Neste episódio falamos sobre mulheres Lésbicas e Bissexuais, a propósito do Dia da Visibilidade Lésbica, representação nos media, personagens, preconceitos, “burry your gays”, pessoas LGBT+ emigrantes e imigrantes, alguns termos e AbriLés.
A Bialogar connosco neste episódio, temos como convidada a jornalista Daniela, a quem agradecemos muito a participação. 💜
Venham Bialogar connosco! 💗💜💙
Publicação: 11/04/2025 | Duração: 59min 58s | Produção: 18h | Legendas: no YouTube
Avisos: Contém menções de bifobia, homofobia (nomeadamente lesbofobia), transfobia, preconceitos e “bury your gays“.
Pessoa(s) Convidada(s)
A convidada deste episódio foi a Daniela Costa (ela/dela), jornalista Lésbica luso-canadense.
🔍 Descobre mais sobre a Daniela em:
Referências
Personalidades
- Daniela Costa: Jornalista Lésbica Luso-canadense.
- Susan Sarandon: Atriz e ativista Estadunidense
- Alice Oseman: Escritora e ilustradora Assexual e Arromântica Inglesa.
Personagens
- Waverly Earp: Mulher Pansexual da série “Wynonna Earp”
- Nicole Haught: Mulher Lésbica da série “Wynonna Earp”
- Clarke Griffin: Mulher Bissexual da série “The 100”
- Clarke Griffin: Mulher Lésbica da série “The 100”
- Tina Porter-Kennard: Mulher assumida como Lésbica (por motivos políticos) da série “The L Word”
- Willow: Mulher Lésbica da série “Buffy the Vampire Slayer”
- Isaac: Rapaz Assexual e Arromântico da série “Heartstopper”
- Tori: Rapariga Assexual da série “Heartstopper” e dos Livros de “Heartstopper”, de Alice Oseman
- Florence: Raparia Assexual da série “Sex Education”
Livros
- “Heartstopper”, de Alice Oseman
- “Tonight We Rule The World”, de Zack Smedley (livro conta a história duma personagem Bissexual com Autismo)
- “Guia para Lésbicas num Colégio Católico”, de Sonora Reyes
Filmes e Séries
- “Carmilla”
- “Queer as Folk” (PT-PT: “Diferentes Como Nós” | PT-BR: “Os Assumidos”)
- “Orphan Black”
- “Degrassi”
- “The Hunger” [PT: “Fome de Viver”]
- “Wynonna Earp”
- “Bomb Girls”
- “The Lesbian Series
- “Carol”
- “Buffy the Vampire Slayer”
- “Xena”
- “South of Nowhere”
- “All My Children”
- “Bulletproof: A Lesbian’s Guide to Surviving the Plot”
- “The L Word”
- “Heartstopper”
- “Sex Education”
Eventos e Datas
- Dia Mundial da Consciencialização do Autismo: 2 de abril
- Dia da Visibilidade Assexual: 6 de abril
- Dia da Liberdade: 25 de abril
- Dia da Visibilidade Lésbica: 26 de abril
- AbriLés (2025)
- Toronto International Film Festival (Festival Internacional de Cinema de Toronto)
- Inside Out Film Festival (festival de cinema Queer de Toronto)
- English Evenings
- ClexaCon
- Porto Femme – International Film Festival (Festival Internacional de Cinema)
Associações, Coletivos e Grupos de Apoio
- Vila Gay de Toronto [Toronto Gay Village] – https://www.destinationtoronto.com/neighbourhoods/city-centre/church-wellesley-village/
- Clube Safo: Organização de defesa dos direitos de Lésbicas* – https://clubesafo.pt/
- Centro LGBTI+ de Lisboa – https://www.ilga-portugal.pt/centro-lgbti/info-util/
- Arquivo Sáfico – https://www.arquivosafico.pt/
Outras referências
- Daily Xtra: revista LGBT Canadiana
- “After Ellen” [“Depois de Ellen”]
- “After Elton” [“Depois de Elton”]
- Arco-Íris Toronto: era um grupo LGBTQ+ para a comunidade lusófona de Toronto
Termos e Expressões
(em edição)
Transcrição
[Sofia] Alô, alô! Sejam bem-vindes ao sétimo episódio do podcast Bialogar.
Eu sou a Sofia.
[Alexandre] Eu sou o Alexandre.
[Daniela] Eu sou a Daniela.
[Sofia] E a Daniela é uma jornalista Lésbica luso-canadense, que nos vem falar sobre o AbriLés e Visibilidade Lésbica, entre outros temas, e é convidada do episódio de hoje.
[Alexandre] O episódio de hoje traz-nos vários temas e interseções.
Em abril temos o Dia Mundial da Consciencialização do Autismo, dia 2 de abril.
O Dia da Visibilidade Assexual, dia 6 de abril.
O Dia da Visibilidade Lésbica, a dia 26.
Bem como, o dia 25 de abril da Liberdade,
[Daniela] Igualdade
[Sofia] e Bissexualidade.
E começamos o episódio por perguntar, à Daniela, como foi que foste parar a este mundo do jornalismo Lésbico.
[Daniela] Então, começar por dizer que eu nasci e fui criada em Toronto, no Canadá,
e então fiz toda a minha escola lá.
Os meus pais são imigrantes, do norte de Portugal.
Então fiz mesmo, fui para a universidade, estudei jornalismo…
E chegou uma altura que era para estagiar
e eu escolhi,
E foi aceite, numa revista LGBT, que ainda existe hoje, no Canadá,
que na altura chamava-se Xtra, hoje é o Daily Xtra.
Então o meu percurso começa aí.
Isso foi mais na base de reportagens comunitárias
e mais no contexto canadiano.
Mais tarde comecei a entrar também no mundo do entretenimento,
mas com foco também em questões LGBT.
E… Que na altura falava-se muito dum
web series [= série da internet] que era “Carmilla”.
[risos]
[Sofia] Adoro.
[Daniela] Adoro, né?
Que tem tudo a ver com vampiros
e, que sabemos que há uma longa história dessas personagens
e na média, principalmente Lésbica.
E a partir dessa história, também cheguei às atenções do “After Ellen” [“Depois de Ellen”],
que na altura é super bem conhecida e falava-se muito bem
da “After Ellen”, que para ter um contexto, o nome do “After Ellen” veio depois do Coming Out de Ellen DeGeneres.
[Sofia] Sim, eu seguia bastante.
É o “After Ellen”,
também havia o “After Elton” [“Depois de Elton”], que era…
[Daniela] Exatamente.
E daí realmente aquilo abriu muitas portas.
E também tive a sorte e facilidade de viver em Toronto,
onde se filma muitas séries, filmes,
onde há o Toronto International Film Festival [Festival Internacional de Cinema de Toronto].
E consegui fazer muitos trabalhos,
a partir daí.
E depois em 2018, mesmo nos inícios, é quando vim para Portugal, Lisboa.
E continuo a trabalhar como jornalista,
focada na área de entretenimento,
não tanto em temas propriamente só temas LGBT,
mas claro que sempre que posso [risadas].
E acho que ainda estou bastante ligada ao mundo [LGBT],
Com certeza.
[Alexandre] Daniela, falaste-nos que nasceste e cresceste
no Canadá.
Quais é que são para ti as diferenças, que tu encontras, entre a comunidade LGBT em Toronto, no Canadá, versus aqui em Lisboa, em Portugal?
[Daniela] Logo da partida, em Toronto, temos uma Vila Gay.
Temos mesmo uma…
[Sofia] Quem me dera. [risadas]
[Daniela] Quem me dera. [risadas]
Quando as pessoas perguntam:
“O que é que sentes saudades?”,
eu digo:
“Olha, gostava de ter uma vila Gay.”.
Que é… Que até tem um nome um bocadinho engraçado,
que é o “Church and Wellesley Village”, [risadas]
mas sim, que não é só discotecas Gays, há café, lojas, há um bocadinho de tudo, e também um centro comunitário,
Em que…; gigante e que acontece lá muita coisa.
Então acaba por ser tudo proporcionado de uma forma maior.
Também a população é maior,
mas sim, mais na base de…
Chegas lá, sais na saída do metro
e já estás ali na Vila Gay,
e há arco-íris por todos os cantos.
[Alexandre] Sentes que há um maior, tipo, senso de comunidade?
[Daniela] Não, não diria que fosse maior senso de comunidade, né?
Porque, é assim, as pessoas também vão lá,
sim, para as discotecas,
sim, para tomar um café,
mas não diria que em termos de haver mais ligação,
por isso, não dizia.
Até falo, aqui como as coisas são de uma forma mais micro,
sinto que há mais ligação
e que as pessoas têm que fazer mesmo por.
[Alexandre murmura em concordância]
[Sofia] Lá está, acaba por haver um maior sentido de comunidade,
quando há mais necessidade de construir estes espaços,
[Alexandre] Sim.
[Sofia] que lá já estão construídos.
