Neste episódio recebemos uma das novas pessoas co-apresentadoras do Bialogar e falamos sobre pessoas Não-binárias Bissexuais e violência transfóbica. Trazemos também algumas novidades para os próximos meses.
Participem também nos comentários. 🦄
Venham Bialogar connosco! 💗💜💙
Publicação: 12/12/2025 | Duração: 58min 15s | Produção: 10h | Legendas: no YouTube
Avisos: Contém menções de bifobia, apagamento Bissexual, invalidação, invisibilidade, questionamento identitário, processo de “sair do armário”, saúde mental (nomeadamente sobre burnout/esgotamento, procura de apoio, más experiências com profissionais de saúde mental, bem como estigma em relação à psicologia e psiquiatria). Contém breves menções de misóginia, bullying, preconceitos, pornografia, sexo, dinâmicas sexuais, sociais e relacionais, homofobia, transfobia e LGBTfobias no geral.
Pessoa(s) Convidada(s)
Não houve pessoas convidadas neste episódio.
Referências
Personalidades
- Lady Gaga: Cantora, compositora e atriz Bissexual Estadunidense.
- Maria João Vaz: mulher Trans Não-binária Bissexual, atriz, dobradora, escritora, artista plástica e ativista LGBT+ Portuguesa.
- Felipe Castro: artista Queer Brasileiro.
Personagens
- Nick Nelson: Rapaz Bissexual da série “Heartstopper” e dos Livros de “Heartstopper”, de Alice Oseman
Livros
- “Heartstopper”, de Alice Oseman
Filmes e Séries
- “Heartstopper”
Eventos e Datas
- Bi Fest: 1 a 30 de Setembro de 2025, 1.ª grande agenda de eventos da Visibilidade Bissexual em Portugal
- Clube de Leitura LGBTI+ das Bibliotecas de Lisboa de Setembro/2025, disponível aqui.
- QueerNatal Lisboa: 29/Novembro a 1/Dezembro de 2025
Associações, Coletivos e Grupos de Apoio
- Bi Mosaic – https://www.instagram.com/bi.mosaic/ .
- BIPOC Deviants – Instagram: https://www.instagram.com/bipoc.deviants/ – Telegram: https://t.me/+gjxIBRTMLOk1ODlk
Termos e Expressões
(em edição)
Transcrição
[Alexandre] Este 13.º episódio do podcast de Bialogar foi gravado ao vivo no QueerNatal Lisboa, no Impact Hall, no dia 1 de Dezembro de 2025.
[Naomi] Então, alô, alô! Sejam bem-vindes ao episódio do Bialogar. Eu sou a Naomi.
[Alexandre] Eu sou o Alexandre. E temos connosco hoje uma nova pessoa co-apresentadora, Naomi, a minha irmã, pessoa Trans-feminina Pansexual.
Naomi, queres-nos falar um pouco sobre ti?
[Naomi] Claro, com todo o gosto. Inclusive, agora finalmente podem conhecer a irmã do Alexandre, que já tanto a ouviram falar na primeira temporada do podcast.
Então, quem sou eu? É uma ótima questão e uma questão que já carrego há 24 anos.
[risadas]
[Naomi] Sinto que o que me traz um bocado a estes espaços identitários é um bocado isso;
essa procura de identidade, não é? Esse crescimento pessoal, que acho que são questões que todos nós nos relacionamos, não é?
[Alexandre] Completamente.
[Naomi] Inclusive, lembro-me de várias conversas que já tive contigo,
também nesse âmbito de descoberta pessoal, de questionamento identitário.
E então, não sei; ia tentar correr um bocadinho uma cronologia de quem sou eu, se me permitires, não é?
Falar aqui da minha infância, da infância que tu conheces.
[Alexandre] Muito bem. Acho que melhor do que tu, porque eu tenho melhor memória.
[risos, incluindo do público]
[Naomi] Então, como o Alexandre, que já devem ter ouvido aqui a introdução no primeiro episódio, um episódio muito bonito, gostei muito de ouvir e que me enche bastante de orgulho.
Também, cresci na terrinha.
Cresci abandonada nas terras da aldeia, não é?
E numa escola semi-colégio, com um ambiente, assim, interessante.
Não necessariamente homofóbico, mas também não necessariamente inclusivo.
E com aquilo que é o percurso escolar e o percurso de crescer na terrinha, que presumo que muita gente conheça também,
aquilo que é viver no interior do país, o conhecimento é largamente perdido.
É largamente dissolvido naquilo que são as identidades normativas, naquilo que é o conhecimento disponível.
E então durante muitos anos, o único termo que conhecia enquanto descoberta identitária era “o homossexual”.
O “homossexual” que aparecia nas capas de revista, que aparecia no jornal da noite, portanto, sempre utilizado de uma forma muito grosseira, não é?
[Alexandre] Que aparecia nos filmes como alívio cómico.
[Naomi] Exatamente. E então, como procurar aquilo que é uma questão identitária?
De me relacionar enquanto uma pessoa Trans, sinto que, se calhar, o meu percurso…
transformou-se, assim, num reverso daquilo que é o que eu oiço de muitas pessoas, que conheço, Cis a falarem sobre o seu percurso de identidade sexual.
Na questão de que eu identifiquei-me primariamente como um “homem Gay”, não por, efetivamente, me sentir um homem Gay,
mas porque eu já não me sentia um rapaz, à primária, e então eu apercebi-me que era um bocado “estranho” eu gostar de raparigas,
porque isso não era a normatividade heteronormativa.
Então, achei que Gay fazia sentido.
E, como também era o único termo que conhecia, desconhecimento completo,
durante grande parte do meu período de descoberta identitária, identifiquei-me como um “homem Gay”.
Isto fazia perfeitamente sentido na minha cabeça.
Vão tentar compreender os devaneios de uma criança de 12/13 anos, não é?
[Alexandre] Que se está a descobrir. Não são, no fundo, devaneios. Estás-te a descobrir.
[Naomi] Não, obviamente. Obviamente. A descoberta é uma coisa que é fluida e é constantemente dinâmica.
Mas sinto que foi muito à base da falta de conhecimento, sabes?
Porque sinto que o que eu procurava era inserir-me na normatividade,
ao mesmo tempo que a normatividade não me fazia sentido.
Porquê?
Porque eu não era um homem,
mas também, a priori, daquilo que era o conhecimento e a informação que me transmitiam, também não era uma mulher.
Então, o quê que eu era? E de quem é que eu podia gostar?
E é uma questão que muitas… muito poucas vezes nos apercebemos,
que às vezes não é a questão de qual é que é a nossa sexualidade,
é a questão do que é que podemos ou não podemos fazer.
Será que eu posso gostar de tal pessoa? Será que eu posso gostar daquele género?
Será que eu posso gostar daquela apresentação?
Mas e se for uma mulher masculina? Ou se for um homem feminino? Será que eu posso gostar?
E o quê que eu posso fazer? Será que eu me posso vestir assim?
Será que eu posso me vestir assado? Será que eu posso ter este comportamento?
[Alexandre] Será que eu posso gostar destas coisas?
[Naomi] Exatamente.
Talvez uma das coisas que me lembro muito enraizada daquilo que é o conceito de masculinidade
é, tipo, a forma de sentar.
E talvez também se relacione com aquilo que é a neurodivergência.
Eu nunca gostei de ‘tar quieta e nunca gostei de me sentar, tipo, da forma, digamos assim,
“comum” de me sentar numa cadeira.
Então sentava-me sempre das maneiras mais, enfim…
[risadas]
[Alexandre] Aleatórias.
[Naomi] Exatamente.
E muitas vezes era aquele questionamento que é tipo: “será que isto é uma forma masculina de sentar?”.
E lembro-me há uns tempos também de ouvir uma pessoa a falar que passou na rua
e tinha duas pessoas a falarem sobre esta pessoa, minha amiga, que passou,
a tentar decifrar o género da pessoa pela forma de andar:
“Porque já viste a forma como anda, é claramente um rapaz!”.
[risadas irónicas]
[Alexandre] A Sofia queixa-se muito,
já em episódios anteriores, precisamente que desde pequena era muito criticada
pela forma como andava, porque as meninas não andam assim.
[Naomi] Exatamente.
[Alexandre] As meninas não se sentam assim.
E para os rapazes também existe essa situação de…
Aquela que eu contei no Clube do Livro LGBTI+ da Heartstopper,
aquela questão do rapazinho que disse que “meter a perna assim isto não é de homem,
isto é de mulher.
O homem mete a perna assim.”… [tom de voz irónico]
[Naomi] Exatamente.
Como se a perna definisse género.
[Alexandre] Exato. Mas eu gosto [ironia] que essas pessoas normalmente que gostam de definir os géneros com base em coisas,
também são as pessoas que,
quando tu dizes não, mas eu sou uma mulher, dizem “não, não,
porque o que está entre as tuas pernas é que definiu o teu género!”…
[Naomi] Exatamente.
[Alexandre] É tipo, arranjei um termo, gente, afinal é o quê? [ironia]
[Naomi] Porque é uma questão…
[Alexandre] É quase como se fosse uma construção social. [ironia]
[Naomi. ironicamente] Quase.
[Alexandre, ironicamente] É né?
[Naomi] Mas é uma coisa gira, porque isto relaciona-se com a fragilidade dos termos
e das construções sociais que temos, que é largamente o que também,
já agora que partilho, que sou uma pessoa no meio ativista,
é uma coisa que tento transmitir nesse meio onde faço imenso trabalho voluntário,
que é: a identidade é muito mais do que questões e rótulos.
A identidade transporta-se muito mais para aquilo que nós somos,
para aquilo que queremos, para aquilo que queremos para nós,
para aquilo que queremos que visualizem, etc.
