#6 – Marchas de Março

No episódio deste mês assinalamos duas datas: o 8 de março, Dia Internacional das Mulheres, e o 31 de março, Dia Internacional da Visibilidade Trans, duas lutas que se interseccionam e pelas quais marchamos em conjunto. Para Bialogar connosco sobre estes dias, temos duas convidadas: a Raquel e a Carlota.
Na 1.ª parte, o foco foi o Dia Internacional das Mulheres. Já na 2.ª parte, damos um foco na Visibilidade Trans e na importância do Dia Internacional da Visibilidade Trans.
À Raquel e à Carlota, que amavelmente aceitaram este convite, agradecemos muito a participação. 💖
Venham Bialogar connosco! 💗💜💙

Parte 1

Publicação: 14/03/2025 | Duração: 48min 16s | Produção: 11h | Legendas: no YouTube
Avisos: Contém menções de misoginia, machismo, bifobia, transfobia. Contém leves menções de racismo, violência machista, violência conjugal, questionamento identitário e processo de “sair do armário”.

Parte 2

Publicação: 22/03/2025 | Duração: 46min 12s | Produção: 11h | Legendas: no YouTube
Avisos: Contém menções de misoginia, machismo, bifobia, transfobia e discriminação. Contém leves menções de violência Transfóbica, questionamento identitário e processo de “sair do armário”.

Este episódio teve duas pessoas convidadas:

  • Raquel (ela/dela): Ativista Queer-feminista Pansexual, dinamizadora do projeto cultural Queer as fuck;
  • Carlota (ela/dela): mulher Trans, Bissexual, ativista, fotografa, co-cordenadora do GRIT – Grupo de Reflexão e Intervenção Trans.

 

🔍 Descobre mais sobre a Raquel em: https://www.instagram.com/queerasfuck…

🔍 Descobre mais sobre a Carlota em: https://www.instagram.com/carlota_gra…

Personalidades

  • Raquel: Activista Queer-feminista Pansexual, dinamizadora do projeto cultural Queer as fuck.
  • Carlota: Mulher Trans Bissexual, ativista, fotografa, co-cordenadora do GRIT – Grupo de Reflexão e Intervenção Trans.
  • Florbela Espanca: Foi uma poetisa Portuguesa, considerada uma precursora do feminismo em Portugal.
  • Fernando Pessoa: Foi um poeta Português.
  • Sophia de Mello Breyner Andresen: Foi uma escritora e poetisa Portuguesa, considerada uma figura importante da literatura feminista.
  • Imane Khelif: Lutadora de boxe profissional Argelina.
  • Hunter Schafer: Mulher Trans Bi-Pan, modelo, atriz e ativista LGBT+ Estadunidense.
  • Linn da Quebrada: Cantora, compositora, atriz e ativista social Trans e Travesti Brasileira.

 

Personagens

  • Jules: Rapariga Trans da série “Euphoria”

 

Livros

  • Guia “Direito a SER nas Escolas”, lançado pela CIG (Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género) e DGE (Direção Geral de Educação)

 

Filmes e Séries

  • “Orlando”
  • “Euphoria”

 

Eventos e Datas

  • Dia Internacional das Mulheres: 8 de Março
  • Dia Nacional e Internacional da Visibilidade Trans: 31 de Março
  • Queer as Fuck
  • Festival Feminista do Porto
  • Festival Feminista de Lisboa
  • Prémio Madalena Barbosa
  • Mês da Visibilidade Trans (Março/2025)
  • Marcha do 8 de Março
  • Marcha da Visibilidade Trans (2025)
  • Marcha da Visibilidade Trans (2024)
  • Exposição “Essência Trans” (2025)
  • Arco-Íris no Jardim
  • Arraial Lisboa Pride
  • Europride

 

Associações, Coletivos e Grupos de Apoio

(em edição)

Parte 1

[Alexandre] Alô, alô! Sejam bem-vindes a mais um episódio do podcast Bialogar.
Eu sou o Alexandre.

[Sofia]
Eu sou a Sofia.

[Carlota]
Eu sou a Carlota.

[Raquel]
Eu sou a Raquel.

[Alexandre]
É verdade. Hoje temos connosco duas convidadas:
Carlota, mulher Trans, Bissexual, ativista, fotógrafa e co-coordenadora do GRIT,
o Grupo de Reflexão e Intervenção Trans;
E a Raquel, ativista Queer-feminista, Pansexual e dinamizadora do projeto cultural “Queer as Fuck”.

[Sofia]
E o episódio de hoje tem dois temas, que são transversais,
mas vamos começar pelo tema do Dia Internacional das Mulheres, a propósito do 8 de março.
O dia 8 de março foi adotado como o Dia Internacional das Mulheres pelas Nações Unidas, em 1975,
após vários anos de lutas, com o objetivo de lembrar as conquistas sociais, políticas e económicas das mulheres.
E para falar deste tema e da importância que este dia tem para nós,
vou passar aqui a palavra à nossa convidada, Raquel.

[Raquel]
Olá.
Este dia tem várias importâncias neste momento,
mais recentemente, desde há 8 anos atrás, que tem uma importância diferente,
porque foi quando eu comecei a fazer mais coisas ligadas ao dia 8 de março.
Mas a primeira vez que tive alguma ligação direta com o ativismo feminista
foi em 2015, quando participei no Festival Feminista do Porto, em outubro.
E foi… A razão do Festival Feminista existir,
na altura, foi porque uma caravana feminista ‘tava a passar por vários sítios da Europa,
que começou no Kurdistão, em março, e acabou em Portugal, em outubro,
e passou por Porto, Coimbra e Lisboa.
E, na altura, duas amigas minhas, que têm uma banda,
quiseram fazer o primeiro show [=espetáculo] delas no Festival Feminista do Porto,
e eu fui a DJ e, basicamente, pus música entre as músicas delas,
porque elas tinham poucas músicas ainda.
E foi a primeira vez que eu soube que existia o Festival Feminista do Porto.
E, entretanto, em 2017 (no início de 2017 acho eu),
houve uma manifestação anti-Trump, depois da primeira eleição do Trump, em 2016.
E, através dessa manifestação, que aconteceu na Embaixada dos Estados Unidos,
eu conheci várias pessoas que fazem parte da Rede 8 de Março,
e comecei a trabalhar com elas, também a título individual.
E organizámos, em março de 2017, a semana e festa,
com uma manifestação no dia 8,
com a marcha no dia…
no sábado seguinte.
E também uma festa no sábado à noite,
que correu super bem e que angariámos fundos para a Rede 8 de Março,
que é um coletivo que já existe há vários anos,
e que é um conjunto de várias associações que existem em Lisboa.
E depois, em 2017,
depois deste primeiro encontro
com os feminismos,
‘tava numa tasca no bairro Alto, na Tasca dos Canários,
com algumas amigas minhas,
depois de uma manifestação qualquer feminista (que eu já não me lembro qual que era),
e estávamos a nos queixar de não nos sentirmos representadas
em vários eventos e festas LGBT+ ou Queer.
Éramos p’ra aí cinco pessoas e mulheres Lésbicas e Bissexuais,
e foi aí que nasceu a Queer as Fuck,
e criámos uma festa,
a festa chamada Queer as Fuck, que aconteceu em Outubro de 2017.
E foi nessa altura também que eu participei, outra vez, no Festival Feminista do Porto,
mas já sozinha, com vários eventos,
um ciclo de cinema feminista,
também um DJ set,
e também participei da feira de zines deles,
porque em 2011 criei uma zine feminista chamada CuntRoll,
que teve vários números
e acabou em 2018.
E, em 2017, voltando, foi, pronto, o ano mais importante para mim em termos de feminismo
e de começar a trabalhar no ativismo feminista e LGBT+,
por todas estas questões,
e quando o 8 de Março começou a ser muito mais do que só o dia 8, lá está,
e começou a ser uma coisa que preenchia todos os meus dias,
e foi aí também que decidi que gostava de fazer o Festival Feminista de Lisboa,
porque gostava muito do Festival Feminista do Porto,
e era feito de maneira comunitária, eram todas voluntárias,
e faziam eventos em vários espaços da cidade,
que também normalmente davam-nos o espaço para nós podermos fazer lá os eventos,
sem ter que pagar nada.
E, em Outubro/Novembro de 2017,
decidi criar um open call,
uma chamada aberta, para várias pessoas voluntárias se poderem juntar
para criar um núcleo duro do Festival Feminista de Lisboa,
que acabou por acontecer em 2018, em Março de 2018,
e que foi um mês inteiro de vários eventos e ações feministas,
talvez, não sei, umas 50,
mas que também vieram através de um Open Call [= chamada aberta] de propostas,
que foram para a cento e tal que recebemos, já não me lembro muito bem,
mas foram muitas para o primeiro festival.
E o festival aconteceu, porque sentia também que existia uma divisão muito grande
entre grupos e associações feministas e LGBT+ em Lisboa,
e era também um chamar de união e de fazermos coisas em conjunto.
E, por acaso, o Festival Feminista de Lisboa ganhou na primeira edição
o Prémio Madalena Barbosa,
que é o prémio, que já existe há alguns anos,
que dá a um evento ou alguma iniciativa feminista
e que luta pela igualdade de direitos.
E o segundo Festival Feminista aconteceu em 2019, já em Maio.
E, entretanto, o festival deixou de existir.
Eu comecei a fazer mais coisas no ativismo LGBT+
e foi aí que comecei-me a virar mais para o projeto cultural Queer as Fuck,
e a fazer vários eventos de Queer Quizzes, a festas,
a ‘tar em organização de manifestações e de marchas,
tanto a marcha LGBT+ como a marcha do Dia Internacional da Mulher.
E é nesse sentido que março sempre foi,
para mim, principalmente depois de começar a haver,
para além da marcha do dia 8 de março,
mas também a greve feminista internacional,
em que era suposto nós não trabalharmos.
O que eu gostei mais nisto tudo,
sempre foi a parte da greve feminista
e não só ‘tarmos a marchar no dia 8 de março
e ser só um Dia Internacional das Mulheres,
porque acho que a luta feminista tem que ser interseccional
e para todas as pessoas.
E é isso. Acho que já falei muito…

[risos]

[Alexandre]
Falaste muito bem, e este é um tema que dá para nos alongarmos bastante
e, por isso, vou também passar a palavra à Carlota.
O que é que este dia significa para ti?
Qual é a importância que ele tem para ti?

[Carlota]
Ok. Olá, olá a todes.
Então, este dia também tem uma grande importância, especialmente quando o entendi.
Este dia antes era só mencionado como o Dia da Mulher, um dia para as mulheres e lembrar as mulheres, mas está longe de ser.
E é mais um dia, como a Raquel já referiu, de ser um dia do feminismo e dos direitos e de igualdade e das condições para todes.
E, nesse sentido, faz-me muito mais sentido a mim estar na luta e no activismo,
para que este dia tenha uma visibilidade grande para a comunidade
e quebrar também um bocadinho esse conceito
que é o dia só para mulheres,
até porque o que é que é ser mulher?
Então, aí acho que este dia é mesmo muito importante
e faz mesmo muito sentido ser celebrado e ser
além de ser celebrado, ser vivido todos os dias.

[Alexandre]
Sim, porque o Dia das Mulheres não é só no dia 8 de março é todos os dias.

[Sofia]
Exatamente.
E é muito importante estarem todas as pessoas presentes nesta marcha, não só mulheres, mas homens e outras pessoas aliadas nesta luta.
E aproveito para te perguntar a ti, Alexandre, o que é que este Dia Internacional das Mulheres significa para ti?

