamente duas coisas diferentes.
É que, por um lado, há pessoas que fazem esses vídeos mais a insultar até
do que propriamente a sensibilizar para.
Mas depois é isso que dá mais views [= visualizações], não é?
[Alexandre] Sim.
[Bruna] Porque depois é quase um combate de teas [= fofocas/informações dissonantes] por aí
para ver quem é que ganha o assunto, para ver quem é que diz mais e melhor.
Mas que em termos de conteúdo mesmo, de informação credível, não existe.
Depois eu acredito também que existam, eu não vi, mas acredito também que existam
pessoas que tenham pegado neste vídeo para dizer “ok, este preconceito aqui,
então vamos falar sobre isto, vamos desconstruir isto”.
E provavelmente, se calhar, nem sequer dão views [= visualizações], as pessoas não veem e não chega.
[Alexandre] Sim! É isso que eu ia dizer, até porque eu até vi alguns deles,
e há um que foi partilhado na página do Biologar precisamente,
em que a pessoa está a desconstruir aqueles preconceitos.
Agora, sinto que não são tão virais como aqueles em que se está imediatamente
a atacar a outra pessoa e a falar sobre estes assuntos, não é?
Basicamente há um vídeo em que há uma pessoa que diz exatamente isto, é…
Fala daquilo que já estivemos aqui a falar e que diz que não é sexualidade,
não define caráter e não define a probabilidade de alguém assediar ou não.
Mas estes vídeos acabam por não ter o mesmo alcance que os outros,
como tu disseste, não é? Porque é aquilo que gera views [= visualizações].
Este quase combate entre dois lados é que acaba por gerar views [= visualizações]
e as pessoas acabam por ‘tar a discutir o que não importa,
quando podíamos ter aqui uma oportunidade para discutir um preconceito
que afeta efetivamente negativamente muitas pessoas, e são as pessoas LGBT.
[Bruna] Exato.
E infelizmente isto não é só nesta questão de vídeos do TikTok, por exemplo,
mas também nas notícias em geral, de canais televisivos jornalísticos,
que têm o objetivo, não é, supostamente, de partilhar informação credível,
informação verdadeira, com o objetivo de educar também as pessoas
e já não é isso que acontece. É procurar o título mais sensacionalista, para as pessoas
nem sequer carregarem e só comentarem uma coisa lá, que nem sequer sabem o que é.
E isto é muito pior, porque gera mais ódio, gera mais falta de informação.
[Alexandre] Preconceitos.
[Bruna] Exatamente, andam aí as fake news [= notícias falsas] e os preconceitos e o ódio numa bolinha,
serem atiradas à cara dumas pessoas. E o facto de serem as redes sociais
e não é um diálogo cara a cara, faz com que as pessoas libertem ainda mais esse ódio,
faz com que a coisa escale para um mundo que não faz sentido.
[Alexandre] Sim, porque se calhar esta pessoa que fez este vídeo sobre os balneários, se calhar,
se fosse cara a cara, não ia dizer isto a ninguém, porque se calhar ia pensar duas vezes…
[Bruna] Infelizmente há pessoas que não pensam, mas…
[Alexandre] Pois, exato.
[risadas]
[Bruna] Mas Sim…
[Alexandre] Não sei se é o caso desta pessoa,
mas se calhar… aquilo que eu sinto e que já vi muitas pessoas falarem sobre isso,
inclusivamente pessoas da área de psicologia, é que as redes sociais quase que empoderaram as pessoas
no sentido das pessoas acharem que podem dizer aquilo que quiserem, sem represálias, sem consequências…
[Bruna] E não há consequências.
[Alexandre] Exato.
[Bruna] O que mais temos visto agora é que consequências não existem.
E pronto, isto infelizmente está a passar para níveis que já não é só numa rede social,
já infelizmente cara a cara as coisas também já nem são bem assim e as pessoas já nem pensam.
[Alexandre] Sim, sim, sim.
[Bruna] E pronto, e em termos também políticos, a coisa complica ainda mais.
[Alexandre] Claro, e depois este tipo de preconceitos, até este tipo de vídeos, até de certa forma,
não causam mas dão como quase que lenha para um alarme social de que
“oh meu Deus, pessoas LGBT em balneários” e de repente há alguém que está preconceituoso
e que vê este vídeo, dá-me de receio às vezes que isto possa aumentar esta violência
que já se vê cada vez maior nas pessoas e na sociedade, que vai incidir sobre,
até pode incidir sobre pessoas que não são LGBT, mas vai incidir sobre pessoas LGBT
que vão estar num balneário, não é?