[Alexandre] Sim, e lá se calhar acaba por não ser tanto o senso de comunidade,
mas se calhar um senso de se sentirem bem
num espaço muito grande e com tanta diversidade,
[Daniela] Sim!
[Alexandre] não só de pessoas, como de espaços que podem usufruir.
[Daniela] Sim, é aquele contexto de “safe space” [= espaço seguro].
[Alexandre e Sofia concordam]
[Daniela] Eu sinto que posso estar de mãos dadas e até beijos…
[Alexandre] Podes ser tu.
[Daniela] Podes ser tu, né?!
Mas mesmo assim, dentro da Vila Gay, que é bastante grande, há um comprotamento
e, ali, tudo bem.
Não é dizer que no resto da cidade que não se pode.
Toronto é uma cidade progressiva.
[Alexandre] Mas ali é mais seguro.
[Sofia e Daniela] Mais seguro.
[Daniela] É mais seguro e há o contexto de ser também de famílias de imigrantes,
que uma coisa é eu ser, ou na altura, ser eu na Baixa de Toronto,
(que também é onde eu fui para a escola, a universidade,
onde também a vila Gay não fica longe)
e como é que eu me enquadrava na Comunidade Portuguesa
ou nos sítios em que sabia que podia ver uma tia,
[Alexandre concorda]
[Daniela] ou uma mãe de alguma amiga.
O comportamento já é diferente,
é o que digo, aquele code-switching [= alternância de comportamentos] que acontece.
[Alexandre concorda]
[Daniela] Mas sim, e também temos o Inside Out,
que é o festival de cinema Queer lá, que também é maior
e acaba por dar nas salas de cinema,
onde também passa o Toronto International Film Festival.
Em termos de cultura, também eu… sintes saudades? Sim, sinto saudades do Toronto
International Film Festival, do Fan Expo, que não é ao nível
dum ComiCon San Diego, mas não fica assim tão, tão longe.
[Alexandre concorda]
[Daniela] Há diferenças…
Ser filha de imigrantes nunca ’tá, não é uma questão que… sempre ’tá perto,
nunca fica longe.
Porque crescer com aquela coisa de, às vezes sentir-me que não era
tão canadiana como as minhas amigas,
mas também não tão portuguesa como… até como aqui.
Eu vivo um bocadinho nesses dois mundos.
Não sei o que isso quer dizer ou não.
Mas há…
Há aqueles mundos que, por mais que se separem,
tipo, não há como.
Mas é diferente.
Mas diria mesmo, em termos daquela sensação de comunidade,
de “ter que fazer por”, aqui que sente-se mais.
Que cá é quase tudo a base do voluntariado,
lá não é dizer que não há, mas há também…
[Sofia] Mais fundos.
[Daniela] Há mais fundos, há mais dinheiro.
O Pride lá é mesmo uma festa.
É uma festa, mas com tipo
empresas de cerveja a peticionar tudo, né…
Concertos com alguns dos nomes mais conhecidos, né…
É diferente.
É tudo em ponto maior.
E é divertido.
E não é dizer que não se encontra comunidade,
encontra-se, mas tens de fazer por.
E ainda por mais, para ser uma coisa que vai para além das discotecas, né.
[Alexandre concorda]
[Daniela] Para além de só o divertimento…
[Alexandre] Sim, outros negócios.
Se calhar, por exemplo, ’tou-me a lembrar também doutras cidades, que conheço, que têm Pride Villages, que têm também restaurantes, hotéis, Inns [= pousadas], cinemas, bibliotecas, cenas de artesanato.
[Sofia] Sim.
[Alexandre] Lá está pessoas que conjugam o seu negócio ou a sua profissão com a sua identidade, e trazem também um benefício para a comunidade [LGBT] e para as outras pessoas.
[Daniela] Sim, mas como também existe negociantes que não são propriamente da comunidade [LGBT],
que podem estar na Vila Gay,
não quer dizer que pertencem ao mundo LGBT,
mas também estão ali.
Agora se fazem ou não pela comunidade [LGBT],
isso é outra questão [risadas], mas estão ali.
[Sofia] Mas, de certa forma, permitem que a comunidade tenha esses espaços,
que aqui existem em menor número.
E é quando existem.
O que é que nós temos em Portugal?
Há poucas coisas.
Em Lisboa, se calhar é dos sítios em que haverá mais.
Temos o centro LGBT, mas é muito pequenino em comparação com o Toronto, suponho.
[Daniela] Sim…
[Alexandre] E é o único centro comunitário especificamente LGBT que eu conheço.
[Sofia] Exatamente.
Temos outros que são aliados, mas que não são exclusivamente LGBT+.
[Sofia] Sim. E chega essa questão de procurarem espaços, que não sejam apenas espaços noturnos,
em que as pessoas possam se sentir seguras
e que é um espaço LGBT, que não há assim tantos.
E o facto de teres dito também “rainbows everywhere” [= arco-íris por todos os lados],
eu estou-me a lembrar que em Portugal,
quando se tentou fazer passadeiras arco-íris em Lisboa, em Campolide, por exemplo,
em que na altura o Presidente da Junta “andou” a pintar as passadeiras arco-íris,
e eu estava a morar em Campolide (na altura, que foi onde fiz faculdade)
e via mesma passadeira da minha janela.
Fiquei super contente, espetacular. Depois o que é que aconteceu?…
Disseram que não [se] podia.
Inventaram desculpas com as regras do trânsito,
que as passadeiras tinham que ser mesmo em preto e branco.
Removeram tudo.
A passadeira da faculdade está…
ficou meio vermelha e branca.
Nem sequer ficou preto e branco, porque não conseguiram…
Não voltaram a pintar de preto,
removeram, ficou vermelha e branca.
Vermelha e branca pode,
já não há aquela desculpa do que tem que ser preto e branco.
Vermelha e branco pode,
arco-íris não pode.
Foi essa a mensagem que transmitiram.
E pronto, em Portugal é assim que nós estamos,
em comparação, por exemplo, às Pride Villages de Toronto,
que aqui não existem e seria muito difícil de existirem,
sem este tipo de críticas como houve, por exemplo, a essas passadeiras.
[Daniela] Mas acrescentar que, realmente eu falei nas discotecas,
mas acho que muitas vezes, quando eu falo isso, as pessoas ficam surpreendidas
que mesmo em Toronto, hoje em dia, nós não temos uma discoteca Lésbica, né…
Não temos uma discoteca para as mulheres.
Isso continua, mesmo numa cidade como Toronto, a ser um problema.
E hoje em dia, muitas poucas cidades espelhadas pelo mundo,
grandes cidades, mas muitas poucas com discotecas
destinadas só a mulheres Queer.
[Sofia] Sim, a maior parte destes
espaços noturnos são espaços LGBT,
em que as pessoas que levam são maioritariamente homens
e há muitos poucos espaços só para mulheres
e em Portugal, assim, um espaço…
Não conheço nenhum. Conheço eventos.
[Daniela, murmurando] Exatamente.
[Sofia] Mas um espaço também não conheço.
[Alexandre] Sim.
[Sofia] Se alguém conhecer, por favor, deixe nos comentários.
[Alexandre] Deixe-nos que é para partilharmos, exatamente.
Não só em Lisboa, como no resto do país.
[Sofia] Exatamente.
E por falar na necessidade da comunidade de criar estes espaços
ou eventos de visibilidade e representação,
surgiu também, no ano passado, o AbriLés,
em que várias organizações se juntaram
para criarem uma programação de eventos
para mulheres Lésbicas e Sáficas,
da qual tanto eu, como a Daniela, fazem parte da organização.
Portanto, pergunto-te a ti, Daniela,
como é que foste parar aqui ao AbriLés?
[Daniela] Pois. [risadas]
Sim, uma coisa interessante, de
‘tar em Portugal e não ‘tar tão ligada
ao mundo jornalístico focado em termos de LGBT,
é que também deu-me uma liberdade
para entrar no mundo do ativismo,
do voluntariado.
Porque, estando em Toronto [risadas],
o facto de eu fazer entrevistas,
as pessoas que estavam à frente
de muitos destas organizações
logo implicava que eu não podia fazer voluntariado.
E então era mesmo… Eram dois mundos distintos,
era eu ‘tava ali como jornalista,
claro, divertia-me na vila Gay,
mas não fazia propriamente voluntariado,
porque, simplesmente,
não podia, se depois ia fazer entrevistas
a estas mesmas pessoas.
[Sofia] Sim, é um conflito de interesses.
[Daniela] É… Aqui, como o meu foco mudou, já pude.
Também demorou, porque eu estou aqui desde 2018
e só agora, nos últimos tempos,
talvez no último ano
e agora, nos últimos meses, com mais força,
é que envolvi-me mais.
Também por começar a desenvolver amizades,
principalmente com mulheres já envolvidas
no mundo do ativismo,
que até surgiu mais neste último ano, do que
na primeira edição do AbriLés.
No AbriLés do ano passado,
também envolvi-me, mas mais como participante,
mas também comecei a falar com pessoas
que, em alguns casos, conheci-as em 2018
e elas continuaram no mundo do ativismo
e eu nem por isso.