[Alexandre]
Eu, para falar deste dia, acabo por regressar um pouco à infância e lembrar aquilo que nas escolas se ensinava sobre o Dia da Mulher, em que as crianças, especialmente na escola primária, em que há as artes plásticas e tudo isso, e aquilo que se está a fazer é, tipo “vamos pôr as crianças a fazer flores para oferecer à mãe, à tia, à prima, à irmã” e parece que o Dia das Mulheres é um dia para oferecer flores às mulheres, quando… Pode ser um gesto bonito, mas não essa a génese desse dia.
E em contraponto com isso, eu sempre fui criado por muitas mulheres feministas, e começando logo pela minha bisavó, pela minha mãe, por amigas dos meus pais, que sempre estiveram em núcleos muito feministas, sempre tive uma certa consciencialização, diferente que o Dia das Mulheres não tinha que ver com dar flores, tinha que ver com as lutas feministas e pela igualdade de direitos entre homens e mulheres, que na cabeça de um rapaz mais jovem e adolescente, como eu, era super estranho como é que não havia uma igualdade de direitos, porque eu não percebia: “Ok, tipo, não somos todos pessoas, porque é que há pessoas que são tratadas de forma diferente por base no género que lhes atribuem à nascença?”.
E, portanto, este dia para mim tem um impacto importante de: não é um dia para oferecer flores, é um dia para lembrar estas lutas feministas, para lembrar que ainda há muita desigualdade, que em países ainda como… países desenvolvidos como Portugal, as mulheres ainda são tratadas de forma diferente desde a sua infância, aquilo que é as expectativas que se colocam e a forma como as mulheres são educadas versus os homens na infância, aquilo que se espera de uma mulher adulta versus aquilo que se espera de um homem adulto, não é?
Aquilo que para uma mulher é uma coisa normal, por exemplo, cuidar de uma criança,
“Ah, está a ser uma mãe”. Se for um homem que está a cuidar de uma criança é tipo: “ui, grande pai”, é tipo uma cena sensacional, como se os homens…

[Raquel]
É um super herói. [ironia]

[Alexandre]
Ya, é como se fosse um herói, como se um homem não tivesse também deveres parentais como uma mulher. É tipo…
E este tipo de coisas ainda existem e este dia também é muito à volta disso, é relembrar aquelas, as mulheres que se sacrificaram pelos direitos que hoje em dia não só as mulheres têm, porque o patriarcado não afeta só as mulheres, também afeta os homens e é um dia de emancipação de todas as pessoas, mas que começa precisamente nas mulheres que eram [são] as figuras oprimidas essencialmente pelo patriarcado.
Portanto, a minha importância deste dia centra-se nestas lutas feministas e precisamente de progressão para uma sociedade mais justa, mais inclusiva e melhor para todas as pessoas.

[Carlota]
Até pegando agora no que ‘tavas a dizer, até diria que o Dia Internacional da Mulher nem é uma questão de género, é uma questão de igualdade, é uma questão de defender direitos para uma equidade social.

[Alexandre]
Sim, porque no fundo nós somos todos pessoas, independentemente do nosso género, temos todos que ter os mesmos direitos e as mesmas oportunidades.
Pegando nisto, Sofia, o que nos tens a dizer sobre a importância deste dia para ti?

[Sofia]
Então, para explicar a importância do que significa este dia para mim, vou também recuar à infância e adolescência.
E, desde logo, na infância deu para notar que, por ser considerada uma rapariga, tinha de me comportar de um certo modo.
Desde a maneira como caminhava ou como me sentava, aos gostos que podia ter. Por exemplo, jogar futebol, não poder fazê-lo.
E isto é algo que afeta todas as crianças independentemente de género, que há logo uma série de papéis, e comportamentos e exigências que são logo atribuídas e que esta criança tem que estar nos conformes com isto ou começa logo a ser oprimida e começa logo a ser condicionada para se encaixar neste tipo de papéis.
E quando a criança não se encaixa e nem sequer percebe
porque é que lhe está a ser exigido um determinado comportamento,
quando está literalmente só a existir e só a brincar com o que gosta
e só a querer vestir o que gosta,
a gostar das cores que gosta, etc.
Começa logo aqui uma luta para perceber
“o que é que eu posso fazer para não me tratarem desta maneira”
e ainda sem perceber nada do que se está a passar.
À medida que fui crescendo, para além destas situações
em que eu tinha que ver o que é que eu podia fazer para não ser criticada,
o que é que eu podia fazer para “me estar a portar bem”,
entre aspas, e para ser “uma boa menina”, entre aspas,
à medida da adolescência também começo a notar
uma diferença de tratamento entre aquilo que era esperado e exigido
em relação a mim e à minha irmã e em relação aos meus irmãos,
nomeadamente nas tarefas em casa ou no poder sair de casa.
Eu e a minha irmã tínhamos que ficar mais em casa,
“mais seguras”, entre aspas, que na verdade é mais presas.
Os meus irmãos tinham mais facilidade em quererem sair e não o chatearem com isso.
Ou os meus irmãos podiam ficar o dia todo a jogar Playstation se quisessem,
ou seja, sujavam o que tinham a sujar e iam pro seu quarto de jogar jogos
e depois da refeição ou depois do que fosse, quem tinha que limpar
ou era a minha mãe ou pedia-me a mim ou a minha irmã.
É, portanto, desde cedo que se começam a notar estas diferenças de tratamento
entre uma pessoa que é percepcionada como mulher e uma pessoa que é percepcionada como homem.
Notar estas diferenças desde cedo,
fez com que estivesse a ser sempre muito contestadora,
que criticasse muito: “mas porque é que eu não posso fazer isto?”,
“Ou porque é que eu não posso ser de certa forma?”,
“Ou porque é que tenho que ser eu a limpar isto?”.
E quando alguém começa logo a questionar e a criticar,
a pessoa é que começa a ser vista como o problema.
Ou seja, o problema não é o problema, é falar do problema.
Parece que o falar é que cria o problema.
Então, as pessoas, e neste caso muitas mulheres,
quando se tentam insurgir contra estas exigências,
começam a ser vistas como chatas, como difíceis,
como…

[Alexandre]
Histéricas…

[Sofia]
como histéricas,
como estarem sempre a criar confusões e discussões,
“E porque é que têm que estar sempre a criar confusões e discussões?”.
E é muito à volta disto.
Felizmente eu nunca tive assim nenhuma situação como esta no trabalho,
mas as situações que eu observava,
também me faziam sentir mal, claro,
e deu para observar ao longo da minha vida,
mesmo depois destas fases,
a diferença de tratamento que era usada,
a credibilidade que era dada às colegas mulheres e colegas homens.
Mesmo as próprias colegas mulheres, às vezes, davam mais credibilidade
aos colegas homens do que às colegas mulheres.
E todas estas diferenças,
que se as pessoas começarem a olhar mais para o lado,
começam a notar, mesmo nas conversas,
de serem elas a tratar de tudo em casa,
ou serem elas a levar os filhos ao médico sempre quando é preciso,
serem elas a faltar ao trabalho para tratarem dos filhos.
Se as pessoas começarem a ouvir e a reparar,
vão notar muitas diferenças.
Felizmente, não em todas as famílias, claro,
mas vão notar muito estas diferenças.
E é muito por isto que eu acho importante manifestarmo-nos
e celebrarmos este dia de manifestações destas conquistas.
Porque não é só…
Quando se fala em conquistas não se está a falar só do grande, vem…
vem de uma base.
E vem do dia a dia.
E muitas vezes vem mesmo da infância.
Mesmo que só nos tenhamos apercebido anos mais tarde.
E ir contra esta corrente é uma luta constante.
E cansa, mas as pessoas continuam a fazê-la.
E é muito por aí que acho muito importante este dia.
E querer fazer o nosso trabalho com o mesmo respeito,
recebendo o mesmo respeito
e credibilidade, e salários iguais, já agora,
pelo mesmo trabalho também se quer,
ou querer dividir tarefas e responsabilidades da vida familiar de forma justa,
é uma luta que é muito importante continuar a fazer.
E há mulheres que às vezes nem se apercebem desta luta
e continuam a perpetuar os mesmos papéis.
E às vezes fazer o dobro ou o triplo do esforço
para acederem às mesmas oportunidades,
a acharem que é normal,
que é o que é e que não há nada a mudar aqui.

[Alexandre]
Porque no fundo também foi aquilo que a sociedade lhes transmitiu.

[Sofia]
Exatamente.

[Alexandre]
Que é a mulher ter o seu papel como cuidadora,
como tratadora do lar,
e o homem é o provedor do dinheiro e da segurança do lar.

[Sofia]
Lá está. E isto não começa no trabalho,
não começa depois de casar, não começa…
Começa mesmo na infância,
logo dos papéis que são atribuídos assim que a criança nasce.
E é importante percebermos que,
independentemente do género da criança,
não há brinquedos que são só para meninas ou para meninos.
Normalmente os brinquedos para meninos são aqueles que incentivam
a seguirem carreiras no trabalho.
E p’ras meninas são as cozinhas, etc.
Esta ideia, felizmente, também já se está a combater cada vez mais.
E é muito importante continuarmos estas lutas.

[Carlota]
Até diria mais que começa antes de nascerem.

[Sofia]
Sim, sim.

[Carlota]
E ainda se faz, infelizmente, uma festa, festa de revelação, para postar nas redes sociais.
E é logo a partir daí que se começa a criar todo um conceito sobre aquela pessoa que ainda não nasceu, mas já se quer traçar a vida toda dela, o que é que vai acontecer, o que é que vai estudar, o que vai ser…

[Raquel]
Já temos expectativas criadas antes de querer nascer.

[Sofia]
Exatamente.

[Alexandre]
As roupas que vai vestir, os brinquedos, não é?
Porque depois se é menina vai ter que brincar com bonecas,
vai vestir rosa, vai vestir vestidos.
E com isso até me lembraste de uma coisa que eu vi há pouco tempo.
Falou-se muito nas redes sociais há uns tempos,
que é a questão de querem pôr brincos em meninas que ainda só têm meses.

[Sofia]
A mim me puseram no dia a seguir a eu ter nascido.

[Raquel]
Sim, eu também, a mim me puseram meses depois de eu ter nascido.

[Sofia]
Sim, e porque é que faziam isto?
Exatamente para mostrar que era uma menina
e por estas tradições que existem.
E, tradicionalmente, as mulheres casavam muito cedo.
A minha mãe casou aos 16,
não, aos 17,
a minha avó é que casou aos 16.
A minha mãe começou logo a ter filhos aos 18.
A minha avó também deve ter começado.
A minha avó paterna teve 11 filhos
e era muito este o papel que era atribuído:
a mulher ter filhos, quisesse ou não.

[Raquel]
Faz-me lembrar um pouco a minha história de família
e lembra-me muito a minha avó materna que eu não cheguei a conhecer,
mas que tinha 11 filhos.
A minha mãe foi a última a nascer.
A minha avó nasceu em 1899,
mas só foi registada um ano depois.
E ainda por cima eu sou madeirense,
eu nasci na Madeira.
E todas essas questões de família
e de perceber como metade dos irmãos da minha mãe eram mulheres
e a outra metade eram homens,
muitos deles emigraram,
mas as histórias das mulheres da minha família,
sempre foram dalgum sofrimento.
Por exemplo, a minha mãe chegou… ficou na Madeira
para ter que cuidar da minha avó,
e a minha avó era também a cuidadora da família toda.
E o meu avô, que era mais velho do que ela,
era só o provedor de dinheiro para a casa,
e a minha avó cuidava desses filhos todos
e depois, mais tarde,
dos netos e de primos e de pessoas de família,
que acabavam por ficar na nossa casa,
porque não tinham onde ficar.
E toda essa história de cuidar
e de fortalecer os laços familiares
dessas maneiras,
acho que inspiraram-me também a hoje fazer ativismo.
E, normalmente, costumo dizer que
eu ser feminista é um verbo.
Lá está, é ser feminista.
É uma ação que acontece todos os dias.
É uma maneira de vivermos o mundo,
mas também de vivermos a nossa vida.
E eu acho que ser feminista não foi uma escolha.
Dado as circunstâncias em que eu cresci,
sempre foi a única opção.
Era uma coisa que eu tinha mesmo que fazer,
por ser uma pessoa Queer,
por ter crescido como uma pessoa gorda,
que era maltratada por isso.
E todas essas questões fizeram com que eu
precisasse de lutar
para que as outras pessoas
não tenham que passar por essas coisas.
E eu acho que a minha inspiração
vem muito da minha família,
também como tu falaste, Alexandre,
das mulheres da minha família,
que eram pessoas extremamente fortes.
E a minha mãe, por exemplo, tem quase 80 anos,
mas começou a trabalhar aos 14 anos,
tem a quarta classe, literalmente,
e trabalhou uma vida inteira
para chegar a receber uma reforma de tipo 400 euros,
quando muitas vezes os primeiros trabalhos dela
nem sequer o patrão descontava
para ela conseguir hoje em dia ter uma reforma.
Ela teve que pagar para conseguir ter a reforma que tem hoje,
que é extremamente mínima e ridícula para qualquer pessoa.
E a sorte dela foi ter encontrado o meu pai,
que por acaso é 14 anos mais novo do que ela,
o que também, na altura, nos anos 80,
quando eles se conheceram, foi um problema,
principalmente para a minha avó,
da parte do meu pai,
porque uma mulher mais velha com um homem mais novo
não foi tão bem aceite.
Mas sim, a minha mãe, também mais uma vez,
também foi uma cuidadora
e é por essas mulheres e essas figuras matriarcas,
que durante toda a minha vida sempre me ensinaram
e sempre me deixaram viver como eu queria viver.
Neste caso, a minha mãe era cabeleireira
e eu gostava de pintar o cabelo de várias cores
e fazer vários penteados.
E a minha mãe não se importava com isso.
Importava-se com outras coisas,
como ser Bissexual, ou Pan, ou Queer, ou Lésbica, o que queiram.
Mas eu acho que a família tem muito a ver com as razões
porque nós, mais tarde, se calhar, fazemos as coisas que fazemos,
e lutamos nas frentes que lutamos.
Por isso é muito importante falar das mulheres das nossas vidas
e trazê-las também nas marchas e nos eventos e nas manifestações
e no nosso dia-a-dia de falar sobre elas
e dar-lhes o devido valor.
Eu não cheguei a conhecer a minha avó materna,
mas sinto que ela é uma…

[Alexandre]
uma referência?