[Bruna] Exato.
[Alexandre] Porque se calhar uma pessoa LGBT, por exemplo, uma mulher Bissexual ou uma mulher Lésbica
que vai ao balneário, se calhar até se tem alguma coisa que mostra que faz parte da comunidade,
vai ter medo de se mostrar depois de um vídeo destes, porque “O que é que será que as pessoas vão começar a pensar sobre mim?”,
“Será que as pessoas vão agora andar aqui em cima de mim?”, “Será que eu vou ser agredida?”.
E digo mulheres porque era o tópico do vídeo, mas vale igualmente para homens, não é?
[Bruna] Exatamente. Depois isto reflete noutra coisa que é, as pessoas têm a tendência para confirmar aquilo que pensam
e aquilo que…
[Alexandre] O viés de confirmação.
[Bruna] Exatamente. E então o que acontece é que “ok, agora eu vou estar mega atento nos balneários e a ver, a ver, a ver.”,
e depois uma pessoa, no caso, pode fazer parte da comunidade e depois
’tá numa vida normal, não ’tá a fazer nada, mas a outra pessoa já ’tá a pensar.
E então depois começa a percepcionar coisas (porque a realidade é toda um conjunto de percepções, não é?
Não há uma realidade objetiva), mas depois começa “ok, eu sabia que esta pessoa estava a fazer XYZ
porque a sua orientação sexual é uma coisa qualquer”.
[Alexandre] Yaaa!
[Bruna] E pronto, e depois o que é que há a dizer sobre isto, não é?
Porque não podemos dizer:
“Ah, não, a tua percepção ’tá errada”.
Se a pessoa percepciona assim, vai acreditar nisso assim.
[Alexandre] Não, exato. Pelo contrário, acho que quando tu vais dizer à pessoa “não, isso ’tá errado”, acho que a pessoa ainda vai ficar mais…
É aquilo que se nota hoje em dia, tipo, com esta questão das fake news [=notícias falsas].
Tu vais dizer à pessoa “não, não, não, isso é falso, isso é falso”.
Podes dizer isso mil vezes, as pessoas não vão deixar de achar que é só porque nós vamos dizer que é falso.
[Bruna] Exatamente. É muito mais profundo que isso. É mesmo começar em escolas…
Há coisas na pré que podem falar sobre sexualidade no geral, por exemplo.
E é começar por aí, é começar a falar com as crianças, tentar perceber o que é que elas acham, o que é que não acham,
porque agora também têm sempre a cabeça enfiada num telemóvel ou num tablet.
[Alexandre] Ya, infelizmente.
[Bruna] E honestamente, há com cada coisa que se vê por aí, então, aquela parte dos incels agora está super on fire [= em crescimento].
E pronto, o que é que estas crianças estão a ver? O que é que estas crianças têm acesso?
E nós, muitas vezes, adultos, achamos “ah, não, ela não percebe, ela não percebe”, ela percebe.
E percebe bastante bem, porque ‘tão sempre à procura de pistas no mundo sobre o que é que acham, o que é que os outros não acham.
[Alexandre] No fundo, aquilo que falavas no início, procurar o que é que é o certo e o que é que é o errado, de certa forma.
[Bruna] Exatamente. E de que forma é que as pessoas vão olhar para mim, se é mais positivo ou negativo, se eu disser que isto, isto, aquilo.
[Alexandre] Exato. E isso ’tás-me a lembrar um vídeo que eu vi no outro dia, que tinha a ver precisamente também com o estudo psicológico,
em que ‘tavam crianças, tipo, que eram, por exemplo, duas crianças bebés, um rapaz e uma rapariga que eram amigos desde sempre,
e chega, tipo, à idade dos 3/4 anos, as crianças começam a identificar o que é que é os padrões do género, o que é que é esperado dum género,
e como é que isso está a afetar depois a amizade dessas duas crianças. Porque iam p’ro recreio, e os meninos iam para um lado
e ocupavam a maior parte do recreio, e as meninas ficavam retidas a um canto a brincar com outro tipo de brinquedos.
E o quão isso influenciava. Portanto, as pessoas acham que as crianças não percebem, mas as crianças, de facto,
percebem muito mais do que aquilo que nós às vezes pensamos até.
[Bruna] Sim. E agora fizeste-me lembrar também, houve um vídeo também que eu vi de estudos, em que os investigadores montavam um cenário tipicamente azul.
