#5 – Bis também namoram?

No episódio de hoje, que calha neste dia 14 de fevereiro, o dia de São Valentim, falamos deste tema e de relações no geral. No fundo, de amores e desamores.
As pessoas bissexuais também namoram? Como é que se relacionam, com quem, e como são percecionadas nessas relações, se as tiverem?
Este título satírico – “Bis também namoram?” – remete-nos para os mitos, estereótipos e preconceitos associados à bissexualidade, de que também falamos neste episódio.

Vem Bialogar connosco! 💗💜💙

Publicação: 14/02/2025 | Duração: 39min 25s | Produção: 23h | Legendas: no YouTube
Avisos: Contém menções de bifobia, apagamento Bissexual, homofobia, transfobia, preconceitos e “Dia dos Namorados”. Contém leves referências a relações tóxicas.

Não houve pessoas convidadas neste episódio.

Não houve referências nestes episódio.

(em edição)

[Sofia] Alô, alô! Sejam bem-vindes ao 5.º episódio do podcast Bialogar. Eu sou a Sofia.

[Alexandre]
E eu sou o Alexandre. E queríamos começar o episódio de hoje, por agradecer às mais de 500 pessoas e coletivos
que já nos seguem no Instagram, um marco importante que alcançámos no mês de janeiro,
e também os mais de 100 subscritores no nosso canal do YouTube.
Estes dois marcos são muito importantes na contribuição para a visibilidade, que pretendemos alcançar com o nosso podcast.

[Sofia]
Sim, e por isso muito obrigada a todas as pessoas que nos seguem e que nos ouvem.
Ficamos mesmo muito contentes com o vosso apoio.
E o episódio de hoje, que calha neste dia 14 de fevereiro, o dia de São Valentim,
será à volta deste tema e de relações no geral.
Nomeadamente, como é que as pessoas Bissexuais se relacionam, com quem,
e como são percecionadas nessas relações, tal como os mitos, estereótipos e preconceitos associados.

[Alexandre]
No fundo, os seus amores e desamores.
E para começar este tema, podemos trazer aqui um dos primeiros comentários que tivemos no nosso primeiro episódio,
que vai ao encontro da forma como as pessoas Bissexuais são percepcionadas nas suas relações.
Neste caso, em concreto, de como é que os homens Bissexuais são percepcionados,
quando estão numa relação com uma mulher, e os estereótipos que acabam por ser alvo.
Como, por exemplo, o mito de que os homens Bissexuais estão apenas a tentar mascarar uma presumível “homossexualidade”,
ao estarem a namorar com uma mulher, ou que a estão a enganar, ou que não se decidem,
ou acharem que “dizem que são Bis porque é pior dizerem que são Gays”.
E é importante, perante estes mitos, reforçar que não há sexualidades melhores ou piores que outras
e que um homem Bissexual é um homem Bissexual, independentemente de namorar ou não,
e independentemente de com quem namora.

[Sofia]
Exatamente, e isto aplica-se, tanto a homens, como mulheres ou outras pessoas Bissexuais.
E as pessoas continuam a ser Bissexuais,
independentemente de com quem se relacionam.
Mas nos casos das mulheres, diria que, quando uma mulher se relaciona com um homem,
não é vista como se o tivesse a enganar.
É vista como se tivesse a enganar todas as mulheres com quem se relacionou anteriormente.

[Alexandre, em concordância]
Humhum.

[Sofia]
Neste caso aqui, enquanto os homens Bissexuais são percepcionados enquanto Gays,
as mulheres Bissexuais são percepcionadas enquanto heterossexuais,
que só queriam atenção ou que estavam confusas, etc.
Isto na generalidade, porque uma mulher Bissexual, que seja percepcionada
com uma expressão de género mais masculina,
também pode ser vista como uma mulher Lésbica que não se quer assumir
e que prefere dizer que é Bissexual para não se assumir enquanto Lésbica.
Mas na generalidade, a Bissexualidade acaba por ser invalidada como algo que nem sequer existe
e a orientação sexual da pessoa é percepcionada consoante a relação a que dão mais credibilidade,
que é a relação com homens.

[Alexandre]
Sim, é verdade.
E a Bissexualidade acaba por ser sempre invalidada nestas situações
e é importante reforçar que as pessoas Bissexuais
podem namorar com qualquer género.
Aliás, falávamos disto antes de gravarmos o episódio.
Há pouco tempo, cruzei-me, nas redes sociais,
numa publicação de uma criadora de conteúdo, que é Bissexual,
em que ela fez umas personagens como sendo Bissexuais
e nos comentários, portanto, as pessoas estavam-se a questionar
“que bandeira era aquela”, portanto, a bandeira é Bissexual.
E no meio disto surge um tópico de comentários
em que estão a falar sobre o que é que é ser Bi, o que é que é ser Pan,
e há alguém que diz que “ser Pansexual é o mesmo que ser Bi,
mas inclui as pessoas Trans”.
Não.
As pessoas Trans sempre estiveram incluídas na Bissexualidade,
tanto que existem pessoas Trans Bissexuais,
como ser Bissexual é gostar de mais do que um género,
portanto, inclui pessoas Trans, obviamente.

[Sofia]
E agora referimos, novamente, se calhar, aqui um manifesto de Bissexual de 1990
que acho que já referimos em episódios anteriores
que referem a esta ideia muito bem
de já estar incluídos mais do que dois géneros
no espectro da atração da Bissexualidade.
E para além de pessoas não binárias,
mulheres Trans são mulheres,
homens Trans são homens,
portanto, claramente, que estão incluídos no espectro da atração da Bissexualidade.

[Alexandre]
E é importante reforçar que as pessoas Bissexuais
podem namorar com qualquer género,
não têm que namorar com mais do que um género
para terem a sua Bissexualidade validada
e podem até nem namorar.
E isso não invalida a sua Bissexualidade.