Aqui entramos em identidade de género, expressão de género, sexualidade.
Mas saindo mesmo destes rótulos, a identidade de uma pessoa
transporta-se para aquelas questões que são difíceis de fazer
e aquelas questões que muitas vezes nos deixam absolutamente sem resposta,
ao mesmo tempo que nos deixam
com uma total certeza de quem é que nós somos.
E isto parece contraditório, mas é um facto, porque quando tu perguntas a uma pessoa,
e pegando aqui em vários tópicos, não é?
Quando perguntas a uma pessoa sobre a sua sexualidade, como é que a pessoa sabe?
Não existe uma resposta em concreto, existe a resposta de que sim,
tu gostas de… ou uma questão identitária.
Como é que tu sabes que és uma pessoa Cis?
Como é que sabes que és uma pessoa Trans?
[Alexandre] Se não te questionares, se não tiveres informação.
[Naomi] Mas mesmo com o questionamento.
E é uma conversa que já tive com múltiplas outras pessoas Trans e comigo mesma,
que me deixa constantemente numa posição onde eu não tenho uma resposta definitiva.
Eu sei que sou uma pessoa, eu sei que me identifico com o termo Trans-feminina,
mas não tenho necessariamente um absoluto…
Porque são questões mutáveis, são questões que levam ao crescimento.
E talvez também ainda o meu percurso identitário trouxe-me este conhecimento,
trouxe-me esta versatilidade, com que comecei, não é?
Comecei absolutamente sem conhecimento nenhum,
a identificar-me como um homem Gay.
Porque procurava este…
[Alexandre] Procuravas uma caixinha onde te colocar.
[Naomi] Exatamente, procurava a segurança naquilo que era o que a sociedade me apresentava.
Naquilo que me traziam.
E o que me traziam era umas caixinhas heteronormativas,
uma para homem, uma para mulher, aquela vibe [=envolvente/atmosfera] completamente terrinha.
E é isso. E então foi numa dessas que me tentei colocar.
E como não me encaixei muito bem numa, recortei um bocadinho duma,
recortei um bocadinho da outra e encaixei ali numa nova identidade
que eu decidi definir como sendo “eu um homem Gay”.
[Alexandre] Exato.
E depois, ao longo do tempo, acabas por fazer essa descoberta.
Para além dessa falta de informação, quais é que tu também sentes
que foram as principais dificuldades que tiveste nessa descoberta?
[Naomi] Uh…
[risadas]
[Naomi] É assim, talvez a parte pior foi a falta de comunidade,
porque muitas das coisas que tive de fazer no meu percurso identitário
acabaram por ser coisas que fiz sozinha
e que fui descobrindo sozinha,
em conversas que fui, largamente,
tendo comigo própria e com o Google,
Que nem sempre foi a maior ajuda. Vamos ser sinceros,
o Google nem sempre me deu a resposta que eu estava à procura.
[Alexandre] Agora ainda menos.
[Naomi] Não, e é muito bonito porque inclusive lembro-me de…
porque sei e porque te introduzi e porque depois te tornaste um aficionado em Heartstopper.
E é muito giro aquela cena em que o Nick ’tá a fazer os quizzes online, que eu também fiz,
mas a realidade é que os quizzes online que eu fui fazer não me deram uma resposta
que me fez sentir interpretada.
[Alexandre] Segura? Ah, Ok.
[Naomi] Que me fez sentir que fosse eu.
Deixou-me com mais dúvidas do que eu própria conseguia responder.
[Alexandre] Eu acho que ao Nick também lhe deixou com mais dúvidas.
[Naomi] Sim, obviamente.
[risos]
[Naomi] Mas imagina, passar grande parte dos anos da minha vida a tentar encaixar numa caixa de homens cis
e depois, mais tarde na minha vida, descobrir que, calma lá, não é bem assim.
E que afinal eu já sabia, mas ‘tava a tentar mentir a mim própria,
porque queria preencher mais uma caixinha;
acabou por transformar esta descoberta identitária um bocadinho mais complexa. [risada]
[Alexandre] Não, mas imagina, eu sinto que me correlaciono, porque é aquilo que eu já falei muitas vezes
da minha descoberta identitária.
Até eu me apaixonar pela primeira vez por um homem, eu não tinha a certeza se seria Bissexual.
Mas já me tinha questionado imensas vezes isso ao longo da minha vida.
Inclusivamente, em 2018, quando tive o meu burnout [=esgotamento], cheguei a ter o questionamento de “Bi ou Pan”,
porque foi quando tu me apresentaste o termo Pansexual.
[Naomi] Ya.
[Alexandre] E o que é que isso queria dizer. E foi um questionamento de “hum uma coisa ou outra”, percebes?
Se calhar também seria importante, para quem nos está a ouvir e não conhece estes termos,
se quiseres explicitar a definição, mas depois também como é que tu usas a definição para ti própria.
[Naomi] Então se calhar vou começar por dar um bocado de contexto, porque por acaso ainda não toquei,
de como é que eu descobri a Bissexualidade e a Pansexualidade
e como é que eu comecei a identificar com o tema, não é?
Então, vou-vos transportar alguns para 2015/2016,
portanto ainda nos meus tempos de secundária, muito dinâmicos, muito giros,
entretanto já tinha um grupo de amigos ligeiramente Queer.
Tínhamos ali o nosso…
A nossa comunidade, vamos pôr assim, numa escola um bocado conservadora.
Mas, portanto, um desses meus amigos identificava-se com Bi
e foi assim que eu descobri o termo Bi.
Em conjunto com, e tenho nesse orgulho do dizer, a Lady Gaga.
Porque eu lembro-me de tu me mostrares vídeos das músicas da Lady Gaga
e eu fiquei obcecada com a Lady Gaga, a pesquisá-la por todo o lado.
[Alexandre] Poker Face e a…
[Naomi] Exatamente.
[Alexandre] Bad Romance, Alejandro…
[Naomi] A uma certa altura eu comecei a questionar-me se eu gostava da Lady Gaga
ou se queria ser ela.
Turns out [=Acontece que], são as duas.
[Alexandre, retoricamente] Quem é que não quer ser a Lady Gaga, pelo amor de Deus?
[risos, incluindo do público]
[Naomi] Ah, mas basicamente foi assim que eu descobri o termo.
E em conversas com esse meu amigo e em conversas com a internet,
porque acabavam por ser os dois os únicos meios onde eu conseguia conversar sobre estes assuntos,
eu comecei-me a perceber que se calhar encaixava um bocado no tema.
Eu lembro-me de ter inclusive tido uma conversa contigo
onde estava a falar sobre uma paixoneta que eu tinha numa colega minha,
ao mesmo tempo estar-te a falar que também me sentia atraída por homens,
e tu dizeres-me alguma coisa do género que:
“Ai não, mas isso claramente parece uma paixão héterossexual”.
E que eu fiquei um bocado a pensar sobre a situação, que é tipo:
“Será que eu gosto mesmo da colega ou eu quero ser a colega?”.
E é nesse momento e nessas questões em que eu me apercebo que
não tenho uma resposta que seja definitiva.
Acaba por ser um bocado dos dois.
Na altura sinto que ainda estava numa posição um bocado de
invejar aquilo que eram as identidades Cis, vamos pôr assim, não é,
porque também não conhecia melhor.
E ao mesmo tempo, a perceber-me que sim,
eu efetivamente eu gostava desta pessoa.
E é criar o contexto na minha cabeça de como é que eu consigo
gostar de homens e de mulheres ao mesmo tempo.
Foi daí que veio precisamente o termo Bi.
E que acoplei aqui o termo Bissexual a esta identidade.
E lembro-me que na altura comecei a todas as outras pessoas a quem eu saía do armário,
vamos pôr assim, saía do armário como Bi.
Inclusive lembro-me que quando saí do armário ao meu pai,
disse precisamente Bissexual
e comecei a ganhar um certo conforto no termo.
À medida que me fui envolvendo com a comunidade, isto já com os meus 16/17 anos,
descobri que existiam mais termos.
E foi aí que descobri o contexto “Bi versus Pan versus Omni versus Poli”
e comecei a explorar um bocado o que é que eram estas identidades todas.
E a acumular aqueles vários testes que cheguei a fazer das identidades.
E aqui eu se calhar puxo daquilo que foi um exemplo que já foi dado por um amigo meu,
que é as camisolas.
Eu comecei a vestir as camisolas e comecei-me a perceber que a camisola Bi
era uma camisola que me ficava assim
um bocado… Humm…
Não encaixava muito bem com o outfit [=conjunto de roupa vestida].
Ficava um bocado grande.
Mas a camisola Pan ficava perfeitinha.
Era assim um crop, deixava-se ver o umbigo,
ficava com as manguinhas perfeitas, exatamente a minha dimensão.
E gostei.
E o que é que é isto de ser Pan, não é?
O que é que é isto de ser Bi? O que é que é isto de…
[Alexandre] Não é gostar de frigideiras?
[risos de toda a gente]
[Naomi] Não, ainda que eu goste imenso de cozinhar com frigideiras.
São muito versáteis.
[risos de toda a gente]
[Naomi] Mas o que é que é isto de ser Pan?
Então, Pan acaba por ser a subdivisão de Bissexual mais abrangente delas todas,
nas quais não só é irrelevante o género da pessoa,
mas também é irrelevante a percepção de género que existe ou não na relação.
Portanto, quando eu envisiono eu ter uma relação, seja ela romântica ou sexual,
com uma pessoa, eu não perceciono o género ou o corpo da pessoa de todo.
Não me é uma coisa que me é relevante.