Mas foi o bom ponto de partida.
Daí também desenvolveram algumas amizades
e, claro, uma coisa puxa a outra.
Quando também tens amigas super envolvidas
e comecem a puxar
por ti: “olha, será que não gostavas?”,
“Será que”…
[Sofia, fazendo uma piada interna] “Não gostavas de fazer umas English Evenings?”
[Daniela] Pois, que surgiu o English Evenings [Evento LGBT para pessoas estrangeiras],
porque…
E eu também já há uns anos que vim a falar isto,
mas não vale a pena só falar.
O mundo dos…
Podemos chamá-los estrangeiros, expats [=expatriados], imigrantes,
o rótulo que quisermos,
e eu também me enquadro nisso,
que a comunidade estrangeira LGBT
em Lisboa e arredores, Portugal…
E que há ali um…
Havia, e continua a haver,
um sentimento que,
por exemplo, que o centro LGBTI+,
ou a ILGA,
que é para os portugueses,
não até precisamente por alguém da ILGA
ter dito alguma coisa assim,
mas este sentimento que “ah não, ali fala-se português,
talvez não fôssemos bem-vindos”.
[Alexandre] Como se fosse um obstáculo
à integração dessas pessoas na comunidade LGBT portuguesa.
[Daniela] Sim, sim.
[Sofia] Exatamente.
[Sofia] Isto às vezes é uma coisa difícil de gerir,
porque surgem sentimentos, lá está,
das pessoas estrangeiras que
“aquele evento não é para nós porque é em português”,
mas depois forem os eventos todos em inglês,
começam a surgir sentimentos da comunidade portuguesa
a dizer “aqueles eventos não são para nós,
são em inglês”, e eu acho que nós temos que incluir tudo,
temos que ter eventos para todas as pessoas.
[Alexandre] Sim…
[Sofia] E tentamos fazer isso também.
E independentemente do idioma
do evento em si, todas as pessoas são bem-vindas
e há sempre alguém que tenta traduzir,
mas foi para haver um
evento específico que surgiu o teu evento,
não é? E fala-nos mais um bocadinho.
[Daniela] Sim, exatamente. Então o English Evenings
acontece uma vez por mês no centro LGBTI+,
em Lisboa. É durante a semana,
normalmente tem sido as quartas-feiras,
e acho que vamos mais ou menos tentar
manter isso. O English Evenings
surgiu, não só pela
minha cabecinha, mas
realmente é uma questão que eu
já andava há mais
de um ano a fazer-me [risadas]
comichão na cabeça,
a pensar “realmente tem
que haver alguma coisa no
centro LGBTI mais a comunidade
estrangeira”.
É como eu digo, os rótulos às vezes é um bocadinho…
Faz-me confusão, né, se é
expats [= expatriados], digital nomads [= nómadas digitais],
o que seja. E ‘pa eles saberem que há programação
e que mesmo a dita
programação em português, que muitas vezes
até podem aceder, porque há
sempre voluntariados que
sabem falar inglês. O primeiro evento
até foi isso, foi um PowerPoint
em que introduzia muitos aspetos da
programação do centro LGBTI,
da ILGA, e a dizer “olha, podes
aceder, porque este por acaso tem
voluntariados que falam inglês”.
Mais na base de “olha, isto existe,
existe aqui também para ti,
e também se quiseres fazer voluntariado.”.
Que eu acho que o que acontece,
aconteceu comigo, quando vens para um
país novo e uma cidade nova, há aquela
coisa de “ok, agora quero experimentar
isto e quero fazer aquilo, e
vou às discotecas e vou para o bairro alto”
e isso faz parte e
é excitante, mas depois
também chega uma altura em que “ok, agora
quero mais”, tipo, quero passar do superficial
para fazer parte de uma comunidade,
para sentir que posso ser útil.
[Alexandre] Encontrares o teu espaço
na comunidade?
[Daniela] Sim, sim!
Encontrar o espaço e sentir
que, pelo menos na minha parte, coisas que
eu fazia lá em
Toronto, p’la…
no meio da comunidade e
no fundo até o jornalismo (que também era
para a comunidade, eu sabia perfeitamente
quem estava a ler os meus artigos),
sentir que queria fazer algo.
E imagino que não sou só eu, né?
Que há muitas pessoas
aqui LGBT, que
certamente nas cidades,
donde vinham, que também faziam
pela comunidade e penso
aqui “ok, onde é que me enquadro?
Como é que eu posso ajudar?”. Ou mesmo só pelo
facto de quererem comunidade, de querem
alguma coisa que seja para além
dos bares, para além das discotecas.
[Sofia] Conhecerem pessoas com as que
se identificam.
[Daniela] Exatamente.
[Alexandre] E terem um lugar de
pertença, também.
[Daniela] Sim, sim. Então
é isso… E ainda é uma coisa recente,
mas o feedback [retorno] tem sido até
bastante positivo e
caras novas em cada sessão.
E claro que também vejo
pessoas amigos e colegas de trabalho,
mas também estou a ver pessoas que
estou a conhecê-las pelas primeiras vezes e olho
“como é que chegaste aqui. Ah, viste na rede social
ou viste no site
da ILGA. Olha, excelente!”. E há
gente que, claro, há gente que repete. E fico
feliz por ver que,
então, se voltarem é porque gostaram, né?
Mas que também está
a ser divulgado ao ponto
que também em cada evento
vimos mais pessoas e
temos tido uma boa média de
participantes, exatamente.
[Sofia] É a importância
da visibilidade, da divulgação, exatamente.
[Alexandre] Exato! E, certamente, vai continuar
a crescer e, quem sabe, ainda vamos construir
uma Pride Village em Lisboa. [risadas]
[Sofia] Isso é que era.
[Daniela] Exatamente.
[Alexandre] Sabemos que existe
essa necessidade, até certo ponto,
mas como falávamos há uns minutos atrás, é difícil,
porque há sempre alguns entraves que são colocados
e nós vemos, em comparação com outras
cidades onde eu já estive, até em países
em que eu não sinto que se calhar seja tão
aberto a comunidade
em geral às questões LGBT.
Em Portugal, eu quando vejo
uma bandeira arco-íris fico “tipo, olha! Uma bandeira arco-íris”, tipo
como se fosse uma coisa que eu nunca vi, em Portugal.
E obviamente, não quer dizer que não
haja, há. Mas nós, por exemplo,
basta vermos, também, cada notícia que sai
sobre qualquer coisa da comunidade [LGBT] e vermos
a catrefada de comentários de
ódio, desinformação e tudo isso.
[Sofia] Principalmente no momento atual.
[Alexandre] Exato! Na situação atual em que o mundo parece
estar a ficar a um lugar cada vez pior para toda a gente,
especialmente as pessoas mais marginalizadas.
E por isso é que é tão importante
estas iniciativas, estes eventos,
esta visibilidade. E aproveito
para te perguntar como é que é
a comunidade LGBT portuguesa no Canadá.
[Daniela] Pois. [riso nervoso]
Eu não quero dizer que não existe
uma comunidade. Existem
pessoas. Agora dizer que
vamos a eventos juntos
ou que temos grandes palestras,
não. Não posso dizer que
isso existe, mas sei que já
existiu. E como já
existiu, pode um dia
voltar a existir. Foi pena, realmente,
nos anos em que estava
muito em força, saber que
havia esta comunidade…
[Sofia] Havia associações, não?
[Daniela] Sim, só
que estas associações,
basicamente, aquilo ficou
parado quando eu comecei o liceu.
Então, liceu e universidade, naqueles anos
em que ia ser super crucial
para mim, deixaram de existir.
Ou talvez se fosse
uma coisa num meio mais fechado,
mas, por exemplo, o grupo mais
conhecido era o grupo Arco-Íris,
que, não sendo só para
pessoas portuguesas ou descendentes,
que eram também basicamente
das línguas lusófonas, nos seus
inícios, sim, com certeza
que era mais a comunidade portuguesa.
E que são histórias bastante interessantes
que eu… Teria assim tão importante
saber isso com aquelas idades,
com 14 e 15, mas vim a saber mais
tarde, que o Arco-Íris
chegou a fazer parte da parada
do dia 10 de junho,
o Dia de Portugal, né. E quando eu digo
essa parada, é uma parada que tem
a Casa do Aentejo,
a Casa de Barcelos,
o Arsenal do Minho…
‘Tavam lá tão
representados como quanto os outros.
E também fizeram parte do ACAPO,
que era um grupo desses então, esses
clubes portugueses. Então também tiveram
um voto, uma voz, que nesses
meios, que muitas vezes as pessoas apontam
e que, até a um certo nível, são um bocadinho
mais conservadores, ter ali
um grupo de representação
LGBT portuguesa,
é qualquer coisa.
Chegaram até a ter…
A fazer o Dia de Portugal
numa discoteca, um evento
numa discoteca Gay, na Vila Gay
de Toronto, que é o Woody’s,
que é bastante conhecido
por “Queer as Folk” [série, PT-PT: “Diferentes Como Nós”, PT-BR: “Os Assumidos”]
(que filmou várias cenas no Woody’s), e tiveram tipo um evento
de Dia de Portugal no Woody’s.