[Sofia]
Exatamente, até porque uma coisa é o espectro de pessoas
pelo qual nos sentimos atraídos,
depois das pessoas com quem, efetivamente, acabamos por ter relações.
E isto traz-nos, então, ao título do episódio de hoje
“Bis também namoram?”,
que é uma sátira, é suposto ser uma pergunta irónica,
que nos remete para alguns dos mitos, estereótipos e preconceitos
contra pessoas Bissexuais,
nomeadamente que não são de confiança,
que quando namoram vão acabar por trair a pessoa com o género oposto,
que só têm relações não monogâmicas,
entre outras questões.

[Alexandre]
Sim, no fundo é uma pergunta retórica,
porque as pessoas Bissexuais namoram com quem quiserem,
se quiserem.

[Sofia]
Pegando aqui, então, neste tema das relações,
Alexandre, queres começar tu a falar um bocadinho
de como foram as tuas relações, enquanto pessoa Bissexual?

[Alexandre]
Sim, e pegando aqui no comentário com que iniciámos o episódio,
eu ainda não tinha a minha Bissexualidade assumida
nas minhas últimas relações com mulheres,
mas após assumir a minha Bissexualidade,
numa das primeiras relações que tive com um homem,
lembro-me de numa conversa, com um colega de trabalho,
estávamos basicamente a falar,
eu já não sei bem qual é que era o tema da conversa,
e ele do nada só se vira com um comentário de
“Ah, mas tu agora és Gay?”
e eu “Não, eu não sou Gay.
Eu sou Bissexual.”
e ele “Ah, mas agora estás a namorar com um homem,
então és Gay?”.
e eu “Não, eu não deixo de ser Bissexual
por estar a namorar com um homem.”.
No fundo isto acaba por ser um estereótipo,
que já estávamos a falar há bocado,
uma invalidação da minha Bissexualidade,
mas aquilo que mais me chateou foi eu sentir
que tinha que estar a justificar a minha Bissexualidade
perante alguém
e que…
tinha quase que estar a educar alguém
sobre o que é que é ser Bissexual.
A minha sexualidade não depende do género
da pessoa com quem eu me relaciono
e eu não deixo de ser Bissexual
porque agora estou a namorar com uma pessoa do género A ou B.
Isto dá-me sempre aquela ideia,
dalgo que já falámos noutros episódios,
que é as pessoas Bissexuais terem que estar sempre
a ter que dar provas da sua Bissexualidade
ou terem que justificar a sua sexualidade
perante outras pessoas.

[Sofia]
Exato, também tive um bocadinho
essa sensação naquela sessão do clube
de leitura de que falei, do livro da Evelyn Hugo,
em que parecia que, lá está,
as pessoas não acreditavam que ela era Bissexual,
porque não tinha justificado o suficiente.

[Alexandre]
“Não havia provas suficientes.” [ironia]
Como se nós tivéssemos que provar
a nossa sexualidade a alguém.

[Sofia]
Exato.
Mas, continuando,
e se calhar fazendo aqui outra pergunta.
Por exemplo, lembras-te
da primeira pessoa por quem sentiste alguma atração?
Quando é que foi?

[Alexandre]
Diria que foi provavelmente na minha infância,
as minhas primeiras paixões em regra foram
mulheres mais velhas do que eu,
tipo colegas de trabalho dos meus pais
ou professoras,
e depois também no início da minha pré-adolescência,
até tipo ao secundário,
basicamente tipo colegas minhas de escola.
Depois no secundário, tenho a ideia de ter tido,
se calhar, uma das primeiras crushs,
que eu me lembro, num rapaz.
Não me sentia apaixonado por ele,
mas achava-o bastante atraente.
Depois hei de ter tido mais, que eu não me lembro totalmente,
mas hei de ter,
até ao momento em que, efetivamente, me apaixonei mesmo
por um homem, pela primeira vez,
já em 2022.
Mas antes disso, tive várias relações com mulheres,
aliás eu sentia-me muito mais pressionado
a ter relações com mulheres,
para encaixar nesta heteronormatividade da sociedade,
e acabei por ter uma situação
de uma dessas relações, da qual eu queria sair,
porque já se estava a tornar bastante tóxica,
acabar por ficar nessa relação,
porque ela [a relação] fazia-me encaixar nesta heteronormatividade da sociedade
e ao mesmo tempo porque eu também não queria
confrontar a minha Bissexualidade,
as minhas homofobias e bifobias internalizadas,
e o receio de que ao sair daquela relação
poderia também eventualmente
isto surgir à tona,
se me apaixonasse por um homem.

[Sofia]
Sim, eu acho que isso é algo com que muitas pessoas
se vão identificar,
e não só pessoas Bissexuais,
e que é uma questão que também é importante falarmos,
que a própria homofobia da sociedade
afeta pessoas Bissexuais,
para além das bifobias com que temos que lidar,
a própria homofobia
afetou a nossa maneira de vivenciar as relações,
a nossa maneira de olharmos para nós
e para nos aceitarmos como somos,
e a maneira como nós nos relacionamos com alguém
também é muito diferente quando ainda estamos no armário,
enquanto somos percepcionados como pessoas heterossexuais,
ou até pessoas homossexuais,
e quando já estamos fora do armário,
quando já aceitamos a nossa Bissexualidade
em todas as suas dimensões.
E neste âmbito deixo-te uma nova pergunta:
tu achas que esse receio
de te teres mantido numa relação
com uma mulher, em que já não querias estar,
aconteceria hoje em dia?

[Alexandre]
Não, hoje em dia era impensável.
Desde o momento em que aceitei a minha Bissexualidade,
eu hoje em dia só estou numa relação com alguém
que quiser estar naquela relação.
Não vou estar naquela relação…
Aliás, hoje em dia eu não sinto nenhuma pressão
para estar numa relação com pessoa do género A, B ou C ou D
só porque… Não, tipo, eu estou com quem eu quero estar.
Não sinto pressões por isso
e não vou estar numa relação com alguém
só porque é uma mulher, ou só porque é um homem,
ou o que seja.

