Falamos também da invasão à apresentação do livro “Dar e Receber Amor em Todas as Suas Formas”, da AMPLOS com Sara Dias Oliveira. À data da gravação deste episódio, ainda não tinha acontecido a 2.ª invasão a uma apresentação pública deste livro, pelo que não foi possível referimos a mesma.
Publicação: 13/06/2025 | Duração: 1h 03min 39s | Produção: 22h | Legendas: no YouTube
Avisos: Contém menções de bifobia, homofobia, transfobia, bullying, invalidação, preconceitos, discriminação, violência LGBTfóbica, misoginia, machismo, questionamento identitário, invalidação e processo de “sair do armário”. Inclui breves menções de suicídio (referência estatística da comunidade e causas), violência policial e saúde mental (nomeadamente burnout / esgotamento).
Pessoa(s) Convidada(s)
Não houve pessoas convidadas neste episódio.
Referências
Personalidades
- Marsha P. Johnson: Drag Queen e ativista Travesti/Trans Estadunidense.
- Sylvia Rivera: Mulher Trans e Ativista Estadunidense.
- Heinrich Heine: Poeta alemão.
Livros
- “Heartstopper”, de Alice Oseman
- “Dar e Receber Amor em Todas as Suas Formas”, da AMPLOS com Sara Dias Oliveira
- “Um Coração, dois Caminhos”, de Nora Dåsnes
- “Primeiro que Cresci no Coração”, de Filipe de Bruxelas
- “Teodorico e as Mães Cegonhas”, da Ana Zanatti
- “O Pedro Gosta do Afonso”, de Mariana Jones
- “Mamã, Quero Ser um menino!”, Ana Rita Almeida
- “No Meu Bairro”, de Lúcia Vicente
- “Celebrar o Orgulho”, da coleção de livros “Raparigas Rebeldes”
- “Vamos Falar Sobre Aquilo”, de Erika Moen (livro de educação sexual)
Filmes e Séries
- “Sailor Moon” [PT: Navegante da Lua]
- “Battlestar Galactica” (como exemplo em que os vilões da série exibem comportamentos sáficos apenas enquanto são vilões, deixando de exibir esses comportamentos quando ser tornam aliados dos humanos).
- “Gladiador II” (como exemplo da representação de vilões masculinos com uma expressão de género bastante feminina, para aliarem o ser vilão a ser feminino).
Eventos e Datas
- Arco-Íris no Jardim (2025)
- Dia da Criança: 01 de junho
- Mês do Orgulho LGBT+: junho
- Dia Internacional do Orgulho LGBT+: 28 de junho
- Revolta de Stonewall: 28 de junho de 1969
- Clube de Leitura LGBTI+ das Bibliotecas de Lisboa
Associações, Coletivos e Grupos de Apoio
- ILGA Portugal – https://www.ilga-portugal.pt/ .
- AMPLOS: Associação de Mão e Pais Pela Liberdade de Orientação Sexual e Identidade de Género – Site: https://www.amplos.pt/ .
Termos e Expressões
(em edição)
Transcrição
[Sofia] Alô, alô! Sejam bem-vindes ao nono episódio do podcast Bialogar. Eu sou a Sofia.
[Alexandre] Eu sou o Alexandre. E queríamos começar por agradecer a todas as pessoas que vieram ter connosco ao “Arco-Íris no Jardim”, no passado dia 17 de maio,
e que falaram connosco, compraram alguns stickers [= autocolantes] e que também nos deram muito feedback [=retorno] sobre o podcast.
Foi muito bom conhecer todas as pessoas que se juntaram a nós e fica o convite, para quem não se juntou a nós,
se puder juntar a nós numa próxima oportunidade. Ainda não sabemos quando, mas nós vamos avisar-vos quando soubermos.
[Risos]
[Sofia] Ainda não sabemos os próximos eventos, mas um, desde já, está confirmado em setembro. Dia 30 de setembro,
para quem estiver por Lisboa, o Alexandre vai estar a apresentar o livro de Heartstopper, no âmbito do Clube de Leitura LGBTI+ das Bibliotecas de Lisboa,
e essa edição vai ser na Biblioteca de Alcântara, às 18h30.
Foi mesmo muito bom ter a oportunidade de conhecer algumas das caras que nos ouvem
e também foi engraçado ouvir os comentários de quem disse que agora já conseguia associar a cara às pessoas que estavam a ouvir.
E este sentido de comunidade e, no fundo, de Orgulho, porque era para isso que também estávamos no “Arco-Íris no Jardim”,
para celebrar este Orgulho, traz-nos aos temas do episódio de hoje.
[Alexandre] Exatamente. O Orgulho, também o Dia da Criança que se celebra neste mês e que acaba por nos…
O título deste episódio serve para nós fazermos uma viagem desde quando éramos crianças
e que, como nós estávamos aqui a conversar enquanto discutimos o episódio,
ninguém nasce a ser homofóbico, bifóbico, transfóbico, racista, misógino ou uma pessoa que discrimina.
Aliás, nós podemos ver as crianças mais pequenas não fazem esse tipo de distinção que nós adultos fazemos
e isso é uma questão comportamental de que aprendem com a sociedade, com aqueles que são os seus modelos de pessoa,
sejam os pais, os avós, os tios, os familiares
ou pessoas famosas, pessoas que as crianças vêem e as crianças aprendem muito vendo e ouvindo, também.
[Sofia] Exatamente.
[Alexandre] E é os exemplos que têm à sua volta que muitas das vezes conduzem, e há uma frase que eu retive até há pouco tempo,
que é algo que já falei muitas vezes com a minha irmã, com outras pessoas, mas até recentemente no debate das legislativas que a ILGA organizou na Biblioteca da Alcântara,
que uma das participantes disse: “Eu também já fui racista, misógina, homofóbica, transfóbica, bifóbica, não é?”.
E isto é uma verdade.
Nós acabámos por crescer em sociedades, em ambientes e contextos (uns mais do que outros, obviamente), que nos oprimem
e que nós para sobreviver acabamos muitas das vezes, porque é aquilo que vemos, por reproduzir esses comportamentos.
[Sofia] Exatamente.
[Alexandre] E há todo um trabalho de desconstrução, ao longo das nossas vidas, desses preconceitos, desses exemplos, que nós temos que fazer
até chegarmos ao ponto em que estamos hoje.
E há muita coisa que se tem que fazer.
E é este Orgulho, é o Orgulho de muitas das vezes desconstruirmos estes preconceitos.
O Orgulho de sermos quem somos, sem quaisquer…
[Sofia] Sem amarras, sem bloqueios.
[Alexandre] Sim.
[Sofia] Eu acho, acrescentando aquilo que tu já disseste, as crianças não nascem a aprender a odiar os outros,
mas mais do que tudo, as crianças não nascem a aprenderem a odiar-se a si próprias.
E é uma coisa que, na nossa comunidade, nos ensinam muito
desde muito cedo, a odiar-nos a nós próprias.
E é importante desconstruir isso, seja pelo nosso bem-estar, pela nossa saúde,
e até para não descarregarmos nas outras pessoas, mas sobretudo para nos amarmos e respeitarmos a nós próprias,
é combater isso.
Ninguém nasceu a odiar-se a si próprio.
Aprendemos isso e quando o desconstruímos é daí que vem o Orgulho.
[Alexandre] Sim.
[Sofia] É finalmente consigo ter Orgulho daquilo que pensava mal de mim,
porque alguém me fez pensar assim.
É um bocadinho…
[Alexandre] Sim, porque nos fizeram… Lá está, não é?
Obviamente, e quando tu dizes isso, lá está.
As pessoas fazem… Há pessoas que podem perguntar,
mas como é que se ensina alguém a odiar-se a si próprio, de certa forma?
E é, se eu digo a uma pessoa que, sei lá, que ser de uma determinada maneira é errado,
ou demonstra a essa pessoa dessa forma, mesmo que essa pessoa não saiba que é isso,
ela vai construir essa ideia na sua cabeça.
E quando é confrontada na sua vida com alguma evidência, por exemplo,
eu cresci a ouvir que ser Gay, que um homem e gostar de homens,
era uma coisa errada.
A partir do momento em que eu começo a descobrir-me a mim mesmo,
e percebo “espera lá, mas eu também gosto de homens,
se isto é errado, então algo está errado comigo”.
[Sofia] Lá está.
[Alexandre] E é a partir daqui deste mecanismo que começa.
E isto pode acontecer com qualquer outra coisa, não é só com sexualidade,
é com género, é com questões raciais…
Qualquer coisa que nos digam que nós fazermos essa coisa é má,
o nosso cérebro, e especialmente quando somos tão jovens,
quando somos crianças, quando somos adolescentes,
em que ainda não existe a capacidade, muitas das vezes,
quer de raciocínio, quer emocional, para compreender todas estas questões
[Sofia] Exatamente.
[Alexandre] e para desconstruir estas coisas,
há muito mais facilidade para se criarem preconceitos, estereótipos,
tabus e traumas em relação a estas coisas todas,
e que duram, às vezes, uma vida inteira.
[Sofia] E é precisamente aí que nascem os chamados “armários”.
Assim que nós nos apercebemos que somos de uma maneira que está a ser mal falada,
entramos num “armário”, porque não queremos que as pessoas descubram.
[Alexandre] Sim, não queremos ser atacados.
[Sofia] Exato.
[Alexandre] Muitas das vezes até pode levar a coisas contrárias, por exemplo,
quantas vezes não acontece, eu lembro-me desse tipo de coisas em miúdo.
Estou, tipo, num grupo de pessoas com quem eu me dou,
está uma pessoa qualquer, alguém está…
E as pessoas no grupo onde nós estamos estão, por exemplo, a falar mal de outra pessoa.
E uma pessoa fica, uma criança fica com medo de ser excluída.
Tem muito mais facilidade em, se calhar, ir atrás do grupo:
“Ok, eles estão a chamar Gay àquela pessoa,
então eu vou chamar também, porque eu não quero…”.
[Sofia] E acho que isso acontece muito, mas também acontece…
Lá está, pode ir por uma via ou por outra:
ou a pessoa, se não pode vencê-los, junta-se a eles, como diz o ditado,
que é disso que estás a falar.
[Alexandre] Sim, e se calhar o medo de ser excluída e também de poder ser…
[Sofia] Sim, leva muito a isso.
[Alexandre] Porque depois também pode ser medo:
“Ok, se esta pessoa não está a atacar aquela pessoa,
é porque é como aquela pessoa”, percebes?
É aquela muito de porem as pessoas nos extremos:
ou estás comigo ou estás contra mim, que é uma falácia, mas…
[Sofia] Sim.
Para além dessa vertente, existe uma outra que é:
“Ok, a pessoa sabe que não quer ir contra outra pessoa que é igual a si,
mas também não quer ser atacada”,
esconde-se,
apaga-se.
Deixa de falar tanto,
deixa de participar tanto.
Isola-se, no fundo.
E isto também é algo muito comum a muitas pessoas de minorias,
é este isolamento, esta solidão,
porque há pessoas que sentem que: ou se viram para esta solidão,
ou têm que se virar para a parte que tu estavas a falar,
que é o juntar-se ao preconceito.
[Alexandre] Exato.
E por isso é que acabas sempre por ter as duas vertentes dentro da comunidade.