E isto é uma conversa que já tive também extensivamente com a minha melhor amiga,
que é “ah, mas e se a pessoa depois mudar de género durante a relação?”,
portanto passar a ter uma identidade de género diferente.
E a minha posição nessa situação, mesmo que a estrutura da relação mude,
é altamente de irrelevância.
Não é uma coisa que sim que me seja relevante para uma relação,
seja ela romântica ou sexual,
é uma coisa que existe completamente num abstrato na minha mente.
[Alexandre] É aquilo que ‘tavas a falar, precisamente, lá está,
isto são tudo esses quatro termos que falaste: Bi, Pan, Omni, Poli,
são termos das chamadas não-monossexualidades.
[Naomi] Exato.
[Alexandre] Portanto, sexualidades em que a atração é por mais do que um género.
Normalmente, o termo Bi pode ser usado como um guarda-chuva [= termo abrangente] também para elas todas,
mas também pode ser uma identidade em si mesma e cada pessoa vive da sua maneira.
E a Bissexualidade não explicita aquilo que tu falas,
que a Bissexualidade tu podes gostar de mais do que um género,
mas pode ou não, o corpo da pessoa ser relevante,
o género, a sua apresentação, a sua identidade de género.
E o Pan é mais aquilo que encaixa contigo,
no sentido de isso é irrelevante para ti.
[Naomi] Porque, inclusive, é uma conversa que já esqueci de ter contigo,
precisamente sobre a forma como a estrutura da relação, no caso, importa para ti
e, no caso, isso para mim não importa.
Que é um pensamento que é tipo, e lá está, não tem que se relacionar com estereótipos,
mas é, por exemplo, aqueles estereótipos de ser o homem da relação ou ser a mulher da relação
e que, mesmo que essa estrutura mude dentro da relação
ou mesmo que a estrutura não seja evidenciada ou seja uma estrutura diferente,
é uma coisa que, a mim,
nunca me fez confusão.
[Alexandre] Para mim, a estrutura também não é propriamente importante.
É mais tipo, eu sinto que, ou seja, eu sinto que, como disse com a Sofia,
nós já falámos disso, eu não sinto que me possa atrair por toda qualquer pessoa.
Sinto que o género da pessoa ou o corpo da pessoa tem influência na minha atração.
Mas, se isso mudar, também não quer dizer que seja um fim do mundo,
também. Percebes?
Mas, a forma como eu me atraio varia um bocado também consoante do género da pessoa.
[Naomi] Ok.
[Alexandre] Agora, a estrutura da relação, isso ’tou-me pouco borrifando.
Não gosto de ter estruturas heteronormativas na minha relação.
Dispenso.
[Naomi] Lá está. Sinto que é uma coisa que não tenho percepção,
precisamente porque nem é uma coisa que eu penso quando me estou a envolver numa relação
ou que faça parte dos meus critérios.
Então, acho sempre engraçado quando ouço as pessoas a falar sobre
a sua relação com o género da pessoa e a sua relação com a estrutura relacional
ou a sua relação com, até mesmo, preferências relacionadas ao corpo da pessoa,
porque não as perceciono.
Eu lembro-me de ter ido a um encontro, uma vez, com um homem Trans e,
a uma altura da conversa, estamos a falar sobre tópicos sexuais,
e, é o momento onde ele pausa, entra completamente em pânico e vira-se para mim
e diz-me “mas, olha, eu acho que ainda não falámos sobre o assunto:
eu tenho uma vulva!”.
E é o momento em que eu olho para ele, ’tou assim bastante confusa a pensar
“e o que é que isso tem?”.
E é o momento em que eu pauso e penso “ah, calma, há pessoas que se importam com isto”.
[risadas]
E, tipo, e ’tá tudo bem termos preferências.
[Alexandre] Sim, sim, sim.
[Naomi] E inclusive termos preferências genitais, desde que não sejamos transfóbicos, por favor. Mas…
[Alexandre] É aquela situação de saber comunicar as coisas.
[Naomi] Sim.
[Alexandre] Tu podes ter uma preferência, mas tens de saber comunicar isso à outra pessoa
e respeitar a identidade da outra pessoa.
[Naomi] Obviamente.
[Alexandre] Porque nós não andamos aqui, nós não olhamos para as pessoas
e não ‘tamos a ver o que é que as pessoas têm entre as pernas, por amor de Deus.
[risadas de toda a gente]
[Alexandre] Podemos ter preferências, perfeitamente, mas é a questão de,
a conversa que tínhamos de manhã também aqui com a Maria João Vaz,
que era a questão de “nós não andamos a perguntar às pessoas
o que é que elas têm entre as pernas”.
[Naomi] Exatamente.
[Alexandre] É importante falarmos sobre isso, se tivermos interesse em ter alguma coisa com a pessoa,
se isso for relevante ou não para nós.
Mas há formas de fazer isso e de respeitar a outra pessoa.
Porque é aquela questão, se eu tenho uma preferência, é um problema meu.
Não são as outras pessoas que têm que corresponder às minhas preferências.
São as minhas preferências.
E, portanto, se a outra pessoa não corresponder às minhas preferências,
é um problema meu.
Sou eu é que tenho que lidar com isso e me enxergar, não é a outra pessoa.
[Naomi] Não e concordo perfeitamente, até porque precisamos de um contexto
um bocadinho maior sobre consentimento e respeito.
[Alexandre] Completamente.
[Naomi] E precisamos duma sociedade mais empática.
Mas é um conceito que eu acho engraçado, porque é o facto de, efetivamente existem,
efetivamente há pessoas que têm preferências a níveis de género,
a níveis corporais, a níveis de estruturas de relação,
e simplesmente não me consigo identificar.
E sabes como é que eu descobri isto?
Eu acho que nunca te contei.
[Alexandre] Quero saber!
[Naomi] A forma como eu fiz a transição do rótulo de Bi para Pan foi muito, assim, brutal.
Foi a partir do momento que me apercebi que não era uma pessoa Cis.
Porque é o momento em que, de repente,
eu consensualizo que, como é que isto faz sentido?
Como é que me faz sentido identificar-me com um rótulo que, enfim, não é?
Apesar de ter este contexto guarda-chuva de uma forma generalizada a todas as pessoas
e a todos os fóruns Bissexuais que eu conhecia, se falava precisamente sobre haver
uma relação com a necessidade do género da pessoa ser importante.
E como é que eu me conseguia identificar com isso tendo em conta que,
em relações passadas, eu fui, entre aspas, “um homem”, e agora, em outras relações,
eu já não sou um homem? Como é que isto me fazia sentido?
E é o momento em que eu me começo a perceber que o rótulo, ou a ideia do rótulo em si,
começava-me a fazer confusão.
Porque é que eu… Isto é uma questão engraçada, não é?
Mas porque é que eu preciso de identificar a forma como eu gosto ou não gosto de pessoas?
Porque é que eu preciso de identificar para alguém que “ah, eu gosto deste grupo de pessoas”?
Porque é que eu não posso, por exemplo, simplesmente falar com as pessoas que eu gosto?
Falar com as pessoas com quem eu tenho química?
É um conceito engraçado.
Porque, obviamente, eu percebo e compreendo que os rótulos têm a sua importância
no sentido de procuras identitárias, no sentido de procuras de comunidade,
e especialmente no sentido de [dar] conforto pessoal às pessoas,
de aclamarem aquilo que são, aquilo que têm, as experiências que vivem.
Porque, obviamente, é importante termos… conseguirmos bater o pé e ser, tipo:
“eu estou aqui”. Eu existo.
[Alexandre] E dá um senso de comunidade.
[Naomi] Sim.
[Alexandre] Quando tu tens um rótulo, sabes que esse rótulo existe para mais pessoas.
E sabes que há mais pessoas como tu.
[Naomi] Ya.
Mas numa perspetiva pessoal, apercebi-me que não preciso.
Não necessito mais de um rótulo.
Até porque sinto que já sou uma pessoa profundamente Queer expressiva.
Mas já não sinto tanta necessidade de me agarrar a um título de
“estas são as pessoas de quem eu gosto”.
[Alexandre] Certo.
[Naomi] E então cresci um bocado, para fora disso,
nessa descoberta correlacionada com a minha identidade de género.
[Alexandre] Sim e isso, por acaso, é um tópico importante que tu falas, porque essa questão dos fóruns
existe depois também muito essa quase binariedade, como se a Bissexualidade tivesse que ser binária.
E é algo que já tentámos trazer até com o último episódio,
de que existem pessoas Não-binárias que se identificam como Bissexuais
e Bissexualidade não tem que excluir pessoas Não-binárias.
Aliás, isso é uma conversa que eu até já tive com várias pessoas e com a Sofia,
que é: eu quando olho para pessoas, eu não posso assumir necessariamente o género da pessoa,
porque eu ’tou a olhar para uma pessoa.
É uma pessoa feminina, por exemplo,
mas não quer dizer que seja uma mulher.
Pode ser uma pessoa Não-binária. Pode ser um homem feminino.
E a questão é…
Isso muda necessariamente a minha atração?
Depende.
Agora, a questão é, entramos aqui neste questionamento, que é…
Ok, há uma pessoa que é feminina. Eu olho para ela e, se calhar,
atraio-me da mesma maneira que me atrairia por uma pessoa que é uma mulher.
Percebes? Mas é uma pessoa Não-binária.
Isso mudou a minha atração? Não necessariamente.
[Naomi] Sabes, isto é uma conversa que já cheguei a ter sobre a fragilidade da imutabilidade das identidades das pessoas.
Que é o sentido de: quando a pessoa tem uma identidade
tão fixada, seja numa caixa, seja num estereótipo, seja num rótulo,
a partir do momento que existe alguma coisa que contrarie esse processo identitário,
transforma-se numa impossibilidade.