[Raquel]
é uma referência,
uma figura muito importante,
porque ela também escrevia poesia
e era extremamente sensível.
E então,
saber as nossas raízes é muito importante também,
para podermos valorizar o nosso passado
e saber quem é que nós somos hoje
e para continuarmos a lutar.

[Alexandre]
Sim, é importante.
E nós, quando falamos aqui no feminismo, eu sinto que…
já que ‘tamos a falar do feminismo e da família,
eu sinto que, por vezes, há uma ideia muito errada,
parece que “ai, o feminismo quer acabar com a família”.
O feminismo não quer acabar com a família.
Mas há uma grande diferença entre ser uma família
em que as pessoas, efetivamente, se amam
e que escolhem estar,
ou as situações como aconteceu no passado,
em que muitas mulheres eram forçadas a se casar
e que viviam a sua vida inteira em casamentos
onde não queriam estar,
em que viviam a sua vida inteira
a ter 12, 13, 14 ou muitos mais filhos,
porque era, entre aspas,
a “função” que era a esperada delas da sociedade.

[Raquel]
Literalmente, a minha avó começou a ter filhos aos 16 anos
e acabou aos 46 anos.
Ela viveu para ter filhos,
e aos 46 ela já não queria ter filhos.
O último filho foi, tipo, 8 anos antes.
E o meu avô, não, não, ele quer ter mais um.
E pronto, lá está, foi uma obrigação.
E isso é assustador mesmo.

[Alexandre]
E até há pouco tempo, em países europeus,
acho que agora uma decisão da França,
em que um tribunal confirmou que o sexo
não é uma obrigação de uma mulher num casamento.
Portanto, mas isto fazia parte do código legal,
em que uma mulher que negasse sexo ao seu marido
podia ser punida a nível judicial.
E isto é completamente absurdo.

[Carlota]
Até acrescentava que o casamento, para ser consumado, tinha que haver sexo depois do matrimónio, da celebração.

[Alexandre]
Sim, sim.

[Raquel]
Isso faz-me lembrar também outra história da minha mãe,
que casou aos 18 anos logo com o primeiro namorado.
Lá está, também um bocado por obrigação.
E separou-se 4 anos depois,
isto deve ter sido nos anos 70,
porque ele era violento.
Ela sofreu de violência doméstica.
E com a minha avó, também, ele era super violento.
E, quando a minha mãe se separou,
ela teve que pôr um anúncio num jornal
a dizer que se tinha separado dele.
E ela ainda… Ela mostrou-me este anúncio
num jornal dos anos 70,
a dizer que ela já não era casada com aquele homem.
E eu não fazia ideia que isto era uma coisa
que as mulheres tinham que fazer.
Tipo, como se fossem uma propriedade
e agora têm que anunciar a toda a gente
“já não estou com esta pessoa,
já não sou dele”.

[Alexandre]
Não cabe na cabeça de ninguém.
Eu nem sequer sabia que isso era uma realidade.

[Raquel]
Ya, isto acontecia.

[Alexandre]
Nisto, por exemplo, da questão das relações,
eu não sei com que idade é que a minha bisavó se casou.
Comparativamente com, por exemplo,
as minhas bisavós paternas,
a minha bisavó só teve 5 filhos.
A minha bisavó sempre foi uma mulher
muito destemida, muito…
uma mulher muito forte.
E a minha bisavó não sabia ler,
não sabia escrever.
Mas era uma mulher muito…
pá, muito liberta e muito desconstruída.
Eu costumo dizer que se a minha bisavó fosse viva
eu não me admirava que ela quisesse vir
às marchas do Dia da Mulher
ou à marcha LGBT+ de Lisboa.
Ela sempre foi uma pessoa
que me incutiu muitos valores feministas.
E não tenho dúvidas de que
ela era uma mulher à frente do tempo dela.
E que é uma inspiração ainda hoje para mim,
nesse aspecto.
E claro, todas as outras referências
fora da família que eu sempre contactei.
Aliás, a minha mãe é professora de português,
portanto eu sempre fui muito exposto,
desde pequeno,
a muita literatura.
E há uma poeta que a minha mãe gosta bastante
que é Florbela Espanca.
E precisamente tudo o que tu lês
sobre Florbela Espanca,
de há mais anos atrás,
ela é tida como se fosse uma pessoa histérica.

[Raquel]
Enquanto que tu vais ver a maneira
como falam do Pessoa, mais ou menos da mesma altura,
até por ter quatro alter egos diferentes,
ou pseudónimos diferentes,
ou o que seja,

[Alexandre]
É um génio.

[Raquel]
É um génio.
Portanto, só por aí tu vês a diferença
que há de tratamento de mulheres e de homens.

[Alexandre]
E não desfazendo, eu acho que o senhor é um génio.
Mas Florbela Espanca

[Raquel e Alexandre]
Também é!

[Raquel]
Mas a maneira como ela era tratada
e falada era diferente.

[Alexandre]
Mas a minha mãe falava precisamente sobre isso.
Ela falava precisamente:
isto é a percepção que têm dela,
mas ela não é isso.
Eles dizem isto porque ela é uma mulher.
E tu vais analisar a poesia dela
e é espetacular.

[Raquel]
Sim, eu também adoro.
Ela fala de coisas lindíssimas.

[Alexandre]
E, por exemplo, poemas que ela fala sobre amor.
Camões também falava duma forma ardente sobre amor.
E ninguém vai dizer
“ai, Camões era histérico”.

[Raquel, em concordância]
Hum hum.

[Alexandre]
Não.
Portanto, há muito esta questão.
Sophia de Mello Breyner,
que também sempre foi uma escritora que eu adorei
e tão feminista também.
Portanto, sempre fui muito exposto.
E acho que isto foram influências enormes
para a minha construção.
Muito antes de me identificar como Bissexual,
eu dizia que eu era um homem feminista,
muito antes da minha adolescência,
porque já cresci neste meio.
E é importante falarmos destas mulheres,
não só da nossa família,
que tiveram esta importância também nesta luta
e na construção deste dia.

[Raquel]
E que muitas vezes nem têm noção
daquilo que fazem
e que no seu quotidiano
fazem ações feministas
sem saberem.
E muitas mulheres nem sabem.
Lá está.
Pensam que o dia 8 de março
é só o dia em que recebem flores e chocolates
e não sabem a verdadeira razão por trás daquilo,
mas continuam a ser feministas
por várias outras coisas
que fazem no seu dia a dia
e tornam também homens,
neste caso, como tudo, também feministas
e tornam pessoas aliadas
dos movimentos feministas
sem saberem, sem terem noção destes nomes
e destas teorias
e destes movimentos.

[Alexandre]
Sim.

[Raquel]
E acho que isso é o mais importante.
É também conseguirmos chegar a essas pessoas
que não tens de ir à marcha do 8 de março
para mostrar que és feminista.
Podes ser feminista todos os dias da tua vida
a fazer coisas como, por exemplo,
eu há uns anos atrás comecei só a comprar livros
de mulheres e de pessoas Queer.
Nunca mais comprei livros de homens cis
brancos.

[risos]

[Raquel]
Portanto, isso para mim é uma das
coisas que eu comecei a fazer,
porque tudo aquilo que nós consumimos também
é ativismo e é muito importante
termos noção dessas coisas.
Por exemplo, às vezes quando vou ao cinema começo a pensar:
“Mas espera, quem é que é o realizador?
Ou é uma realizadora? Ou é um realizador?
A quem é que eu vou dar o meu dinheiro?
A quem é que eu estou a ajudar
a continuar o seu trabalho
e a mostrar?”. Por exemplo,
as pessoas quando vão ao cinema
têm que ir ver filmes
que querem realmente ver,
mas sem pensar
nas consequências.
E muitas vezes os filmes, por exemplo, de lésbicos
ou de mulheres
ou com protagonismo de mulheres
não são tão fáceis de ser feitos,
porque dizem que não há tantas pessoas
a irem ao cinema ver.
E eu acho que é isso
que às vezes temos que pensar.
Todas as coisas mais mínimas,
que pensamos que não têm nenhum impacto
no nosso mundo, mas têm.
E, para mim, esses atos mais pequeninos
são tão importantes quanto
ir à marcha
ou fazer… organizar eventos
ou seja o que for numa escala maior.
Todas as coisas contam.

[Sofia]
Exatamente. E diria mais, a grande luta do feminismo
está é nas ações do dia-a-dia.
O dia 8 de março
é um culminar das ações,
que se foram tendo.
E é muito importante no nosso dia-a-dia
termos essa noção
e aprendermos a identificar,
porque há mulheres que não sabem identificar
quando estão a ser deixadas de lado
só por serem mulheres
ou quando não estão a ser levadas a sério
só por serem mulheres,
quando estás numa reunião e dizes uma coisa,
e ninguém liga, e o teu colega diz a mesma coisa e
já é uma ideia genial, por exemplo.

[Raquel, em concordância]
Hum hum.

[Sofia] É muito importante, no dia-a-dia, irmos vendo
estas pequenas microagressões
e irmos
explicando o que é que são
e como é que podemos combatê-las.
E acho que é muito daí,
é muito importante ter estas
celebrações e manifestações,
mas é ainda mais importante
não ser só nesse dia
que nos lembramos do feminismo
e não ser só nesse dia que nos lembramos de ser feministas.

[Raquel, em concordância]
Hum hum.

[Sofia]
Precisamente.

[Alexandre]
E não ser só nesse dia que nos lembramos
que ainda há estas dificuldades,

[Sofia]
Exatamente.

[Alexandre]
como as que tu falavas:
que uma mulher tem
a mesma reação dita,
ou feita por um homem ou por uma mulher,
muitas das vezes, especialmente
em contextos empresariais, ainda tem
um significado diferente, não é?

[Sofia, em concordância] Hum hum.

[Alexandre]
Um homem que se impõe
ou que diz “ai eu não faço isto”,
pronto está normal, mas se for uma mulher
“ai, está a ser histérica”, “está a querer
arranjar confusão
ou problemas onde não há”.
E as pessoas às vezes fazem isto
sem saber, porque é aquilo que a sociedade
lhes ensinou e, como tu dizes,
tanto as mulheres muitas das vezes
não percebem que estão a ser condicionadas
só pelo facto de serem mulheres,
como pelo contrário, a outra pessoa às vezes também não percebe
que está a fazer isso só por…
só porque aquela pessoa é uma mulher,
porque a sociedade encaminhou-nos
neste sentido. Mas é como tu dizes,
é apercebermos desses problemas,
identificá-los e falar sobre eles.

[Sofia]
E é bastante curioso vermos
como a luta feminista está muito ligada
à luta das mulheres trabalhadoras,
porque este é um espaço
em que se consegue perceber melhor a diferença
de tratamento, porque é um espaço
em que se está a ter o mesmo papel
e a receber às vezes condições diferentes
E é…
É muito interessante também pensar nestes
contextos.