Tu tanto tens pessoas que viveram a sua vida inteira escondidas e excluídas,
como tens pessoas da própria comunidade que viveram muito da sua infância,
E eu conheço N casos deste género, de pessoas que me dizem
“Ah, lembras-te de fulano tal que na escola fazia comentários homofóbicos sobre esta pessoa,
ou transfóbicos e não sei quê.
Olha, afinal, agora namora com um gajo ou…”,
percebes? Uma cena deste género…
Já ouvi tantas histórias deste género de pessoas com quem andei na escola.
E o oposto também de pessoas que viveram a sua vida inteira a esconder-se
e a afastarem-se de ambas as situações.
E, portanto, há ambos os cenários.
[Sofia] Exatamente.
E isto vem muito ao encontro de um dos motivos por termos escolhido também este tema do Dia da Criança,
porque, no fundo, é às vezes aqui que começa. E para
muitas das pessoas, se calhar não todas, mas muitas das pessoas
sabem que são diferentes, de algum modo, desde crianças.
Mesmo que ainda não se percebam o porquê,
mesmo que ainda não saibam o que é que está em causa,
sentem essa diferença.
E, por acaso, isso era uma coisa de que nós gostávamos de falar,
e aí, se calhar, começo por perguntar a ti, Alexandre,
se te lembras de algum episódio da tua infância em que tenhas te sentido diferente.
[Alexandre] Eu acho que muitas das vezes me senti diferente de outras crianças.
Diria que, se calhar, diferenças maiores
é que, por exemplo, eu não entendia
o porquê, especialmente quando começas a passar tipo ali a faixa tipo “9, 10, 11, 12 anos”,
a objetificação que muitos rapazes faziam de outras raparigas.
Pá, eu, tipo, não entendia.
E sentia que, por exemplo, em comparação com muitos colegas meus,
que eu sentia que eles tinham brincadeiras bué imaturas,
à volta de lá está, mas isto também pode ter a ver com… Eu cresci num ambiente em que,
na minha casa, falar sobre, em geral, sobre o que é que é sexo,
o que é que são métodos contraceptivos, nunca foram conversas de tabus.
[Sofia] Ok.
Portanto, eu com 9-10 anos, eu sabia perfeitamente de onde é que as crianças vinham
e eu não estava traumatizado e não mostraram sexo nem pornografia em casa,
como algumas pessoas acham que é Educação Sexual.
Não, os meus pais fizeram aquilo que a Educação Sexual nunca me ensinou,
que era eu saber, adequado à minha idade, obviamente,
porque isto pode-se explicar adequadamente a qualquer… a quase qualquer idade.
E portanto, então eu achava, tipo, quando nas aulas falava-se por exemplo:
“ah, vamos falar sobre o sistema reprodutor” e que tu vês miúdos, tipo, na casa,
tipo, do 5º ano, começa-se tudo a rir, e é tipo “mas porque é que estão a achar piada a isto?”.
O que é que há de tanta piada em falarmos sobre o sistema reprodutor humano?
[Sofia] Sim, tudo o que é tabu…
[Alexandre] Só por aí eu já sentia essa diferença. E o facto, por exemplo, de eu, lá está,
não gostar de algumas brincadeiras que muitos rapazes gostavam,
era logo azo também para comentários muito
na roça do homofóbicos ou transfóbicos.
[Sofia] Ou seja: “ai, deves ser Gay, ou deve ser uma menina”, coisinhas desse género…
[Alexandre] Exatamente. E, só por aí, eu já notava essa diferença.
Depois outras questões, epá, não sei, havia muita associação de que “ah
os rapazes têm de gostar disto, e as raparigas têm de gostar daquilo”,
e é tipo “minha gente, eu sou uma criança, eu gosto de brincar, tipo…
[Sofia] Exato!
[Alexandre] …dêem-me, dêem-me”, tipo… Eu não sou uma criança, mas era uma criança
[Risos]
[Sofia] Na altura, na altura…
[Alexandre] Ya, mas tipo, gosto de brincar, tipo ya.
Então ya. E sentir que havia, tipo, aquela distinção de
“Ah, não…”. Tipo, por exemplo, eu lembro-me, na escola,
um colega meu dizer que via um desenho animado que eram umas bruxinhas,
que era o “Doremi”, e ser exatamente chamado de Gay, porque
“ai não, isso é um desenho animado para meninas”.
[Sofia] Lá está.
[Alexandre] Ah! “Sailor Moon” [PT: Navegante da Lua], também alguém que adorava “Sailor Moon”, um gajo qualquer, “ai, isso é desenho animado para meninas”, e é tipo…
[Sofia] Isto são coisas que as crianças aprendem dos adultos.
[Alexandre] Ya!
[Sofia] Porque uma criança não vai dizer isso, a não ser que tenha ouvido algum adulto a dizê-lo.
[Alexandre] Exato, tipo, é um bocado, tipo, nunca me passou pela cabeça que fizesse sentido haver desenhos animados para meninos ou para meninas, tipo, é um desenho animado.
[Sofia] Exatamente.
[Alexandre] Mas depois de começar a ouvir muitas pessoas a dizer isso, quando aparecia um determinado tipo de desenho animado, eu questionava-me disso.
E aconteceu, por exemplo, com a minha irmã, em pequenos, eu dizia-lhe, “ah, estás a ver um desenho animado de meninas”.
Mas isto de sair-me, estás a ver, de onde é que isto vem?
Eu, hoje em dia, que sou mais velho…
[Sofia] É, pega-se!…
[Alexandre] …percebo de onde é que isto vem, porque eu nunca, nunca, nunca em minha casa houve uma distinção do que é que são brinquedos de menina e desenhos animados de menina, tipo.
[Sofia] Mas contamina…
[Alexandre] São coisas para criança.
[Sofia] O preconceito contamina, efetivamente.
[Alexandre] Sim.
E, às vezes lá está, podes até estar num meio, como em minha casa, em que não havia coisas de menino, necessariamente, e de menina, super rígido, ’tás a ver, ou seja, não é tipo “ah, tu não podes brincar com bonecas porque és um menino”, mas a sociedade, o meio depois onde tu te inseres, de certa forma, também, como tu disseste: contamina.
[Sofia] Exatamente.
Eu tive uma experiência um bocado diferente, por exemplo, na minha família é muito tabu e não se conversa sobre questões sexuais, não se conversa sobre nada disso.
E nesta questão que estávamos a falar de brinquedos de meninas e brinquedos de meninos, estava muito vincado na minha família, por exemplo, se eu quisesse brincar com os carrinhos dos meus irmãos ou com qualquer coisa, ia sempre ouvir que aquilo eram brinquedos de meninos, por exemplo.
E eu acho que também já falei disto noutros episódios, desde muito cedo, sei lá, 6-7 anos, estava na escola primária, que gozavam muito comigo pela forma como eu caminhava.
Diziam que eu caminhava como um rapaz.
Isto, na minha cabeça, não fazia sentido, porque eu estava do género “eu caminho como eu.”
Se eu sou uma rapariga, e eu identifico-me como rapariga, se eu sou uma rapariga, eu caminho como uma rapariga, porque as raparigas podem caminhar da maneira que elas caminham.
Nem sequer é uma coisa que se escolhe, as pessoas caminham da maneira que caminham naturalmente.
[Alexandre] Até porque se tivesses, tipo, tens duas pernas, mas só tivesses uma,
irias caminhar de maneira diferente de alguém que caminha com duas.
[Sofia] Exatamente.
[Alexandre] E não era por isso que eras menino ou menina, tipo!?
[Sofia] Exatamente. E havia muitos destes comentários:
ou por gostar de jogar à bola, ou por gostar de andar a correr por aí,
ou mesmo, isto acontece com muitas, muitas raparigas quando são mais novas,
independentemente da orientação sexual que venham a ter,
se sentam confortavelmente: “ai, porque não podem ter as pernas abertas”…
[Alexandre] Olha, eu tive uma cena oposta, que era quando era miúdo…
[Sofia] Não podes ter as pernas cruzadas.
[Alexandre] Não posso ter as pernas cruzadas de uma determinada maneira.
[Sofia] Sim, tem que ser…
[Risos]
[Alexandre] E isso, nunca, nunca, nunca tinha pensado nisso,
até que um dia, num contexto que eu devia ter 9-10 anos,
as pessoas não conseguem ver, mas, pronto, tracei a perna, literalmente,
tal como estava a dizer, trace pernas traçadas e juntas, não é?
E, tipo, ou isso de um outro puto, que devia ter, praí menos um ou dois anos do que eu
“ai, isso é traçar a perna à menina”.
[Sofia] Enfim…
[Alexandre] E, tipo, lembro-me do meu pai dizer qualquer coisa, tipo
que: “não, isto é traçar uma perna”.
Mas de onde é que uma criança vai ouvir este tipo de coisas?
É dos pais, basta a criança alguma vez ter feito isso à frente,
tipo, de alguma pessoa mais homofóbica, ou o que quer que seja,
ou transfóbica, também, neste caso,
e é tipo “ok, não, tu não podes traçar a perna assim,
tens de traçar a perna assado.”,
e as crianças ouvem isso e repetem.
[Sofia] Sim, e…
Mesmo até pessoas adultas, às vezes dizem isso
por dizer, nem sequer se apercebem
de onde é que aquilo vem, nem sequer questionam.
E, por acaso, também ’tás-me a lembrar de outros comentários…
‘Távamos ao longe a ver uma pessoa
e ‘tavam a tentar perceber se era um rapaz ou uma rapariga,
que por si só já é estúpido.
[Alexandre] Sim, como se isso interessasse.
[Sofia] Exato.
E alguém disse “ah, está com as pernas abertas, é um rapaz”.
Tipo, como assim? [Risos]
Não sabes.
[Alexandre] Só faltava aquela também “tem um cabelo grande, é rapariga”, que tipo…
[Sofia] E… Mas que existe.
[Alexandre] Sim, sim, sim.
[Sofia] Agora, se calhar menos,
mas era impensável um homem usar cabelo comprido
ou uma mulher usar cabelo curto, há muito tempo atrás.
E ainda se verifica em algumas situações,
mas, por exemplo, cada vez mais,
homens usam cabelo comprido sem estar necessariamente ligado
a serem Gays, ou serem Bis, ou etc.
[Alexandre] Ou metaleiros. [Risos]
[Sofia] Exato. [Risos]
Mas isto…
[Alexandre] Aliás, eu… Por exemplo, eu na minha adolescência,
cheguei, mais tipo quase no início da minha vida adulta,
cheguei a usar o cabelo pelos ombros.
[Sofia] E certamente ouviste comentários…
[Alexandre] Sim, cheguei a ouvir comentários sobre deixar crescer o cabelo,
cheguei uma vez, tipo num almoço de família,
a ser confundido. Portanto, ‘tava de costas
e como sou magrinho, como uma prima minha e alto,
e o nosso cabelo é parecido (
na altura o meu cabelo sendo comprido era parecido com o dela),
e a pessoa de trás achava que eu era a minha prima,
veio de trás, mete-me a mão no ombro, dá-me um beijo na cara,
e depois fica bué atrapalhado, e aquilo foi um bocado confuso para mim,
porque “ok, não há problema nenhum confundiste-me com outra pessoa, tudo bem”…
[Sofia] Mas a pessoa ficou atrapalhada porque tinha…
[Alexandre] Tinha dado um beijo na cara de um homem.