E a pessoa, de repente, fica numa posição onde é preciso excluir completamente esta situação,
porque senão isto não vai fazer sentido.
Isto acontece com os espaços normativos, obviamente,
em que é tipo, tudo o que varia para fora daquilo que é a norma cisnormativa é frágil.
De repente, precisa de criar o seu próprio espaço
e precisa de se impor.
E o mesmo acontece dentro das não-monossexualidades.
O mesmo acontece dentro da Não-binariedade.
É precisamente este conceito, que é: imagina que a pessoa se identifica como Gay.
É um homem Gay e, de repente, vê uma pessoa Não-binária com um aspeto masculino
e sente-se atraído por esta pessoa.
E então, de repente, a pessoa é o quê?
A pessoa continua a ser Gay? A pessoa deixou de ser Gay e passou a ser Bi?
E é a inflexibilidade ou não flexibilidade que a pessoa vai ter,
dependendo do seu grau de conforto,
com ter a sua própria identidade questionada.
E talvez isso também foi uma das coisas que me trouxe a esta Pansexualidade.
Que é precisamente esta questão de quão flexível ou não é que eu sou à mudança.
E que sinto que foi uma coisa que também ganha conforto nessa identidade
é a questão de que eu sinto que, se acontecer alguma situação na minha vida
onde faço uma nova descoberta identitária,
eu estou 100% aberta a essa descoberta identitária.
Não há nada, não há nenhuma barreira que me impeça de conceber o conceito de que
ya aquela identidade existe
e eu gostei bué.
Gostei bué daquela pessoa.
[Alexandre] E até porque as identidades são fluídas.
Porque nós próprios não somos a mesma pessoa desde que nascemos até morrermos.
[Naomi] Sim. [risada]
[Alexandre] Nós somos fluídos e as próprias identidades são.
E já no século passado, quando Alfred Kinsey cria a escala de Kinsey,
falava da sexualidade como algo fluído.
E que vais ter aqui um ponto mais ao meio…
Não mais ao meio não, porque ele fez uma escala de dois sentidos.
E nós sabemos que a escala não vai só em dois eixos.
Vai em muitos mais, porque depois temos a questão de:
tu podes ser uma pessoa Bissexual, mas seres Assexual.
Já entras aqui noutros campos, podes ser demi-romântico, misturares aí outras identidades.
Portanto, há aqui várias interseções que podem acontecer.
E quando juntas isto, qualquer identidade é fluída.
Num episódio que tivemos aqui, a Sofia falava, por exemplo,
de que o Clube Safo usa muito o termo “Lésbica com asterisco” [Lésbica*].
Porque há Lésbicas que, se calhar, só se querem relacionar com mulheres,
mas isso não quer dizer que a sua atração vá ser só por mulheres.
Porque pode haver, lá está, como tu falavas do exemplo do homem Gay,
uma pessoa que tem um aspeto que é Não-binária,
mas que aquela pessoa é Lésbica e atraiu-se por ela.
E não deixa necessariamente de ter de se identificar como Lésbica por causa disso.
As entidades são fluidas.
[Naomi] Exatamente.
Eu lembro-me de um exemplo muito claro numa das formações em que estive de voluntariado, em que…
Portanto, a minha bestie [= melhor amiga] é uma pessoa Não-binária.
E ela falava precisamente nessa formação dum exercício que nós tivemos,
onde era para nos identificarmos dentro de um espectro de homossexual a heterossexual,
com Bissexual no meio.
Enquanto pessoa Não-binária, onde é que ela se coloca aqui?
Onde é que estas identidades têm flexibilidade suficiente para permitir esta pessoa?
E acabámos de fazer a questão engraçada, que é: o que é uma pessoa Não-binária heterossexual?
É uma pessoa que namora com pessoas Cis?
Com pessoas binárias?
E o que é uma pessoa Não-binária homossexual?
É uma pessoa que só namora exclusivamente com pessoas Não-binárias?
[Alexandre] Pois realmente.
[risadas]
[Naomi] E acabou por ser uma pergunta engraçada, porque
quando misturamos todos estes conceitos, quando misturamos a interseccionalidade,
os rótulos acabam por ficar assim dispersos de maneira um bocado interessante.
Porque como é que encontramos todas estas identidades dentro do mesmo mar?
E há também uma outra frase que partilho aqui, que me ofereceram, que é o conceito de ilhas.
As sexualidades, as identidades de género, não passam de pequenas ilhas, que existem alguns no oceano,
e nós ‘tamos no nosso barquinho, a navegar ali pelo mar, e ‘tamos algures entre as ilhas.
Alguns de nós, se calhar, chegamos à margem da ilha, ficamos ali na praia,
alguns ficamos no barquinho a ver a ilha, outros ‘tão ali mesmo no meio do oceano.
E as identidades acabam por ser isto.
Se calhar Gay é o termo com que a pessoa mais se identifica.
Ou hétero é o termo com que a pessoa mais se identifica.
Mas se calhar não é totalmente, se calhar não ‘tão ali no topo da ilha.
[Alexandre] É um pouco se calhar o porto de abrigo, e a pessoa vai para o seu barquinho,
até pode-se afastar um bocadinho da identidade, mas é aquela identidade onde volta-se sempre.
[Naomi] Sim, exatamente.
E é um conceito que eu acho interessante, porque é uma das coisas
para as quais tento trabalhar, não é?
Porque, infelizmente, ainda não somos, seja em Portugal, seja fora de Portugal,
um espaço livre para as pessoas se explorarem completamente.
Porque gostava imenso deste conceito das pessoas poderem simplesmente explorar,
sem haver nenhum tipo de compromisso, sem haver nenhum tipo de represália,
sem haver aquele sentido de que a pessoa agora tem que se comprometer.
A pessoa agora teve qualquer tipo de partilha, de intimidade, de descoberta pessoal,
seja em que campo identitário for, e agora a pessoa tem de ser alguma coisa.
E as pessoas terem a oportunidade de se explorar.
Eu sinto que o que me trouxe à minha identidade e o que me trouxe à minha confiança atual,
que aparentemente descobri isto também no outro dia,
muitas pessoas tiram valor daquilo que é a confiança que eu transmito com inspiração,
o que me traz… é pá, enche-me o coração.
Mas é o sentido de: eu tive a oportunidade de me explorar.
Eu tive a oportunidade de envolver a minha identidade entre vários rótulos, entre várias descobertas,
entre várias vivências e experiências, que não se adequam àquilo que é…
Que não se adequam?!…
[Alexandre] À cis-heteronormatividade?
[Naomi] Diz-me?
[Alexandre] Que não se adequam naquilo que é a cis-heteronormatividade.
[Naomi] Não só. É que não se identificam com os rótulos que hoje carrego.
Eu, e tu sabes muito bem disto, porque foi contigo que mais partilhei esta experiência,
a pandemia permitiu-me a liberdade de, entre aspas, “mudar o meu género”.
E foi a partir daí que eu decidi começar a crescer naquilo que é a minha identidade de género.
[Alexandre] Mudar a tua apresentação. Deixar crescer o cabelo.
Testar novos penteados. Testar roupas. Testar outfits [= estilos de vestuário]. Maquilhagem.
[Naomi] E, na altura, senti-me muito confortável com o rótulo “pessoa Não-binária”.
[Alexandre] Sim.
[Naomi] E tu sabes muito bem disto, não é?
[Alexandre] Sim. Perfeitamente.
[Naomi] E, portanto, identifiquei-me.
[Alexandre] Foi nessa altura que eu aprendi mais sobre pessoas Não-binárias.
[Naomi] Exatamente. Lá está. Questões de conhecimento, não é? Referências. Identificações.
E, portanto, identifiquei-me como uma pessoa Não-binária.
Fiz, na altura, aquela conversa que tive com múltiplos amigos meus, contigo, de que
“ah, estes pronomes já não são muito os meus pronomes,
agora eu identifico-me mais com pronomes femininos”.
E foi na possibilidade de ter esta exploração, na possibilidade de ter estas experiências,
ter esta descoberta, ganhar conhecimento sobre outras vivências, que me permitiu crescer enquanto pessoa.
E que me permitiu, hoje, ainda não libertar muito a expressão Não-binária, eu sinto que,
tal e qual como a questão das camisolas, sinto que o termo mulher, ainda que seja um termo ao qual circundo,
é uma daquelas camisolas de malha que pica um bocadinho quando vestes, ’tás a ver?
É, tipo, sinto que preciso de alguma coisa por baixo para pôr a camisola por cima.
E, então, identifico-me como uma pessoa Trans-feminina.
Gosto do termo. Gosto da liberdade que isto me permite.
Enquanto uma identidade de género que não é necessariamente binária, mas se aproxima um bocadinho.
[Alexandre] E que é fluida.
[Naomi] Exatamente.
E porque permite uma liberdade de experiências, sabes?
Permite uma liberdade de conceitos.
Não tenho necessariamente que corresponder, e além disso ninguém tem, não é?
Mas não procuro necessariamente corresponder a um estereótipo.
Não procuro necessariamente corresponder: “agora quero ser a mulher binária”.
E também é uma pergunta que já me fizeram várias vezes, e que eu gosto sempre de clarificar,
que sou uma pessoa Trans.
Eu gosto de ter orgulho no facto de ser uma pessoa Trans, e de ser uma pessoa Trans Queer.
E isto é engraçado, porque lembro-me duma vez, no meu voluntariado, de uma pessoa que me apareceu
e que lidava essencialmente com crianças Trans, e que ‘tavam a falar…
[Alexandre] Que existem já agora. É importante dizer.
[Naomi] Exatamente.
E que estavam a falar numa roda de partilha, que era precisamente o que é que queriam ser,
qual é que era a identidade que tinham, etc.