[Raquel]
E pensar que
muitas vezes as mulheres que muitas vezes
dizem, falam de feminismo da boca
para fora, só porque queremos
mulheres CEOs
e mulheres em cargos de poder,
muitas vezes estão a usar
o feminismo só performativo e de uma
maneira que
não ’tá a abranger todas as mulheres e
todas as pessoas. E o verdadeiro
sentido dos feminismos,
no meu caso,
sendo uma mulher cis, branca,
europeia,
claro que aquilo que me puxa
mais para estas lutas é a consciência de classe,
porque os meus pais são da classe trabalhadora
e o meu pai
também teve só até ao décimo
ano e depois começou logo a trabalhar.
Mas temos
também de ter consciência que todos os
feminismos… Por exemplo, quando pensamos
nas sufragistas do início do século XX,
que queriam muito trabalhar e lutar pelo trabalho,
pelo direito de trabalhar,
não ‘tavam a incluir, por exemplo,
as mulheres negras que já estavam a
trabalhar, muitas vezes, na casa destas
mulheres brancas e que eram esquecidas,
e é por isso que é sempre bom
lembrar que não existe só um feminismo
e que não podemos falar da história do feminismo
como ter começado no século XX,
por causa das sufragistas, por causa de tudo isso,
porque existem vários feminismos.
E existe, por exemplo, o transfeminismo,
e vamos falar também
de algumas dessas questões; existe o
feminismo negro,
que é a verdadeira razão
porque existe também cada vez mais
uma exposição do feminismo
interseccional e do que é que isso realmente
significa, e não é só uma palavra
bonita para se pôr no Instagram
a dizer que somos feministas interseccionais,
sem realmente pôr isso à prova
e ser uma ação que
fazemos todos os dias, e ser uma
perspectiva que nós temos
na nossa vida e nas nossas relações
e em tudo aquilo que nós fazemos.
Por isso, simplesmente termos mulheres
no poder não é
necessariamente feminismo, porque
o capitalismo continua a ser
uma das coisas mais importantes
a lutar contra. E que hoje em dia se calhar
já ultrapassamos o capitalismo e já estamos
numa “tecno-fascismo”,
que é
assustadora e que sabemos que
traz muitos problemas, por exemplo
não só para mulheres mas para pessoas Trans.
E, por isso, o feminismo
muitas vezes tem que ser pensado
e repensado, porque não pode ser usado
só para continuar
a perpetuar os mesmos sistemas de opressão,
[de] que tantas pessoas
ao longo dos tempos foram
vítimas.

[Alexandre]
Sim. E até porque o feminismo não é só termos mulheres
em cargos de poder,
é termos mulheres em espaços que muitas
das vezes são vistos como não sendo
um espaço para uma mulher e o reverso,
porque o feminismo
não se trata só da libertação das mulheres,
é de todos nós.
Há uns anos atrás um homem querer ser
modelo ou estilista,
ainda era visto como não sendo um espaço
para um homem.
E, por outro lado, uma mulher querer ser
advogada,
jurista ainda era visto
como sendo um espaço que não era para uma mulher, não é?
E tem muito aquela
questão que se faz às vezes que vi isso
,há uns anos, num experimento social,
em que perguntavam às pessoas
(e era em inglês, portanto nem sequer havia
a questão dos pronomes ou do género
como há no português), que era
“imagina um profissional de saúde”.
E quando é por exemplo um profissional
de saúde médico,
a maioria das pessoas pensava num homem,
mas quando era por exemplo
uma assistente
pensavam numa mulher.

[Raquel]
Uma enfermeira…

[Alexandre]
Ya, uma enfermeira pensava numa mulher.

[Raquel]
Nunca penam num enfermeiro.

[Alexandre]
Exato. Professor na escola primária pensam numa mulher,
mas quando é a universidade pensam num homem.
Portanto. E é estas desconstruções também,

[Raquel]
Hum hum.

[Alexandre]
porque não há profissões
de homem e profissões de mulher.

[Raquel]
Isso faz-me lembrar muito o exemplo
dos cozinheiros e dos chefs.
As mulheres são cozinheiras há milhares
e milhares de anos
e, hoje em dia cada vez mais,
um homem sendo cozinheiro
é um chef.
Tu não vês a ser dada
o mesmo valor a uma mulher.
A mulher é a cozinheira
e sendo um homem, não, é o chef.

[Sofia]
Agora também já há mulheres chefs,
porque, a partir daí, passou-se chef
para uma categoria superior e agora também
começam a surgir mulheres chefs.
Mas isto é um tema muito importante,
porque até nas profissões que eram tidas como sendo profissões de mulher,
quando os homens também começam
a ganhar espaço nessas profissões
têm maior credibilidade
do que as mulheres.

[Raquel]
Hum hum.

[Sofia]
Em profissões de moda,
em profissões de cozinha, que eram coisas
que eram atribuídas às mulheres…

[Alexandre]
Estética…

[Raquel]
Hum hum.

[Sofia]
Estética se calhar ainda não ganhou tanto
mas em moda e…

[Raquel]
A minha mãe foi cabeleireira,
mas se tu pensares nos melhores, lás está,
melhores cabeleireiros (sem género)
se calhar as pessoas vão dizer um homem…

[Sofia]
Os melhores estilistas são homens,
os melhores cabeleireiros são homens.
Mesmo nessas profissões, que antes eram
conotadas como sendo mulheres,
os homens têm mais
credibilidade nelas.

[Raquel]
Sim, hum hum.

[Carlota]
Isso também (já agora desculpa interromper), isso acontece
porque enquanto as mulheres
são obrigadas a trabalhar
e têm que trabalhar os dias todos,
seja na cozinha, seja a costurar,
os homens que estão nessa área estão,
além de estarem porque gostam,
têm tempo livre para poder evoluir
nas profissões,
para poder criar outras coisas,
que são oportunidades que não são dadas às mulheres.

[Raquel]
Hum hum.

[Carlota]
Elas são cozinheiras e têm que cozinhar,
o homem não.
O homem ’tá lá e tem que criar coisas novas,
tem tempo para viajar e ver outras coisas.
E quando traz, trazer coisas novas.
E essas oportunidades já não são dadas às mulheres.

[Raquel]
E isso faz-me lembrar o trabalho doméstico,
que muitas vezes não é valorizado
e que, quase sempre,
calha às mulheres ou às pessoas que não são consideradas homens…

[Sofia]
Às mulheres ou às crianças… Exatamente.

[Raquel]
E a greve feminista internacional
veio muito por causa disso,
que era para ser um dia em que as mulheres param,
ou seja, tudo vai parar no mundo.
E é isso que o mundo precisa perceber,
que sem as mulheres o mundo basicamente não funciona.

[Alexandre]
Sim.

[Sofia]
E aqui, para além de mulheres,
estamos a falar
se calhar também de todas as pessoas que foram
percepcionadas como mulheres,
porque isto aqui é uma luta
de opressões que existiram contra mulheres
cis e Trans, contra homens Trans
principalmente que viveram também
isto de serem percepcionadas como mulheres,
e sabem perfeitamente como é que foram tratados,
e pessoas não binárias,
principalmente pessoas não binárias
que sejam também percepcionadas
mais pelo seu lado feminino,
mas depois todas as pessoas.
Todas as pessoas, qualquer pessoa
de uma minoria, sejam pessoas negras
sejam pessoas LGBT+ no geral,
sejam pessoas de uma classe social mais baixa,
percebem o que é ser oprimida e
percebem o que é não ter as mesmas oportunidades.
E o feminismo
tem uma luta
que intersecciona todas estas áreas.

[Raquel]
E falando nisso é também,
não só,
a questão de
de género, mas também da expressão
de género, também das pessoas que são
percepcionadas como mulheres,
mas que calhar têm uma expressão de género
mais masculina.
E isso também faz com que as pessoas
se sintam presas a caixas
que nunca vão poder realmente
sentir confortáveis,
e a sociedade faz com que nós estejamos
sempre presas a isso e
não possamos ser simplesmente livres
e nos expressarmos como realmente somos,
e não tentando seguir
os parâmetros daquilo que
nos foram ensinados
como sendo “biologicamente verdadeiros”,
o que é uma falácia completa.
E acho que os feminismos vêm mostrar isso
e vêm desencandear
todas as questões
de que o mundo em que nós vivemos
não é
o certo.
Foi criado por alguém
e essas pessoas foram homens cis,
brancos, de classe média alta
que queriam que o mundo continuasse
a favorecê-los a eles e…

[Alexandre]
E que o mundo funcionasse da maneira

[Raquel]
que eles queriam.

[Alexandre]
que eles viam o mundo.
Portanto estas questões,
que estamos a falar, os estereótipos
e aquilo que recai e que se espera de uma mulher,
também acontece o mesmo que o homem,
enquanto que a mulher é esperado,
e como tu referias, o trabalho doméstico, não é?
É esperado que as mulheres,
e mesmo quando são jovens
quando são adolescentes, quando são crianças,
é que ajudem a mãe a limpar a casa, a tratar da roupa
a tratar dos irmãos mais novos
ou dos mais velhos, a cozinhar,
não sei quê…
Dos homens isso não é esperado,
os homens o que é esperado é que ajudem,
por exemplo, o pai nas obras da casa,
em tarefas pesadas,
não é?

[Raquel]
Hum hum.

[Alexandre]
Mas não é esperado
que façam o mesmo nível de tarefas
domésticas
que é esperado de uma mulher.
E é muito este… esta
questão de expectativas, portanto
daquilo que é esperado.

[Raquel]
Da educação que temos, cada um.

[Alexandre]
Os homens são ensinados quase que a serem
servidos e a esperarem ser servidos.

[Raquel]
E as mulheres têm que ser sempre altruístas.

[Alexandre]
Exato.

[Raquel]
e pensar sempre nos outros primeiro.

[Alexandre]
Sim.

[Sofia]
E é assustador como isso continua hoje em dia,
mesmo com colegas de trabalho e tudo assim:
elas é que limpam, elas é que cozinham.
E isto continua a existir hoje em dia
e mesmo nas gerações mais novas,
que se calhar uma pessoa espera
que já estejam um bocadinho mais evoluídas,
continua a existir isto
e continua-se a perpetuar.
E uma pessoa às vezes não sabe como é que há de fazer p’ra…

[Alexandre]
E nem sempre é culpa das pessoas,
porque as pessoas crescem neste ambiente
e se não desconstruírem isto,
se não pensarem nestas questões,
porque isto era o que era expectável.
E depois é tipo: “não espera lá isto não é expectável,
isto não é normal”.
E o exemplo que tu falas Sofia do limpar,
eu questiono-me,
porque, lá está, eu sempre fui ensinado
a arrumar as minhas coisas, a limpar as minhas coisas.
Então eu questiono-me tipo:
se eu, por exemplo se eu ‘tiver
em casa (e já me aconteceu) estar a trabalhar,
entornar uma caneca de chá, paro o que ’tou a fazer
e vou buscar uma esfregona, um pano
e limpo o que tenho a limpar. Eu questiono-me:
será que p’ra outros homens
isso não é normal?

[Raquel]
Hum hum.

[Alexandre] Ficam à espera que a mãe, que a namorada,que a mulher venha a limpar?

[Sofia]
O meu pai já ficou à espera na mesa,
com as mãos sujas de camarão,
que a senhora minha mãe viesse
para lhe dar um copo de vinho.
E, se não fosse eu a reclamar com ele,
ele não se levantava para ir lavar as mãos
e ir para pôr o copo de vinho dele. Não,
estava lá à espera e…
Enfim… E isto continua a acontecer.

[Alexandre]
Até porque quando os homens
muitas das vezes “ajudam” no trabalho doméstico, lá está…

[Sofia, ironicamente] “Ajudam no trabalho doméstico”.

[Raquel, ironicamente] “Ajudam”.

[Alexandre]
A palavra eu usei sem querer,
mas é sempre isto que dizem:
“ai ele ajuda a mulher, que bom homem”.
Não, ele não ajuda a mulher.
Ele está a fazer algo que compete a ele também.
Ele vive naquela casa, ele come naquela casa,
ele suja naquela casa,
portanto também lhe compete a ele
limpar e zelar pelo…
pelo bem-estar habitacional
da casa onde ele também coabita.
E quando falamos nestes movimentos
feministas, é importante também
fazermos a ponte
para os movimentos LGBT+, que estão
intimamente ligados com estes movimentos
feministas. Os movimentos feministas
começam numa gênese de libertação
do patriarcado, que oprimia não só
as mulheres mas também outras minorias,
quer fosse a nível social,
quer fosse a nível das questões por exemplo LGBT+.
E da importância também que muitas
mulheres Bissexuais e Pansexuais
também tiveram nestes movimentos.
E, hoje em dia, estes movimentos
andam claramente de mãos dadas,
porque os mecanismos
que nos oprimem são comuns
e são transgeracionais
e transversais
a todas estas…
a todas estas situações.
E é por isso que é importante estarmos também
presentes e falarmos sobre isto e estarmos
presentes também nestas marchas,
porque não estamos a falar só sobre os direitos
das mulheres, estamos também a falar sobre os direitos LGBT+,
portanto daí
a importância destas marchas.
Por falar em marchas, este mês além das marcha…
das marchas e dos eventos de celebração
do Dia Internacional das Mulheres,
também temos o Dia da Visibilidade
Trans e a marcha da visibilidade
Trans, que irá ocorrer dia 31 de março.
Mas há muito mais eventos
para promover esta visibilidade, certo
Carlota? Queres nos falar deles?