[Sofia] Lá está.
[Alexandre] Basicamente.
[Sofia] Foi um homem que ficou chocado por ter dado um beijo na cara doutro homem,
que é outra coisa que eu também não entendo.
Enfim.
[Alexandre] Olha, estás-me a lembrar num comentário também que eu me lembro de ouvir em criança,
de um tio meu, basicamente ouço o meu tio dizer qualquer coisa do género, tipo
’távamos a ver com a minha irmã e acho que não o tínhamos visto
e ele disse assim “então venham cá dar-me dois beijos,
porque eu sou da família, porque isto dar dois beijos a um homem que não seja da família,
isso é que é estranho”.
[Sofia] Enfim, exato.
[Alexandre] Ya…
[Sofia] Isso é uma coisa que não acontece na minha, por exemplo, homens não se cumprimentam com…
[Alexandre] Isto é muito mesmo em ambos os lados da minha família, mas principalmente no lado da minha mãe.
[Sofia] Eu estava a falar há bocadinho desta questão de ser uma criança,
estar só a existir,
e começarem a criticar-me,
ou por sentar de determinada maneira,
ou por gostar de determinadas coisas, etc, etc…
E uma criança não se apercebe porque é que está a ser atacada.
[Alexandre] Ya…
[Sofia] A criança ’tá só literalmente a existir.
E eu lembro-me que na altura, quando eram comentários dos meus colegas,
eu não ligava muito.
Porque se aquilo não fazia sentido para mim, eu achava
“não, eles sabem o que é que estão a dizer, não me interessa”.
[Alexandre] Ya.
[Sofia] O problema é quando este tipo de comentários
começa a ser ouvido pela própria família,
nomeadamente pelos pais.
E é aqui que muitas crianças sentem que não têm um porto de abrigo,
quando a própria família valida, no fundo, o preconceito que sofrem na escola,
ou que sofrem noutros locais.
E isto acontece com muitas crianças LGBT.
[Alexandre] E eu acho que tocaste aí um ponto importante,
porque acho que não é só a família, eu acho que é qualquer adulto.
Porque para as crianças, e por isso é que, por exemplo, lá está, há
muitas questões de que se deve dar informação às crianças,
porque as crianças tendem a acreditar muito, principalmente quando são mais novas,
em adultos.
E se um adulto lhes diz alguma coisa, elas tendem facilmente a acreditar.
Ou seja, na escola, se um professor…
Eu tive uma situação como essa, p’raí no quinto ano,
de estarmos, tipo eu e um outro miúdo.
Vira-se para mim e diz-me assim “ah, te pareces bué parvo”.
E o professor vira-se e diz-me “não, ele não parece, ele é bué parvo”.
[Sofia] Pois, estes não são tipos de comentários que um professor deva ter.
[Alexandre] Percebes?
[Sofia] Enfim…
[Alexandre] E tu, enquanto criança, vais ouvir comentários deste género de adultos…
[Sofia] Lá está…
[Alexandre] Acho que as crianças tendem mais facilmente a questionar aquilo que outra criança diz como não sendo totalmente correto, tipo “ok, isto não faz sentido para mim”, mas quando é um adulto, muitas crianças tendem a interiorizar aquilo como sendo um dado adquirido, uma cena certa, percebes?
[Sofia] Isso acontece mais principalmente se forem professores, que são adultos com alguma autoridade para a criança que está a ter aquelas aulas.
[Alexandre] Porque na cabeça da criança têm um certo estatuto e “ok, esta pessoa se está a dizer isto é porque deve ser verdade”.
[Sofia] Lá está.
Mas eu lembro, por exemplo, um comentário bué parvo que, repara, entretanto,
já tenho quase 30 anos e ainda me lembro.
‘Tava na paragem do autocarro e o miúdito, também da minha turma, vira-se do nada “olha, a minha mãe diz que tu és uma <<homesana>>”, por exemplo…
Que há de ser sinónimo de “maria-rapaz”, mas parece uma originalidade da minha aldeia, que é “homesana”.
[Alexandre] Ok.
[Sofia] Nunca ouvi essa palavra fora daquele contexto, por exemplo.
E a minha resposta na altura, eu se calhar aqui já tinha, sei lá 11-12 anos, e a minha reação foi do género “A mim não me interessa o que é que a tua mãe diz”.
Portanto, era uma adulta que a mim não me interessava.
[Alexandre] Sim, sim.
[Sofia] O problema é aqueles adultos em que tu supostamente confias, como pais e professores, terem este tipo de comentários, que valida.
[Alexandre] Sim.
[Sofia] E eu acho que foi mais a partir daqui, principalmente em casa,
que contribuiu para eu me isolar, e não ser tão expansiva, não ser tanto como eu era,
porque não me sentia naquele lugar seguro.
E isto para dizer o quê?
Existem, e atualmente cada vez mais, muitas campanhas extremistas que utilizam as crianças como desculpa,
com a velha frase do “deixem as crianças em paz”.
E eu sempre que ouço uma campanha destas, só penso “quem me dera que me tivessem deixado em paz”.
[Alexandre] É, deixem as crianças LGBT em paz!
[Sofia] Exatamente!
[Alexandre] Deixem as crianças em geral em paz!
Tipo, parem de lhes tentar impor normas de género e de sexualidade e de comportamento.
Deixem as crianças serem crianças.
[Sofia] Exatamente.
[Alexandre] Se uma criança quer usar um vestido, deixem-na usar um vestido. Não é?!
[Sofia] Exato.
[Alexandre] Todas as crianças, tipo… Lá está, as crianças são… Deixem as crianças viverem a sua vida,
tipo imaginarem, ou quer usar um vestido: usam um vestido.
Isso não quer dizer que vai usar um vestido para toda a sua vida.
E usar um vestido não diz nada sobre o seu género, sobre a sua sexualidade, sobre a criança enquanto pessoa.
A criança quer usar um vestido.
[Sofia] Exatamente.
[Alexandre] Os adultos, às vezes, fazem tipo um filme muito grande sobre aquilo que as crianças dizem ou fazem,
a achar que aquilo define necessariamente a criança.
E para a criança às vezes é só, tipo, uma cena que lhe passou pela cabeça.
Viu um vestido e quer usar um vestido.
[Sofia] Lá está! Até acontece,
sei lá, um miudinho que viu uma personagem e gostava muito e queria usar aquele vestido.
Se calhar até gosta da personagem, mas vai ser logo conotado como Gay, por exemplo.
[Alexandre] Sim.
[Sofia] Mas mesmo assim, mesmo que venha a ser Gay, não há problema nisso,
e as pessoas têm muito preconceito com a orientação sexual.
E não é por um rapaz querer usar um vestido porque gosta muito, por exemplo, da Elsa do “Frozen”,
quer usar, querer vestir-se porque gosta muito.
Primeiro, não é por usar um vestido que vai ser Trans ou que vai ser Gay ou Bissexual ou o que quer que seja.
E também não é por não lhe comprarem o vestido que também garante o oposto.
[Sofia] Exatamente.
[Alexandre] Que ele vai ser heterossexual e cis. Não.
[Sofia] Não, a única coisa que garante é que aquela criança vai se tornar infeliz e vai achar que não pode ser como é à frente dos pais.
[Alexandre] Sim.
[Sofia] E vai parar de conversar e confiar.
[Alexandre] Sim, exato. E depois isso pode expor essa criança até a perigos muito maiores.
[Sofia] Exatamente.
[Alexandre] Porque depois podem acontecer situações na vida dessa criança: situações de bullying, de agressão, de abusos, sejam ou não sexuais.
E a criança não vai querer falar sobre isso com os pais, porque vai achar que é mais uma situação em que vai estar a ser um estorvo.
[Sofia] Em que vai ser atacada…
[Alexandre] Ou que vai ser inconveniente ou que vai ser atacada.
E não se vai querer expor a isso. Vai preferir esconder.
Aliás, eu já ouvi pessoas da comunidade, que me disseram que muitas situações ao longo da sua vida preferiam, entre aspas, ter morrido do que ter contado isso aos pais.
[Sofia] Sim. Isso é muito triste.
[Alexandre] E uma criança preferir morrer a contar uma determinada coisa má que lhe aconteceu aos seus próprios pais, isto é algo que nos deve preocupar enquanto sociedade.
[Sofia] É, sem dúvida.
E, por exemplo, esta questão que já também mencionámos sobre a Educação Sexual nas escolas.
Quando se fala em Educação Sexual para determinadas idades, obviamente que a maneira de dar esta aula vai ser muito diferente:
vai ser adaptada à idade da criança.
E para que é que servem estas aulas?
Exatamente para prevenir que, em casos de abusos sexuais, aquela criança se cale.
[Alexandre] Sim. E para prevenir que a criança possa identificar esse tipo de situações.
[Sofia] Lá está.
[Alexandre] Por exemplo, eu vi há pouco tempo um vídeo de uma pedopsicóloga que falava precisamente sobre estas questões,
que era: há muita ideia de quando as crianças são pequenas de arranjar nomes para as suas partes íntimas.
E às vezes, por exemplo, em inglês acontece muito ser com nomes de animais.
E ela explicar que isso faz com que as crianças, primeiro: fiquem muito mais suscetíveis a sofrer abusos sexuais,
porque associam essas palavras a coisas divertidas.
E, outra parte, quando elas depois querem contar uma situação de abuso aos pais, os pais não conseguem entender do que é que elas estão a falar.
[Sofia] Lá está.
[Alexandre] Vai parecer que a criança está a falar tipo duma cena qualquer que viu numa televisão ou numa coisa qualquer.
E se as crianças souberem chamar as suas partes íntimas pelos nomes verdadeiros, que não tem mal nenhuma a criança dizer pénis ou dizer vagina, ou mesmo os nomes mais tipo pipi ou pilinha.
Mas só isso já vai fazer com que a criança esteja menos exposta, porque, se uma criança chegar ao pé do pai e disser “olha, aquele tio tocou-me na pilinha” é diferente de dizer “olha, aquele tio tocou-me no pássaro”, portanto…
[Sofia] Até porque uma criança, se for uma criança muito pequena, nem sequer sabe o que é que está a acontecer ali.
Nem sequer sabe que é algo errado.
E, por vezes, nem vai contar porque não sabe o que é que se está a passar.
Porque um abusador sexual não vai dizer à criança “olha, estou abusar de ti”,
vai dizer “olha, vamos jogar um jogo” ou o que seja. Vai enganar a criança.
[Alexandre] Sim, Vai enganar a criança.
Vai ludibriá-la.
[Sofia] Que é especialmente vulnerável.
E é importante haver também Educação Sexual para ajudar as crianças a identificarem essas situações.
[Alexandre] Sim. E a conseguirem proteger-se delas, dentro do possível.
E, se acontecerem, também a conseguirem comunicá-las aos adultos responsáveis à sua volta,
de forma clara.
E, precisamente, quanto mais conhecimento nós temos sobre alguma coisa,
mais facilmente e mais meios nós temos para nos proteger.
[Sofia] Exatamente.
Mas voltando ao preconceito que nós aprendemos desde criança.
Eu quando era criança, eu não me sentia sexualmente atraída por ninguém,
porque era uma criança.