E metiam lá um rapaz, e o rapaz “uau, bué de fixe, carrinhos” e não sei quê. Depois chega uma miúda, também “uau, bué de fixe estes carrinhos” e não sei quê.
E chega uma miúda “uau, bué de fixe as bonecas, vou brincar”. Mas chega um rapaz “eu não vou brincar com isto!”.
[Alexandre] Ya!…
[Bruna] Crianças! Como é que há crianças de 4 anos que chegam e dizem “isto, eu brincar com bonecas, não, tira isto daqui”??
[Alexandre] Também me estás a lembrar, no outro dia, que eu também já vi no Brasil, é um barbeiro que, ele estava a fazer um vídeo…
[Bruna] Também vi.
[Alexandre] …e mete os meninos, tipo, e tinhas lá meninos até com 3/4 anos, que ele mete aquele protetor para a roupa da Barbie
e, tipo, há uns que começam tipo aos pontapés àquilo
e ali quase que a rasgar aquilo com uma violência tal. E estamos a falar de crianças, não é?!
[Bruna] Exatamente!
[Alexandre] Mas elas aprenderam isto a ver adultos a fazer isto.
[Bruna] Exatamente. Algures: seja pais, seja redes sociais, seja televisões, não é?
[Alexandre] Sim, colegas, irmãos, professores.
[Bruna] Exato. Estas coisas estão em todo o lado e as crianças querem preencher as expectativas da pessoa que acham importante para elas.
E se a pessoa considera alguma coisa duma forma, a criança tem essa tendência para agradar aí.
E achar que é o certo, porque é o modelo que ela tem.
[Alexandre] Exato. Quando nós falamos na educação para a sexualidade, também é combater estes preconceitos,
porque, mais uma vez, ninguém vai estar a ensinar sexo a crianças da pré-primária ou da primária.
[Bruna] Exato!
[Alexandre] Estamos a falar de coisas como: conhecer o seu corpo, consentimento, o que é que é preconceito, o que é que não é,
tipo… Mas coisas básicas. Ninguém vai estar a ensinar, até porque…
Quando as pessoas falam sobre isto, todos nós, enquanto crianças, crescemos rodeados de heteronormatividade e de heterossexualidade.
E, no entanto, aqui estamos nós, pessoas Bissexuais.
[Bruna] Exato!
[Alexandre] E, desde pequenos, também fomos ensinados sobre o que é que era a heterossexualidade,
porque “ah, os meninos têm que ‘tar… Os meninos são meninos, as meninas são meninas, os meninos gostam de meninas, as meninas gostam de meninos”, não é?
E aquela conversa que eu acho aberrante quando se pergunta a crianças de 3 anos se têm namorados ou namoradas.
É tipo… Isto é que é sexualizar. Não é!? [pergunta retórica]
[Bruna] Exato.
E, lá está, são crianças que, nessa idade, isso não é uma preocupação sequer para elas. E não devia ser.
[Alexandre] Sim, sim.
Porque uma criança nem sequer sabe o que é um conceito de amor romântico como um adulto.
Ou seja, uma criança, para ela, amor é gostar de brincar com alguém, é gostar de fazer alguma coisa com alguém.
[Bruna] Exato.
[Alexandre] Não tem o conceito que nós temos do amor romântico.
[Bruna] Exatamente.
[Alexandre] Para eles é…
Se tu tentares explicar a uma criança o que é que é um namorado ou uma namorada, se calhar a criança também achar que tem vários namorados e namoradas,
como eu já ouvi crianças dizerem isso, porque é tipo…
P’ra elas o amor é tipo aquilo que…
[Bruna] É um conceito demasiado abstrato para aquilo que o cérebro consegue compreender naquela altura.
E concordo contigo. Acho que isso é mais a sexualização.
Que é tipo… “Ah, então…”
A crianças pequenas dizem “então e os namorados?”.
[Alexandre] Ya!…
[Bruna] “As namoradas?”.
[Alexandre] Ou então a miúda ainda é pequena e já ’tá tipo
“Ai, vais dar muito trabalho ao teu pai quando fores grande”.
Tipo…
“Ai, não sei quê.
Vai partir muitos corações”.
É tipo…
E as próprias crianças, há uma altura, uma idade
(e eu lembro-me tipo também de ouvir este tipo de coisas em pequeno
e ver outras pessoas que ouvem este tipo de coisas),
e de certa forma parece que se está a construir uma expectativa na cabeça daquela criança de
“Eu tenho que fazer de facto tudo isto”, não é?
E isso de certa forma também não é bom para a parte psicológica da própria criança, não é?