[Sofia] Acho que nem em Portugal celebramos tanto o Dia de Portugal, como no Canadá.
[risos]
[Daniela] Com certeza. [risada]
Com certeza. E eu…
E sim, por acaso, isso não é parte, mas
o meu coming out [= saída do armário] foi
no Dia de Portugal, então tipo, não,
não há como separar. Tipo…
Mas então, existiu,
e também já ouvi
alguns,
algumas pessoas a comentar
“ei, talvez a gente começava de novo
ou para uma geração mais nova”.
Se um dia isso vier a ser,
olha ficava super, super feliz.
Mas existe, nos arquivos LGBT
em Toronto, há n coisas
até, há bastante material.
Também consegues aceder a outros
materiais online, com uma pesquisa,
porque depois, sabendo,
começas a fazer
o puzzle e chegas ali e vês
que, afinal, havia
políticos e gente conhecida
e estes trabalhos foram feitos e havia estes eventos,
muito também voluntariado
e ativismo na altura
da crise da SIDA,
que também havia grande representação
da comunidade portuguesa
e isto são coisas que não se falava,
mas os dados estão ali,
as provas estão ali.
E também tem sido,
eu ainda não fiz um trabalho
sobre isso, mas fiz bastante pesquisa
e muitas entrevistas,
e imagino que algum
dia vou ter que fazer qualquer coisa,
porque é muito interessante,
é muito interessante mesmo.
[Sofia] E eu espero que sim, que chegues a completar esse trabalho,
porque isso era incrível
e há muito esta importância de irmos buscar a nossa história,
porque há pessoas que gostam de nos desacreditar
como se “isso é tudo modernices”,
como se as pessoas LGBT já não existissem há…
desde o início.
[Alexandre] Desde sempre…
[Sofia] Exato! E como se não tivessem
também contribuído para a sociedade.
Simplesmente foram apagadas, porque as contribuições
estão lá. E é muito importante
este tipo de trabalho, portanto espero que consigas
concluir a tua investigação
[Alexandre] Mesmo!
[Sofia] e publicá-la.
[Alexandre] Estavas-nos a falar do teu trabalho, Daniela,
e dentro dos teus artigos,
que tens escrito, que escreveste,
fala-nos algumas curiosidades, o que é que também
gostaste mais de fazer nos teus artigos.
[Daniela] Sim, isso é
difícil.
[Alexandre] São muitos.
[Daniela] São muitos, são muitos e
tocaram em vários temas, porque
é como eu dizia que, antes de entrar no mundo
de entretenimento, estava mais focada
mesmo em notícias da comunidade [LGBT],
não é que eu deixasse
de fazer isso depois, mas
o foco mudou um bocadinho, mas
então havia grandes questões
políticas que levavam-me a ir mesmo
ao Parlamento da Província de Ontário
e falar com vários políticos.
A questão também das discotecas
Lésbicas e porque
é que não temos,
ou porque é que…
E é interessante que as mesmas questões,
que já se falavam há 15 anos
atrás, continuam a ser relevantes
e as mesmas justificações
continuam a ser válidas.
Em questão de
jornalismo mais comunitário,
o que destaca
logo para mim foi um trabalho que fiz
em relação a jovens
e crianças sem abrigo,
mas a fazerem parte
da comunidade LGBT.
Claro que isso, fiquei comovida com isso
e não foi fácil chegar lá.
Tive mesmo
com conexões e que
confiassem em mim para alguém
dar um nome de outra pessoa,
de outra pessoa, porque
é uma questão sensível, e para ver
quem é que estava disposto
a aparecer lá com o seu nome.
E implica, também,
falar com políticos,
implica falar com quem está à frente
dalgumas organizações, que
às vezes faziam o seu trabalho bem,
outras vezes nem por isso.
Mas foi um daqueles trabalhos em que senti que
talvez fizesse alguma diferença, né.
[Alexandre concorda]
[Daniela] Depois,
partindo para o mundo do entretenimento,
eu no fundo digo que às vezes
sou uma professional fangirl [= mega fã]. [Risadas]
Porque sou, não posso dizer
que eu sou neutra, não sou.
Sou profissional, mas não sou neutra.
E o facto de ter vivido em Toronto,
também
fez com que pudesse ter experiências
que, talvez, em outra cidade nem por isso.
Consegui ir aos
sets de filmagem
de, imagina, “Orphan Black”,
“Degrassi”,
“Carmilla”,
outras
também web series [= séries da internet] também
que consegui.
Foi excelente, né.
Quem é que não gosta? [risadas]
[Sofia] Também quero. [risadas]
[Daniela] Entre outros.
E também entrevistas,
como também há muitas atrizes,
celebridades, músicos
a viver em Toronto,
também facilitou
alguns face-to-face [= encontros cara-a-cara]
E o Toronto International Film Festival,
como as celebridades
vêm de todo o mundo
naquela altura,
lembro-me, por exemplo,
era na altura que andava
a gabar-me mais disso,
mas conhecia Susan Sarandon
mesmo tipo face-to-face [= cara-a-cara].
E então isso também foi um momento, né.
E poder falar sobre
“The Hunger” [PT: “Fome de Viver”].
Claro que momentos assim
destacam-se.
E falo a Susan Sarandon, porque é um nome conhecido.
Depois, para quem for
mais desse mundinho “fangirl”,
depois podemos falar
de pessoas de “Wynonna Earp”,
porque cheguei a…
[Sofia] Adoro!
[Daniela] Não é?
Cheguei a entrevistar
as duas personagens do Wayhaught [nome do ship de Wynonna Earp],
uma pessoalmente, outra por telefone,
Ali Liebert de “Bomb Girls”,
Charlotte Sullivan do “Rookie Blue”.
Consegui ter acesso
porque, no fundo,
o mundo da indústria de entretenimento
de Toronto e do Canadá
parece grande, mas não é.
Tens muito mais facilidade em chegar
a certas pessoas, até às vezes as próprias
celebridades, do que
se eu estivesse a viver em Los Angeles
ou Nova York.
Não há tanto gatekeeping [= impedimentos ou controlo de acesso].
Às vezes é preciso a pessoa ter coragem.
E claro que, para quem também é canadiano,
o Degrassi, crescemos com o Degrassi.
Até os americanos
conhecem o Degrassi, é super conhecido
e conseguir ir lá, não só
no set, mas
fazer entrevista
na sala de aula.
[Sofia, exclamando] Uau!
[Daniela] ‘Tar ali nas mesinhas e termos fotos
disso e…
[Sofia] Quase que foste uma personagem da série.
[Daniela, entre risadas] Pois, um pouco.
[Daniela] E essas são aquelas conquistas que…
Eu sei que ’tou-me a esquecer de
imagino que umas quantas experiências,
mas sim,
são momentos que nunca me esqueço,
que para mim foram conquistas.
Agora olho para trás, com bastante orgulho
e às vezes eu vejo que eu vou
surpreendendo algumas das minhas amigas
e dos meus amigos e eles…
“Ah é?” e eu digo “pois, eu tive outra vida sabes”.
[risos]
[Alexandre] E por falar em orgulho, da visibilidade Lésbica,
que artigos é que destacas?
[Daniela] Os artigos foram vários.
Agora sim, pensando…
Destacar um artigo que eu fiz, que até
fez parte de uma série que ganhou
um prémio,
a série em si chamava-se mesmo
“The Lesbian Series” e foi para o Slate.
E o meu artigo teve mais a ver
com o festival,
os festivais de cinema LGBT
e, tipo,
como é que
as mulheres Lésbicas,
Lésbicas e Queers, como é que se enquadram
também nestes cinemas,
como quem diz “mas elas vão
ver os filmes?” e…
E se sim, porque sim?
Ou quais os filmes? E se não, porque não?
[Alexandre] O que é que as cativa, no fundo?
[Daniela] Sim, sim! E o que é que mais podemos fazer?
Também, o que se falava era que, imagina,
alguns desses filmes,
que eram mesmo para o público
feminino, o público Queer,
que às vezes, tipo, nem 70%
cheio
ficava a sala.
E tipo: ok, porquê?
Porque é que ‘tamos a ver que parece que os homens Gays
e os homens Bis estão a assistir mais
a alguns destes filmes, né?…
[Alexandre] Onde é que estão as mulheres Lésbicas
e Queers?
[Daniela] Sim, sim. Tipo,
elas querem ver os filmes ou não?
Ou só querem ver, imagina,
o “Carol”, né?
Só vão ver aqueles filmes ou vão ver os filmes independentes,
não é? Ou vão ver aqueles filmes que foram mesmo
feitos para elas, no fundo.
E aqueles que até têm sucesso,
porquê? Tipo, qual é a diferença?
O que é que eles fazem de diferente para ter?
Então isso foi interessante,
né. E já, quando
escrevi esse artigo, também já tinha
bastante conhecimento.