[Alexandre] Como qualquer criança, diria eu.
[Sofia] E mesmo aquelas “crushes” [=paixonetas] que às vezes as crianças têm, completamente inocentes,
eu não tinha crush [=paixoneta] em ninguém sequer.
Mas as pessoas já faziam comentários sobre a minha suposta orientação sexual.
[Alexandre] Sim, comentários sexualizantes.
[Sofia] Comentários sexualizantes.
E comentários do género “não podes ter esta orientação, tens que ter aquela”.
[Alexandre] Exato
[Sofia] Que era uma imposição que se queria fazer.
E lá está.
Quando dizem “não devemos impor coisas às crianças”,
eu concordo que
não se devam impor orientações sexuais às crianças,
até porque não dá para impor a orientação sexual a ninguém,
porque isso é algo inerente
a cada pessoa.
[Alexandre] Exato.
Mas, ao mesmo tempo, também não andem a fazer comentários,
como eu por exemplo já vi
até na minha família:
teres tipo uma criança de 2-3 anos,
que gosta muito de brincar,
que é um rapaz,
gosta muito de brincar com uma menina que tem tipo 6 ou 7 anos,
w então era comentários de “ah, é a tua namorada,
é a tua namorada”.
[Sofia] Exato.
Ia falar disso, precisamente
[Alexandre] Aquilo são duas crianças que brincam uma com a outra,
apenas porque são crianças.
Ela a achou muito fofinho porque é um bebé
e gosta de crianças mais novas e acha-as fofinhas.
E ele brinca com ela porque ela lhe dá atenção,
como qualquer criança brinca.
Não é?
E brincam juntos,
divertem-se.
[Sofia] Exato.
[Alexandre] Mas há logo ali quase que uma imposição
“ah, é a tua namorada”,
“Onde é que ’tá a tua namorada?”…
[Sofia] Lá está, desde a barriga…
Se há duas mulheres que estão grávidas ao mesmo tempo,
e uma está grávida de um menino
e uma está grávida de uma menina,
dizem “ah, vão ser namoradinhos”
ou “vão ser não sei o quê”.
[Alexandre] Sim:
“Ai, vai partir muitos os corações”,
“Ai, vou ter que trancar a minha filha em casa até aos 30 anos”.
[Sofia] Sim, pois é estes comentários machistas que enfim…
Mas lá está.
As pessoas sexualizam as crianças desde muito cedo:
“Tu quantas namoradinhas é que tens?”…
E depois é sempre, para os meninos é sempre no plural,
para as meninas é “vou-te trancar em casa até não sei que idade”.
[Alexandre] Ya!
[Sofia] Só que se alguém vir ou um rapaz, ou uma criança percecionada como um rapaz,
que tem uma expressão de género mais feminina,
aí já não se pode sequer levantar a possibilidade
de mostrar àquele rapaz que pode ser Gay.
[Alexandre] Ya.
[Sofia] É, tentam logo cortar.
E se aquele rapaz efetivamente vier a ter uma orientação sexual
em que gosta de outros rapazes,
o que é que ele aprendeu com isto tudo?
Que ele devia ter encaixado no que a sociedade esperava para ele,
que ele não está a ser uma boa pessoa.
[Alexandre] Sim, e isso depois vai-se refletir em todo um auto-ódio,
que vai minar as relações pessoais dessa pessoa ao longo da sua vida.
[Sofia] Lá está…
[Alexandre] Seja num nível mais amoroso, sexual, o que quer que seja.
[Sofia] Exatamente.
[Alexandre] Porque é uma criança que vai crescer a achar
que está errada perante a sociedade
e que mais valia se calhar nem estar ali.
Muitas pessoas pensam isso,
e isso leva a situações, em casos extremos,
nós sabemos as taxas de suicídio que existem na nossa comunidade.
[Sofia] Exatamente.
[Alexandre] E que vêm deste preconceito.
[Sofia] E lá está, não tem a ver com as nossas identidades,
tem a ver com o preconceito com o que levámos,
que é uma coisa que às vezes as pessoas também confundem.
Do género:
“ah, os Gays, os Trans…” (esta gente que ninguém sabe muito bem quem é que é
mas gostam de criticar)
“… são muito infelizes.
Tu não queiras ser Gay porque senão vais ser infeliz”.
Não! A pessoa
só vais ser infeliz se forem maltratada.
[Alexandre] E se viver de tal modo condicionada nestas caixas de preconceito
que não consegue vivenciar a sua vida,
sem ser vivenciar a sua vida de forma dolorosa.
[Sofia] E lá está, eu ‘tava a dar um exemplo de um suposto rapaz,
mas posso dar o meu exemplo, que também já aqui falei.
Se não me tivessem ensinado que eu estava a comportar-me
de uma maneira que supostamente não podia,
eu não tinha odiado a maneira como eu era.
E isto claro que traz sequelas para outras fases
aa nossa vida. Né?!
Porque os adultos que nós somos hoje
vieram da criança que fomos.
[Alexandre] Que nóes eramos, ya!
[Sofia] E há muitas pessoas, não só da comunidade
mas particularmente da comunidade,
que têm muitas feridas de infância. Muita…
[Alexandre] Eu posso dar exemplo também.
Eu partilho muito disso que tu disseste.
Para mim, uma coisa que ainda hoje
lá está, se mantém e
para as pessoas perceberem que isto é algo efetivamente
que traz trauma e que se mantém por muitos anos.
Eu era uma criança que facilmente me emocionava
e chorava.
[Sofia] Lá está.
E um rapaz…
[Alexandre] Um rapaz não pode chorar,
tem que conter as suas emoções [de acordo com a sociedade].
O que é que isto fez?
Fez com que quando eu estivesse no início da minha vida adulta
não falasse sobre como é que me sentia,
não tratasse das minhas emoções,
tive um burnout [=esgotamento].
E até hoje eu não consigo chorar.
No funeral da minha bisavó, já há mais de 10 anos,
que era uma pessoa muito importante na minha vida,
eu não consegui chorar.
Quando eu quero chorar e não consigo
os meus olhos ficam super vermelhos,
eu fico com umas dores enormes à volta dos olhos,
porque foi mesmo de muito pequeno a treinar
para não conseguir chorar.
E ainda hoje tenho dificuldade em fazer isso.
E por uma coisa que as pessoas ficaram a pensar
“Ah, é tão simples.
Disseram a uma criança que os meninos não choram”.
Sim, mas ouvir isso muitas vezes.
[Sofia] É a repetição, lá está
E são estas sequelas que nós queremos evitar
que aconteçam com outras crianças
e com outras pessoas.
A começar pela sua infância,
porque é isto que depois vai ditar tudo o resto.
E isto faz-me lembrar de um poema
do André Tecedeiro,
que é muito curto, mas que eu acho que diz tanto.
Que diz assim:
“Os anos que passei / perdido no medo. /
Quem mos devolve. / Quem me os devora.”
E isto traz muitas memórias.
Às vezes nem dos acontecimentos em si, mas mais de sentimentos,
que é: os anos que eu passei perdido no medo
ou, pegando no teu exemplo, os anos que eu passei perdido
a achar que não podia chorar.
Quem é que me devolve essa possibilidade de o poder fazer?
Quem é que me devora todos os medos que eu vivenciei
e que me impediram de viver certas coisas
que eu queria ter vivido noutra altura
e que se calhar só estou a viver agora,
porque se calhar só agora é que me encontrei com o tal Orgulho,
de que falamos neste episódio também.
[Alexandre] Sim.
E os momentos que muitas das vezes perdemos a sofrer em silêncio
ou a questionar o que é que há de errado connosco
ou as situações da nossa vida em que às vezes estamos naquela de
“Não, não, não. Eu agora vou encaixar.
Isto é uma coisa que eu posso mudar…”.
E não, não podemos. Nós não podemos mudar a nossa sexualidade.
Nós não podemos mudar quem nós somos.
[Sofia] Eu diria que nem podemos, nem queremos.
E só quisemos, no passado, porque nos fizeram acreditar que devíamos fazê-lo.
[Alexandre] Sim.
E muitas das vezes o tempo que nós perdemos a tentar mudar.
E os problemas que isso também traz,
porque quando tu tentas ser alguém que não és, tu também não és feliz,
tu também não estás realizade enquanto pessoa.
[Sofia] Não estás a desenvolver-te como deverias também, noutras áreas da tua vida,
porque estás isolado naquele poço de sofrimento, digamos assim.
[Alexandre] Sim. Isso é uma das principais coisas que contribuiu para o meu burnout.
Foi, lá está, eu tentar ir contra mim próprio.
[Sofia] E este machismo que nos diz que, por exemplo, os rapazes não podem chorar,
afeta toda a gente. Não é só a população LGBT,
afeta toda a gente: Todos os homens, neste caso, para esta questão em concreto,
dos rapazes não poderem chorar.
E esta homofobia e transfobia que existe também vem deste machismo.
[Alexandre] Sim.
[Sofia] E combater este tipo de ideias, combater que os rapazes não podem chorar
ou não podem demonstrar sentimentos, que uma rapariga não pode fazer o que entender
porque tem que se comportar como uma menina, o que quer que isso signifique.
Combater estas questões devia ser um trabalho de todos nós enquanto sociedade.
Não só da comunidade LGBT. Qualquer pessoa,
porque são situações que prejudicam toda a gente.
[Alexandre] Sim. E aqui sinto que voltamos um bocado a um tema, que já falámos em episódios anteriores,
depois também das referências que estas crianças têm.
Porque fala-se muito, tipo “Ai, agora todos os filmes e todos os não sei quê têm que ter uma personagem LGBT”.
[Sofia] Ai… Tantas vezes que já ouvi isso…
[Alexandre] E sim, porque as referências daquilo que nós vemos na televisão, também nós as absorvemos.
E se o que eu vejo na televisão são políticos que andam aos berros uns com os outros,
são desportistas machistas ou homofóbicos,
se são filmes em que só mostram pessoas heterossexuais e quando mostram pessoas LGBT…
[Sofia] Ou violência, pancadaria, armas…
[Alexandre] Sim, mas, ou quando mostram pessoas da comunidade:
são pessoas que são retratadas como forma de chacota, de forma ridicularizante.
Porque uma coisa é o humor, outra coisa é ridicularizar alguém.
[Sofia] Sim.
[Alexandre] Todos nós podemos fazer humor com tudo, mas eu sinto que existe espaço e tempo para isso, certos.
[Sofia] Certo.
[Alexandre] Se calhar uma piada que entre mim e ti aqui neste contexto
fechado, quando não estamos a gravar o podcast,
vai ter se calhar até piada, mas se calhar fora desse contexto outras pessoas não vão perceber
e até podem entender um outro significado completamente diferente do que aquele que nós lhes damos.
[Sofia] Lá está, e uma coisa é eu fazer uma piada com as situações que vivi, outra coisa é fazer uma piada com o sofrimento alheio.
[Alexandre] Ou com base num preconceito.
E acontece muito.
Por exemplo, no primeiro episódio eu falei precisamente, uma das primeiras vezes que eu vi Bissexualidade representada na média foi naquela série, que retratavam, portanto, uma pessoa Bissexual como um completo tarado depravado.
E foi esta a primeira imagem que eu tive na televisão de um homem Bissexual.