E, portanto, estava toda a gente naquela vibe de:
“Ah, eu quero ser mulher”, “Eu sou uma mulher”, “Eu sou um homem”, etc, etc.
E há uma criança que se levanta e diz:
“Eu não quero ser uma mulher,
eu sou uma mulher Trans”.
E é este carregar de identidade que não é uma pessoa que está só a conviver num espaço binário normativo.
É aquela pessoa que tem a prepotência, que tem a autoridade de
“Eu sou uma pessoa Trans”.
E, por mais que isto seja o carregamento do ego, eu gosto de ter essa identidade,
eu gosto de ter essa expressão, e gosto que se saiba.
[Alexandre] Sim, afirmares-te, porque isto empodera-te a ti, mas também empodera as outras pessoas.
[Naomi] Exatamente. E já que tenho essa possibilidade, já que tenho essa confiança para,
gosto de criar espaço também para outras pessoas.
[Alexandre] É a mesma razão pela qual eu e a Sofia começámos o podcast.
[risadas]
[Alexandre] Não, mas no fundo é essa a razão, é criar o espaço para outras pessoas.
[Naomi] Não, e sinto tremendo orgulho por vocês.
[Alexandre] Tal como este espaço que estamos aqui a fazer agora, do Mercadinho de Natal.
Porque eu não disse no início, mas nós estamos num Mercadinho de Natal.
[Naomi] Exatamente.
[Alexandre] Para quem nos está a ouvir… Para quem nos vai ouvir no dia 12, porque nós estamos no dia 1 de Dezembro a gravar no Impact Hall,
no Queer Natal de Lisboa.
E, portanto, e também é daí que vem isto, é criar um espaço para as pessoas.
Tendo nós essa possibilidade, juntarmo-nos e isso, lá está, empodera outras pessoas.
E uma coisa que nós já falámos até nos primeiros episódios, mas que já não falávamos
se calhar há muito tempo aqui, era precisamente as mensagens que nós recebemos de pessoas,
e também no Bi Fest, a agradecer-nos por fazer estes eventos.
A agradecer-nos por criarmos este espaço, pessoas que nos vêm pedir ajuda.
E se nós podemos, acho que isso é muito importante,
porque é assim que nós construímos comunidade, que falávamos no início, precisamente,
que é uma coisa que sentias falta, que eu próprio também sentia falta.
E acho que uma das coisas que falaste na pandemia, uma das coisas também que me fez muito bem,
foi levares-me ao centro [LGBTI+].
[risada da Naomi]
[Alexandre] Acho que uma coisa que fizeste pior foi apresentares-me como “o teu irmão hétero”,
mas isso só foi…
[Público] Ooooh.
[Naomi] Era a tua identidade na altura.
[Alexandre] É verdade, era a minha identidade na altura, mas podias ter dito que eu era só o teu irmão, não precisavas dizer o resto. [brincadeira]
[Naomi] Desculpa.
[risadas]
[Alexandre] Até porque ambes sabemos que sabias perfeitamente que essa identidade não era verdadeira.
[Naomi] Também não era a minha posição.
[Alexandre] Sim, certo, mas era…
Lá está, eu ’tou a dizer isto em tom de brincadeira, mas obviamente…
Mas é um bocado aquela, todos nós começámos como grandes aliados,
ainda ontem, no outro dia, a Sofia falou sobre isso, e outras pessoas que estavam aqui no mercado
estavam por lá connosco e falaram sobre isso.
[Naomi] Acaba por ser um processo, sabes? A descoberta Queer não é uma coisa linear.
É uma coisa que se vai fazendo aos poucos, porque infelizmente não é uma coisa
que seja muito fácil de incorporar.
[Alexandre] E eu acho que há muita falta de informação.
No nosso sistema de ensino não se fala sobre esses temas, não se fala sobre sexualidade.
As aulas de sexualidade que eu tive na escola, que eu me lembro, foi uma enfermeira aparecer lá com um dildo, meter-lhe um preservativo para nos mostrar como é que se coloca o preservativo. Se nós aprendemos como é que se colocava um preservativo com aquilo, não, não aprendemos.
[Naomi] Olha, eu nem cheguei a ter isso.
[Alexandre] Exato, mas andámos na mesma escola. É importante dizer isto, nós andámos na mesma escola.
Portanto, as aulas de sexualidade foi: chegou lá uma enfermeira, trouxe um dildo,
meteu-lhe um preservativo, e pronto, é isto.
E vimos um filme que chama-se “Babies Blues”, que é basicamente adolescentes que vão ter sexo desprotegido
e no dia seguinte ela está toda mal, logo no dia seguinte, faz um teste de gravidez no dia seguinte.
Foi qualquer coisa do género. E ’tá grávida.
E é tipo…
Isto era a suposto de ensinar-nos a nós adolescentes que temos que usar preservativo.
E o que nós sentimos foi tipo…
Aquilo que muitos colegas meus sentimos: olharmos para aquilo foi e do estilo:
isto ‘tivemos aqui a perder o nosso tempo, completamente.
Isto é a coisa mais cringe [= absurda/embaraçosa] que acabámos de ver.
E é isto que é a educação sexual neste país, quando ela existe.
[Naomi] Por isso é que é importante.
[Alexandre] Às vezes quando não existe.
Há países em que… Isto é um tema que eu digo isto um bocado fora de brincadeira, mas eu lembro-me de ler artigos nos Estados Unidos
em que ainda hoje em dia, em pleno século XXI, há pessoas que acham que se beijarem outra pessoa, a outra pessoa vai ficar grávida.
Rapazes que tenham medo de beijar raparigas,
porque acham que se as beijarem elas vão ficar grávidas.
[risadas gerais]
[Alexandre] É wireless. É wireless. É gravidez wireless.
[Naomi] Mas por isso é que é importante informação, sabes? E por isso é que volto a repetir:…
[Alexandre] Completamente.
[Naomi] …enche-me de orgulho ter-te visto crescer nos últimos anos.
Quando me disseste que ias começar o podcast, não sabes o quão feliz eu fiquei de saber este teu envolvimento comunitário
e de saber que ias criar este espaço, que ias criar esta voz. E quando me convidaste para aqui, pá, olha…
[risadas]
[Alexandre] É um bocado quase nepotismo, mas pronto.
[risadas do público]
[Alexandre] Não, não é, não.
[Naomi, ironicamente] Ligeiramente…
[Alexandre] Ligeiramente, só porque és minha irmã.
[Naomi] Mas sabes que é uma coisa importante que eu queria recuperar dos vários episódios que fui ouvindo.
É uma cena que eu acho super engraçada, enquanto pessoa Trans, em relacionar-me tanto com a tua experiência como com a experiência da Sofia, e ter-me apercebido tão claramente a distinção que existe entre ser uma pessoa não-monossexual enquanto homem,
ou aliás, enquanto géneros masculinos, e ser uma pessoa não-monossexual com géneros femininos.
Porque acaba por ser uma experiência um bocado distinta, e que é uma coisa que já chegaste a dizer em episódios anteriores,
tudo se centraliza muito no homem. Precisamente por termos uma sociedade patriarcal, não é?
[Alexandre] Sim, uma sociedade machista, patriarcal, mas é muito essa situação que era o que a Sofia falava, que era precisamente uma mulher que diga que é Bissexual,
as relações dela são valorizadas é com os homens, ou seja, é sempre vista como uma hétero que está confusa, ou que se quer divertir, não é?
[Naomi] Exatamente…
[Alexandre] Porque as relações com mulheres não são levadas a sério.
E a mesma coisa com um homem que é Bissexual. “Não, é Gay e não quer dizer que é Gay”, não é?
Portanto, há muito esta situação. E precisamente porque, como diz a Sofia, a sociedade gira quase que à volta dum pénis.
[Naomi] E, lá está, essa experiência engraçada. Porque lembro-me, no final da minha adolescência, já com 17/18 anos, eu comecei a explorar, a descobrir um bocado mais a minha sexualidade, não é? E a abranger, portanto, aqui a Bissexualidade e a Pansexualidade.
E decidi voltar.
Digo voltar porquê? Porque, a uma certa altura, eu comecei a fugir à possibilidade ou não de me envolver com mulheres.
E comecei a voltar a este campo e cheguei a ter uma relação de curta duração com uma colega de turma, na altura.
Lembro-me de, as conversas que tinha com amigos meus eram bastante invalidantes, no sentido que: “Não, mas eu era Gay.” e “como assim eu ’tou-me a relacionar com uma mulher?”, “Não!
Eu estou à procura de arranjar alguma forma de me esconder, de me esconder na normatividade”.
[Alexandre, ironicamente] Ah, exato.
[Naomi] E o engraçado é que, quando comecei a identificar com géneros femininos, o discurso era completamente diferente.
O discurso era invalidar o facto… Continuavam a invalidar o facto de que eu gostava de mulheres, precisamente porque eu agora era uma senhora.
E agora eu tinha que gostar de homens. E tinha que ter relações com homens.
E ainda mais agora. A coisa que talvez mais me irrita, agora que estou numa relação com um homem, é quando as pessoas me percecionam numa relação heterossexual.
[risadas de todes]
[Naomi] Com todo o respeito aos meus amigos que dizem isto a brincar,
mas é uma coisa que me faz profunda confusão, sabes?
Porque sinto que… É uma conversa que já tive contigo sobre utilizar o termo “relação sáfica” e relação…
[Alexandre] Aquiliana.
[Naomi] Aquiliana.
Para não estarmos a invalidar a possibilidade das sexualidades e da diversidade sexual que as pessoas podem ter.
E sinto que o termo relação hétero invalida-me profundamente enquanto pessoa Pan, invalida-me profundamente enquanto Queer.