[Carlota]
Sim, com certeza! Dia 31 de março
será a marcha
e com essa marcha
culmina todo o mês,
o mês de março, o mês da visibilidade Trans.
E durante este mês,
já temos estado a realizar alguns eventos
assim como: uma exposição fotográfica
sobre
a essência das pessoas Trans.
Depois também, ainda
como estávamos a falar,
do 8 de março
e do Dia Internacional da Mulher,
também tivemos uma conversa intergeracional
com várias pessoas
mulheres cis, Trans
e pessoas não binárias.
Depois tivemos também, ontem,
o workshop
de linguagem inclusiva,
lá no centro [LGBTI+ de Lisboa],
que vai ter uma repetição ou uma segunda edição
dia 20 de março online,
para quem não conseguiu estar presente.
E, hoje à noite,
vamos ter a visibilidade Trans na literatura,
também lá no centro,
no centro LGBTI+ de Lisboa.

[Alexandre]
Rua dos Fanqueiros, n.º 40,
para quem não sabe a localização.

[Carlota]
Depois dia 21,
vai ser dedicado
às artes,
para as pessoas poderem também comparecer no centro [LGBTI+ de Lisboa],
para criarem o seu tipo de arte:
desenhos, escultura,
tecelagem,
o que quiserem.
Vai ser um espaço muito criativo.
Depois no dia 22,
às 17 horas,
o visionamento do filme “Orlando”,
com uma conversa sobre o filme logo depois.
No dia 28 de março,
uma troca de roupas.
É uma questão
sempre muito importante na comunidade Trans,
as pessoas que estão a querer mudar a sua expressão
e não têm a roupa,
ou outras pessoas que têm
que já não usam,
porque mudaram a sua expressão de género.
Então, está toda a gente convidada a comparecer no centro [LGBTI+ de Lisboa],
traz o que já não usa,
leva o que entender que esteja lá,
que lhe faça sentido.
Depois então no sábado,
dia 29,
vamos criar cartazes, cartazes para a marcha,
fazer uma oficina de cartazes
para a marcha.
E depois, no dia 31,
será a marcha.
E, dia após a marcha, vamos fazer então um convívio
no centro [LGBTI+ de Lisboa], também para a confraternização
destes eventos.

[Alexandre]
E, ao longo desse mês, também terão várias sessões
do Grupo de Apoio para pessoas Trans
e em questionamento, certo?

[Carlota]
Sim, o GAP,
o Grupo de Apoio Partilha,
acontece regularmente,
em via online quinzenalmente,
em via presencial mensalmente.
Agora durante este mês,
ainda vamos ter amanhã online
e no dia 29 também.
Presencial, este mês já aconteceu,
havemos de ter depois em abril também.
Quem queira se inscrever,
esteja à vontade, pelo site da ILGA
ou mail direto para grit@ilga-portugal.pt .

[Sofia]
Portanto, como mencionámos anteriormente,
o episódio de hoje tem dois grandes temas:
a visibilidade Trans
é o nosso segundo tema
deste episódio,
que continuaremos a falar na segunda parte,
dia 21 de março.

[Todes]
Continuem a Bialogar connosco!

[Carlota e Raquel]
Até para a semana!

[Carlota] Alô, alô. Bem-vindes à segunda parte do sexto episódio do podcast Bialogar.
Eu sou a Carlota.

[Raquel]
Eu sou a Raquel.

[Sofia]
Eu sou a Sofia.

[Alexandre]
E eu sou o Alexandre.
No episódio de hoje, vamos seguir então para o segundo tema deste episódio
e falar sobre a Visibilidade Trans.
E começamos por ti, Carlota.
Qual é a importância que este dia, este mês, esta visibilidade Trans tem para ti,
enquanto mulher Trans, obviamente?

[Carlota]
Então, esta data é muito importante.
Essa visibilidade, como as outras visibilidades, não são só feitas nas datas.
Devem ser feitas todos os dias.
No entanto, estas datas fazem com que este tipo de visibilidade chegue a muitas pessoas,
que ou estão em identificação, ou estão em questionamento identitário,
e, com esta visibilidade, conseguem…
“Ok, há pessoas como eu” e chegarem aos grupos de apoio
e puderem ver que não estão sozinhas
neste mundo.
Por outro lado, no caso da marcha, também tem um efeito político,
assim como tudo que nós fazemos tem ações políticas,
e dá força o maior número de gente que esteja na marcha,
mais força aos grupos políticos, partidários, que nos apoiam,
ou que pelo menos tentam nos apoiar.

[Alexandre]
E, ao mesmo tempo, demonstrar àqueles que estão… que nos querem derrubar,
que nos querem atacar,
nós estamos aqui, nós existimos e nós vamos continuar aqui,
quer queiram, quer não.

[Carlota]
Exatamente, porque nós estamos aqui, porque existimos,
e como existimos, isso não se apaga.
A nossa existência é duma existência como a do resto das pessoas,
por isso também a questão da visibilidade e da marcha.
Quanto mais pessoas, maior essa visibilidade,
de que somos muitas pessoas e que precisamos,
além de precisarmos dos apoios sociais e médicos e outros tipos de apoio,
também precisamos da nossa integração na sociedade,
em termos o nosso respeito e podermos levar a nossa vida tranquilamente, naturalmente.

[Alexandre]
Sim, e esta visibilidade é importante para isso, não só para a parte política,
mas também, como tu falavas, para as pessoas que às vezes ainda estão em questionamento, ou
que nem sequer questionavam, mas que ao verem,
quanto mais pessoas virem nestes eventos, nestas marchas,
mais confiantes também se vão sentir para fazer esse questionamento, consigo próprias,
e p’ra eventualmente chegarem a uma conclusão, saírem do armário,
expressarem-se, testarem a sua expressão de género, questionarem o seu género,
vêem que não estão sozinhas e que há muito mais gente como elas
e isso dá-lhes também uma força para serem elas próprias, não é?

[Carlota]
E um sentimento de grupo, também.
E neste tipo de ações, muita gente aproveita estas ações para poderem ser elas,
já que não têm a confiança, ou ‘tão a passar pelo seu processo
e não têm confiança de o fazerem todos os dias e aproveitam estas datas
para serem elas próprias e poder se exprimir da maneira mais natural que têm.

[Alexandre]
Eu aproveito também para falar da importância que este dia tem para mim,
e tu sabes, obviamente, Carlota. Isto para quem nos ouve,
já falei muitas vezes da minha irmã e a minha irmã é uma mulher Trans,
e este dia também se reveste de muita importância para mim.
Eu fui pela primeira vez à marcha Trans do ano passado (2024)
e o papel político que isto tem, mas o papel de afirmação,
o papel de, como tu disseste, há pessoas que,
neste dia, aproveitam para serem elas próprias,
porque nos outros dias acabam por ter que estar mais condicionadas
dentro das caixas em que a sociedade nos quer pôr.
E, portanto, este dia reveste-se de uma importância para mim,
porque a minha irmã é Trans, não porque eu seja Trans,
mas porque a minha irmã é Trans, porque eu tenho imensos amigos também que são Trans
e este dia é um dia para lembrar que estas pessoas estão aqui,
que estas pessoas existem, que estas pessoas têm que ser respeitadas
e que têm que ter os mesmos direitos e oportunidades que as outras pessoas,
e não têm que ser colocadas em “caixinhas”.
E que não se têm que conformar com as “caixinhas” em que a sociedade as quer colocar.
E, para mim, é a importância que este dia tem
e é importante para mim também estar presente,
enquanto homem Cis,
porque não são só as pessoas Trans
que estão a apoiar outras pessoas Trans neste dia,
é importante as pessoas aliadas e as pessoas Cis
também se juntarem e mostrarem:
nós estamos aqui, nós não vamos deixar também que vos passem por cima.
Estamos aqui e estamos juntes, todes,
nesta exigência e nesta reivindicação
pelas nossas vidas e pelo nosso direito a ser.
Até porque, no fundo, as pessoas Trans,
e especialmente nos dias que correm,
o continuar de agressões,
essas agressões também nos atingem a nós,
não necessariamente da mesma maneira,
mas os mesmos preconceitos e os mesmos sistemas
que oprimem as pessoas Trans também oprimem as pessoas Bissexuais,
Pansexuais, Gays, Lésbicas, etc.
E, portanto, é importante nós também estarmos presentes,
para demonstrar o nosso apoio para com as pessoas Trans,
para com as pessoas que estão em questionamento,
para, no fundo, passar essa mensagem.
Não são só as pessoas Trans que estão aqui em luta,
também estão aqui pessoas Cis
e nós também estamos aqui a apoiar as pessoas Trans,
custe o que custar.

[Carlota]
Sim, e pegando um bocadinho no que estás a dizer,
por causa da tua irmã,
enquanto o GRIT, do qual faço parte da coordenação,
está dedicado com as pessoas Trans,
tem a AMPLOS, que faz todo o mesmo trabalho
com as famílias,
porque nem sempre os processos são fáceis,
não só para a própria pessoa que ’tá a passar pelo processo,
mas para os familiares também.
E eles também dão um grande apoio aos pais,
aos irmãos, a todo o núcleo familiar,
para que tudo possa correr bem.

[Sofia]
Exatamente, e pegando um bocadinho no que já disseste, Alexandre,
novamente falamos da importância que é participarmos nestas marchas
também enquanto pessoas aliadas,
porque temos muito mais força quando nos unimos.
E é importante.
Às vezes as pessoas têm uma ideia errada
de que estas estratégias dos inimigos comuns funcionam muito bem
e deixam que esse preconceito se alastre por proteção,
afastam-se desta luta, porque não são elas as visadas,
mas é só um início.
Quando um grupo de pessoas específico começa a ser atacado,
esse ataque é um início.
Quando acabarem de atacar esse grupo,
passam para o outro, e passam para o outro, e passam para o outro.
E é muito importante unirmos-nos,
a toda a gente, logo desde o primeiro momento,
para que isso não aconteça.

[Alexandre]
Tens um poema alemão…

[Sofia]
Exatamente.

[Alexandre]
que fala sobre isso.
Portanto, eu cresci muito com esta questão também da Segunda Guerra Mundial,
porque os meus pais viveram na Alemanha,
e tenho família alemã.
E, precisamente, eu cresci também muito
a ouvir falar sobre o que é que foi a Segunda Guerra Mundial
e a forma como começa o extermínio,
que não foi só das pessoas judeias,
foi também das pessoas LGBT+,
das pessoas ciganas,
das pessoas negras,
das pessoas pobres.
E, precisamente, os grandes ataques
começaram às pessoas judaicas
e às pessoas Trans.
Foram as primeiras pessoas a ser atacadas
pelos nazis.
E não ficaram por aí.
E, já nessa altura,
aconteciam situações de pessoas LGBT+,
mas, essencialmente, acontecia muito
de pessoas, por exemplo, judaicas,
que, pelo seu status social,
pela sua forma de vida, achavam:
“não, não, não, eu não sou
como os outros judeus,
eu sou um judeu bom
e eu não vou ser atacado, eu apoio o Hitler
e eu concordo com o que ele faz”.
Essas pessoas tiveram o mesmo destino que as outras.

[Sofia]
Exatamente.

[Raquel e Carlota murmuram em concordância]

[Alexandre]
Foram os campos de concentração.

[Sofia]
E essas perseguições,
como tu já referiste, começaram também por pessoas Trans
e pessoas LGBT+, e
pessoas com deficiência, foram uma série de minorias.

[Alexandre]
Também.

[Sofia]
Também há muitas pessoas LGBT que gostam
de de achar: “não, e eu me puser aqui deste lado,
eu sou melhor do que as outras pessoas
e a mim não me atacam”.
E isto é uma ideia completamente errada,
como já referiste.
Vamos ser atacadas. E nós estamos
num momento em que as pessoas
começam a ter muito medo desta reversão
de direitos. Direitos Trans
que estão a ser absolutamente atacados,
direitos das mulheres, coisas que levámos
tantos anos a conquistar e que podem
cair de um momento para o outro.