[Sofia] Exatamente.
[Alexandre] E então depois eu olho para isto enquanto, eu devia ter 18-19 anos se não me engano, e questionar-me: “Epá, não, mas eu não sou um tarado. Mas será que ser Bissexual é isso? Então se eu for isto significa que…” Percebes?
[Sofia] Exato, exato.
[Alexandre] Há estes questionamentos.
Se a representação que muitas pessoas LGBT durante anos viram na televisão
foi uma coisa completamente ridicularizante e de também uma certa transfobia,
isto para pessoas que estão a ver isto, que são da comunidade, vão olhar e pensar
“ah não, isto é errado, não é? Aquela pessoa está a ser ridicularizada”.
Porque normalmente quem está a ser alto de chacota de forma muito ridicularizante e desumanizante é vista como, muitas das vezes, como quem está mal.
Aliás, a outra situação de muitas das personagens LGBT
quando apareciam em séries, em filmes, eram, regra geral, vilões.
[Sofia] Vilões ou o alívio cómico da série,…
[Alexandre] Exato.
[Sofia] …para poderem gozar com a personagem.
[Alexandre] Exato.
Aliás, uma das minhas séries de ficção científica favorita é
“Battlestar Galactica”.
E na versão mais recente, tu vês cenas sáficas nos Cylons, que são os vilões.
Mas quando há uns grupos que se aliam aos humanos, tu deixas de ver cenas sáficas.
[Sofia] Lá está, porque isso é coisa de vilão.
[Alexandre] Portanto, e isto pode parecer muito inocente para muita gente,
mas se calhar, por exemplo, para uma mulher sáfica, ela vai olhar, vai ver aquilo e inconscientemente…
[Sofia] Vê como uma coisa má.
[Alexandre] Ya.
[Sofia] Por exemplo, há uns tempos fui ver o “Gladiador II” ao cinema.
E eu achei aquilo extremamente homofóbico,
também porque os vilões eram retratados com uma expressão de género bastante feminina,
para aliarem o ser vilão a ser feminino, a ser fraco, a ser desviante e a ser errado.
[Alexandre] Sim.
Por acaso, agora estás-me a lembrar aqui de uma coisa que estava a refletir no outro dia,
dos vilões serem mais femininos e, por isso, ter aqui quase uma vilanização daquilo que é feminino.
[Sofia] Sim.
[Alexandre] E isso vem muito desta misoginia, deste machismo,
porque, por exemplo, se tu reparares um rapaz que está a ter um comportamento feminino,
e que vai ser insultado:
“Ah, é uma mulher, é uma mulherzinha”.
Mas uma rapariga que está a ter um comportamento mais dito masculino,
não é insultada como sendo um homem ou um homenzinho,
é uma maria-rapaz.
[Sofia] É uma maria-rapaz, vai ser insultada como a querer estar a ser um homem,
a querer mostrar-se mais forte do que na verdade é.
[Alexandre] Exatamente.
Ou seja, até nesta situação, existe parece que quase que uma conotação de que tudo o que é feminino é mau.
[Sofia] É mau.
[Alexandre] Por estas questões que estamos aqui a falar e isto vir da infância,
quando nós temos estas referências enquanto crianças,
é isto que nós vamos criar na nossa cabeça para o futuro,
porque é com base nisto que nós, enquanto crianças,
também imaginamos, fazemos as nossas brincadeiras.
Muitas crianças gostam de brincar a replicar aquilo que vêem no seu dia-a-dia,
em filmes, em televisões, do que é que viram no dia na escola.
E é com base nisto tudo que nós também, enquanto adultos,
absorvemos estes conteúdos e os reproduzimos para as pessoas à nossa volta.
Isto acaba por ser uma cadeia em que este preconceito se vai perpetuando.
E é precisamente por isto, sim,
deixem as crianças em paz!
Sim, deixem as crianças serem crianças!
Parem, dizem, de as enxovalhar com preconceito!
Deixem as crianças brincar como elas querem.
Deixem as crianças vestir-se como elas querem.
Desde que isso não ponha em causa a sua segurança.
[Sofia] Claro.
E deixem as crianças perceberem que existe, efetivamente, diversidade no mundo e que têm que aprender a respeitar também os colegas, independentemente da sua expressão de género, independentemente de como forem.
[Alexandre] E reforçar aquilo com que começámos o episódio, que é
as crianças não nascem a discriminar nem a odiar.
E o maior exemplo que eu tenho disto é
eu na minha escola primária, lá está, apesar de haver cenas dalgumas discriminações e tudo isso,
houve uma série de coisas quando eu mudei de escola para outra cidade, quando fui p’pro quinto ano,
que nessa nova escola comecei a ser, lá está, discriminado por uma série de coisas
que não aconteciam na minha outra escola.
O que significa que havia preconceitos diferentes nestes dois ambientes.
[Sofia] Exatamente. Tem a ver com o ambiente.
[Alexandre] Tem a ver com o ambiente, tem a ver com a forma como essas crianças cresceram.
[Sofia] E eu queria voltar aqui ao exemplo que tu pegaste das pessoas dizerem muito
“Ai agora há personagens LGBT em todo o lado”.
Primeiro, isto não é verdade.
As personagens LGBT continuam a estar em muito menor número do que os restantes.
E segundo, não há mal nenhum em existirem personagens LGBT
e não há mal nenhum nas crianças perceberem que existem pessoas LGBT.
Até porque nós não sabemos quais destas crianças vão se descobrir LGBT no futuro
e não é por nós taparmos estas realidades que não vão descobrir, se o forem.
E é muito mau quando nós ensinamos uma criança,
como eu fui, como o Alexandre foi, como outras crianças da nossa comunidade,
a ouvirem dos pais em casa.
E eu falo muito nos pais, porque acho que os pais são o primeiro porto seguro da criança.
[Alexandre] São o alicerce…
[Sofia] Pais, mães…
Os pais não sabem como é que a criança é realmente
e fazem comentários homofóbicos, comentários transfóbicos,
que se a criança se identificar com aquilo, vai perceber que os pais não gostam dela,
ou vai assumir que os pais não gostam dela.
E às vezes nem sequer é isso. Às vezes as pessoas até estão a dizer as coisas da boca pra fora [=por dizer],
porque é isso que está vigente, mas que se soubessem…
[Alexandre] Às vezes nem se apercebem…
[Sofia] Lá está.
[Alexandre] É aquilo que sempre ouviram.
[Sofia] Mas que se soubessem que o filho ou a filha também era Lésbica, Gay, Trans, o que for, se calhar não o diriam, mas estão a dizer porque não sabem.
[Alexandre] Tem muito a ver com as expectativas.
As crianças ainda não nasceram e já há expectativas,
como dizia a Carlota no nosso sexto episódio,
já há expectativas sobre o que é que a criança vai ser, o que é que vai usar,
com quem é que vai casar, o que é que vai estudar.
Temos que nos largar destas expectativas.
As crianças não são um pedaço de plasticina que pode ser aqui moldado,
à vontade daquilo que os pais e os adultos querem
e também não servem para cumprir os sonhos que os seus pais não conseguiram cumprir.
[Sofia] Exatamente.
[Alexandre] Cada criança é um ser.
[Sofia] E cada pessoa é válida, independentemente da orientação sexual que tenha,
independentemente da identidade de género que tenha.
E isso vem de criança.
Mesmo que não nos apercebamos na altura e só nos apercebamos mais tarde,
não é uma coisa que acontece só em determinado momento da nossa vida.
Portanto, nós vamos crescer, não é? Nós nascemos, crescemos, a ouvir isto e a ouvir isto em casa,
e isto deixa sequelas.
[Alexandre] Em todo o lado…
[Sofia] Em casa e em todo o lado,
mas quando tu tens um bom ambiente familiar, tu consegues defender-te do resto.
[Alexandre] Sim, sim, sim.
Ou tens mais facilidade em lidar com o resto.
[Sofia] Exatamente.
[Alexandre] E para além disso, repara, nós passámos a vida inteira, sistematicamente,
a levar todos os dias com heterossexualidade em todo o lado.
[Sofia] Lá está.
[Alexandre] Porque era isso que era exaltado e não é por isso… E continuam a existir [pessoas LGBT].
Aliás, se fosse por aí, há países em que é proibido qualquer demonstração em qualquer lado
de tudo o que não seja heterossexual.
[Sofia] E continuam a existir.
[Alexandre] E, no entanto, nesses países, continuam a existir pessoas Trans, pessoas Gays,
Bissexuais, Lésbicas e de outras identidades dentro da comunidade.
Uma criança por ver um homem e uma mulher a beijarem-se não é por isso que vai ser hétero.
Da mesma forma que não é por ver dois homens a beijarem-se que vai ser Gay ou Bissexual.
[Sofia] Exatamente.
E a família tem um papel tão importante no nosso bem-estar, na nossa segurança.
E, no fundo, aquilo que nós estamos a dizer é que a família deve ser esse porto seguro,
deve ser um ambiente seguro.
E deve haver essa liberdade para estarmos com a nossa família,
para termos relações boas com a nossa família,
que, infelizmente, muitas pessoas LGBT não têm.
[Alexandre] E isso afeta a sua vida.
[Sofia] Claro.
[Alexandre] Porque muitas delas gostariam de ter esse porto seguro, essa família,
porque todos nós precisamos de família.
Quando falam “Ai, a comunidade LGBT é contra a família”.
Não, ninguém é contra a família. Muito pelo contrário.
[Sofia] De todo.
[Alexandre] E a família vive-se de amor.
E, às vezes, nós acabamos por encontrar família até em pessoas que não são da nossa família.
[Sofia] Exato.
[Alexandre] E é por isso que é tão importante.
E aquilo que nós vemos na televisão, o conteúdo que nós consumimos, deve espelhar aquilo que é a realidade.
[Sofia] Lá está, para não nos sentirmos tão sozinhos.
[Alexandre] Claro. Se se fizessem filmes em que não aparecessem,
por exemplo, como já se fez no passado,
em que não havia praticamente pessoas negras nos filmes,
ou quando havia…
[Sofia] Eram o alvos de chacota.
[Alexandre] Eram o alvos de chacota.
Isso não representava a realidade,
porque existem pessoas negras no mundo.
[Sofia] Na questão da família,
porque é que bati tanto nesta tecla dos pais e das mães em casa
terem cuidado com a forma como falam à frente dos filhos?
Porque, lá está,
às vezes os pais até amam os filhos e as filhas
e querem tudo de bom para eles, mas não se apercebem do mal que lhes estão a fazer.
E é importante falar destas coisas para se aperceberem.
[Alexandre] E desconstruirmos os nossos próprios preconceitos.
[Sofia] E existem, por exemplo, associações para pais e mães de pessoas LGBT…
[Sofia e Alexandre] Como a AMPLOS.
[Sofia] Que lançou um livro que se chama
“Dar e Receber Amor em Todas as Suas Formas”,
que é um guia para…
[Alexandre] Para pais de crianças e jovens LGBTQIA+,
portanto da AMPLOS
em parceria com a jornalista Sara Dias Oliveira.
[Sofia] Exatamente.
E, mais uma vez, na apresentação desse livro,
tivemos mais uma ação de um grupo de extremistas
a querer impedi-la.
A querer invadir esse espaço para propagar ódio.