[Sofia]
Exatamente, eu identifico-me também com esta questão de:
antes de eu me assumir enquanto pessoa Bissexual,
até para mim própria,
tinha dificuldade em relacionar-me com as pessoas,
independentemente do género que tivessem.
E depois desta saída do armário,
as relações acabam por fluir melhor,
independentemente do género da pessoa.

[Alexandre]
Sim, eu concordo totalmente com isso
e é algo que já falámos várias vezes,
até se calhar noutros episódios,
também passei um bocado por isso.
Sinto que as minhas relações fluíram muito melhor
depois de assumir a minha Bissexualidade, porque
deixou de haver toda uma pressão
para ter determinado tipo de relações
e para me afastar de outro tipo de relações.
E havendo uma aceitação de nós próprios,
tudo o resto na nossa vida flui muito melhor:
as nossas relações, as nossas vivências,
tudo flui muito melhor.
E, para mim, o grande exemplo disso
é, precisamente, comparar as relações e paixões
que eu tive antes de assumir a minha Bissexualidade,
com as que tive depois.
Por exemplo,
a primeira vez que me apaixonei por um homem,
havia todo um medo
e uma incerteza
e até uma auto-sabotagem.
Portanto, eu via interações dele…
algumas, obviamente,
há sempre interações que nos deixam na dúvida,
flirt [= namoriscar] e coisas assim,
há sempre interações que nos deixam na dúvida:
“isto é realmente um flirt [= namoriscar] ?”,
“esta pessoa está interessada em mim
ou é só, tipo, a maneira de ser daquela pessoa?”,
mas há coisas que são um bocado óbvias
e havia trocas de olhares estilo “Heartstopper” [= similares às da série],
em que eu estou a fazer o meu trabalho,
ele está ao meu lado,
e de repente eu olho, [ele] ’tá a olhar p’ra mim,
fica corado,
fica atrapalhado
e desvia o olhar para o tecto,
como se estivesse a ver o tecto em vez de ver a mim, tipo
“Ah este tecto é tão cinzento, tão industrial”.
E eu também fazia o mesmo,
atenção!
Outras situações de
algum contacto físico
e que se notava que havia ali qualquer coisa,
ou até o que eu referi no episódio passado,
em que, numa festa de Natal,
houve muitas outras coisas,
mas em que quase nos beijámos:
eu estava-lhe a despentear o cabelo
e quase nos beijámos.
E não nos beijámos, porque
eu parei de lhe despentear o cabelo
e me afastei um bocado,
porque estava ali com um ligeiro pânico interno
e toda uma auto-sabotagem,
que era uma coisa que eu sentia nessa altura,
uma espécie de sabotagem
nessas interações, que era muito óbvio
que havia ali qualquer coisa,
o meu pensamento era sempre
“será que ele está a fazer isto,
porque gosta de mim,
porque está interessado em mim,
ou será que ele quer apenas desmascarar
que eu gosto de homens
e expor isso”.
E isto pareceu um pensamento muito absurdo,
hoje quando eu olho para isto
penso “isto foi um pensamento tão absurdo”,
mas já falei com várias outras pessoas,
quer Bissexuais,
quer outras pessoas dentro da comunidade LGBT+,
e várias pessoas me dizem
que se identificam com isto,
portanto havia todo um medo de:
e se ele estiver a fazer isto,
não porque está interessado em mim,
mas porque acha que eu gosto de homens
e me quer tipo “desmascarar”,
relembrando aqui que ele era meu colega de trabalho,
não era uma pessoa qualquer que eu conhecesse,
portanto havia também todo um medo
do que é que essa exposição
me pudesse trazer em termos de consequências,
porque infelizmente ainda vivemos
numa sociedade muito LGBTfóbica.
Então havia este medo.
E depois, por outro lado,
obviamente eu, para me proteger,
eu acabava por me afastar dessas interações,
como aconteceu nessa festa de Natal,
com precisamente o medo de
qual é que fosse o objectivo daquilo,
se havia alguma má intenção por trás daquilo,
porque precisamente havia todo um receio
de eu ter que me confrontar com isso
e esse receio, esse, que vem precisamente
destas homofobias e bifobias internalizadas
e desta estigmatização e discriminação,
por parte da sociedade,
que nos deixa receosos
do que é que os outros vão pensar,
mas que por outro lado
também cria dentro de nós
estes medos, estes estigmas
para connosco próprios,
para com aquilo que sentimos.
E obviamente eu não queria,
até a certo ponto,
inteirar-me daquilo que eu realmente sentia,
não me queria confrontar com isso.
Portanto, havia esse receio.
E, até a certo ponto,
hoje percebo que ele, provavelmente,
também estava a passar pelo mesmo,
ou seja, ele provavelmente estaria
na mesma situação que eu,
com as mesmas confrontações internas,
provavelmente também teria os mesmos medos.
E, até a certo ponto,
os meus afastamentos,
destas interações mais óbvias,
ou uma certa,
se calhar, não reciprocidade que ele esperava,
podem ter feito com que ele pensasse
que eu poderia não estar interessado
ou até que eu fosse hetero, se calhar.
E, em comparação,
depois de assumir a minha Bissexualidade,
já fluiu muito mais.
A primeira vez que namorei com um homem,
já foi tipo:
nós nos conhecemos num sítio,
em que estava com outros amigos,
começámos a conversar,
fomos jogar um jogo de tabuleiro
ou de cartas, já não me recordo bem,
trocámos instagram.
E eu, por acaso, ia ao cinema com vários amigos,
convidei-o para vir comigo
e acabámos por nos beijar no cinema.
E depois, a partir daí,
deixei de sentir qualquer pressão para estar…
quer que seja para estar numa relação,
que eu também sentia essa pressão
para ter que estar numa relação,
hoje em dia sinto-me muito mais confortável
com estar solteiro do que me sentia,
se calhar antes do covid,
por exemplo.
E deixei de ter pressão para…
Deixei de sentir pressão para o que quer que seja.
É tipo: se me apetece estar com aquela pessoa,
estou com aquela pessoa,
se não me apetece estar, não estou.
Seja essa pessoa
homem, mulher,
pessoa não binária, o que seja.
No teu caso, Sofia
relacionas-te com esta experiência
ou tens uma experiência diferente da minha?