No fundo, foi tipo, também um produto
de várias
entrevistas e várias pesquisas
e experiências que eu fui tendo ao longo
dos anos até chegar a esse.
Também,
de notar que também participei na
primeira edição do
ClexaCon, que na altura falava-se muito,
hoje em dia talvez nem tanto,
mas o ClexaCon, que vem
do nome Clexa [= nome do ship de The 100],
Clarke e Lexa da série
“The 100”,
que já existia
“Bury Your Gays” [= morte forçada de personagens LGBT+],
mas quando a Lexa
do “The 100”,
“when they buried that Gay” [= quando ela “foi” morta], aquilo foi,
aquilo mexeu muito com as pessoas,
houve petições, houve…
Aquilo foi sério. E…
[Sofia] Eu lembro-me de ver na internet.
[Daniela] Ya, aquilo foi… E aquele ano
de, basicamente,
porque depois não foi só,
não foi só a Lexa.
Foram buscar coisas atrás,
o “Buffy the Vampire Slayer”
já veio antes,
podemos discutir se, tipo, na “Xena” também,
ou não [risadas].
E depois, naquele ano,
é que depois foi mais um
em cima do outro, outro caso, outro caso,
demais, mesmo!
E quantos artigos também não se escreveu
naquela altura sobre isso.
E neste contexto, vem o ClexaCon,
que foi em Las Vegas,
e, tipo,
coisa dos sonhos duma fangirl, [risadas]
com certeza. Quem esteve lá,
quem falou, quem fez parte
do Femslash… Aquilo foi…
Porque imagina,
para muitas pessoas pode-me dizer nada,
mas quem teve a sua adolescência,
principalmente, com séries como
“South of Nowhere”,
[Sofia] E… Ao tempo…
[Daniela] Ya… Pois é. E elas ‘tavam lá.
Ou tipo,
as personagens Lésbicas,
of like [= como em] “All My Children”…
[Sofia] Uma delas era bi.
[Daniela] Sim, exatamente, exatamente, uma delas é Bi.
Que, sim, que a gente pega muito, realmente,
nas personagens, os casais.
No fundo, que é sempre aquele rótulo
Casais Lésbicos, Lesbian Couples,
que quase, sempre se fomos a ver, metade,
pelo menos metade do casal,
uma das personagens é uma mulher Bi.
E quando não são as duas.
É difícil até eu dizer quais são os casais,
assim de repente, que sobem a cabeça
e que ambas são só Lésbicas.
[Sofia] Exato, e acaba
por não ser relevante, mas ter alguma
relevância, às vezes, nisto da
visibilidade, e acho que é por isso
também que o Clube Safo usa muito
o termo “Lésbica com asterisco” [Lésbica*],
para incluir todas as mulheres Queer
quando se fala, sei lá, de filmes Lésbicos,
séries Lésbicas, etc.
[Daniela] Sim. Mas sim, então,
o ClexaCon foi uma experiência
diferente para mim. Claro que eu fui lá também como jornalista,
e até mais que isso.
Eu tinha
entrado em contacto com uma realizadora
que ‘tava a fazer um documentário
sobre Bury your Gays,
e
então também
decidimos, além desta entrevista,
também colaborar, como quem diz:
eu já ia lá, então tinha
essa facilidade de fazer
entrevistas lá e também
de ser filmada enquanto
estava lá. Então, foi
uma experiência diferente
e que também, como isso já,
aos anos que isso foi,
eu pensei “pá, este documentário
nunca mais sai”. [risadas]
Então, o documentário,
que até o nome é “Bulletproof: A Lesbian’s Guide to Surviving the Plot”,
estreou em Portugal
no dia dontem,
fazia parte do festival
Porto Femme – International Film Festival [= Festival Internacional de Cinema],
mas continuo a dizer que eu vou fazer
que este filme também chegue a Lisboa,
tamos a trabalhar nisso.
É um projeto com anos e anos, mas
já… já chegou! [risadas]
E…
[Alexandre] E que traz toda uma visibilidade.
[Daniela] Sim, e ’tá muito bem feito.
Realmente, não é por nada, não é por eu
fazer parte, ’tá muito bem feito. [risadas]
[Sofia] Temos que ver.
[Alexandre] Sim, sem dúvida.
[Sofia] Mas pegando aqui no facto de algumas destas personagens
serem Bissexuais, e também para enquadrar
com o tema do podcast,
a Clarke, por exemplo, também era Bi.
Eu nunca vi a série [“The 100”], estava na minha lista,
e toda a gente falava dessa série
na altura. Eu queria ver, mas
depois de uma delas morrer, fiquei sem vontade.
E nunca,
nunca mais vi.
Logo quando nós ouvimos estes termos como
“Bury Your Gays”, nós não estamos só a falar
de personagens Gays ou Lésbicas
a serem apagadas. É todas as personagens da comunidade
Queer, incluindo Bissexuais e outras
orientações dentro da comunidade.
E a própria palavra Lésbica, como também
já referimos, às vezes é usada como
“umbrella term” [= termo abrangente] para mulheres Queer.
No geral, aqui em Portugal,
é algo pacífico.
O próprio Clube Safo, que é a única associação
em Portugal especificamente para
Lésbicas, usa o termo
Lésbica com o asterisco [Lésbica*] para
incluir
todas as identidades
Sáficas, no fundo.
Mas para quem faz pesquisas na internet,
em busca desta visibilidade, vê que
às vezes não é tão pacífico assim.
Existe muito esta
“guerra” de que termos usar, se mulheres
Bissexuais podem usar o termo
Lésbica, se não. Se estão
incluídas, ou não, quando se fala
em filmes Lésbicos, etc.
Eu lembro-me,
por exemplo, quando eu criei
o meu blog, o nome inicial era
Arquivo Lésbico, e fazia este
jogo de palavras com “Lés-Bi-Co”,
Lésbicas, Bissexuais e companhia.
E o próprio título
do nosso episódio de hoje faz este
jogo de palavras com “Bi de Lés-bi-ca.
Portanto,
na altura, o nome era este,
Arquivo Lésbico. No Facebook,
eu inicialmente
usei Arquivo Lésbico, mas como há
muita gente que tem medo da palavra Lésbica
e não queria seguir a página
por causa disso, no Facebook,
alterei para Arquivo Sáfico, embora
inicialmente se chamasse Arquivo Lésbico.
Só que com estas “guerras”
na internet e com
estas questões, eu fiquei “ok, se calhar estou
a me apropriar de uma palavra que não devia”
e alterei o blog para Arquivo Sáfico,
também.
[Alexandre] Eu diria que essa questão
dos termos é transversal a vários
termos e identidades dentro da comunidade.
O próprio uso da palavra
Gay para se referir à comunidade LGBT+,
como um todo, é algo
que não é totalmente
aceite dentro de toda a
comunidade, porque acaba por, de certa forma,
apagar várias identidades,
seja de sexualidade,
seja de identidades de género, toda a diversidade
que existe dentro da comunidade.
Eu, por exemplo, não é um termo que eu gosto
ou que eu aprecio particularmente
seja usado como um label [= identificador] gigante
da comunidade, porque há uma série
de identidades cá dentro. Por isso,
para facilitar, Sofia, podes dizer-nos
o que significam estes vários
termos?
[Sofia] Portanto, aqui mencionei Lésbica e sáfico.
Lésbica,
por norma, refere-se a mulheres homossexuais,
mas às vezes também é utilizado
de forma mais abrangente
para mulheres queer, independentemente
da orientação sexual. Usado no plural,
porque usado no singular, uma mulher Lésbica
é uma mulher homossexual. Sáfica
é precisamente por esta necessidade
de dizer “então, mas não estão aqui
incluídas outras mulheres da
comunidade LGBT?”.
Começou-se a usar mais o Sáfica
para incluir todas as mulheres Queer, no fundo.
E depois também há outros termos, como
começou-se a usar
recentemente o acrónimo FLINTA.
Não sei se, Dani, se calhar tu consegues explicar melhor.
[Daniela] Talvez, ligeiramente,
por mais que até o termo tenha
surgido na Alemanha. Mas então, FLINTA,
o F de Frauen
é mulheres,
o L, Lésbicas,
depois [I] Intersexo, [N] pessoas Não-binárias,
[T] pessoas da comunidade Trans
e [A] também [A] as pessoas
Agéneras. E sim,
mas que também agora, hoje em dia,
usas bastante este termo
nas comunidades também
inglesas, mas que eu também
agora, cada vez mais,
no mundo LGBTI+
em Portugal, também começo
a cruzar muito com esse termo.
[Sofia] Exatamente, até para incluir
não só mulheres, mas também pessoas Não-binárias.
Quando se fala em eventos mais virados
para a comunidade Lésbica, às vezes há outras
identidades que também fazem sentido
estarem incluídas e por isso é que esse termo
surgiu.
[Daniela] Exatamente.