[Alexandre] E nós estávamos presentes nesse lançamento que ocorreu, portanto, numa livraria
junto ao Marquês de Pombal, em Lisboa.
E temos perspectivas diferentes no sentido em que tu estavas dentro da livraria,
porque chegaste primeiro do que eu. Estavas lá dentro, assististe a todo o lançamento.
E eu estava cá fora.
E assisti aos protestos de pessoas da comunidade que lá estavam
a tentar impedir que as pessoas desses grupos de extrema-direita
entrassem na livraria.
E a atuação das forças policiais nessa situação.
Acabámos por ter visões muito diferentes, não é?
Tu comentavas comigo precisamente a questão das câmaras e dos jornalistas.
[Sofia] Lá está. A certa altura as câmaras, creio que foram todas lá para fora.
Portanto, eu nem sei se houve alguma câmara depois a filmar o evento.
Isto era um evento que se queria divulgar,
porque era uma conversa importante para termos.
Não sei sequer se conseguiram filmar,
porque eu acho que as câmaras acabaram por ir todas lá fora e depois já não conseguiam entrar.
[Alexandre] É isso que eu não sei. Quando cheguei, espantou-me isso.
Era a quantidade de câmaras que estavam cá fora
e a cobrir, essencialmente, a certa altura estão a dar tempo de antena…
[Sofia] Tão a dar placo…
[Alexandre] …às pessoas de extrema-direita.
[Sofia] É importante filmar comportamentos e invasões também para podermos denunciar com provas.
[Alexandre] Claro.
[Sofia] Mas é importante que a maior parte do palco que se dê
seja, efetivamente, às pessoas que estavam a tentar falar de algo importante naquele dia e naquele evento.
[Alexandre] Sim.
[Sofia] Que acabaram por ter essa voz apagada.
[Alexandre] Portanto, haver este foco dos mídias no sentido daquilo que lhes rende audiências.
[Sofia] E, mais uma vez, entramos aqui na discussão que mostrar violência é ok.
Mostrar, por exemplo, um beijo entre dois homens já não é.
E as pessoas chocam-se mais com um beijo entre dois homens
do que com a violência que é praticada sobre esses dois homens,
ou sobre essas duas mulheres, ou sobre essas duas pessoas por serem LGBT.
E, mesmo antes da apresentação, acho que até podemos recuar um bocadinho atrás porque é
quando tu vês que na internet há grupos a ameaçaram aparecerem,
as pessoas ficam com medo.
E ficam com medo sequer de ir à apresentação.
[Alexandre] Sim.
[Sofia] Eu estava com medo.
Fui na mesma, porque achei importante.
[Alexandre] Eu, quando fui para lá a caminho, eu tinha antes passado, se não me engano, acho que tinha passado no centro LGBT,
e várias pessoas me disseram “ah, vai com cuidado”.
Quando eu me aproximei lá, eu vi que estavam a acontecer coisas.
Cheguei a estar, tipo, só a 100 metros a ver de longe.
[Sofia] As pessoas estavam com medo, mas mobilizaram-se.
Para que as pessoas não consigam, efetivamente, o seu objectivo que é calar a comunidade.
As pessoas mobilizaram-se
e foram à apresentação e lá dentro estava cheio.
Eu não tinha visão para quem estava a falar, só ouvia.
E demorou muito tempo a começar e demorou muito tempo a conseguir-se ouvir,
porque estava muito barulho lá fora.
Portanto, nós, ao início, até estávamos bastante preocupades lá dentro,
porque não sabíamos o que é que estava a acontecer lá fora.
[Alexandre] Sim, porque quando eu cheguei e depois comecei-te a mandar mensagens,
a explicar o que é que se estava a passar lá fora e a mandar-te fotografias,
aí é que depois eu sinto que, se calhar, lá dentro, algumas pessoas ficaram um bocado, se calhar, mais calmas,
quando a malta estava cá fora, conseguiu começar a comunicar com o que estava lá dentro.
[Sofia] Porque, de início, só se ouviam os gritos
das pessoas que lá foram, a falar mal e a falar com violência.
E estávamos a tentar perceber se estavam só a gritar
ou se estavam, tipo, a magoar alguém, fisicamente, porque era um medo que se tinha.
[Alexandre] Sim, porque estes grupos são conhecidos pela sua violência.
Estão repletos de pessoas que já foram condenadas por vários tipos de violência.
[Sofia] E já existiram notícias de ataques a eventos mais pequenos e em meios mais pequenos,
em que houve pessoas que foram, efetivamente, agredidas.
Ali não sei o que é que viste lá fora, se houve pessoas agredidas, se não houve pessoas agredidas.
[Alexandre] Daquilo que eu me recordo, houve, sim, muitas situações de tensões.
Houve agressões verbais. Físicas, as que eu me recordo…
[Sofia] Também estava lá a polícia, não é?
[Alexandre] Sim, agressões físicas que eu me recordo
foi da polícia contra pessoas da comunidade, já mais no final, portanto em que…
[Sofia] Mas isso eu também já estava a ver…
[Alexandre] Quando nos estávamos a dispersar,
w que é um moço que vai com um megafone e que vai um polícia, tipo, para lhe bater.
[Sofia] Sim, eu vi isso e também vi um polícia:
a rapariga já se estava a ir embora e ele puxou-lhe pela mochila, também, para agredir.
Mas eu estava a perguntar durante…
[Alexandre] Não me recordo.
[Sofia] Aqui eu não sei se…
[Alexandre] Porque imagina, quando eu cheguei, já a polícia estava a fazer um cordão à volta das pessoas do grupo de…
Portanto, eles inicialmente estavam, portanto, as pessoas…
Tinhas o prédio, a porta, não é?
E tinhas pessoas da comunidade a fazerem, tipo assim, meio que um semicírculo.
[Sofia] A fazerem um cordão para não entrarem.
[Alexandre] Exato, tinhas essas pessoas a fazer o semicírculo, tinhas a polícia a fazer uma linha de contenção
e depois as pessoas de extrema-direita a seguir à polícia.
E depois o que foi acontecendo é que, à medida que foram chegando outras pessoas, começaram-se a meter também deste lado
e a polícia…
Chegaram mais polícias e fizeram um círculo completo à volta das pessoas de extrema direita.
[Sofia] Portanto, a polícia…
[Alexandre] Tinhas a polícia a “proteger” era as pessoas de extrema-direita.
A proteger entre aspas, porque eles não estavam a ser agredidos por ninguém.
[Sofia] Portanto, temos pessoas lá dentro a tentar assistir a uma apresentação de um livro que demorou a começar
por causa do barulho lá fora.
Barulho causado por um grupo de pessoas extremistas que vinha para perturbar e para impedir que aquela apresentação decorresse.
As pessoas da comunidade mobilizaram-se para impedir essa entrada.
Depois a polícia veio para proteger essas pessoas [de extrema-direita],
em vez de dizer para se irem embora,
porque não podiam estar ali a perturbar.
Ficaram lá a proteger essas pessoas.
Lá dentro, a certa altura, alguém diz “não, vamos fazer a apresentação!
Não vamos deixar que isto impeça a apresentação”.
E a apresentação foi feita.
Eu, como estava mais atrás, tive alguma dificuldade em ouvir, mas ia ouvindo as palmas cada vez que alguma intervenção mexia com as pessoas.
As pessoas aplaudiam, as pessoas comentavam, as pessoas falavam.
Depois, quando acabou a apresentação, ainda estive a dar uma voltinha pela livraria e encontrei, por acaso, a edição portuguesa de um livro infantil LGBT
que eu tinha lido online e que gostava muito.
Fiquei muito contente por estar ali.
Comprei o livro.
Estava a tentar perceber quando é que era seguro sair lá para fora ou não.
[Alexandre] Sim, sim.
[Sofia] Quando as pessoas começaram a dizer “ok, já podem sair”, fomos saindo.
Ainda estavam lá pessoas desse tal grupo,
ainda a serem protegidas pela polícia.
[Alexandre] Sim. Sim, porque pouco antes de tu saíres, o que aconteceu foi que,
houve a altura em que a polícia estava a circundar o grupo de extrema-direita,
depois o que aconteceu foi, a polícia fez carga sobre pessoas da comunidade que estavam junto à porta
para os tirar da frente da porta para desimpedir a entrada.
E a seguir, os do grupo de extrema-direita achavam que iam
poder entrar no evento,
mas aí a polícia impediu-os de entrar também.
[Sofia] Ok, menos mal.
[Alexandre] E, portanto, a polícia fez um cordão em semicírculo a circundar a entrada
e depois tinhas o grupo de extrema-direita e eles assim à volta.
E depois tinhas o resto das pessoas da comunidade assim distribuídas assim à volta
desse círculo de polícia e do círculo da entrada.
Que eu depois, para entrar, que eu queria entrar e vi que já tinham saído algumas pessoas, entretanto, com livros.
E, portanto, foi todo ali um momento de tensão que se gerou
porque também havia pessoas que queriam entrar, pessoas da comunidade,
e estava ali a ver tensões com a polícia.
E acho que…
independentemente do que é que seja, acho que é preciso perceber
quem é que ali estava a ser agredido e oprimido,
que certamente não eram as pessoas de extrema-direita,
que vieram ali para causar distúrbio
num evento que estava a acontecer num espaço privado,
que, sim, está aberto ao público,
mas eu não posso simplesmente entrar num sítio público
e impedir as pessoas que lá estão dentro de fazerem…
[Sofia] Lá está, isto é uma coisa que a maior parte das pessoas percebe,
embora dê jeito a não perceber às vezes
que é: eu não posso ir para algum sítio
e começar lá aos berros a querer que aquelas pessoas
não façam,
não vivam a sua vida em liberdade.
[Alexandre] Sim.
[Sofia] Ninguém que tenha o mínimo de noção
anda por aí a tentar impedir as pessoas de viverem a sua vida.
Ou seja, ’tou aqui na minha vida, sei lá, ’tou numa esplanada
e chega alguém para me agredir.
Isto não se pode fazer.
Ou chega alguém para me insultar.
Isto não se pode fazer!
[Alexandre] Sim.
[Sofia] Qualquer pessoa com dois dedos testa percebe que isto não se pode fazer.
[Alexandre] Exato.
[Sofia] Mas depois vêm
“ah, mas liberdade de expressão”.
A liberdade de expressão não serve para as pessoas insultarem outras.
A liberdade de expressão serve, precisamente,
para se poderem apresentar livros sem este tipo de ataques.
[Alexandre] E mais do que isso, todas as liberdades têm consequências.
Porque eu posso chegar ali à rua
e usar da minha liberdade de expressão para insultar alguém?
Posso.
[Sofia] A pessoa pode fazer queixa de ti.
[Alexandre] Eu posso.
[Sofia] Sim.
Mas a pessoa a seguir pode fazer queixa de mim
ou usar os meios legais ao seu dispor,
para ser ressarcida daquela situação.
[Sofia] Poder podes no sentido de que não é fisicamente impossível fazeres,
mas eu acho que não podes. [riso]
[Alexandre] Sim, sim, sim, não.
Exato.
Porque depois aqui entra o bom senso, não é?
[Sofia] Exato.
[Alexandre] Não é que é tipo, ok…
[Sofia] É a minha liberdade termina quando começa a liberdade da outra pessoa.