[Sofia]
Olha, pegando aqui nesta última questão que falaste,
de estares mais confortável
com estar solteiro agora,
eu tenho uma experiência um bocadinho diferente,
porque eu sinto que estava muito, muito confortável
com estar solteira,
antes de me ter
assumido enquanto Bissexual.
Até eu me ter aceite bem,
parecia que preferia não me relacionar com ninguém,
do que ter que descobrir
com quem é que eu gostaria de me relacionar.

[Alexandre]
Sim, já falámos em situações anteriores,
que eu partilho um pouco dessa tua experiência
também me afastava,
apesar de ter tido alguns relacionamentos
antes de me assumir,
também me afastava deles.
Mas, hoje em dia,
sentes pressão para estar numa relação?

[Sofia]
Hoje em dia, nem sinto nem pressão para estar, nem para não estar.

[Alexandre] Ok.

[Sofia]
Enquanto que, na altura, sentia para não estar.

[Alexandre]
E das tuas relações,
queres-nos falar?

[Sofia]
Sim.
Eu também não tive assim
muitas relações, das quais possa falar.
Mas, sei lá,
voltando assim muito atrás,
talvez um bocadinho
à própria pergunta que te fiz,
na minha infância,
eu não me sentia
atraída por ninguém,
mas já existia
muitos comentários
no sentido de eu provavelmente
vir a ser uma pessoa Queer.

[Alexandre]
Ok.

[Sofia]
Porque era uma criança bastante masculina.
Ainda sou uma pessoa
com uma expressão de género meio fluida.
E, nessa altura,
eu não me sentia atraída por ninguém,
estava só a ser
uma criança,
que até podia
já me sentir atraída por alguém,
porque às vezes as crianças têm aquelas paixonetas,
como aquelas que tu referiste.
E só,
só por volta, sei lá,
da pré-adolescência
é que comecei
a ter aquelas paixonetas
e foi em rapazes.
Mas, até aqui,
havia muito essa questão de
“ok esta miúda é uma maria-rapaz,
vai gostar de raparigas,
etc, etc…”.
E foi algo que me fez rejeitar muito esta ideia.
Portanto,
mais uma vez,
acho que referi isto também
no primeiro episódio,
das homofobias e bifobias internalizadas.
E,
quando comecei
a ter as paixonetas
por rapazes,
esqueci muito
daquilo que aconteceu para trás…

[Alexandre]
E das pequenas paixões
que possas já ter tido antes com mulheres?…

[Sofia]
Eu acho que…

[Alexandre]
Ou atrações…

[Sofia]
Imagina,
por pessoas não me lembro
de ter sentido,
mas, sei lá,
por desenhos animados…
Havia desenhos animados,
sei lá,
Sailor Moon, por exemplo.

[Alexandre, em concordância]
Humhum.

[Sofia]
Eu
se calhar tinha uma paixoneta
pela Sailor Uranus,
por exemplo,
que era assim
um boneco que eu gostava muito de assistir.
E pela Sailor Red,
eu não sei se
tinha uma paixoneta por ela
ou se queria ser ela,
porque o vermelho é a minha cor favorita.
Fica sempre aquela dúvida, mas…
Eu também tive esse conflito,
de às vezes haver
personagens ou pessoas
que eu achava muito interessante
e ter essa questão
“eu
acho esta pessoa atraente
ou eu quero ser como ela?”.

[Alexandre]
Identifico-me um bocado com isso.

[Sofia]
Sim, é uma dúvida que as pessoas às vezes têm,
que até dificulta
o perceberem
se sentem atração ou não,
por estarem com essa dúvida.

[Alexandre]
Eu tive muito essa dúvida
e foi o que me fez também,
durante muito tempo,
não compreender a minha Bissexualidade,
porque eu também não entrava
a fundo nesse questionamento.

[Sofia]
Portanto,
nestas minhas primeiras paixonetas por rapazes,
mesmo assim,
eu não tive a vontade para
meter conversa
ou explorar essas paixões,
porque
tinha-me tornado uma criança bastante tímida
e bastante reprimida,
por tudo o que tinha vivenciado até ali.

[Alexandre]
E não sentes que, também,
eu sempre ouvi isto muito desde pequeno,
que é tipo
“ah, os rapazes é que têm que ir atrás das raparigas”.

[Sofia]
Também…

[Alexandre]
Não sentiste que isso possa ter influenciado?…

[Sofia]
Também pode ter influenciado,
sem dúvida,
que…
que eu própria,
se calhar não me via como algo
que eu pudesse fazer assim de caras,
por não ser algo expectável.

[Alexandre]
Sim.

[Sofia]
Mas, antes de chegar aí,
eu própria me retraía.
Ok, eu gosto desta pessoa,
mas não sei o que fazer em relação a isto.
Então, ficava muito fechada sobre mim mesma.
E foi uma coisa
que só se alterou,
depois de já ter aceite a minha Bissexualidade.
Mas antes disso,
eu também acho que já contei,
no primeiro episódio,
a primeira vez que tive uma crush numa rapariga,
que foi no secundário,
portanto, até então,
as minhas crushs, que foram poucas,
tinham sido também só
por rapazes,
e só a partir do secundário
é que começaram a ser por raparigas,
se bem que,
looking back [= olhando para trás], se calhar também em atrizes,
já tinha havido uma crush ou outra,
que não me tinha apercebido de…
Portanto, nos atores
se calhar era mais fácil de identificar,
porque era algo que eu via,
que havia representatividade, não é….
de relacionamentos
e atrações por pessoas do género oposto,
mas, looking back [= olhando para trás], provavelmente
havia atrizes,
aquelas atrizes que
“gosto muito desta atriz”,
mas não conhecia nada dos outros filmes que ela fazia,
que se calhar era só porque tinha uma crush nela.