[Sofia] Pegando aqui,
às vezes nestas pequenas
“guerras”,
seja na internet, seja fora da internet,
que não são benéficas
para nenhuma das partes,
temos que falar também aqui neste episódio
um bocadinho sobre a Bifobia
dentro da comunidade Lésbica,
Bifobia no geral, e por vezes
em alturas em que se calhar devíamos nos unir mais,
porque são mais as coisas que
temos em comum, do que as coisas que nos
diferenciam,
isso não acontece. Então também queria
referir um bocadinho este tema.
E desde o primeiro episódio
do podcast já falei em assuntos
relacionados com isto, em situações
em que senti
alguma Bifobia por parte
de mulheres Lésbicas, certamente
que também haverão mulheres Lésbicas que possam
sentir alguma Lesbofobia por parte
também de mulheres Bissexuais e de outras
pessoas.
[Daniela] Sim, a nível
pessoal tem sido
a minha experiência que as minhas
relações e as minhas quase-relações
têm sido quase sempre com
mulheres Bis, mulheres Pans.
Que as minhas amigas também
muitas também
são, e então
tipo, da parte delas
não senti
a lesbofobia de ser…
Às vezes até sou uma das
poucas Lésbicas, ou assumidas,
em certos
meios em que me enquadro,
mas não… Talvez
o inverso, já ouvi alguma
piada ou outra, e até
não foi em Portugal, foi no Canadá
de uma
não foi bem amiga, mas dizer
“ah pois, mas tipo as mulheres Bis
e depois vão-te trair e vão-te…”
e eu só olhava para ela…
[Sofia] Exato.
[Daniela] O que é que havia de dizer, tipo…
[Alexandre] É o comentário mais comum
[Daniela e Sofia] Sim!
[Alexandre] relativamente às pessoas Bissexuais.
[Daniela] Sim…
[Alexandre] É a alegação de que vão trair mais facilmente,
como se tivesse uma coisa a ver com a outra…
[Daniela] Sim. Felizmente não ouvi isso muito
e eu acho que também… Sei que isto também passa
muito por eu ser quem sou
e que também certas pessoas não vão vir com certos comentários
à minha frente,
[Sofia] Exato…
[Daniela] porque eu vou dizer logo
“tipo, o que é que estás aí a dizer”,
mas até então foi essa coisa
de ser o inverso
e não, eu nunca
senti [lesbofobia],
mas admito que pode haver essa ideia
às vezes de que
“ei pá, hoje em dia ainda ser Lésbica?”
ou “tipo, isso é um bocadinho old school [= antiquado]”…
[Sofia] Isso é efetivamente lesbofobia…
[Alexandre] Lesbofobia!
[Daniela] Sim, mas tipo ninguém…
À minha cara nunca
ninguém veio com essa
conversa,
mas que vê-se isso online,
sim, e que certamente
tem sido isso a experiência de outras pessoas,
sim.
[Alexandre] A Sofia já nos falou também muito da experiência dela com
com Bifobia da comunidade Lésbica.
[Sofia] Sim, mas pronto, também conheci
muitas Lésbicas que não eram Bifóbicas.
Algumas amigas minhas
que namoravam com raparigas
Bissexuais,
que via-se que, às vezes, tinham algum comentário
inconscientemente Bifóbico,
e depois eu tentava também fazer essa alerta
mas facilmente também se desconstruíam
isso, que eu acho que é importante
haver este diálogo exatamente para
desconstruirmos eventuais preconceitos,
que nós próprios podemos ter.
[Alexandre] Sim.
[Sofia] E portanto, tirando as situações
que já mencionei, a maior parte das situações
também não foram assim.
[Alexandre] Também sinto porque há um preconceito
que abala muito a questão das mulheres Lésbicas,
que acaba por ser um pouco
um apagamento lésbico, que é um comentário,
que eu ouvi há um ano atrás,
de um ex-colega de trabalho,
que por acaso também foi o mesmo que disse que eu era Gay
por ‘tar a namorar com um homem,
que também me apontou que gosta muito
de mulheres Lésbicas porque pode,
agora entre aspas, “virá-las”.
Portanto também muito uma fetichização
dos relacionamentos Sáficos e das mulheres
Lésbicas e das mulheres Bissexuais,
mas também um apagamento das mulheres Lésbicas,
quase como se fosse só
uma procura de atenção, que não é a verdade. [risadas irónicas]
As Lésbicas existem
e não podem ser viradas por ninguém,
por nenhum homem aliás,
os homens nem estão na sua lista de interesses. [risadas sarcásticas]
[Sofia, em tom de risada sarcástica] E é com esse tipo de comentários
acho que nem Lésbicas, nem as mulheres Bissexuais vão querer
esse homem.
[risos]
[Daniela] Persona non grata [= pessoa indesejada].
[risos]
[Sofia] Exato…
[Alexandre] Mas sentes que existe
muito esta fetichização?
[Daniela] É assim, ninguém veio para mim
diretamente com esse tipo de comentário.
Agora, sim,
há talvez aquela ideia que
“ah, mas não, como assim
como assim tu és”, “mas sim
só gostas daquela coisa mesmo”.
É tal coisa, ainda bem
que não convívio
com gente assim, então não me tenho cruzado
com muitas experiências.
[Alexandre] Felizmente!
[Daniela] Felizmente, mas sei que existe.
Também sei, talvez pelo facto
de eu não ser tão
tradicionalmente feminina,
eu sei que…
E há documentário sobre isso,
de Femme Invisibility [= Invisibilidade de pessoas LGBT femininas]
e as pessoas que são mulheres Lésbicas,
mas que são mais Femme,
de passar mais por isso.
[Alexandre] Sim!
[Sofia] Sim, que são mais fetichizadas.
[Daniela] E as… Não é que eu
propriamente digo que seja Butch,
mas um bocadinho mais masculina,
acho que não sou abordada
de tal forma, ou pelo menos
muitas vezes, não foram muitas experiências
assim, mas sei que do outro lado
há aquela coisa “ah, mas
mas és, mas és tão feminina”,
“mas és tão isso”, “és mesmo Lésbica?”…
[Alexandre] Ou quando se ouve aquele
“ah é Lésbica, ai que desperdício”… Não é?
[Sofia] E enfim… Existem
estes conceitos
e têm de ser falados.
Na minha experiência,
já ouvi piadinhas sobre ménages [sexo com 3 pessoas],
por exemplo.
[Daniela murmura em concordância]
[Sofia] Que uma mulher Bissexual,
não é por ser Bissexual que vai querer
necessariamente ter uma ménage, até pode querer ou não,
mas isso não tem nada a ver.
[Alexandre] Sim, ou relações
Poliamorosas, ou…
[Sofia] Exatamente.
[Alexandre] Ya.
[Sofia] E não sei, às vezes também
creio que parte deste conflito
que possa existir entre mulheres
de várias organizações sexuais,
dentro da comunidade Sáfica,
tem muito a ver com isto, porque mulheres Lésbicas
às vezes não querem ser confinadas com mulheres Bissexuais,
para não terem que aturar homens.
E é um bocadinho como se estivessem a culpar
as mulheres Bissexuais por causa
dos fetiches que outras pessoas têm.
[Alexandre] Sim.
[Sofia] De que as mulheres Bissexuais também sofrem.
[Alexandre] E fetichistas que também são muito induzidos
também, se calhar, pela pornografia.
[Sofia] sim, sem dúvida. Sim, aliás…
[Alexandre] A maior parte da pornografia Lésbica
não é feita para mulheres Sáficas,
é feita para homens Heterossexuais
ou Bissexuais
[Sofia] Exatamente. Ainda mais, até há bem pouco tempo,
eu fazia muitas pesquisas
para o meu blog e, quando procurava sobre coisas Lésbicas,
as primeiras notícias que apareciam
eram as notícias pornográficas.
Acho que entretanto já tiveram mesmo
que retirar, dos motores de busca,
que esses…
que esses resultados fossem os primeiros a aparecer
e agora já não acontece tanto.
Mas eu lembro, quando fazia pesquisas,
sempre que usava, sei lá, “filmes Lésbicos”,
“séries Lésbicas”,
os primeiros vídeos que apareciam
eram pornográficos.
Isto é inadmissível, né? Enfim…
[Alexandre] Claro!
[Sofia] Não que haja alguma coisa
inerentemente errada com pornografia,
mas quando é pornografia que só existe para,
ou fetichizar a mulher,
ou tratá-la como um objeto, já é outra questão.
[Alexandre] sim.
[Daniela] Eu acho que, talvez, para algumas mulheres Lésbicas
há aquela questão
do Coming Out [= saída do armário],
como quem diz
“eu só gosto de mulheres
o meu futuro, havendo alguém
vai ser com uma mulher
eventualmente vou tar numa posição
em que tenho que fazer um coming out
e não há como fugir a isso e vai ser com uma mulher”
e essa ideia que
a parceira Bi,
ou a amiga Bi, talvez vai-se assumir,
talvez não, porque
pode ter a “sorte”, entre aspas, de conhecer
um namorado ou casar-se com um homem,
e nunca ter que fazer esse Coming Out.