[Alexandre]
E é normal que as pessoas, estando numa posição
de conforto, ou de ligeiro
conforto, tenham, lá está, este
receio de se associar com
com estas lutas, porque
têm receio de que isso
prejudique a sua zona de conforto, porque
é chato. Nós, quando nos temos
que importar com outras pessoas, muitas das
vezes isso pode ser desconfortável. Temos que
nos questionar, temos que… Mas a questão
é precisamente isso que tu falas, que é
as pessoas que querem atacar este tipo de coisas
não vão atacar um grupo e ficar
por ali. Elas vão atacar
todos os grupos que não
que não sejam
favoráveis àquilo que eles querem.
E hoje são as pessoas Trans,
amanhã são as pessoas
Gays, Lésbicas, Bissexuais,
daqui a duas semanas
são as pessoas negras, são as pessoas…

[Carlota]
Os imigrantes.

[Alexandre]
Os imigrantes…

[Sofia e Carlota]
Já estão…

[Alexandre]
Que também já estão a ser atacados.
Todas essas pessoas estão sempre a ser atacadas,

[Raquel]
Sim sim.

[Alexandre]
em boa verdade, mas são usadas
como bodes expiatórios
para determinados problemas. E, portanto,
é importante falarmos sobre isto
com a devida atenção que deve ter,
porque são temas também sensíveis,
mas ao mesmo tempo é preciso perceber
que não é porque eu hoje estou
confortável que amanhã não vou
estar. Há uma fase,
uma frase que se correlaciona com isto,
de forma metafórica, que uma professora
minha dizia, que é “não há ninguém tão pobre
que não possa dar, nem ninguém tão rico
que não venha a precisar”.
E transpondo isto aqui para isto, é
“não há ninguém que possas dizer
que está 100% seguro de que nunca vai ser
atacado por nada”. Todos nós
temos alguma coisa pela qual podemos
ser eventualmente discriminados
ou atacados. E é
importante termos consciência disso.
E que se enganem as
pessoas que acham que “ai não,
eu não quero ter nada a ver com
movimentos Trans, eu sou uma
pessoa LGBT+, mas eu não quero ter nada a ver com movimentos
Trans, porque eu não quero entrar
neste rebuliço e que venham depois
atrás de mim”, não é por fazerem
isso que não vão eventualmente
ser discriminados, até porque normalmente
as pessoas destes grupos que atacam,
elas usam estas
pessoas para atingir os seus fins.

[Sofia]
Exatamente.

[Alexandre]
E enquanto puderem usar estas pessoas
para atingir os seus fins, tratam-nas
com um certo
respeito, mas que é um respeito,
por desprezo e por necessidade.
E no dia em que não precisarem delas,
dão-lhes o mesmo tratamento que
deram às outras pessoas que discriminaram
primeiro.

[Sofia]
Exatamente, e
pegando em ambos os temas do episódio,
por isso é que é tão importante de
falar de uma luta interseccional
e de transfeminismo,
porque a luta feminista
também passa por defender o
direito das pessoas Trans. E se nós
falharmos a defender estes direitos,
vêm aos direitos das mulheres
Cis a seguir, portanto…

[Alexandre]
Como já vieram.
Basta ver o caso recente,
nos Jogos Olímpicos, da atleta
Argelina, uma mulher
Cis, mas que porque tem
uma aparência que não
encaixa no padrão que as
pessoas querem forçar as mulheres Cis,
as mulheres em geral, Cis ou Trans,
a encaixar-se, é logo vista
“é uma mulher Trans
e está a querer ocupar e roubar
os lugares das mulheres”, como se as mulheres Trans
estivessem interessadas nisso. Como se uma pessoa
passasse anos a descobrir-se,
a questionar-se, e anos de…
para fazer
a sua terapia hormonal, as operações que
queira fazer, para ir roubar o lugar a alguém.

[Sofia]
Com todo o preconceito que levaram
nesse percurso.

[Alexandre]
Sim.

[Raquel]
E o perigo.

[Sofia]
Por isso é que é importante que isto seja
uma luta de todas as pessoas, independentemente
da identidade de género, independentemente da orientação
sexual, é mesmo importante que seja
uma luta de todas as pessoas e que
as pessoas aliadas se posicionem
nestas lutas.

[Raquel]
Por isso é que é importante também
falar sobre o movimento
de TERFS [= Feministas Trans-Exclusionistas], que já
existe há alguns anos, infelizmente
cada vez mais forte, principalmente por
figuras públicas como a J.K. Rowling,
que é cada vez mais visível e publicamente
anti-Trans,
que faz com que as pessoas Trans
se tornem nesses bodes expiatórios
para dalguma forma
tentar nos distrair daquilo
que realmente se está a passar no mundo, porque
não é uma parte da população,
uma minoria da população, que está a
causar os verdadeiros problemas que nós temos no mundo
e infelizmente
as feministas radicais [TERFS],
que normalmente são, apesar também
de existirem mais novas hoje em dia, cada vez mais,
mas normalmente são as feministas
da velha guarda, que tentam
excluir as mulheres Trans
e as pessoas Trans dos movimentos
feministas, quando
as mulheres Trans e as pessoas Trans sempre tiveram
na frente não só de movimentos
feministas, mas também, por exemplo, do movimento
LGBT+. Neste momento,
tendo em conta o estado
da política americana
e de como isso vai impactar todo o mundo,
temos de ter muito cuidado com
aquilo que escolhemos,
que… lá está, a consumir
e também apoiar, porque
temos mesmo que ser aliados
das pessoas Trans,
porque isso é uma realidade que existe
há milhares de anos e que sempre existiu
e não é porque uma pessoa,
num lugar de poder,
diz que só existem dois géneros
que as pessoas Trans vão deixar de existir.
Ainda há dias, a própria
Hunter Schafer, a Jules de “Euphoria” [série],
disse que o passaporte dela
agora está marcado como masculino,
como do género masculino,
tudo numa questão de um mês,
desde que o Trump começou mesmo a exercer
o seu papel como presidente,
e já fez várias
ordens executivas que estão
a mudar completamente
todas as regras
e todos os direitos
que as mulheres e pessoas Trans
tinham alcançado ao longo dos últimos anos.
E, por isso mesmo,
as pessoas LGBT
e o movimento LGBT+ precisa,
cada vez mais, de
ser aliado das pessoas Trans,
porque há muitas pessoas que querem tirar o “T”
do “LGBT”,
e isso não é uma realidade,
porque estamos todos ligados.
Portanto é mesmo muito importante
continuarmos a ter esta noção
interseccional da luta
e do feminismo
e dos feminismos no geral.

[Sofia]
Sim, até porque se estamos a lutar por liberdade, lutamos pela nossa liberdade e pela liberdade das outras pessoas.

[Alexandre]
Sim, não pode haver aqui um sítio onde a liberdade termina no sentido de “ai não, já estamos aqui, já está bem”.

[Sofia]
Exatamente, e existe muito aquela frase
“se quando lutas por liberdade,
não lutas por liberdade de todas as pessoas,
estás a lutar por privilégio”.

[Raquel]
Humhum.

[Alexandre]
Sim, sim, sim, completamente.

[Alexandre]
E a nossa liberdade está em causa quando qualquer grupo tem a sua liberdade em causa.

[Raquel]
Humhum.

[Sofia]
Já chegou cá a Portugal esta reversão.

[Alexandre]
Ah, sim, sim, sim.

[Raquel]
sim.

[Alexandre]
Vimos agora com a aprovação…

[Sofia]
Exatamente.

[Alexandre]
da exclusão

[Raquel]
Humhum.

[Alexandre]
do guia de apoio para as escolas nas questões LGBT+.

[Raquel]
Humhum.

[Alexandre]
Já começou por aí. E aí não foram especificamente as pessoas Trans, foi a todas as pessoas LGBT+.

[Raquel]
Humhum.

[Alexandre]
E é importante aqui também falar
que é interessante, falaste aí na questão da liberdade,
e é interessante que estas pessoas,
que atacam a liberdade de ser das pessoas Trans
e das pessoas LGBT+, são as mesmas que vêm gritar
pela liberdade de expressão.

[Raquel]
Humhum.

[Sofia]
Até diria que não há ninguém, que lute mais
por liberdade de expressão, do que a comunidade LGBT.

[Raquel]
Humhum.

[Alexandre]
Sim.

[Sofia]
Nós lutamos exatamente por não nos deixarem
expressar como somos.

[Carlota]
Já agora, juntando e para tentar também
que as pessoas identifiquem o porquê
de algumas pessoas ficarem em separação do “T”.
O “T” em relação a maior parte das outras letras “LGBT”,
que estão relacionadas com uma orientação sexual,
o “T” está relacionado com a identificação de género,
e faz com que estas pessoas também estejam dentro dos outros grupos [da comunidade LGBT+].
Então, o que é que junta isto tudo?
São grupos marginalizados, por uma sociedade
em que realmente têm que estar todos juntos,
para se puder chegar a alguma coisa.
Porque, se não forem todos juntos, não acontece.
Apesar disto, que têm ‘tado a dizer, sim,
o Trump ganhou e o Trump está a fazer muitas ações na América.
Provavelmente pode ter reflexos ou não.
Por isso, a gente tem de estar mais juntos.
Não começou agora com a situação que o Alexandre referiu,
de tirarem os guias,
mas já tinha começado o ano passado
quando o Presidente da República não quis… vetou os nomes Não-binários.

[Raquel]
Humhum.

[Carlota]
Dentro da comunidade Trans,
a comunidade Não-Binária é a maior,
é mais de 50% são pessoas Não-binárias,
precisam também do seu espaço
e também precisam de estar confortáveis na sua vida.
E o nome é o que nos identifica.
Podendo ter o nome que nos identifica,
essas pessoas vão ter uma vida mais confortável.
E, na realidade, é uma coisa que não afeta ninguém.
Não afeta o Presidente, como não afeta qualquer outra pessoa,
se aquela pessoa que nem se conhece se chama Daniel,
Daniela, Dani, não faz diferença nenhuma.
Não faz sentido nenhum ‘tar só a predicar a vida dos outros por nada.

[Alexandre]
Sim.
O nosso nome, como tu dizes, é aquilo que nos identifica.
E eu não… E p’ra mim é difícil de entender o que é que tantas pessoas se acham no direito de decidirem…
É como a questão dos pronomes.
Quer dizer, a forma como uma pessoa deseja ser tratada
é uma questão de respeito.
Não se está a pedir que alguém seja tratado por “Dom Lorde, Senhor Supremo do Universo”.
Não.
Estamos a pedir que tratem as pessoas com respeito.
Eu quero ser tratado por ele.
Ela quer ser tratada por ela.
Aquela pessoa quer ser tratada por elu.
E isto é apenas uma questão de respeito.
E um exemplo que alguém deu há uns tempos atrás, que eu vi, era
quando as pessoas vão à casa de alguém e tem um animal de estimação,
um cão.
“Ah, é um cão.
Ah, é tão fofinho.”
E a pessoa diz: “não, não é um cão.
É uma cadela.
Chama-se não sei quê.”
Ninguém põe em causa.

[Raquel]
Humhum.

[Alexandre]
Ninguém vai…
Ninguém põe em causa.
Ninguém vai continuar a chamar cão,
vão-lhe chamar cadela,
vão-lhe chamar menina,
não sei quê.
Então qual é o problema que as pessoas têm com uma pessoa Trans,
uma pessoa Não-binária, dizer “não, olha, eu não quero ser tratado…”
Aliás, e isto também funciona para outras pessoas.
Por exemplo, eu detesto que me tratem por senhor.
Eu não gosto. Faz-me sentir como se eu fosse um velho de 80 anos,

[risos]

[Alexandre] com todo o respeito às pessoas de 80 anos,
mas eu detesto ser tratado por senhor.
Mas se eu disser a alguém “olhe, não quero que me trate por senhor”
as pessoas respeitam.
É impressionante.
Porque é que quando uma pessoa Trans diz “olha, eu não quero ser tratado por senhor,
eu quero ser tratado por senhora”
ou “eu não quero ser tratado desta forma,
eu sou uma pessoa Não-binária, eu quero ser tratado por elu”,
porquê é que as pessoas fazem tanta confusão?
É difícil, é uma mudança, é diferente daquilo que nos ensinam.,
mas não é nenhum fim do mundo.

[Sofia]
E é uma questão de hábitos e, se as pessoas se esforçarem,
não precisam de muito tempo para mudar o shift [=mudança]
e começam a tratar as pessoas exatamente como elas são
e como querem ser tratadas.

[Alexandre]
Sim.