[Alexandre] Não, completamente. Aliás, eu gostei imenso quando a Sofia me deu a descobrir o termo aquiliano,
porque eu odiava, na primeira relação que eu tive com um homem,
que era: “Ah, estás numa relação Gay”.
E eu: “Não, eu não estou numa relação Gay. Eu sou Bi.
Eu estou a namorar com um homem.
Estou numa relação com um homem”.
[Naomi] Exato. E depois é o conceito que também já trouxeste aqui, e que eu acho engraçado também encontrar isso às vezes na minha vida pessoal.
Que é o conceito de “agora estás numa relação com um homem, então agora viraste tipo para o outro lado”.
[Alexandre] Ah sim, sim, sim. Já falámos sobre muito isso aqui.
Era aquele meu colega de trabalho que “Não, eu agora era Gay porque estava-me a relacionar com um homem”.
Eu pensava assim: “E se eu agora… Se eu estiver solteiro, sou Assexual?”.
[Naomi] Mas lá está. O que eu encontro nesta experiência da minha dualidade tipo Trans
é que eu recebia muito mais dessas questões quando me identificava com o género masculino
e agora, com o género feminino, eu já não recebo esse questionamento.
Até porque agora, como as pessoas me vêem numa relação com um homem, já nem existe questão.
Eu sou uma mulher cis hétero na cabeça das pessoas.
[Alexandre] Sim, sim. Aliás, já várias vezes disseste que és confundida.
Mas o que eu gostava de falar também antes, voltando aqui um pouco atrás, à questão da falta de informação.
A escola devia empoderar-nos para nos ajudar a viver a nossa vida, no fundo.
Deveria ser para isso que deveria servir.
E quando tu tens aulas de educação sexual que nem existem, ou como esta que eu falei, que é vês um filme e trazem um dildo para cima duma mesa e metem-lhe um preservativo, isto contribuiu em zero para ensinar o que quer que seja.
Porque educação sexual não é ensinar a pôr um preservativo num dildo.
E não é propriamente um quebra-cabeças.
Mas se calhar é mais importante explicar como é que se escolhe um preservativo.
[Naomi] Ya…
[Alexandre] Como é que se usa, não no sentido de como é que se coloca, mas todo o usar do preservativo.
[Naomi] Até porque expressemos, não é? Existem preservativos internos e preservativos externos.
E a maior parte das pessoas só conhece os preservativos internos.
[Alexandre] E até já existem preservativos para sexo oral.
[Naomi] Sim, sim, sim. Inclusive, já os vi.
[Alexandre] ‘Tou a falar preservativos para sexo oral em vulvas, neste caso.
[Naomi] Sim, sim, sim. Que são como se fossem umas cuecas ou uma máscara.
[Alexandre] Exatamente. É como se fosse uma cuequinha.
[Naomi] Dá tanto para fazer para a cara como dá para fazer para a vulva.
[Alexandre] Exatamente. E, portanto, isto é muito mais importante explicar as diferenças entre os vários tipos de preservativos.
Em que situações é que se utilizam? O que é que não se deve fazer? O que é que se deve fazer?
Consentimento, que eu acho que é uma parte muito importante. Precisamente.
E em vários aspetos. Porque as pessoas crescem a achar aquilo que foram ensinadas e aquilo que a sociedade lhes transmite.
E se nós não temos a informação, continuamos a ter pessoas que perpetuam uma série de coisas e crenças que estão efetivamente erradas.
[Naomi] Sim.
[Alexandre] Nós não podemos continuar a ter pessoas que acham que é ok ter sexo com alguém e tirar um preservativo no meio do sexo [sem consentimento], por exemplo.
[Naomi] Enfim.
[Alexandre] Ou pessoas que dizem “ah, eu não ponho preservativo porque me aperta”. É tipo, amor, aperta, compras um mais largo. É assim que funciona.
[Naomi] Mas vou-te mais além. Porque ainda além da educação sexual, é depois também a educação do próprio sistema.
[Alexandre] Sim, sim, sim.
[Naomi] É a educação das próprias pessoas formadoras. Eu lembro também da nossa escola.
Eu não sei se alguma vez chegaste a contactar com a psicóloga da escola.
[Alexandre] Não, nunca.
[Naomi] Eu cheguei a procurar apoio. E lembro-me muito bem precisamente disto, que foi o que me fez sair pela porta fora e nunca mais lá voltar, foi o momento em que eu ’tou a conversar com ela e eu digo-lhe, portanto, ’tou-lhe a contar uma história sobre uma paixoneta que eu tinha num amigo meu.
E digo-lhe, portanto, que eu sou Bi, continuo a minha história e ela interrompe-me, põe-me assim as mãos em cima, ela aproxima-se de mim.
Eu quero que consigam imaginar isto. Estamos numa mesa circular.
[Alexandre] ‘Pera, ‘Pera, vamos exemplificar, vou fazer de ti.
[Naomi] E ela aproxima-se assim toda pra cima de mim, mete as mãos em cima dos meus ombros.
E diz-me “mas tu és mesmo Bi ou és Gay e ainda estás no armário?”.
E é o momento em que eu fico assim, parada, a olhar para ela, a pensar.
[Alexandre] Deixa-me só recapitular que foi uma psicóloga.
[Naomi] Exatamente. E é o momento em que eu fico parada a olhar assim para ela e a pensar:
“mas isto nem era a parte relevante da história. É tipo, isto foi o que tu ficaste a focar-te na tua cabeça”.
E lá está, mais uma vez, é aquele questionamento tipo da validação da identidade Bissexual, não é?
Da saída das monossexualidades.
Mas ao mesmo tempo é percecionar o quanto o próprio sistema necessita de informação.
[Alexandre] Sim, porque lá está. Partiu duma profissional que deveria estar ali para te ajudar, para te apoiar.
[Naomi] Porque é que as próprias pessoas não estão capacitadas.
[Alexandre] Não estão capacitadas, exato. E depois também não são capacitadas porque não se fala disto na escola.
[Naomi] Ya.
[Alexandre] Tu quando ouves falar, num contexto escolar, sobre a homossexualidade, sobre estas questões, pelo menos no meu tempo, era, olha, porque surgiu uma notícia qualquer. Lá está, no meu tempo, eu lembro-me de andar na escola para ir no 7.º ou no 8.º ano, falou-se de homossexualidade porque estava em discussão a aprovação do casamento entre pessoas do mesmo género.
E acho que se não fosse isso, não se tinha falado sobre essas temáticas.
E foi o primeiro contacto em meio escolar que eu tive destes termos sem ser a estarem a ser usados como insultos.
[Naomi] Ya…
[Alexandre] Como bullying.
E é gritante, porque estamos a pôr crianças a falar sobre temas, como já falei quase há um ano aqui com a Sofia,
no podcast do episódio de janeiro.
Estamos a pôr crianças a falar sobre temas.
Neste caso, estávamos a pôr crianças a falar sobre temas em debates que elas não sabiam e para os quais não tinham informação,
e as pessoas que as estavam a pôr a fazer isso também não estavam capacitadas para lhes prestar informação de qualidade.
E mais do que isto, que é, se nós não capacitamos as pessoas com informação, elas também não se podem descobrir a si mesmas,
que era a questão que nós falávamos: falta de comunidade, mas falta de informação.
Porque muito questionamento que eu tive durante a minha vida era: sim, eu apaixonei-me várias vezes por mulheres,
mas até aos meus 27/28 anos eu nunca me tinha apaixonado por um homem.
Sim, havia alguma atração sexual.
A questão é, eu nunca me apaixonei e pensei “será que isto é certo? Será que isto é errado?
Será que isto quer dizer que eu sou Bi? Será que isto quer dizer que eu sou hétero mas
que às vezes há aqui qualquer coisa? O que é que isto quer dizer?”.
E não há informação de qualidade. Nós não temos acesso a essa informação.
Em áreas de saúde, não tens. Muito poucos profissionais estão capacitados para tratar destas coisas na área de saúde.
Na área da psicologia, eu na altura desconhecia… Não é: não desconhecia a área de psicologia,
mas ainda não me sentia à vontade para ir a uma consulta de psicologia,
até porque ainda tinha aquela crença errada de que ir ao psicólogo é para quem é maluquinho.
[Naomi] Ya.
[Alexandre] Que não é, faz-nos bem a todos nós.
[Naomi] Eu também levei muito tempo a ir à psiquiatria, por causa disso.
[Alexandre] Cuidar da nossa saúde mental, se eu vou ao dentista porque tenho os dentes estragados,
também posso ir à psicóloga se não estou bem ou se preciso de cuidar da minha saúde mental.
[Naomi] Não, também, desculpa interromper, mas também levei imenso tempo a ir para a psiquiatria,
precisamente porque não sabia como lidar com a minha neurodivergência e porque, como não é uma cena visível,
é tipo “ah não, isto não é um problema real”.
[Alexandre] E muitas das vezes uma pessoa até pensa que “ah não, mas isto é uma coisa que eu posso mudar ou que eu posso esconder”.
[Naomi] Exatamente.
[Alexandre] Eu nunca fiz grande busca de informação, por várias razões, também na questão da minha Bissexualidade.
No início era porque não sabia como procurar, porque…
E a Maria João ontem falou uma coisa que eu me senti muito aqui nela, que ela falava que quando começou a procurar, aquilo que lhe aparecia era relacionado com trabalhadores do sexo.
E muitas das coisas no início que me apareciam era ou isso ou pornografia.
[Naomi] Sim.
[Alexandre] Não me aparecia informação.
[Naomi] Ya.
[Alexandre] E era aquele o meu primeiro contacto nestas coisas.
E é do estilo: mas não é isto que eu estou à procura.