[Alexandre, em concordância]
Humhum.

[Sofia]
Mas não,
lá está, deixei de pensar nessa,
nessa vertente,
desde que comecei a ter paixonetas por rapazes,
e só a partir desta rapariga do secundário
é que comecei a repensar todas essas questões.
E, looking back [= olhando para trás],
não só dessa colega em particular
que eu estou a pensar,
mas eu às vezes, olhando para trás,
penso que houve outra colega,
com quem eu também era próxima,
que provavelmente também havia alguma coisa ali,
que eu não soube identificar na altura.

[Alexandre]
Ok.

[Sofia]
E é do género,
falávamos muito,
conversávamos muito.
E, eu acho que,
looking back [= olhando para trás],
lá está, foi uma coisa que não,
não me apercebi na altura,
mas eu acho que havia algum flirt [= namoriscar].
Eu só me percebi disto
anos mais tarde,
quando vi
um story [das redes socias] dela
com a namorada da altura.
E eu pensei:
“Espera lá!
Então, esta pessoa gostava de raparigas,
será que na altura, e tal,
quando nós falámos…

[Alexandre]
Será que na altura já era um flirt [= namoriscar]?
Excelente questão…

[Sofia]
E fica muito aquela questão de:
“o que é que aconteceu para trás?”,
“o que é que podia ter acontecido,
se as pessoas soubessem
já identificar aquilo que sentiam?”.

[Alexandre]
Eu, olhando para trás,
também tive situações de homens flertarem [= namoriscarem] comigo,
quer homens que eram já assumidamente,
por exemplo, Gays,
quer o caso de um colega de faculdade que eu tive,
que eu já o conhecia antes de ir para a faculdade,
que teve umas situações também
assim um bocado de flirt [= namoriscar] comigo.
E eu, depois, descobri
que ele andava a dizer a outras pessoas
que era meu namorado.

[Sofia a rir/tom irónico]
Mas isso já é um bocadinho problemático…

[Alexandre a rir/tom irónico]
Já é bastante problemático…

[Alexandre]
É tipo,
eu na altura chateou-me precisamente por causa disso.
Chateou-me, porque tinha um medo absurdo
de que as pessoas fossem pensar
que eu também gostava de homens.
Na altura eu não aceitava
a minha Bissexualidade completamente,
mas já me questionava sobre ela
e por acaso, hoje, olhando para trás,
eu até achava esse rapaz engraçado,
mas na altura eu acho que ainda estava muito
longe sequer de aceitar a minha Bissexualidade,
mas, olhando para trás,
até foi uma pessoa que eu achei atraente
e se calhar, se não houvesse esta situação toda
de termos uma sociedade tão homofóbica e
tão bifóbica,
se calhar até podia ter sido o meu primeiro namorado,
efetivamente.
E ele não tinha tido necessidade de inventar
que era o meu namorado. [risos]

[Sofia]
Já podia dizer, com verdade.
Mas voltando aqui a esta questão,
eu depois fui repescar conversas antigas
e, de facto,
estava numa situação em que não aceitava
mesmo esta parte de mim,
porque eu lembro-me
de ver nessas conversas
tentativas dela de se aproximar
e eu a afastar-me.
[Alexandre] Afastavas-te?…

[Sofia]
Tipo, mudava de assunto ou coisas desse género.

[Alexandre] Sim.

[Sofia]
É assim, isto também não ajudou,
porque isto também foi depois
da outra rapariga ter-me enviado o tal chat [referido no Ep #1],
etc, etc…
Também não ajudou…
Então, eu tinha aqui muito receio:
“Será que esta rapariga vai depois
pensar o mesmo que a outra?
E eu prefiro afastar-me para não ter que lidar com isso?”.
Porque ela até podia gostar de raparigas,
mas não gostar de raparigas
que gostassem de raparigas e de rapazes.

[Alexandre]
Sim, isso acaba por ser um preconceito
bastante latente dentro da comunidade Bissexual,
a situação de haver pessoas que não se querem relacionar
com pessoas Bissexuais,
porque acham que uma pessoa Bissexual
vai trair a pessoa com quem está a relacionar-se
com alguém do género oposto.
E a Bissexualidade não tem qualquer relação
com probabilidade de traição ou não.

[Sofia]
Sim, e aqui eu nem sei se seria o caso ou não,
mas foi um receio que ficou também.
Mas, retomando aqui esta questão das relações,
o meu primeiro beijo com uma mulher
foi aos 18,
que por acaso também foi na primeira vez
que fui a uma discoteca LGBT+
com meu padrinho da faculdade,
e foi nessa discoteca, portanto,
que beijei pela primeira vez uma mulher,
que a certa altura
me perguntou qual era a minha orientação sexual.

[Alexandre, em concordância]
Humhum.

[Sofia]
E eu disse-lhe que era Bissexual,
porque nesta altura também já tinha aceite,
já estava assumida pelos meus amigos da faculdade, etc,
e por isso é que, depois, também o meu padrinho
me levou para esta discoteca.
E ela perguntou, eu digo-lhe que sou Bissexual,
e ela diz-me na cara que não acredita em Bissexualidade.
Portanto, foi assim uma experiência espetacular. [ironia]
O meu primeiro beijo com um homem,
por acaso também foi numa festa,
mas embora tenha beijado algumas pessoas,
nunca tive uma relação até anos mais tarde.
A minha primeira relação assim mais séria,
foi só aos 23 anos.
E que, por acaso,
na altura,
quando eu decidi “Ok agora vou!
Agora estou pronta para me relacionar com pessoas.”,
o que é que eu fiz? Instalei uma app… [risos]

[Alexandre]
Com um foguinho?