[Alexandre] Exatamente.
Ou seja, a liberdade de expressão, na teoria não é, permite-nos fazer qualquer coisa,
mas se eu puder fazer tudo e mais alguma coisa que me apetece,
tu não vais poder fazer também…
Não vais poder ser livre.
[Sofia] Exatamente.
[Alexandre] Porque se eu vou poder fazer o que eu quero, sem qualquer limite
e sem olhar às tuas liberdades,
para eu poder fazer isso tudo, vou poder impedir-te de falar, vou…
E é isto que às vezes eu sinto que estas pessoas não entendem,
que é isto que tu disseste:
a minha liberdade termina onde começa a do outro.
[Alexandre] E aqui…
Eu sinto que se formos resumir aquilo que se passa,
é: um grupo extremista a dizer
“calem-se porque eu tenho o direito de falar”.
[Alexandre] Sim, sim, sim.
[Sofia] E aqui o falar é insultar,
porque nem sequer vão para ali dizer nada.
Vão insultar as pessoas, vão atacar as pessoas
e isto não pode ser permitido.
[Alexandre] Sim, e depois eu ouvi comentários,
eu estive lá perto, portanto de chegar ao ponto de estar,
estar atrás dum carro e ‘tarem dois gajos desse grupo
do outro lado do carro,
e eu ‘tar a ouvir, tipo…
Era mesmo assim que ele ‘tava a falar:
“Ai não, eu não vejo problema nenhum em serem Gays,
mas deixem a criança escolher”.
Ora bem, em primeiro lugar,
orientação sexual não se escolhe.
Mas mesmo que se escolhesse,
como é que eu posso escolher alguma coisa sem saber as opções?
[Sofia] Por acaso, acho que não é uma coisa que aconteça muito
porque é mesmo…
A maior parte dos comentários é mesmo
não se falem, deixem as crianças,
não podem escolher nada porque não há escolhas,
porque têm que ser hétero e ponto.
Mas nesse caso, deixem as crianças escolherem.
Mas as pessoas quando lhes perguntam
“ai os namoradinhos”, “ai as namoradinhas”,
estão a deixar as crianças escolherem?
Primeiro nem é nada para escolherem, como já disseste.
[Alexandre] Nós nem escolhemos quem amamos.
[Sofia] Lá está!
[Alexandre] Nós escolhemos com quem nos queremos relacionar.
[Sofia] Lá está!
[Alexandre] Eu posso amar uma pessoa e dizer
não me quero relacionar com esta pessoa,
por qualquer razão que seja.
[Sofia] Lá está.
E então onde é que está aqui a imposição?
Porque é precisamente…
[Alexandre] Quem é que está a querer impor o quê?
[Sofia] Exatamente.
É precisamente por estas pessoas
quererem impor uma heterossexualidade a toda a comunidade,
que fazem este tipo de ataques.
[Alexandre] Imagina, uma criança que também que esteja a ver
este tipo de comportamento,
vai de certa forma achar que a violência é normal,
que é normal haver violência sobre grupos marginalizados.
E, para crianças que sejam da comunidade,
este foco nesta violência
vai deixá-los obviamente com medo desta violência,
com medo de se explorarem, de se questionarem.
[Sofia] Exatamente.
[Alexandre] Estas iniciativas como este livro da AMPLOS,
que serve para ajudar pais e mães a desconstruírem,
independentemente ou não, de terem filhos LGBT
é uma coisa que permite ajudar…
[Sofia] Lá está, porque quem diz filhos, diz sobrinhos,
ou diz simplesmente o vizinho,
ou diz simplesmente qualquer pessoa.
Temos que respeitar todas as pessoas!
[Alexandre] Sim, ou mesmo famílias que queiram ter filhos
e que se queiram preparar precisamente,
desconstruir os seus preconceitos. É importante,
porque isso vai funcionar como uma espécie de
“vacina” que vai proteger essas crianças.
[Sofia] Exatamente.
[Alexandre] Porque vai deixá-las serem elas próprias
e vai também criar as bases,
lá está no seio da família,
que é onde estão as nossas bases,
as nossas fundações enquanto pessoas,
para estarmos mais protegidos,
porque uma criança que cresceu num ambiente familiar bom
e em que cresceu a aprender a lidar com a diferença
e com este tipo de situações
vai ser menos afetada…
[Sofia] Lá está, não vai internalizar aquilo que ouve lá fora.
[Alexandre] Tanto como se calhar nós internalizamos.
[Sofia] Exatamente.
[Alexandre] E por isso é que quando eu hoje vejo pessoas,
por exemplo, 10 anos mais novas do que eu,
homens Bissexuais a viverem a sua Bissexualidade,
ainda antes sequer de serem adultos,
eu fico tipo: uau!
Fico mesmo bué “quem me dera”, percebes?
[Sofia] Exato.
[Alexandre] Quando hoje vejo e descubro
“olha, este ator ou atriz que eu gostava bué,
ou que sempre gostei, ou que foi bué conhecido,
ih, também é Bissexual, uau!”.
[Sofia] A importância da representação.
[Alexandre] E fico bué contente e penso assim:
“pá, em criança isto teria sido importante”.
E isto não tem a ver com, lá está,
como disseste no episódio passado aqui com o Diego,
isto não tem a ver com quem é que nós levamos p’ra a cama,
ou com quem é que nós somos,
ou o que é que nós temos entre as pernas.
[Sofia] Tem a ver com a nossa segurança.
[Alexandre] Exato.
[Sofia] E liberdade.
[Alexandre] E se eu vejo pessoas como eu,
a serem bem retratadas à minha volta
e se sei que elas existem,
isso vai me fazer sentir bem comigo próprio.
Porque senão eu vou cair naquela espiral de achar que
eu é que estou errado.
Porque se eu não vejo mais ninguém como eu,
então é porque eu estou errado.
[Sofia] Exatamente. E eu acho que se as pessoas pensarem bem,
vão identificar situações em que
também se identificam com isto, fora da comunidade LGBT,…
[Alexandre] Sim, porque isto é transversal a qualquer pessoa
e a qualquer comunidade racializada.
[Sofia] …sobre outros assuntos, mas podem encontrar esta empatia.
E enfim é…
Custa muito perceber que
é tão difícil para alguém ter empatia,
por exemplo, uma pessoa LGBT,
e acham muito chocante
dois homens a beijar e etc,
mas depois se vê violência já está tudo bem,
ninguém diz.
Se for preciso a criança também estar a ver aquele filme,
que tem armas, que tem não sei quê,
mas está tudo bem.
Depois já há um beijo…
[Sofia] As pessoas acham sempre que isto é muito complicado
e as crianças, não é.
[Sofia] Não é…
[Alexandre] Eu posso dar aqui um exemplo.
Eu tenho um afilhado.
O meu afilhado tem um irmão.
Quando eu fui, portanto, visitá-los,
na altura com o meu primeiro namorado,
fomos tomar um café.
Portanto, estava eu, estavam eles, estavam os pais.
E entretanto, houve ali uma situação em que
o meu namorado foi à casa de banho,
um dos pais foi com o meu afilhado à casa de banho
e alguém foi ao carro buscar qualquer coisa.
E fiquei eu com o irmão mais velho do meu afilhado na mesa e
estávamos a conversar sobre qualquer coisa.
No meio da conversa, eu tive que me referir ao meu namorado.
Tive que me referir a ele no contexto da conversa
e então referi-me a ele como o meu namorado.
E ele olhou para mim e disse:
“Namorado! É lá!”.
Para contexto, ele tinha 8 anos.
Ficou, tipo, com um sorriso bué radiante.
E depois estávamos a falar e eu disse
“Sim, ele é o meu namorado”.
E ele, tipo, a reação dele foi olhar para mim,
bué sorridente e dizer
“Isso quer dizer…” – e depois a referir-se ao meu afilhado –
“Isso quer dizer que ele tem dois padrinhos!”.
[Sofia dá uma risada]
[Alexandre] Super contente.
E então depois, quando veio o meu afilhado,
ele vira-se para ele, tipo:
“Tu não estás a perceber! Não estás a perceber!
O Alexandre e ele são namorados!
Tipo, tu tens dois padrinhos!”.
E o meu afilhado olhou, tipo, sorriu
e disse qualquer coisa no sentido que ele já tinha percebido isso. [risos]
E ele é dois anos mais novo que o irmão. [risos]
E ele é dois anos mais novo que o irmão. [risos]
E para eles aquilo foi, tipo, completamente normal.
Não houve, tipo, questões, não houve confusões, não houve nada.
E se houvesse questões, seria por curiosidade.
[Sofia] Sim, e as questões respondem-se.
Agora, quando as questões já têm insinuações de que é algo mau,
e se for uma criança dizer isso, é porque ouviu de algum adulto.
[Alexandre] E aqui, como podemos ver, a única preocupação do meu afilhado e do irmão
foi, tipo “oh meu Deus, o meu afilhado agora tem dois padrinhos”,
“Oh meu Deus, que coisa tão fixe, mais ninguém tem dois padrinhos”.
[Sofia dá risadas]
[Alexandre] Não estavam preocupados com absolutamente nada.
[Sofia] As crianças são usadas como desculpas para justificarem preconceitos,
porque não há nada de mau.
A comunidade LGBT não está a fazer mal às crianças.
E quem fizer mal às crianças, independentemente da orientação sexual,
é porque está a fazer mal, não é por ser desta orientação sexual ou daquela.
[Alexandre] Exatamente!
[Sofia] E tem que ser devidamente punida por isso!
[Alexandre] Sim, quem maltrata crianças, quem abusa crianças,
quem agride crianças, deve ser severamente punido por isso,
independentemente de qual seja a sua orientação sexual,
a sua cor, o seu género, o que quer que seja.
E essa pessoa está a abusar ou a agredir uma criança, está a fazê-lo por ser uma má pessoa.
A sua sexualidade, a sua cor, a sua… qualquer outra característica que não seja o seu caráter,
não tem qualquer influência naquela situação.
[Sofia] Exatamente.
E faz-me imensa confusão, por exemplo,
se virmos uma família, um casal heterossexual ou um casal presumivelmente heterossexual,
que maltrata a criança.
Por exemplo, a criança ‘tava a fazer birra e levou uma palmada.
As pessoas não se metem.
[Alexandre] Sim.
[Sofia] Mas, se está ali uma família,
e é uma família LGBT, é uma família… as chamada as famílias arco-íris,
é um casal do mesmo sexo com aquelas crianças.
Há pessoas que se vêem na legitimidade de intervir ali.
[Alexandre concorda]
[Sofia] Estes grupos extremistas, de quem nós estivemos a falar, já fizeram publicações na internet
a dizer “se eu vir alguma criança naquela marcha do Orgulho, vou ter que intervir”.
Isto é grave, isto é muito preocupante!
Primeiro, aquelas crianças estão com a sua família.
Segundo, ninguém está a tratar mal aquelas crianças por estarem com a sua família
a festejar a liberdade e a festejar o Orgulho.
[Alexandre] Exatamente.
[Sofia] E eu não percebo como é que…
[Alexandre] E chegar lá e tirar uma criança é rapto,
que é uma forma de agressão e de abuso, já agora!
[Sofia] Lá está.
[Alexandre] E punível.