Não havia informação.
Ou quando apareciam era no jeito, como também a Sofia encontrou, que era chats de pessoas a falar, ou coisas das pessoas a falar para o ar.
Em que se perpetuava muito estereótipo, muito bullying, muita invalidação.
E não encontrava no meio escolar, em nenhuma situação, algo que pudesse ajudar nessa descoberta, Informação que me capacitasse a mim e a outras pessoas.
E no meio da saúde não se fala sobre isso.
Tu vais a uma consulta, por exemplo, no médico.
E precisamente consultas plenamente familiar, ou coisas do género, ninguém pergunta, ou mesmo de pessoas que têm vulva, eu conheço esta coisa de ir a um ginecologista, ninguém te pergunta que tipo de relacionamentos é que tens.
Não há abertura para se falar sobre isso.
E que pode ser importante na saúde da pessoa.
[Naomi] É um tabu.
[Alexandre] É um tabu. E isso é importante para a saúde das pessoas também, tratar da saúde sexual.
E não se fala sobre isso.
E não se capacita as pessoas também a descobrirem-se.
[Naomi] Porque é um tópico que é um bocado colocado na perspetiva de que é para cada um.
Cada um tem que saber de si, cada um tem que tratar de si.
[Alexandre, em tom irónico] “Eu não quero saber o que os outros fazem na cama”.
[Naomi] No entanto, acho muito engraçado, eu já cheguei a ver isto em conteúdo satírico,
que é o conceito que muitas vezes em reuniões de família, eventos de família, as pessoas vêm dizer que “estamos a tentar ter um bebé”.
Isto é bué engraçado, porque isto é explicitamente ‘tares a dizer às pessoas que estás ali a dares muito bem para conseguires ter um filho.
E é engraçado que existem contextos e momentos onde é ok falarmos sobre sexo, onde é ok falarmos sobre saúde sexual, quando são estes momentos, quando são estes momentos que ‘tão embutidos na normatividade.
Mas transmitirmos conhecimento às pessoas…
[Alexandre] Ou alguém tem uma criança de dois anos e outra de um e vão dizer: “ah, ele vai se casar com ela, vão ser namoradinhos”.
[risadas]
[Alexandre] Mas depois são as pessoas LGBT que sexualizam as crianças. [ironia]
[Naomi] Lá está, são os contextos que são permissivos ou não dentro daquilo que é a nossa sociedade normativa.
E que tentamos, em muitos aspetos, desconstruir estes conceitos e permitir que exista mais liberdade.
E enquanto ‘tavas aí a falar desses forúns, lembrei-me também de uma altura em que estive metida muito na internet,
onde a maior parte da minha comunidade era na internet, e que lembro-me muito aleatoriamente,
‘tava a passear pelo Instagram, na altura em que o Instagram ainda não estava cheio de anúncios, e apareceu-me um único anúncio,
que era sobre uma aplicação, que era a AminoApp, que tinham no caso, especificamente, um chat LGBT.
E eu pensei, porque não? Atirei-me para lá, e foi uma altura em que conheci imensas pessoas diversas,
que também me introduziram a tópicos relacionados com a Bissexualidade.
Lembro-me de ter falado com uma senhora alemã, com a qual infelizmente já não mantenho contacto,
mas que ela precisamente falou-me extensivamente sobre a forma como descobriu a sua identidade enquanto pessoa Bissexual.
E estamos a falar isto em 2015, para aí, 2016.
Estamos a falar duma senhora que tinha os seus 39 anos.
E, portanto, é uma experiência com um contexto geracional completamente diferente do meu,
e também uma experiência com um contexto geográfico ainda mais distinto, não é?
Mas achei muito engraçado a forma como me relacionei com muitas experiências desta senhora
e como esta senhora também se relacionou com muitas das experiências que passamos aqui,
em termos da falta de comunidade, da invisibilidade dentro da própria comunidade,
que excluía, em muitos aspetos, de que ela falava da forma como as amigas que ela tinha,
que eram pessoas sáficas, a excluíam de muitos eventos e de muitas situações por ela ser Bi.
Porque, como ela gostava de homens, não se podiam identificar.
Não era uma coisa que pudesse ser válida.
Ainda por cima, quando ela estava numa relação com uma mulher, como é que ela continuava a gostar de homens?
[Alexandre] Estás-me a lembrar, e o Luís é capaz de se lembrar, o Luís que ’tá ali,
de quando nós fomos recentemente a um Pride, não vou dizer qual,
mas que estávamos e que conhecemos um casal de dois homens e que achavam que eu era hétero.
Eu disse: não, eu sou Bi.
E depois um deles tipo: “ah mas então isso quer dizer que gostas de homens?”.
E eu pensar assim: então o que é que isso quer dizer?
[Naomi] Sim!
[Alexandre] E disse, sim. Ok, e depois continuamos lá.
E passado um bocado: “ah então mas isso quer dizer que também dás o cu?”.
E eu estou tipo “mas que pergunta é esta? Tipo tu acabaste de me conhecer há cinco segundos”.
[Naomi] Sim…
[Alexandre] É quase como se eu chegasse aqui a uma pessoa e a dizer assim
“então olha, costuma fazer sexo quê? É de quatro?”…
[risadas]
[Alexandre] …”É reverse cowgirl? Como é que é?”. Que é isto?
[Naomi] Mas sabes, isso é uma permissividade que as pessoas têm nesse aspeto,
que inclusive é uma conversa que estávamos a ter ainda hoje de manhã outra vez,
que é a forma e a naturalidade, como isto existe até dentro da própria comunidade,
de passivo ou ativo.
[Alexandre] Sim.
[Naomi] De quem é que dá, quem é que recebe, e de haver este conceito tão…
[Alexandre] És dom ou és sub?
[Naomi] …tão permissivo, tão permissivo de invadirmos aquilo que é a intimidade sexual duma pessoa de forma tão visual.
E que é engraçado falares nisso, porque também partilho imenso essa experiência,
de muitas vezes em que me perguntam como é que eu tenho sexo com mulheres e como é que eu tenho sexo com homens, e que me faziam esta pergunta, tanto quando eu me identificava com o género masculino, como agora quando me identifico com o género feminino, que é como é que eu tenho estas relações, como é que isto acontece?
Ainda por cima, com as questões de me perguntarem qual é que é a minha genitália, precisamente para…
Pronto, a minha genitália vai definir como é que eu tenho sexo.
[Alexandre] Exato.
Não, e é tipo, é uma questão: falar sobre sexo é bom e eu adoro falar sobre sexo, mas a questão é, eu não vou falar necessariamente sobre sexo com alguém que acabei de conhecer há 5 minutos desta maneira.
[Naomi] É a diferença entre a tua atividade sexual pessoal, a tua intimidade, e falar sobre sexo em si.
[Alexandre] Porque com os meus amigos mais próximos, eu falo imenso sobre sexo e já falámos imenso, falámos imenso sobre sexo.
[Naomi] Eu sei.
[Alexandre] Tu sabes, exato.
[risadas]
[Alexandre] Também contigo, já falámos, já falámos entre nós imenso sobre sexo.
Agora, eu não vou aqui que uma pessoa que se cruzou comigo na rua há 5 segundos, que me pergunta, és hétero ou não? Sou Bi. Ah, então, como é que fazes sexo?
[risadas]
[Alexandre] É tipo, olha, calma.
Se calhar primeiro vamos tomar um café, vamos conhecer-nos um pouco melhor.
[Naomi] Ah, eu diria à pessoa: queres que eu te mostre? Vamos ali.
[risos e gargalhadas de toda a gente]
[Alexandre a rir] Queres uma demonstração?
[Naomi] Exatamente.
[risos de toda a gente]
[Alexandre a rir] Queres ver o portfólio?
[risos de toda a gente]
[Naomi] Até tenho o meu namorado aqui, faço live.
[Alexandre a rir] Queres ver o meu portfólio?
[Naomi] Não, por favor, eu criei um OnlyFans para ti.
[risos e gargalhadas de toda a gente]
[Alexandre] Tenho ali uma sex tape, queres? Olha, 5 euros.
[Naomi] Exatamente. Não, a cobrar, obviamente. Queres ver, mas a cobrar.
[Alexandre] Exato.
[Naomi] Vamos lá com calma.
[Alexandre] Mas é um bocado isso, quer dizer, é uma completa erotização.
Mas isto acontece dentro e fora da comunidade, porque era aquilo que falávamos agora de manhã, que eu vi há pouco tempo, era um vídeo dum criador de conteúdo brasileiro, que ele falava que, portanto, o irmão é Gay, e que perguntaram num jantar de família, um tio vira-se para o irmão dele e pergunta-lhe se ele é ativo ou passivo, e ele virou-se para o tio dele e disse qualquer coisa do género: “Então e você, tio, com a tia, faz de quatro ou é ele sentado em cima de você?”.
[risos de toda a gente]
[Naomi] Ai, meu deus!
[Alexandre] E o senhor ficou muito ofendido que não era a mesma coisa.
Não, é literalmente o mesmo tipo de pergunta.
[Naomi] Mas lá está, voltamos ao conceito do tabu. É libertinagem se ‘tiveres a falar num contexto heteronormativo.
Mas perguntar à pessoa LGBTI como é que tem sexo, quais é que são os parceiros que tem,
isso já é perfeitamente normal, já é perfeitamente casual, porque quem é o homem, quem é a mulher.
Exatamente.
[Alexandre] Lembra-me um meme que acho que é da Clara Não, que é tipo com duas mulheres e é tipo:
“qual é o homem da relação?” É tipo: “literalmente não há homens nesta relação”.
[risos de toda a gente]
[Naomi] Não, e é a forma como todos estes conceitos se relacionam com o espaço cisnormativo, não é?