[Sofia, a rir]
Várias, várias apps…

[Sofia]
E tive alguns dates,
que correram melhor ou pior,
em que tive mais interesse ou menos interesse,
e depois uma das pessoas em que eu tive interesse,
acabei por me relacionar,
que acabou por ser com um homem Trans.
A minha experiência nesta relação,
há uma parte em que eu senti
a minha Bissexualidade muito invalidada
e que acho que também pode ser importante falar,
porque
esta pessoa,
quando nós começámos a namorar,
ainda não estava
out [= assumida/fora do armário] enquanto homem Trans.
Eu já sabia, mas
ainda não estava out [= assumida/fora do armário],
então era uma pessoa percepcionada enquanto mulher.
Portanto, os meus pais,
a minha família quando descobriu que eu estava nesta relação,
achava que eu estava numa relação com uma mulher.
E não faziam perguntas,
não…
Mudavam sempre de assunto,
quando…
quando o assunto surgia…
Quando eu dizia que estava
com essa pessoa, etc, etc…

[Alexandre] Fugiam ao assunto, basicamente.

[Sofia]
Não queriam saber…
Não perguntavam se a pessoa estava bem ou não.
Depois quando ele
se assumiu, efetivamente,
como homem Trans
e, depois, quando…
quando eu contei à minha família que namorava com um homem
Trans,
a partir daí começou a
haver um interesse muito maior
naquela relação.
E voltamos à questão de relações com homens
serem mais validadas, perante a sociedade.
E…
E então eu comecei a notar,
cada vez que falava
no meu namorado da altura, agora ex,
cada vez que falava no meu namorado da altura,
a partir daí a minha mãe já me perguntava
“ah, e como é que ele está?”
e isto, e aquilo,
e interessava-se muito mais pela relação,
e via-se que aceitava muito mais aquela relação.
Isto para mim era uma coisa,
como assim?? É a mesma pessoa.
Então deu para notar, perfeitamente,
que a diferença de tratamento
não tinha a ver com a pessoa em si
e apenas com o género percepcionado.
E foi das alturas
em que eu mais notei a diferença
de percepção de estar com…
com uma pessoa percepcionada enquanto mulher
e estar com um homem,
e como a sociedade me tratava de uma forma e de outra.
E foi muito
mixed feelings [= sentimentos mistos] nessa altura,
porque por um lado eu estava super contente,
por o meu namorado estar a ser validado, perante a minha família,
enquanto homem Trans,
mas depois
eu própria sentia-me extremamente
invalidada, com esta situação.
O facto de só aceitarem
uma relação minha por eu estar
com um homem,
invalida a minha própria Bissexualidade.
Eu acho que até já disse isto no episódio anterior.
Mas assim, fechando aqui,
depois tive outras relações
depois dessa,
a mais recente, por acaso, é com uma mulher
e tem corrido bem.

[Alexandre]
Tu falaste, há bocado,
da situação de teres tido receio
de eventualmente estar com uma pessoa
por ela
poder não namorar com
alguém Bissexual.
Eu sinto que até hoje ainda nunca tive esse receio.
Já pensei sobre isso,
mas sinto que ainda nunca tive esse receio.
Sei que é algo que já me passou pela cabeça,
quando comecei a ler e descobri que havia
pessoas que não se queriam relacionar
com pessoas Bissexuais,
por acharem todos estes estereótipos e mitos,
que já aqui falámos,
mas por acaso até hoje ainda não sinto
que tenha passado por isso.
Mas, certamente, outras pessoas já passaram por isso e
teremos os comentários para que nos possam dizer isso,
até porque cada pessoa vive a sua Bissexualidade
e a sua sexualidade
à sua própria maneira.

[Sofia]
Exato.

[Alexandre]
Todos nós temos uma experiência de vida diferente
e todos nós vivemos a nossa sexualidade
de uma maneira diferente.

[Sofia]
E aquilo que quiserem partilhar, deixem nos comentários,
que é suposto também sermos
uma plataforma aberta
a esse diálogo.

[Alexandre, em concordância]
Humhum.

[Alexandre]
Sobre o tema do dia,
o dia de São Valentim,
já uma vez pediste a alguém em namoro, Sofia?

[Sofia]
Olha, eu não me lembro
nem de ter pedido alguém em namoro,
nem de alguém me ter pedido em namoro a mim,
mas que já namorei, já namorei.

[Alexandre]
Basicamente aceitaste os termos e condições
sem ler.

[risos]

[Sofia, a rir]
Quase…

[Alexandre]
olha, eu
nunca ninguém me pediu em namoro
e acho isso triste.
Gostava de ser pedido em namoro por alguém…

[Sofia]
Queres namorar comigo, Alexandre?

[Alexandre ri]

[Sofia, a brincar/rir]
Não, estava a brincar. [risos]

[Alexandre]
Ainda não é desta.

[Sofia, a rir]
Mas olha, já pedi a alguém em namoro…

[Alexandre]
Olha, eu já pedi várias pessoas em namoro.
Diria que o sítio mais
estranho em que pedi a alguém em namoro
foi na estação de metro de Entre Campos [Lisboa].

[Sofia]
Olha, já tive um date
na estação de metro
do Cais de Sodré [Lisboa],
com um ex meu, que eu tenho que lhe perguntar agora
se ele me pediu em namoro ou não,
para poder esclarecer aqui esta questão.

[Sofia ri]

[Alexandre]
Sim, acho bastante importante
mandares uma mensagem ao teu ex,
para esclarecermos isso.
E depois, o sítio mais giro em que eu pedi alguém em namoro,
foi no Mirador de Santa Catarina,
ou do Adamastor, em Lisboa,
ao pôr do sol,
muito romântico.

[Sofia]
Bonito, mas qual é a tua experiência com este dia?