Que sente que tem ali umas expectativas que tem que cumprir.
E, às vezes, a própria criança já sabe de antemão que se calhar não as vai querer cumprir.
[Bruna] Exato.
[Alexandre] Ou que nem sequer compreende porque é que as tem que cumprir.
[Bruna] Porque…
Agora pegaste numa parte importante das expectativas.
Porque até antes da concepção, ou adoção,
ou seja aquilo que for,
mas antes da criança fisicamente aparecer,
a criança existe psicologicamente,
dentro da cabeça dos pais,
dos cuidadores.
[Alexandre] Sim.
[Bruna] E essas expectativas vão-se prolongando.
E as pessoas imaginam como é que será,
e aquilo que eu gostava que fosse ou gostava que não fosse.
E depois quando existe da pessoa concreta (não é?),
a pessoa aparece fisicamente.
E como é que será essa pessoa lidar com essas expectativas todas que são impostas,
que não foram uma decisão dela.
[Alexandre] Ya!
[Bruna] E o quebrar essas expectativas.
Porque, lá está, pra a pessoa que está a passar por processos de construção de identidade,
é uma coisa muito sufocante,
é uma coisa muito pesada,
ter pessoas que são admiradas,
que são gostadas de forma muito intensa,
que são as figuras, não é?
Como é que eu vou dizer a essas pessoas que eu vou quebrar as expectativas delas.
[Alexandre] Ya!
[Bruna] É que, por exemplo,
eu sei que há casos em que:
“Agora como é que eu tenho um filho?
E como é que eu vou dizer aos meus pais: não vai acontecer.
O neto que eles tantos queriam, não há”.
[Alexandre] Exato.
[Bruna] Ou não quero adotar. Coisas simples, pode ser…
[Alexandre] Sim, sim, sim.
[Bruna] …porque eu não quero, ou porque infelizmente tenho algum problema de infertilidade.
[Alexandre] Sim, sim, sim.
[Bruna] Seja porque a minha pessoa companheira é do mesmo género que eu.
[Alexandre] E não ter, não querem recorrer a outro método.
[Bruna] Sim, exato!
[Alexandre] Eu conheço muitas situações dessas também,
De pessoas dizerem-me tipo “Ah! Eu sou Bissexual” ou “Eu sou Gay” e
“Agora pá se eu vou arranjar um namorado,
eu vou estar a ir contra aquilo que os meus pais querem para mim.
Não era isto que os meus pais imaginavam para mim.”, não é!?
E, de certa forma, o quão isto também afeta a própria pessoa.
[Bruna] Exatamente.
Porque é todo um mundo que tem que lidar:
o próprio, o dos outros, expectativas das relações. É tudo muito mais complexo.
[Alexandre] Isto de facto é um tema que é bastante grande,
e que podemos sempre abordar noutros episódios.
E ficarmos também a conhecer mais a tua experiência,
enquanto mulher Bissexual, aquilo também que é a tua descoberta e a tua vivência.
[Bruna] Exatamente. E então, pronto,
este sendo o [meu] primeiro episódio, falei aqui também de temas que me são mais chegados e que eu gosto bastante.
Lá está, dentro da psicologia adoro crianças, então acabei por levar um bocadinho para aí também.
Mas sim, confirmo que nos próximos episódios vamos falar sobre outros temas e outras perspectivas.
[Alexandre] Até porque há tanto para falarmos dentro da Bissexualidade, não só este estereótipo
de nos verem como pessoas predadoras ou de que vamos andar aqui a comer com os olhos de qualquer outra pessoa
que vejamos à frente.
[risadas]
[Alexandre] Não é assim que funciona, isso era exaustivo demais.
[risadas]
[Bruna] Exato, concordo!
[risadas]
[Alexandre] Era não era? Tipo: uma pessoa sai de casa e tipo… Não!
[risadas]
[Bruna] Eu gosto mais dos meus gatos e de passar tempo com eles.
[Alexandre] São… Não julgam. Não julgam e não são preconceituosos.
[Bruna] Os meus julgam com o olhar.
[Alexandre] Sim.
[Bruna] Mas eles gostam muito de mim.
[risadas]
[Alexandre] Mas é um julgamento diferente.
É um julgamento que não te dá… que não te destrói internamente.
[Bruna] Concordo.
[risadas]
[Alexandre] E pronto. O nosso próximo episódio vai sair no dia 13 de Março.
Até lá. Fiquem bem e…
[Todes] Venham bialogar connosco!