Com a ideia de que existe uma estrutura. E que me revejo bastante nesta destruição da estrutura, que mais uma vez recupero a identidade Pan. É precisamente o conceito que eu não consigo ver, eu não consigo percecionar a existência desta estrutura.
Questões de género, questões de identidade, questões de expressão, não consigo ver a necessidade de existir uma estrutura.
Não consigo ver a necessidade das pessoas terem que ter alguma definição, terem que ter algum absoluto.
Porque nós não existimos em absolutos. É uma realidade.
Quem de nós é que consegue responder duma forma profundamente absoluta sobre a nossa identidade?
E é uma questão que faço duma maneira profundamente abstrata.
Não espero genuinamente resposta. Porque, quem?
[Alexandre] Mas sabes que isso é uma coisa que eu tenho sempre dificuldade quando ’tou, tipo, em locais de trabalho ou cenas assim,
que dizem assim: “vá, digam como é que se chamam, de onde é que vêm, e uma coisa sobre vocês”.
Eu fico a pensar assim: quem sou eu? O que é que eu vou dizer sobre mim?
Porque é tipo: há tanta coisa. E é tipo, as coisas também podem mudar.
[Naomi] É né?
[Alexandre] Isso lembra, recuperamos um bocado uma conversa do início, que eu se calhar nunca falei propriamente aqui no podcast,
que era, quando eu comecei a sair do armário, tu foste a primeira pessoa com quem eu falei sobre isso.
E depois com o Francisco, que está ali ao fundo na banca dele.
E que ’tá neste momento com clientes, por isso é que ele nem sequer me ’tá a ouvir.
E com outras pessoas, mas inicialmente o meu primeiro drama, medo que partilhei convosco, contigo e com o Francisco, que era muito de “ok, e se isto não é bem a minha identidade, e depois eu vou-me arrepender, e agora disse que sou Bi, mas afinal depois sou hétero, ou sou outra coisa qualquer”.
E era muito este medo de: “se eu agora digo uma identidade, isto vai ficar tipo aqui como uma tatuagem encravada em mim para o resto da minha vida”.
E não há…
[Naomi] Lá stá, o conceito de compromisso que eu falei, que é tipo…
[Alexandre] E não, nós somos fluídos, quer dizer, não nos temos que agarrar a rótulos.
Hoje é este o rótulo com que eu me sinto confortável, posso não me sentir confortável com ele amanhã, posso descobrir-me mais amanhã,
como tenho descoberto nos últimos anos, e perceber que houve muita coisa também na minha vida que mudou,
desde que eu me comecei a descobrir e a perceber muita coisa sobre mim, que se calhar antes não percebia.
E por isso é que, quando vem essa pergunta, muitas das vezes o meu medo inicial era: “vou dizer uma coisa,
e se daqui a uns tempos eu descubro que não é bem assim…”, quem é que nós somos?
Esse questionamento. É difícil dizer quem nós somos.
[Naomi] Mas sabes o que é que eu mais gosto nessas questões?
É a forma como elas fazem florescer à superfície a fragilidade das estruturas,
ao mesmo tempo que dão tanta permeabilidade àquilo que é a nossa identidade.
E, partindo ainda mais da experiência de ser uma pessoa que já carregou tantas identidades diferentes,
já “fui” um homem Cis Gay, já “fui” um homem Bi Gay, já “fui” um homem Pan Gay,
já “fui” uma pessoa Não-binária Pan, já fui uma pessoa Trans-feminina, e nunca me senti…
[Alexandre, a brincar] Já não és uma pessoa Trans feminina?
[risos de toda a gente]
[Alexandre] Disseste “já fui uma pessoa Trans-feminina”.
[Naomi] Pronto, ainda sou uma pessoa Trans-feminina.
Mas já carreguei tantas identidades diferentes e nunca me senti comprometida,
fosse por mim, se fosse pelas pessoas à minha volta, a ter que… lá está,
ter este sentido de responsabilidade pela minha densidade.
Tive a possibilidade de me descobrir, de me explorar a mim mesma,
de agarrar quem eu sou, primariamente, a como eu me defino.
E que é uma coisa que, inclusive, lembro-me de ter falado bastante contigo
na altura quando estava a explorar a possibilidade dum nome social,
e que, precisamente, eu tive um nome social durante uns meses,
e depois passei a um nome social diferente, que atualmente é o nome que carrego, não é?
Mas essa possibilidade de não me sentir numa posição onde todo o passo que faço
tem que ser um passo definitivo, tem que ser um passo absoluto.
E é essa magia, essa magia de podermos errar.
[Alexandre] Exato. Porque lá está, nós vamos nos descobrindo ao longo da vida,
e há muitas coisas que, se calhar, agora não temos certeza, ou que, se calhar, achamos que temos certeza,
e daqui a uns anos é completamente diferente.
[Naomi, a brincar] Por favor, é como os gostos.
[Alexandre] Nós vamos crescendo. Não, não é como os gostos, isto não é?
[Naomi] É um bocado. Vamos evoluindo tanto em termos de perspetiva.
[Alexandre] Estás quase como no primeiro psicólogo em que eu fui, em que, precisamente,
achei que, durante o meu burnout [= esgotamento], iria ser, se calhar, ali… Porque a minha sexualidade
também está muito ligada ao meu burnout [= esgotamento], na altura a não a aceitação da minha sexualidade,
e achei que iria ser o lugar seguro em que eu pudesse começar a falar nesses tópicos,
e quando falo, precisamente, sobre a tua exploração, o meu psicólogo disse
“a opção sexual”.
E eu fiquei… [suspiro de desconforto]
[Alexandre] Eu, por dentro, fiquei assim… [suspiro de desconforto]
[Naomi] Não, porque isto é como os formulários, ’tás a ver?
Tem lá aquelas caixinhas para colocar o check [= cruz/visto] e tu olhaste pra lá e pensaste: “não, este é giro, este é engraçado,vou colocar este aqui”.
[Alexandre] Epá, eu ouvi aquilo e fiquei: “Eu acho que não é uma opção.” [em tom desconfortável]
[Naomi] Eu tenho a certeza, eu tenho a certeza.
[Alexandre] É tipo, fiquei assim… [suspiro de desconforto]
[Alexandre] E depois nunca mais, vou-te ser sincero, foi nesse dia que eu nunca mais me senti propriamente seguro em estar naquele espaço.
E foram duas palavras: “opção sexual”.
E é por isso que é tão importante, também, a questão que falávamos mais à bocado, sobre os termos, usar os termos corretos.
[Naomi] Sim.
[Alexandre] Porque é tipo, não é a questão de “andarmos com paninhos” [= com cuidados muito redobrados], mas é a questão de: as palavras têm um peso muito grande, dependendo do seu contexto.
[Naomi] Há uma importância, e há uma importância que não é só do termo, é uma importância informativa.
Porque existe uma diferença entre usares uma descrição aleatória, ou usares aquele termo que a pessoa pode automaticamente ir procurar mais informação sobre.
[Alexandre] Sim, sim, sim.
[Naomi] Que automaticamente carrega o peso dessa informação.
[Alexandre] E neste caso, vindo duma pessoa que deveria ter a formação
de saber que não existem… Opção sexual é o que é que eu gosto de fazer no sexo.
Não é de quem é que eu me atraio.
Isso chama-se orientação sexual ou sexualidade.
[Naomi] Duma forma redundante, voltamos sempre…
[Alexandre] E não é uma escolha, nem uma opção.
[Naomi] Mas é isso, duma forma redundante, voltamos sempre à necessidade de mais informação,
à necessidade de mais formação, de mais conhecimento e de mais espaços como este.
Seja o mercado, seja o Bi Fest, que foi um evento lindo, by the way [= já agora].
[Alexandre] Bi the way [trocadilho com as palavras Bi e By em inglês].
[Naomi a rir] Sim.
[Naomi] Seja aqui o podcast, precisamente, para não só dar voz a várias pessoas e a várias experiências e que circundam aqui o tópico da Bissexualidade, e não só, é bom sermos interseccionais, mas precisamente termos este espaço onde as pessoas possam casualmente conhecer, casualmente estar em contacto com.
[Alexandre] Sim. E esperemos poder continuar com isso. Antes de encerrarmos este episódio,
queria agradecer imenso, em primeiro lugar, ao Vasco, ao Impact Hall,
a toda a equipa espetacular do Impact Hall e da Cartola de Artistas,
que nos proporcionaram aqui este mercado espetacular, com o cabaré que tivemos.
Em segundo lugar, agradecer a todas as pessoas artistas do cabaré,
que eu não sei se está cá alguém presente, mas que foram espetaculares,
que nos proporcionaram aqui duas noites dum espetáculo soberbo.
Ao Heldinho (que eu não sei se já chegou) por nos ter ajudado a gerir…
[risadas]
[Alexandre] Não chegou ainda, não é? Ele ’tá um bocado mal, a passar um bocado mal.
As melhores para ele. Mas que nos ajudou a gerir aqui o palco
e que nos trouxe também para aqui atividades espetaculares.
E agradecer também ao Felipe e à Maria João,
que trouxeram aqui a apresentação dos seus livros.
Agradecer a todas as pessoas que estiveram aqui com as suas bancas
e que acreditaram em nós para esta primeira edição do QueerNatal Lisboa,
muito obrigado!
E agradecer também ao Jura e ao coletivo BI Mosaic,
e a Hash e ao coletivo BIPOC Deviants,
que colaboraram connosco na elaboração deste mercado.
O próximo episódio do podcast sairá no dia 9 de janeiro [de 2026].
Até lá fiquem bem e…
[Todes] Venham Bialogar connosco!
[Aplausos do público]