[Alexandre]
A minha experiência com o dia dos namorados
era…
Quando eu estava solteiro
e era miúdo,
adolescente vá,
achava este dia insuportável.
Primeiro, porque, e ainda hoje eu noto muito isso,
tudo o que tu vês de campanhas
parece que há uma enorme pressão,
é tipo: tu só vês casais heterossexuais,
parece que não há outro tipo de amor.
Quando se vê este dia, quando se vê estas campanhas…
Então, eu sentia uma pressão enorme.
Eu estava solteiro,
eu já tinha uma certa consciência de que eu não me atraía
só por mulheres e pessoas femininas.
E…
Havia toda esta pressão.
Depois, sentia que havia uma pressão gigante
como se estar solteiro fosse mal.
Sinto que há uma enorme pressão na sociedade
e, neste dia,
eu sinto que há um culminar disso.
Hoje já não me faz tanta impressão,
mas fazia-me muita impressão
diria que até antes do tempo do covid.

[Sofia]
Sim.

[Alexandre]
Fazia-me muita impressão esse dia, porque sinto que
havia uma pressão gigante, eu sentia-me pressionado
por isso para ter que estar numa relação.

[Sofia]
Eu por acaso nunca senti essa pressão,
mas reconheço que há uma pressão que existe muito,
mas mesmo muito.
E que há pessoas que parece que vão querer só encontrar-se
e namorar com alguém naquele dia,
só para não estarem sozinhas, naquele dia.

[Alexandre]
Existem mesmo serviços para isso, tipo
apps e cenas mesmo dedicadas para isso,
para quem não quer estar sozinho de idos namorados
e estar numa “pseudo-relação”, vá.
E é válido.
Quem gosta disso é totalmente válido.

[Sofia]
E compreensível, face a pressão que existe.

[Alexandre]
Mas sinto que há muito essa pressão.
E eu não me lembro, até hoje,
de ver uma campanha de “dia de namorados”
do que quer que seja,
que incluísse um casal de duas mulheres
ou um casal de dois homens,
não me recordo de tal coisa.

[Sofia]
Sim…

[Alexandre]
Se alguém já tiver visto, por favor deixem nos comentários,
porque eu gostava de ver.

[Sofia]
Tirando de páginas LGBT+,
 
[Alexandre] Sim…

[Sofia]
…não acontece muito.

[Alexandre]
Tu vês muitas campanhas de dia de namorados,
em que é tipo o homem que compra uma joia
para oferecer à mulher. E porque não
uma mulher que compra uma joia para oferecer à sua namorada?

[Sofia]
Eu acho que já vi uma,
de uma companhia de aviões,
com duas mulheres, só que lá está…
É que são coisas tão raras de acontecer,
que já nem me lembro.
E acontece muito pouco.

[Alexandre]
Eu sou sincero, eu acho que nunca vi tal coisa e seria bonito.

[Sofia]
Sim, até porque para a própria comunidade LGBT+,
às vezes parece que não é uma data para nós,

[Alexandre] Sim…

[Sofia]
…quando também pode ser.

[Alexandre]
Sim, lá está.
E depois tem outra situação para mim,
a questão do “dia de namorados”, eu sinto que
é algo muito comercial, ou seja,
eu acho giro haver data para celebrar o amor,
acho isso bonito,
sinto é que especialmente, hoje em dia,
que é uma cena super comercial.
Parece que há uma pressão enorme
para ser tipo um dia mega perfeito.
E eu sinto que as pessoas parece que acabam esse dia
a ostentar a sua relação,
do que propriamente a viver a sua relação.
Não sei se me fiz entender.

[Sofia]
Não, sim, eu percebo.
E, às vezes, o próprio dia gera discussões,
por causa disso mesmo.

[Alexandre]
O ano passado, passei o “dia dos namorados”,
com o meu primeiro namorado.
A ideia era irmos comer lasanha,
junto ao rio a ver as estrelas
e ver um filme.
A chuva estragou o plano. [risos]
Tivemos que comer a lasanha dentro do carro,
mas foi bonito, tipo
trocámos presentes,
passámos o nosso momento,
e isso é que é importante.
Mas eu sou muito este tipo de pessoa que é:
eu gosto de coisas simples.
Para já, nunca senti a necessidade super grande de celebrar este dia.
Se a pessoa com quem eu estou
gosta muito de celebrar este dia, este tipo de dias,
foi o caso do meu primeiro namorado, ok, vamos celebrar.
Mas eu não preciso que seja uma coisa, tipo,
super estridente.
Eu gosto de cenas simples,
tipo cozinhar em conjunto
ou ir para um parque, para um sítio,
ver um pôr do sol,
ver as estrelas,
ver um filme, acho isso giro.
Até porque eu não acho propriamente romântico
ir para um sítio onde estão, tipo, 50 outros casais…

[Sofia]
Exato.

[Alexandre]
…a fazer exatamente a mesma coisa.
Parece… Não sei…
Para quase que uma competição
entre todas aquelas pessoas,
que estão ali a tentar fazer o seu dia
super perfeito.
E isso vê-se muito…
E depois, como tu disseste, gera discussões.
Sinto que é um dia que acaba por ser muito fabricado.
E é tipo, para mim,
o amor mostra-se todos os dias,
não é só num dia.
É bom ter um dia em que podemos fazer uma demonstração diferente.
É bom ter dias para celebrar o amor,
mas o amor celebra-se todos os dias.

[Sofia]
Exatamente. Eu concordo plenamente.
E, embora gosto da existência deste dia enquanto,
sei lá, uma desculpa
às vezes… uma desculpa para sair da rotina

[Alexandre]
Humhum, sim sim.