[Alexandre]
E olha, por exemplo, eu tenho dois nomes.
Nem me importa com um ou com o outro,
mas as pessoas fazem questão de me perguntar
“qual é que é o nome que tu preferes ser tratada?”.
E depois não são capazes de respeitar o nome de uma pessoa Trans?
Não faz sentido.

[Raquel]
Humhum.

[Alexandre]
Exato.
E um exemplo que a minha irmã falava há pouco tempo,
e que nós falávamos aqui no início desta gravação,
por exemplo, as pessoas com nomes compostos, tipo “Maria João”.
E que há pessoas que “ah, eu chamo-me Maria João,
não me importa que as pessoas me chamem João ou me chamem Maria”.
E é interessante, e quantas pessoas não se chamam,
quantas mulheres chamadas “Maria João” não são conhecidas como “a João”?

[Raquel]
Humhum. Muitas.

[Alexandre]
E aqui, para a maioria das pessoas, isto está tudo ok.
Qual é então o problema de alguém chamado João,
querer ser tratado no feminino?
A própria língua, quando as pessoas me dão a desculpa
“ah, mas a língua é assim”, a língua evolui.

[Raquel]
A língua está em constante evolução…

[Alexandre]
O português na sua género tinha três géneros,
masculino, feminino e neutro, tal e qual como o latim.
O alemão tem três géneros.
E no próprio latim, o género neutro, e tal como no alemão,
estava desenhado para ser usado com pessoas.
Se estava desenhado para ser usado com pessoas,
é porque havia uma lógica por trás:
quando não se conhecia o género da pessoa em questão,
ou se calhar, podemos pôr esta hipótese em causa,
para pessoas que não se identificavam dentro do binário.

[Sofia]
Exatamente.

[Alexandre]
Que é como é usado em línguas nórdicas,
que têm os três géneros, como o alemão.

[Sofia]
E voltando aos nomes neutros, existem, em outros países,
qualquer pessoa de qualquer género pode ter aquele nome que é neutro.
Portanto, esses países ainda existem,
não sei porque é que em Portugal temos medo dos nomes neutros.

[Alexandre, em tom de gozo]
São um fantasma que assombra aqui as pessoas conservadoras.

[ligeiros risos]

[Sofia]
Exato.

[Alexandre, em tom cómico] Ai, nomes neutros.

[risos]

[Alexandre]
E as pessoas Trans sempre existiram.
Portanto, isto não é novo.
As questões de género, sendo nós uma espécie bastante social,
estas questões de género já existem há milénios.

[Raquel]
Desde que nós existimos.

[Alexandre]
Desde que nós existimos enquanto pessoas.
Porque o que é ser feminino? O que é ser masculino? O que é ser homem?
O que é ser mulher?

[Raquel]
São construções também.

[Alexandre]
São construções.

[Raquel]
sim.

[Alexandre]
Aquilo que é considerado
“homem” em Portugal, na França há concepções muito diferentes,
na Turquia, noutros países… Há países em que, por exemplo,
um homem cumprimentar outro homem com um beijo na cara
é uma coisa perfeitamente normal.
Em Portugal, se fizer isso, não é considerado um comportamento masculino.
Portanto, há toda esta variação.
Claro que há padrões, pela via da globalização, que se tornaram muito comuns,
mas em cada cultura, aquilo que é ser homem, aquilo que se espera de um homem,
aquilo que se espera de uma mulher, é uma questão cultural.

[Raquel]
Humhum.

[Alexandre]
E que foi evoluindo ao longo de séculos.

[Raquel]
Humhum.

[Sofia]
E que é muito, muito, mais cultural do que biológico.
As diferenças que existem entre o que é suposto ser uma mulher e um homem.
Quando vamos ver, em termos de capacidades, toda a gente tem capacidades para fazer quase tudo,
independentemente de género.
Mas que é logo atribuído “não
esta pessoa tem capacidade para isto, esta pessoa tem capacidade para aquilo”.

[Alexandre]
Isto é tudo uma construção.
E nós vemos isso, por exemplo, há 200 anos atrás,
os homens usavam maioritariamente rosa.

[Raquel]
Humhum.

[Alexandre]
Era a cor de homem, era o rosa, porque era uma cor rubra.
Não é?

[Sofia]
Era a cor dos reis

[Raquel]
Humhum.

[Sofia]
e da nobreza.

[Alexandre]
Exato.
E nós vemos como é que os homens se vestiam, que as pessoas hoje…
Quando tu olhas para aquilo hoje em dia, alguém que olha para aquilo não associa esse tipo de roupa à masculinidade.
Quando vês um retrato de Luís XIV de França, o Rei Sol,
ninguém associa aquilo a masculinidade.
Mas na época, aquilo era o alto da masculinidade:
O uso de salto alto, maquilhagem, perucas, roupas exuberantes.
Isso era visto como algo masculino. 

[Raquel]
Humhum.

[Sofia]
Era visto como forma de poder, até.

[Alexandre]
Exatamente.

[Sofia]
Mas voltando aqui ao tema do episódio, e também porque existe esta dúvida na sociedade,
se calhar seria importante de percebermos aqui a diferença entre identidade de género, orientação sexual e sexualidade.
Então, pedia-te a ti Carlota para falares um bocadinho sobre estes temas.

[Carlota]
Então, estes temas…
A sociedade que a gente tem atualmente é uma sociedade heteronormativa.
Aliás, cis-heteronormativa, para ser mais correta, e em que vê tudo à sua semelhança.
E o que é que acontece?
Nasce um bebé, olha-se a genitália e diz-se que é um homem, que é uma mulher.
Apenas pela genitália exterior.
O que é que isso acontece?
Acontece que há realmente uma genitália, não é o sexo.
O sexo, já agora, queria dizer que é a combinação da genitália com a parte cromossomática, com a parte hormonal.
Todas essas três características vão definir o sexo da criança, que pode ser uma pessoa com sexo masculino, feminino ou uma pessoa Intersexo.
Depois, à parte disso, e não tem nada de ligação a ver com isso, tem-se aa orientação sexual e a sexualidade da pessoa,
em que a pessoa, independentemente da genitália que tem, pode ter atração
(e quando eu falo de atração é o que essa pessoa sente pelas outras pessoas) e ter atração por pessoas idênticas, diferentes ou de todas.
Há um espectro muito grande dentro da orientação e da sexualidade, e como é que essa pessoa a vive.
E independentemente, tanto do sexo quanto da sexualidade, tem a identidade de género.
Que é como uma pessoa se sente e gosta de ser vista na sociedade.
Como é que ela gosta de estar representada na sociedade.
Como é que ela realmente na sua essência se sente.
Sente-se um homem, sente-se uma mulher, no espectro binário, ou uma pessoa Não-binária.
Referindo aqui que Não-binário não é um género. É um espectro de vários géneros aqui dentro.
Aqui dentro vamos ter pessoas Bigénero, pessoas Agénero, pessoas Fluídas, pessoas Queer-género,
vários tipos de género aqui dentro deste grupo também.
E estes grupos todos do género…
Então agora, só para fazer assim uma breve recapitulação,
o género tem a ver com a própria pessoa,
como é que ela se identifica a ela própria, independentemente do resto.
A orientação sexual, como é que ela se atrai com as outras pessoas, ou não.
E o sexo em si,
é aquilo que tem.
E esses três parâmetros não têm qualquer ligação.
Isto para… para dar um exemplo,
antigamente, aqui há uns anos, as pessoas eram chamadas “transexuais”,
por causa dessa ligação que era feita.
“A pessoa mudou de sexo é a uma pessoa transexual.
Uma pessoa identificava-se com um género diferente era transexual.”
Atualmente não se usa mesmo para quebrar essa ligação do sexo com o género,
porque a maior parte das pessoas de transgénero não mudam o sexo.
Há quem o mude, por vários motivos. Há quem não o mude.
No processo, que as pessoas têm atualmente, para
quando se identificam com um género diferente,
leva a que a pessoa se identifique,
questione muitas coisas,
e pode levar também a parte…

[Raquel]
Da sexualidade.

[Carlota]
da sexualidade
ser questionada também
e descobrir novas coisas.
Mas o normal é não mudar também.

[Raquel]
Humhum.

[Carlota]
Um caso,
uma pessoa que foi designada como mulher
e ela sempre se atraiu por homens.
E depois
“não me identifico como mulher,
identifico-me como um homem”.
Não é por isso que agora vai começar a sentir atração por…

[Alexandre e Raquel] Mulheres.

[Carlota]
por mulheres.
Vai continuar na mesma.
A maior parte acontece isso.
Não há uma alteração.
Pode haver sim uma descoberta,
mas não há alteração da parte sexual [normalmente].

[Alexandre]
Sim, até porque a tua sexualidade não influencia a tua expressão de género necessariamente, não é?
Como tu disseste,
a tua expressão de género,
o teu género,
é como é que tu te sentes,
como é que tu queres ser vista na sociedade,
como é que tu és percepcionada.
E isso também pode ter ou não a ver com o teu corpo.

[Carlota]
E depois ainda tem aqui outra questão,
que já referiste,
e também quero salientar,
que é a expressão de género,

[Sofia]
Exatamente.

[Carlota]
que ainda é diferente a identificação de género.

[Raquel]
Humhum.

[Carlota]
Porque eu posso me identificar com um género
e ter uma expressão diferente.

[Alexandre]
Sim.

[Carlota]
Conheço vários homens,
que se identificam como homens,
não deixam de ser,
mas gostam de ter uma expressão feminina.

[Alexandre]
Sim.

[Carlota]
Então é a expressão deles.
Gostam de ter uma expressão mais feminina,
mas não deixam…
não é por isso que o seu género muda,

[Alexandre]
Exato.
porque eles não se identificam com outro género.
E o mesmo acontece ao contrário,
muitas mulheres também gostam de ter uma expressão mais masculina.
Não é por isso que são homens,
ou que têm que ser identificadas como homens
ou como pessoas Trans,
porque não é o caso.
Já agora, salientando,
o que é que é uma pessoa Trans,
para quem nos está a ouvir,
uma pessoa Trans
é uma pessoa que não se identifica total ou parcialmente
com o género que lhe foi atribuído.

[Raquel]
Humhum.

[Carlota]
Logo, dentro disso,
se uma pessoa começa com um questionamento.
e não se identifica com aquilo que lhe foi atribuído,
está dentro de uma pessoa Trans,
que pode ser binária
ou pode ser Não-binária.

[Alexandre]
E dentro disso,
depois toda a sua expressão de género
e há toda uma série de vivências Trans
que são diferentes.
Há pessoas…
E há muito aquela questão
de tentar só validar a experiência Trans
quando a pessoa faz tudo aquilo que as pessoas, na sua cabeça, acham…
Não.
Há homens Trans que fazem faloplastias
e homens Trans que não fazem faloplastias.
Há mulheres Trans que fazem vaginoplastias
e outras que não fazem.
E não são mais nem menos

[Raquel]
Homens ou mulheres.

[Alexandre]
Trans,
ou mais ou menos válidas por isso,
porque cada pessoa vive
a sua vivência Trans
e o seu género
e a sua expressão de género
à sua própria maneira.

[Carlota]
Exatamente.
Já agora pegando nisso,
então, antigamente,
havia muita transfobia dentro da comunidade Trans,
porque as pessoas,
a comunidade quase que obrigava toda a gente
a ser passável.
O que é isto de ser passável?
É uma pessoa Trans
que tem que ser idêntica às pessoas Cis,
e tem que passar na sociedade
sem chamar a atenção.
E isto era quase uma obrigação.
Para uma pessoa se dizer que era “transgénero”
quase que tinha que fazer a vaginoplastia,
ou a faloplastia,
e tinha que ser completamente passável.
Felizmente,
hoje,
a comunidade já não faz isso,
pelo menos [não] tanto.
E…
A visibilidade Não-binária está aí,
a começar devagarinho.
E as pessoas podem se identificar
como se identificam,
e ter a expressão de género que se tem,
porque se não acontecia
o que as pessoas Trans
lutavam para que não acontecesse.
Eu vou dar um bocadinho da minha história.
Eu durante 45 anos
fui quase que obrigada
a interpretar uma persona,
para poder estar integrada na sociedade.
Mas se agora,
para poder viver a minha…
a minha essência,
me obrigassem a viver uma outra persona
diferente,
não ia estar a viver a minha essência
na mesma.

[Alexandre]
Claro.