Também há um nível disso, acho.
[Sofia] Sem dúvida.
[Sofia] Não falámos isso tão diretamente,
mas acho que há um bocadinho disso também,
no meio disto tudo.
[Sofia] Sem dúvida!
[Alexandre] E uma coisa, que não sei se acontece tanto
na comunidade de mulheres Sáficas,
mas que acontece
no caso dos homens,
que é haver muitos homens Gays
que primeiro se assumem como Bissexuais,
no fundo tentar apaziguar
o seu Coming Out.
[Daniela murmura em concordância]
[Alexandre] Que por um lado é vantajoso
para eles, mas
por outro lado causa também,
no fundo não é culpa dessas pessoas,
mas acaba por causar alguns dos preconceitos
que existem contra os homens Bissexuais.
Sentes que se calhar também isso acontece
na comunidade Lésbica,
mulheres que primeiro se assumem como Bissexuais
mas que são apenas Lésbicas?
[Daniela] Claro que há casos desses
e também não sei se, mais ou menos
isso já é entrar em estatísticas,
mas o oposto, né. Mulheres que
“não, eu sou Lésbica
e porque isto tem uma conotação mais política”
e não deixam
tanto espaço para a grande possibilidade
que podem ser Bis ou Pans.
E essa conversa vem mais tarde
e para algumas pessoas
levam isso a mal
“como assim assumiste como Lésbica?” e…
[Alexandre] Como se tivesse usado a comunidade Lésbica
como um ponto de apoio [num sentido de apropriação]?
[Sofia] Tou-me a lembrar agora
da Tina de “The L Word”,
[Daniela] De “The L Word”…
[Sofia] Ya,
que identificava-se como Lésbica,
até por motivos políticos,
mas que também andava com homens,
inclusive quando elas acabaram
e teve também um namorado.
Ou seja, parecia que era uma pessoa
Bissexual ou Pansexual,
mas identificava-se como Lésbica.
Quando disse mesmo que era por motivos políticos.
[Daniela] Sim, e eu acho que no início das relações
realmente, antes de começarem,
[ela] tinha relações com homens,
não sei se, agora não me lembro
se naquela altura se assumiu-se com Bi,
se era uma coisa de Bette
quando entrou…
Não, ela disse à Bette que sempre tinha andado com homens,
para explicar o ter voltado a andar,
que sempre tinha andado com homens,
mas continuava a assumir-se como Lésbica.
[Daniela] Pois… Sim…
[Sofia] E também é verdade que temos, efetivamente, mulheres que,
eu diria que quer Bissexuais, quer Lésbicas,
mulheres que não se querem assumir
e que também criam sentimentos
de lesbofobia
e de aversão a mulheres Bissexuais,
também por causa disso.
Não se querem assumir, tiveram aquela relação com uma mulher,
nunca a assumiram. Depois, entretanto,
quando têm outra relação mais heteronormativa
e mais validada, quer pela sociedade,
quer por elas próprias que ainda estão com questões
no seu Coming Out [= saída do armário],
acabam por também contribuir para estes sentimentos
e para estas divisões.
[Daniela] Essa ideia de que tem que ser
uma coisa ou outra.
Volta e meia, eu falo nisso.
E também pode ser válido,
mas eu lembro muito do “Buffy the Vampire Slayer”,
que a Willow, até se assumir como Lésbica,
teve relações com homens e, tipo,
mas de grande nível,
grande paixão,
e viveu aquilo intensamente, né?
E vem a Tara e apaixona-se
e, nada contra, mas já passa a ser, tipo,
uma personagem Lésbica.
Até falamos bastante da Willow
como uma personagem Lésbica.
E tudo bem, porque sabemos que há casos
em que as pessoas descobrem-se mais tarde
e é mesmo o rótulo que usam,
mas também, porque é que ela não podia ser Bi?
[Sofia] Isso também puxa para outra questão
que às vezes a palavra Lésbica
era efetivamente usada para dizer
que era uma mulher que gostava de mulheres
e que não era pensada esta questão da orientação sexual.
Portanto, às vezes, Lésbica
não era necessariamente sinónimo de homossexual.
[Alexandre] Sim, era um termo se calhar mais abrangente,
para qualquer mulher que fosse Sáfica, no fundo.
[Sofia] Exato.
[Daniela] Sim, mas o que vemos depois, mais tarde
é que depois já começámos
a ter personagens em que sim,
já começámos a dizer que são Bissexuais
que são Pan. Não tanto,
mas…
naquela altura
havia aquele apagamento.
[Sofia] E continua…
[Daniela] A personagem
acabava por ser
Lésbica.
[Sofia] Uma coisa que eu acho curiosa é que, às vezes, personagens que até pareciam Bis usam a palavra Lésbica, e personagens que são efetivamente Lésbicas usam a palavra Gay, para as descreverem.
[Daniela] Sim..
[Sofia] Quase como se tiverem medo de usar a palavra Lésbica se não estiver relacionada também com homens.
[Daniela] Ya… [Risadas irónicas]
[Alexandre] Sim… Por acaso tinhas falado, há bocado, na questão do aspecto físico
e que há também muito estereótipo
do aspecto físico das mulheres Lésbicas,
e precisamente eu lembro-me de ter visto
uns artigos há pouco tempo
de jogadoras de futebol feminino,
que está a ter muita visibilidade no mundo atualmente,
e precisamente onde
também, ao contrário do futebol masculino,
há muito mais mulheres
a assumir a sua
sexualidade, sejam Lésbicas
sejam Bissexuais, é mesmo uma grande quantidade.
E era artigos que, não só falavam disso,
como de várias mulheres a dizerem tipo
“não temos que ser todas masculinas”,
“não somos todas iguais”, “não somos todas Lésbicas,
só porque gostamos de desporto
ou de jogar futebol” ou o que quer que seja.
Mas há muito esse também estereótipo,
que no fundo também é um estereótipo de género,
associado às mulheres Lésbicas,
como se as mulheres Lésbicas fossem mulheres
que querem ser homens quase, que não tem nada a ver.
[Daniela] E eu também lembro-me de ver
um documentário em que
havia mulheres, e há, que sentem às vezes
uma pressão de
“ah, mas tu não és Butch, deves ser tipo,
queres ser Trans”.
E uma coisa, tipo…
Ambas podem existir, mas essa também
o Butch Erasure [= apagamento Butch].
Não, tipo, é uma mulher Lésbica
Butch [= com aparência masculina], e a identidade dela é essa.
E cada caso é um caso,
mas que também existe isto.
Ao mesmo tempo temos Femme Invisibility [= Invisibilidade de pessoas LGBT femininas]
e depois temos isso do Butch…
Será que é mesmo uma mulher Butch
ou não quer se assumir como Trans?
E a mesma pessoa, depois mais…
anos mais tarde, pode ser o percurso,
mas muitas vezes não, simplesmente é uma mulher
Butch e que isso
não deixa de ser válido!
[Alexandre] Não há uma forma certa ou errada de ser Lésbica, nem de ser Bissexual,
nem de ser Gay, nem de ser qualquer
sexualidade, nem com a identidade de género,
não há uma forma certa ou errada
de sermos quem somos.
Já que estamos a falar em mulheres
Sáficas, em mulheres Lésbicas, também era importante
referir que os próprios
movimentos Feministas,
e que nos têm ajudado a evoluir
enquanto sociedade, estão
intimamente ligados com os movimentos
Sáficos e com os movimentos Lésbicos.
Muitas integrantes e grandes mulheres Feministas
eram mulheres Sáficas ou mulheres Lésbicas.
E, falando nisso,
trazer aqui também uma conquista recente
deste mês, muito importante
para as mulheres e para outras pessoas
que menstruem, que passou
em Portugal a haver a gratuitidade
de produtos de higiene
menstrual, sejam pensos,
tampões ou copos menstruais,
que estão a ser distribuídos gratuitamente
em escolas e centros de saúde.
Por isso, se precisarem, podem recorrer
a esses produtos nestes locais.
Já está atualmente a acontecer.
E outra coisa, que eu sinto
muitas das vezes quando falo
muitas amigas minhas ficam surpreendidas,
porque acho que é algo também não foi muito divulgado,
já desde há poucos anos
que os produtos de higiene menstrual passaram a ter
IVA de 6%. Além do IVA de 6%,
eles são dedutíveis no IRS
como uma despesa de saúde.
Como é que vocês podem fazer isto?
Quando compram esses produtos, seja num supermercado
ou numa loja mais especializada (como uma
farmácia) que, regra geral, tem
o classificador económico de saúde,
têm que pedir uma fatura desses produtos
à parte. Ou seja, vão ao supermercado
comprar, sei lá, fruta,
comida e pensos higiénicos:
uma fatura para as outras compras
e, em separado, uma fatura só para os pensos higiénicos.
E essa fatura,
quando entrar no Portal das Finanças ou como vocês a colocarem
no e-Fatura, classificam-na como
despesa de saúde. Os produtos
de higiene menstrual, como sabemos, são
caríssimos e
isto é uma ajuda porque podem deduzir
produtos no vosso IRS.