[Sofia]
E para
ok hoje é um dia especial e vamos planear isto e aquilo,
mas também prefiro algo em casa
ou algo em sítios que não tenha muita gente…

[Alexandre]
Ou mais íntimo…

[Sofia]
Mais íntimo, lá está,
que celebre efetivamente aquela relação,
em vez de estar as pessoas da relação
com toda a gente à volta.
Mas é tudo válido,
o que as pessoas gostarem de fazer, acho que é isso que…

[Alexandre]
Sim, isto é o meu ponto de vista…

[Sofia]
… que devem fazê-lo, sim.
Mas lá está o único dia de São Valentim,
que eu me lembro de passar,
também foi em casa,
só que eu acho que também foi na altura do covid, portanto
se calhar também não dava… Não, mas já houve…
Ok um dos anos foi no covid,
por isso é que foi em casa.
No ano anterior, eu não me recordo
de como é que foi o dia em si,
mas lembro-me que, à volta desse dia,
isto foi com o ex namorado de que eu falei.
Nós estávamos
a passar na rua,
na altura ainda nem sequer estávamos a namorar,
estávamos naquela fase de “pré/início de relação”.
E, nessa altura,
ele ainda era percepcionado como uma mulher,
mas uma senhora que estava a entregar
coisas aos casais,
tipo, não sei se era uma flor ou se era um chocolate,
estava a entregar coisas ao casal,
viu-nos, percepcionou duas mulheres,
mas percebeu a intimidade que havia,
e ofereceu-nos a nós também.
E eu na altura até fiquei atrapalhada,
porque não sabia se aceitar ou não,
e foi o meu ex namorado à altura que aceitou.
E ficou contente,
apesar de haver uma certa invalidação
da entidade de género dele,
em ter sido percepcionado de forma diferente,
ficou contente,
por estar a ser dado o reconhecimento
a um casal percepcionado enquanto duas pessoas do mesmo sexo,
porque era uma coisa que se calhar não estava
à espera que alguém na rua
tivesse esse
cuidado de
incluir todos os casais que visse.
E achei um momento bonito,
apesar de também poder gerar muitas confusões…
Imagina que passam só duas pessoas que são amigas, seja… seja….

[Alexandre]
Mas isso aconteceu-me,

[Sofia]
Lá esta…

[Alexandre]
quando eu estava na faculdade…

[Sofia]
Passaste com uma amiga tua e olha um casal?

[Alexandre]
Ya, ya, ya!

[Sofia ri]

[Alexandre] Chegou-me a acontecer,
daí que normalmente,
tenho uma amiga minha que
acho que, pelo menos num dos anos,
chegámos mesmo a fazer isso.
Tipo irmos aos sítios, que havia ofertas para casais,
irmos nós os dois fingirmos ser um casal,
só para recebermos as ofertas
que davam para os casais,
portanto isso também é uma questão interessante.

[Sofia]
Portanto, às vezes os jantares são bons para aproveitar
as promoções. [risos]

[Alexandre]
Mas basicamente é isto,
mas hoje em dia a minha visão deste dia
é que eu sinto que é um dia muito comercial,
mas que se eu estiver numa relação em que
alguém queira celebrar eu gosto. E, como tu disseste,
acaba por se um dia para fugir um bocado da rotina.
Tipo, se calhar eu posso fazer muitos jantares
com a pessoa de quem gosto,
mas neste dia se calhar quero fazer uma cena mais especial,

[Sofia]
Ya.

[Alexandre]
mesmo que seja mais íntima.

[Sofia]
E acho que mesmo com amigos, às vezes pode ser

[Alexandre] Sim, sim.

[Sofia]
uma coisa boa de aproveitar. Ok, este é um dia de celebração do amor…

[Alexandre]
Mas também há outros amores sem ser…

[Sofia]
Sem ser nenhum amor romântico, precisamente.

[Alexandre]
E, ao mesmo tempo,
este dia acaba às vezes por ser
stressante e difícil
para pessoas que estão solteiras,
para pessoas da comunidade LGBT+
estando ou não estando solteiras,
porque também há muito receio de,
como parece estar tudo virado
apenas para casais heterossexuais,
poderem se sentir
numa situação
de receio
ou incómodo
de quererem aproveitar este dia
com a sua pessoa.
Ao mesmo tempo, também,
as pessoas que não sentem
atração romântica,
também pode ser um dia um bocado mais stressante
e é importante deixarmos aqui o ponto
que é totalmente ok.

[Sofia]
Sim, é totalmente válido
e as pessoas não são, nem mais, nem menos válidas
por estarem numa relação
ou por quererem ou não quererem estar numa relação.
Há pessoas que nem sequer sentem a atração,
seja sexual, seja romântica
por outras pessoas e está tudo bem,
e é tudo ok.
Há pessoas que são não monogâmicas
e que também pode ser uma data um bocado tricky [= complicada], nesse sentido.

[Alexandre]
Sim, sim, sim.

[Sofia]
Portanto, no fundo,
esta data tem que ter a importância
que nós queremos que tenha e pode ser nenhuma.

[Alexandre]
E pode ser nenhuma.
E a celebração também é aquela que nós mais gostarmos.
E pode ser uma coisa simples e íntima,
como nós aqui falámos que gostamos,
ou pode ser uma coisa mais festivaleira,
por assim dizer.
E cada celebração, ou a não celebração,
também é válida.

[Sofia]
Eu lembro-me que no meu último dia de São Valentim,
portanto o ano passado,
eu não estava numa relação,
mas ofereci… Tinha uns marcadores, tipo que
tinha uns gatinhos, que ofereci a amigos meus. Disse “olha
hoje é dia de São Valentim, toma lá uma prenda.”
E ficaram contentes. Porque é uma…
É uma oportunidade para celebrar o amor no fundo.

[Alexandre]
Sim, exato. Eu por acaso neste São Valentim
estou solteiro
e estou totalmente ok com isso.

[Sofia]
Boa!

[Alexandre]
E chegamos assim ao fim deste
nosso episódio.
Esperamos que tenham gostado.
Deixem-nos nos comentários também
que outras opiniões tenham sobre isto,
que outros mitos que acontecem
e que pairam as relações das pessoas Bissexuais
que nós possamos ter-nos esquecido,
ou também a vossa experiência enquanto
pessoas Bissexuais com este dia
ou com as vossas relações.
Deixamos os nossos comentários
e caixas de mensagens abertas,
para nos fazerem chegar
as vossas partilhas.

[Sofia]
Os episódios saem a todas as segundas
sextas-feiras de cada mês.
O próximo também calha a um dia 14,
Até à próxima

[Sofia e Alexandre]
Venham Bialogar connosco!

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