[Sofia] E eu não percebo como é que uma situação em que uma família feliz,
que não trata mal as suas crianças, é atacada desta forma
e se for preciso outra situação em que a criança está a mal ser tratada:
“ah não, não, nos vamos meter”.
[Alexandre] E às vezes nem é com uma palmada.
Às vezes até agressões mais fortes a uma criança…
[Sofia] Pá, mas eu quero acreditar que se houver agressões mais fortes as pessoas metem-se.
[Alexandre] Ah não, não. Acredita que há pessoas que acham que é normal bater numa criança,
porque ela estava a ter um comportamento…
Por exemplo, um rapaz estava a ter um comportamento feminino.
[Sofia] Ah, sim. Por aí, sim.
[Alexandre] É na luta contra estes preconceitos que surge o Orgulho.
O Orgulho de podermos ser quem somos.
O Orgulho de nos libertarmos destas caixas e destas amarras
em que nos tentam sistematicamente prender.
[Sofia] É uma resposta, no fundo.
[Alexandre] É uma resposta e é, lá está…
É um misto de celebração das nossas vidas.
[Sofia] E luta.
[Alexandre] Há pessoas, que já uma vez vi este questionamento, que é
“ah, mas Orgulho de ser isto, Orgulho de ser aquilo”.
Não é Orgulho de ser isto ou de ser aquilo.
Não é “ah, eu estou orgulhoso por ser Bissexual”.
Não! É: eu estou orgulhoso de poder ser quem sou.
[Sofia] Eu estou orgulhose de finalmente já me ter aceite.
[Alexandre] Exato.
Porque há pessoas que dizem que se calhar:
“ah, um Orgulho por uma coisa que não se escolhe
parece uma cena irrelevante”.
Mas aqui não tem a ver com o Orgulho de eu ser
A ou B ou isto ou aquilo.
É o Orgulho de eu poder ser quem sou.
[Sofia] Eu tenho Orgulho de não me estar a esconder.
[Alexandre] Exatamente.
[Sofia] E atenção:
é importante ressalvar que não é por uma pessoa
estar no armário ou não se sentir segura,
para se mostrar como é, que está mal.
[Alexandre] Exato!
[Sofia] Essa pessoa é válida também.
[Alexandre] Exatamente.
Até porque, como já falámos, às vezes
por questões de nos protegermos, há pessoas que
não podem ou não conseguem, para a sua própria segurança,
estar fora do armário.
[Sofia] Lá está.
[Alexandre] E está tudo bem.
Cada pessoa tem o seu tempo.
[Sofia] E quando nós falamos em luta, é precisamente esta luta
para que todas as pessoas se sintam confortáveis
para não se prenderem dentro de armários.
[Alexandre] Exato.
Porque esta luta e este Orgulho é precisamente
por isso que estavas a dizer,
para que todas as pessoas, independentemente
do seu género, da sua orientação sexual,
da sua origem, do que quer que seja,
possam ser elas próprias.
Já dizia Marsha P. Johnson,
“No pride for some of us, without liberation
for all of us”.
Portanto, não pode haver Orgulho só para alguns de nós
sem haver libertação para todos nós.
[Sofia] Exatamente.
[Alexandre] E é isto.
Para que não continuem a existir pessoas e crianças
que tenham que passar por aquilo que nós passamos.
[Sofia] Precisamente.
Por isso é que é tão importante haver representação
na mídia, em todo o lado.
[Alexandre] Falar-se sobre estes assuntos.
[Sofia] Exatamente.
[Alexandre] Adequado, obviamente, às idades.
[Sofia] Exatamente.
Mesmo em programas para crianças,
mas como tu dizes, adequado, obviamente, às idades.
Falaste na Marsha P. Johnson,
traz-nos também ao evento
que faz com que junho seja o mês do Orgulho
e que faz com que o dia 28 de junho
seja o dia do Orgulho,
que foi o dia da revolta de Stonewall.
[Alexandre] Exato.
[Sofia] Para quem não sabe, Stonewall era um bar em Nova Iorque,
o Stonewall Inn,
e era um bar bastante frequentado
de pessoas da comunidade,
que tinha muitas visitas policiais.
Portanto, muitos ataques da própria polícia.
E neste dia, as pessoas insurgiram-se
contra os ataques da polícia.
E mostraram o seu Orgulho e mostraram a sua luta.
Obviamente que há muito, muito mais a dizer
sobre Stonewall e…
[Alexandre] Dá um episódio inteiro.
[Sofia] Dava um episódio inteiro.
E uma das figuras que mais se falam neste âmbito
é a Marsha P. Johnson, a Sylvia Rivera.
Estamos a falar aqui, estes dois nomes,
estamos a falar aqui de mulheres Trans
e que sempre estiveram na linha da frente
de muitas lutas LGBT.
E que atualmente estão a ser atacadas.
E mais do que nunca é muito importante
unirmo-nos contra o preconceito.
E estes ataques policiais não estão muito longe
da atualidade mesmo em Portugal.
E é como nós estávamos a falar naquela apresentação.
Durante estes acontecimentos
tínhamos pessoas LGBT a bater palmas
ou também a gritar
quando ouviam gritos de insultos
por parte deste grupo extremista.
E uma dessas pessoas tinha um megafone,
como o Alexandre já referiu.
Quando acabou o evento
e eu estava a ver os polícias a apertarem as mãos
aos homens deste grupo, a conversarem e tudo mais,
a protegerem-nos.
Quando acabou o evento e eles foram-se embora
e foram-se embora pacificamente,
ninguém lhes fez nada, ninguém os agrediu, nada.
Foram-se embora para a sua vida.
A polícia decidiu virar-se contra os manifestantes LGBT
que lá estavam.
[Alexandre] Sim, e muitos também já estavam a dispersar e a…
[Sofia] Essa pessoa já se estava a ir embora.
[Alexandre] Sim, o moço do megafone era a mesma coisa.
Ele só estava com o megafone dentro do saco
e estava com outra pessoa a ir-se embora.
E de repente vem um policia de trás e agarra-o
e puxa-o mesmo pela roupa. O que é isto?!
[Sofia] E eu vi também a tal rapariga a ser puxada pela mochila.
E depois vi as pessoas a tentarem puxá-la.
Houve pessoas que conseguiram tirar.
Houve pessoas que ficaram depois dentro do círculo
que a polícia fez.
Nós estávamos com medo que fossem agredidas.
Sim.
E lá está.
Esta foi o tipo de agregação que a polícia teve
quando a população LGBT se queria proteger
de um grupo extremista.
[Alexandre] E numa situação pacífica,
porque ninguém estava a atacar a polícia.
[Sofia] Ninguém estava a atacar a polícia
nem esse grupo que lá foi querer invadir.
E quando a população LGBT que lá estava
se quis ir embora também, pacificamente,
para as suas casas, foi atacada pela polícia.
E foi pedida a identidade a um dos polícias, várias vezes…
[Alexandre] Que se recusou a dar a sua identificação.
[Sofia] E recusou-se a dar a sua identificação, o que é ilegal.
Portanto, é importante que a polícia,
que supostamente o seu papel é proteger a população,
tenha outro tipo de atuações, que não a que tinham no Stonewall Inn,
que não a que tiveram nesta manifestação.
Porque o trabalho que têm é efetivamente proteger,
que é algo que não está a acontecer.
E para terminar aqui…
Por isso é que as pessoas vão logo aos livros
e vão logo à educação.
Porque sabem que é através da educação
que também se combate a desinformação.
[Alexandre] E a discriminação.
[Sofia] E a discriminação.
[Alexandre] Aliás, há uma frase que é de um escritor alemão,
Heinrich Heine, que é precisamente
“onde se queimam livros,
eventualmente vão-se também queimar pessoas”.
[Sofia] Exatamente.
E os livros LGBT têm sido queimados ao longo da história,
muita coisa que se apagou,
muita visibilidade.
Mas hoje, e dentro deste Dia da Criança
e deste Mês do Orgulho,
e dizendo finalmente o título do livro que eu estava a falar,
que encontrei lá dentro e fiquei contente.
O livro chamava-se “Um Coração, dois Caminhos”.
Assim, se calhar, mais para pré-adolescentes.
De uma rapariga que está a descobrir que gosta de meninas.
E tem… O pai neste livro,
é um bom exemplo do apoio que se deve dar às nossas crianças.
E eu gostei muito.
E estes livros acabam por curar também
um bocadinho a nossa criança interior.
A autora chama-se Nora Dåsnes,
portanto, é uma autora norueguesa.
E lá está, eu não fazia ideia de que existia
uma versão portuguesa deste livro e
fiquei muito contente por encontrá-la e tive que comprar logo.
[Alexandre] Temos outros exemplos.
O “Primeiro que Cresci no Coração”, de Filipe de Bruxelas.
Temos “Teodorico e as Mães Cegonhas”, da Ana Zanatti.
E temos também, de livros mais recentes,
temos também, por exemplo,
“O Pedro Gosta do Afonso”, de Mariana Jones.
[Sofia] Que também foi alvo de perseguições na Feira do Livro.
[Alexandre] Sim.
Tal como este livro de Ana Rita Almeida: “Mamã, Quero Ser um menino!”.
Temos também o “No Meu Bairro”, de Lúcia Vicente,
também esta escritora e este livro alvo de perseguições
por este tipo de grupos de extrema direita.
Temos também, da coleção “Raparigas Rebeldes”,
o livro “Celebrar o Orgulho”,
em que precisamente fala de várias personalidades LGBT.
Temos também o
“Vamos Falar Sobre Aquilo”,
Que é um livro de Educação Sexual para jovens
em estilo banda desenhada.
Portanto, para precisamente ser mais apelativo para os jovens.
Temos também Heartstopper.
Não podia deixar de falar de Heartstopper.
[Sofia] Com certeza! [risada]
[Alexandre] Que acarinha muito a minha criança interior,
porque era um tipo de livro que se calhar eu teria gostado de ler em miúdo.
E pronto, temos para os pais o da AMPLOS:
“Dar e Receber Amor em Todas as Suas Formas”,
da AMPLOS com Sara Dias Oliveira.
Que, mesmo para quem não é pai,
tem-me dado muito gosto ler o livro,
porque me fez mesmo tocar-me com muitas das histórias
que são aqui faladas de outras pessoas LGBT
e sinto que também me ajudou a pensar muito sobre
se algum dia, eu gostaria de ser pai,
como também abordar estes assuntos.
[Sofia] Exatamente.
Por acaso ’tou-me a lembrar agora de um dos comentários
que eu vi numa das sessões do Clube de Leitura LGBTI+ das Bibliotecas [de Lisboa],
de uma senhora heterossexual, ela disse,
que tinha ido ali para saber o que era aquilo.
E que agradeceu muito a exposição que ouviu
e a partilha que ouviu, e que
ia ver como é que poderia, com as suas crianças,
ensiná-las a tratarem bem as outras pessoas,
neste caso as pessoas LGBT.
Portanto, lá está, são mesmo livros para toda a gente.
[Alexandre] Com isto terminamos o nosso episódio.
[Sofia] Deixem mais sugestões de livros nos comentários.
[Alexandre] Sejam ou não para crianças, porque é importante também termos livros para nós adultos.
[Sofia] O próximo episódio sai no dia 11 de Julho.
[Todes] Venham Bialogar connosco.