Vai-vos ajudar a pagar menos IRS
ou a receber mais de volta,
e acho que é algo que ao final de um ano
pode ajudar bastante imensas pessoas,
porque são produtos que são caríssimos, mesmo.
Reforçar, pedir
fatura à parte destes produtos,
sempre que os comprarem num supermercado.
Na farmácia não há essa necessidade,
porque a farmácia é sempre uma despesa de saúde.
Também em abril, como referimos
no início deste episódio, temos o
Dia da Consciencialização do Autismo
e o Dia da Visibilidade Assexual.
Tentámos procurar aqui algumas personagens,
que se enquadrassem
nestes tópicos, nomeadamente
personagens Autistas
Bissexuais ou da comunidade LGBT
e personagens
Assexuais.
Encontrámos poucas e, por isso,
quem nos ouve,
se tiverem mais exemplos, podem-nos trazer.
Mas assim, mais facilmente, Assexuais
encontramos o Isaac e a Tori
de “Heartstopper”.
Temos também a Florence de “Sex Education”.
Já agora, a própria
escritora de Heartstopper
é uma pessoa Assexual.
A nível de
personagens Autistas,
de facto há
artigos que falam de imensos livros
e personagens
Autistas da comunidade LGBT,
mas não encontramos assim
exemplos muito específicos,
por isso se nos quiserem trazer alguns,
ou exemplos muito conhecidos,
se nos quiserem também trazer e deixar nos comentários agradecemos.
Mas encontrámos,
supostamente, um livro que é o
“Tonight We Rule The World”,
que conta a história de um jovem
Bissexual e com Autismo.
Que acho… Fiquei bastante
interessado em conhecer essa história,
[Sofia] Também.
[Alexandre] porque não conhecia.
E é importante destacarmos
estes dias e estas personagens,
para, lá está, contribuirmos
para a Visibilidade
e para mostrar que estas pessoas existem.
[Sofia] Sim e deixem mais exemplos nos comentários,
quer de personagens, quer de pessoas
ativistas Assexuais e Autistas
que conheçam.
E outra grande data deste mês,
e talvez a mais conhecida
e que nos fala de liberdade,
portanto também abarca todas as outras datas,
é o 25 de Abril.
E vai haver a marcha pela liberdade,
como há todos os anos
e vai haver um bloco Lésbico na marcha
do 25 de Abril de Lisboa
e que faz parte da programação do AbriLés,
mas antes de passarmos à programação do AbriLés,
também queria dizer
que vai haver um evento no dia 12 de Abril
no Centro LGBTI+ de Lisboa,
das 5 às 7 [horas da tarde],
em especial da Visibilidade Assexual,
que é o “Ace & Chill – Tarde de Convívio”.
Portanto quem quiser participar
nesta tarde de convívio,
também tem este evento.
E agora vou passar a palavra
à Dani, para nos dizer
quais é que são as atividades
da programação do AbriLés.
[Daniela] Então, o AbriLés já entrou em força,
por isso já houve eventos.
Mas destacando o que falta,
temos hoje no dia 11
o “King Up Your Life: documentário
Man for a Day”
mais a conversa com o Drag Kings,
que vai ser no Centro LGBTI+,
a partir das 7h30 da noite.
Depois, no dia 12,
já temos um “Workshop Drag Kings*”,
no caso a Casa do Brasil,
a partir das 2h30 da tarde.
Também no mesmo dia,
às 8h da noite
“Kings and Queers Drag Show”.
No dia seguinte, dia 13,
o “Workshop de Defesa Pessoal”, na Casa do Impacto
a partir das 15h da tarde.
Depois no dia 15,
temos o “Clube de Leitura LGBTI+
das Bibliotecas
de Lisboa”,
o livro é o “Guia para Lésbicas
num Colégio Católico” da Sonora Reyes.
Isto começa às 6h30 da tarde,
que acontece na Biblioteca dos Coruchéus.
Depois no dia 16,
não é por nada
mas vai ser o meu evento,
o nosso evento,
[Sofia] Apareçam, quem ‘tiver por Lisboa!
[Daniela] que é o “English Evening: Lés Quiz”
ou “Les Quiz”,
que também é no Centro LGBTI+,
começa às 7h30 da tarde.
Depois no dia 19,
temos a “Oficina de cartazes para a Marcha
da Liberdade”,
que também é no Centro LGBTI+,
começa às 4h da tarde.
No dia 23,
temos uma “Noite de Poesia Lésbica,
com a Karen David”…
[Sofia] Por ser também o Dia Internacional do Livro,
[Alexandre] Sim.
[Sofia] portanto também é uma data de Abril, exatamente.
[Daniela] Exatamente.
E também vai haver um Open Mic [= microfone aberto],
isto tudo no Centro LGBTI+,
a partir das 7h30 da tarde.
Logo no dia 25,
o Bloco Lésbico na Marcha 25 de Abril,
que já falaste.
No dia 26, temos “Yoga Sáfica”
no Centro LGBTI+,
a partir das 11h da manhã.
No dia 26
temos uma “Conversa sobre Visualidade Lésbica”,
a começar às 6h da tarde,
também no Centro LGBTI+.
Neste mesmo dia
também temos o “Queeraoke Lésbico”,
no Centro LGBTI
a partir das 9h da noite.
[Sofia] Esse também estou lá. [risadas]
[Daniela] Eu vou tentar estar lá… [risadas]
[Daniela] No dia 27,
em Almada,
no Parque da Paz,
já temos a “Je suis Helena”,
uma viagem de um dia a dia
uma viagem por literatura de temática Lésbica,
a partir das 2h30 da tarde.
No dia 29,
a partir das 7h30 da tarde,
temos o “Workshop Teatro Playback (Empactu)”,
que vai ter lugar na Opus Diversidades.
E, isto já fora do mês de Abril,
mas tem tudo a ver com a programação do AbriLés,
temos no dia 3 de maio,
“The King Thing: Mo & Todgers Edition!”,
no Drama Bar,
isso a partir das 8h30 da noite.
[Alexandre] Estes são os eventos de Lisboa, mas também vamos ter um evento vamos ter eventos no Porto, certo Daniela?
[Daniela] sim, sim.
Vamos ter também eventos no Porto.
No dia 26 temos o “Queer Lesbian* Tour Porto”.
Também, no dia 27, o
“The King Thing: Mo & Todgers Edition!”,
antes de vir para Lisboa,
no dia 27 vai haver no Porto,
no Bar of Soap.
E também com data para marcar,
mas o English Evenings,
o Quiz, também… [risadas]
[Alexandre] Também vai ao Porto!
[Daniela] Também vai ao Porto!
Vamos fazer um tour. [Daniela ri]
E vamos ao Porto,
também deve ser muito interessante.
[Alexandre] Esperemos que sim.
[Daniela] E também acrescentar que vai haver um evento online,
que é “Ser Lésbicas nas Ilhas”,
que isto já é no dia 22
a partir das 7h da tarde
Portugal Continental e na Madeira,
às 6h [da tarde] nos Açores.
[Sofia] Sim, esta é a programação do AbriLés.
O AbriLés, enquanto mês
da Visibilidade Lésbica,
é celebrado em Portugal
desde o ano passado,
e temos algumas atividades em vários sítios,
mas era bom
que mais sítios de Portugal
se juntassem.
Portanto, quem nos estiver a ouvir
e seja de outra localidade
e pense
“ai, também gostava que houvessem atividades
nos meus sítios”, podem
submeter atividades, por exemplo,
para a programação do próximo ano.
E era bom que chegássemos
mesmo a todo o país.
[Alexandre] Relembrando que, lá está, como falávamos
a questão dos termos,
não é exclusivo apenas para mulheres
que só gostam de mulheres,
é para qualquer pessoa
que se identifique com a cultura Sáfica,
com estas questões,
mesmo até não sendo mulher.
[Daniela] Sim, exato.
E eu também queria deixar uma nota,
que do grupo das organizadoras,
também temos muitas mulheres Bissexuais
muitas mulheres Pans
e que, para mim, era importante também deixar essa nota,
que o AbriLés é feito
também por mulheres Bissexuais,
mulheres Pans,
também, claro, mulheres Lésbicas.
[Alexandre] Lá está, para contribuirmos em comunidade
umas para as outras.
[Daniela] Isso mesmo!
[Sofia] Exatamete.
[Alexandre] E terminamos assim o episódio de hoje.
Muito obrigado Daniela
por teres aceitado o nosso convite.
[Daniela] O prazer foi meu!
[Alexandre] Obrigado.
Vamos deixar na descrição, também, o link
para o site da Daniela,
a programação do AbriLés
e também o link para o arquivo sáfico.
Deixem-nos, também, os vossos comentários
sobre os temas que falámos neste episódio
e o que acharam dele.
[Sofia] Os nossos episódios saem às segundas e 6.ª-feiras do mês,
portanto o próximo é 9 de maio.
[Todes] Venham Bialogar connosco!