[Carlota]
Então essa obrigação não deve ser posta em causa.
É muito chato dizerem que uma pessoa Trans
tem que fazer todo um procedimento, como se o procedimento
fosse uma coisa fixa,
que tem um início e que tem um fim.
Isso não existe. Há toda uma
desconstrução, uma desconstrução interna,
uma desconstrução de várias coisas
que vão acontecendo durante a vida, para a pessoa
chegar à sua essência e poder vivê-la.
E quando uma pessoa consegue viver essa essência
é muito feliz, muito mais produtiva, com relacionamentos
muito melhores.
Não falo de relacionamentos afetivos ou amorosos,
mas de todos eles.

[Alexandre]
Mesmo amizades, no trabalho, na sua vida…

[Carlota]
Em todo lado, porque não passa a maior parte do tempo
a tentar representar uma pessoa que não é.

[Sofia]
Exatamente.

[Alexandre]
É um pouco uma conversa, que já falámos noutros episódios, quando uma pessoa tem liberdade para ser quem é,
tudo na sua vida flui muito melhor
E isso que tu falas, da questão que ‘tavamos a falar é importante.
Eu conheço, por exemplo, casos de mulheres Trans
que, por exemplo, a irem a uma loja
comprar roupa feminina, pessoas que ‘tão lá a trabalhar na loja irem perguntar
“Ai, é Trans! Ai, já fez as cirurgias todas?”

[Raquel]
Sim. Isso é…

[Alexandre]
É tipo…

[Raquel]
É toda uma obsessão que a comunidade,
infelizmente
no geral,
como nós a conhecemos é Cis, portanto
isso é mesmo uma obsessão das pessoas Cis, que têm
dalguma maneira “validar” as pessoas Trans só depois de
passarem pelas cirurgias para, de certo modo, serem mais
Cis possíveis ou, como a Carlota disse, passáveis.
Quando não é, lá está, mais uma vez não é a realidade, porque a partir do momento em
que tens que ser obrigado a fazer algo para os outros
e não para tu te sentires bem
deixa de ser a tua própria verdade. E eu acho que muito…
Cada vez mais as pessoas Trans percebem que, se calhar, muitas vezes fazem operações
porque querem essa validação das pessoas Cis, e não tão
a ser livres por causa disso. E
a partir desse momento perdem a sua própria liberdade
de “não, eu sou um homem
com vagina” “eu sou uma mulher com pénis”.
Tipo, a Linn da Quebrada tem uma música
sobre isto [ligeiro riso], que eu sou uma mulher
com pau. E esta obsessão com perguntar…

[Alexandre]
Com a genitália das outras pesoas…

[Raquel]
com agenitália e com as operações e com tudo mais é extremamente invasivo e…

[Alexandre]
Vê-se isto quando se toca no tema das casas de banho,
que é tipo: eu quando vou a uma casa de banho,
eu vou lá para fazer o que eu tenho a fazer

[Raquel]
Exato. [Alexamdre] lavar as minhas mãozinhas
e sair. Eu não me
interessa se no stall, se na cabine,
ao meu lado, se a pessoa tem um
pénis, se tem uma vagina. O que é que isso me interessa?

[Raquel]
Claro.

[Alexandre]
Eu vou lá para fazer o que tenho a fazer.
Tipo, cada pessoa vai à casa de banho
para suprir as suas necessidades,
portanto o que é que interessa se ao meu lado está uma pessoa
com um pénis, uma pessoa com uma vagina,
o que é que isso interessa?

[Raquel]
Sim, o que é que isso muda na vida da
outra pessoa que ’tá lá?

[Alexandre]
Eu não vou usar
a genitalia da outra pessoa para suprir [risos]
as minhas necessidades na casa de banho [risos]
não é?

[Raquel]
Sim, quando vêm sempre
com a desculpa de “ah, mas o quê?
agora vamos ter
casas de banho públicas neutras.
e o que é que vai acontecer a seguir?
casas de banho públicas, casas de banho
neutras em casa?”.
Literalmente todas as casas têm casas de banho
neutras…

[Alexandre]
Os aviões têm casa de banho neutras…

[Sofia]
Os restaurantes…

[Alexandre]
E na minha escola primária…

[Raquel]
Exato, não é uma desculpa

[Alexandre]
Na minha escola primária, e em várias universidades
antigas pelo país, as casas
de banho são mistas.
Na escola em que eu andei na escola primária
era uma casa de banho mista, para crianças e adultos.
E tinhas
uns lavatórios ao centro,
tinhas cabinezinhas com portas.
Cada pessoa ia lá, fazia o que tinha a fazer
saíamos, lavávamos as mãos.

[Raquel]
Claro.

[Carlota]
E se repararem, as casas de banho
para as pessoas com deficiência
são neutras.

[Raquel]
Humhum.

[Carlota]
Nem vão pensar em gastar, que são casas de banho
com uma arquitetura diferente e adaptações
diferentes, não vão fazer duas,
uma está de bom tamanho.

[Alexandre]
Sim… Eu sou do tempo, não sei se isso ainda existe,
em que o shopping Vasto da Gama
tinha casas de banho para crianças
e essas eram mistas.

[Raquel]
Humhum.

[Alexandre]
Portanto, não percebo qual é a aflição
das pessoas com casas de banho…

[Raquel]
Sim, são discursos que claramente vêm da extrema-direita
e que infelizmente têm sido cada vez mais
publicamente…

[Sofia]
Disseminados…

[Raquel]
visíveis
e que mais uma vez são só uma distração
para as coisas más que essas pessoas
realmente querem fazer no mundo.

[Alexandre]
Sim, até porque vamos pela parte importante,
que é: alguém que queira fazer mal a alguém,
não é por ter uma placa à porta da casa
de banho a dizer que só podem entrar
mulheres, que um violador vai olhar e dizer
“não, eu vou ficar aqui à espera como um bom violador,
não posso entrar porque isto é só para mulheres,
eu fico aqui à espera para violar aqui à porta”.

[Raquel]
Humhum.

[Alexandre]
Não, uma pessoa que queira fazer mal a alguém…

[Sofia]
Vai fazê-lo…

[Alexandre]
vai fazer.

[Carlota]
Além disso, agora deixa-me
dizer também, porque é muito mais perigoso.
Uma pessoa Trans é uma pessoa por si mais vulnerável, mais discriminada,

[Raquel]
Humhum.

[Carlota]
se obrigam a ir a uma casa
de banho, que é um sítio sem vigilância,
ir a um sítio… Imaginem
uma moça, uma adolescente
de 16 anos,
que é obrigada a entrar na casa de banho dos homens.
O que é que pode acontecer ali?

[Alexandre]
Exato.

[Carlota]
Num sítio sem vigilância…
Já é uma pessoa, que por si já é marginalizada,
isso é perigoso!

[Alexandre]
Sim, sim!

[Sofia]
Sim.

[Alexandre]
As formas de violência
a que pode ser sujeita, a violência que pode sofrer.
E o reverso também, não é?
Por exemplo, os homens Trans. Nunca se costuma falar,
porque isto é um ataque claro às mulheres Trans
nestas questões.
Mas os homens Trans também a serem obrigados
a ir às casas de banho femininas,

[Raquel]
Humhum. É uma violência.

[Alexandre]
também certamente é uma realidade complexa, não é?

[Sofia]
Inclusive já vi vídeos
de homens Trans
a retratarem isso, de
quando entram numa casa de banho feminina,
é normal que as mulheres que lá estão
olhem em preocupação
e têm sempre com aquela… do género…
“Eu tenho que estar aqui”.
a pessoa fica “eu tenho que estar aqui”,
porque foi obrigada
e está a tratar-se mal a si própria
e a deixar as outras mulheres também preocupadas.
cc E as outras mulheres às vezes ainda tratam mal

[Raquel]
Sim, e ‘tão vulneráveis a violência.

[Sofia]
Exato.

[Carlota]
Se o caso do homem for mais passável

[Raquel]
Humhum.

[Carlota]
e se vir uma pessoa entrar de barba
com certeza vão dizer
“o que é que vai fazer o homem aqui dentro?”.

[Raquel]
Humhum.

[Alexandre]
Sim.

[Carlota]
E vão tratar-lhe mal.

[Sofia]
E aí já vêem a pessoa como homem.

[Alexandre]
E entramos numa outra questão que é: o problema são as pessoas Trans ou são os comportamentos que são muitas vezes esperados

[Sofia]
dos homens Cis

[Alexandre]
dos homens?

[Raquel]
Humhum.

[Sofia]
Homens Cis.

[Alexandre]
Dos homens Cis, exatamente.

[Raquel]
Humhum.
Portanto… E isto é
querer arranjar um problema,
um bode expiatório,
sem tocar naquele que é efetivamente o problema.

[Raquel]
Que é a realidade.
E as pessoas muitas vezes que acabam por exercer
essa violência são homens Cis.

[Alexandre]
Exato! E isto não quer dizer que os homens Cis
sejam pessoas más,
mas é preciso enfrentar o problema
e tocar. Efetivamente, a maior parte
das violações

[Raquel]
Humhum.

[Alexandre]
são perpetradas
por homens Cis

[Raquel]
Humhum.

[Alexandre]
e é importante falar sobre isso,

[Calota] E dos assassinatos…

[Alexandre]
perceber o que é que está por trás.
É a construção da sociedade
que nos molda neste sentido.
Não quer dizer que o problema sejam os homens em concreto.
Felizmente nem todos os homens são assim,
mas é preciso perceber que
por trás existe um problema de construção da nossa sociedade,
que faz com que estes problemas
aconteçam desta forma.

[Sofia]
Mas aqui, voltando
ao tema do episódio da visibilidade Trans
e porque também não é
tudo negativo e nós queremos muito
reforçar as coisas positivas,
vou passar então à Carlota,
para nos falar desta parte

[Carlota]
Então, a vivência Trans
assim, num aspecto bem geral,
é uma vivência em que as pessoas
se desconstroem e que as pessoas
conseguem viver a sua essência,
aquilo que são, apesar de todos os medos,
apesar de
todos os constrangimentos
que possam aparecer.
E vou parafrasear aqui
a frase duma amiga minha,
que hoje eu subscrevo,
na altura não subscrevia, mas hoje subscrevo
pela minha experiência,
se eu tivesse a oportunidade de renascer novamente,
eu ia querer ser Trans outra vez.
Porque a experiência,
apesar de não ser fácil,
é maravilhosa.
Maravilhosa no sentido
em que nós realmente nos conhecemos,
nós desconstruímos muitas coisas
e não vivemos
balizados pelo que a sociedade
nos obriga.

[Alexandre]
E mesmo passando dificuldades,
que é normal (não é?), cada pessoa tem a sua experiência,
também há o lado positivo.
Nem tudo é mau.

[Carlota, em concordância] Não.

[Alexandre]
Por muito que haja muita agressão,
muita coisa,
também há o lado positivo que é importante forcamos.

[Carlota]
Sim, mas a agressão
e os discursos transfóbicos
é algo que a extrema direita
preconiza,
que muita gente gosta de falar deles,
mas não é o pleno
e não é a vivência na sociedade
no seu todo.
E queria salientar também uma coisa,
quando a gente olha muito para os media,
os media e a minha parte são
feitos, e os diretores dos jornais,
das televisões, são pessoas cis.
Não sabem o que é a vivência Trans,
não sabem o quanto implica,
e vão enfatizar sempre aspectos negativos.
O ano passado
saiu uma série de notícias de pessoas
que fizeram cirurgias
que queriam e correu mal.
Não salientaram
as centenas de cirurgias foram feitas
que as pessoas ficam satisfeitíssimas
e têm uma vida muito mais plena pelas fazerem.
Mas disso não falam.
Não falam em quanto uma pessoa Trans [que faz o seu processo]
consegue ter uma vida muito mais plena e muito mais feliz,
com relacionamentos muito mais completos,
não falam.
Só se quer falar das partes negativas,
do que correu mal,
e essa não é a totalidade.
Existe, é um facto.

[Alexandre]
Até porque as cirurgias de afirmação de género
são das cirurgias com menos taxa de insatisfação.

[Carlota]
E já agora
deixa-me salientar uma coisa,
“cirurgias de afirmação de género”
é um termo
que foi utilizado, e é utilizado,
porque foi criado por pessoas Cis.

[Alexandre]
Exato.

[Carlota]
Não são as cirurgias
que me afirmam o meu género.
Eu afirmo o meu género,
independentemente de ter as cirurgias.
Não é essa parte
que me afirma.

[Alexandre]
Qual é o termo que consideras melhor?

[Carlota]
São cirurgias
estéticas ou são cirurgias de,
no caso, de transfeminização
ou de transmasculinização,
para que me sinta melhor
com o meu corpo.
Assim como um outro termo, já agora vou dizer
é controverso dentro da comunidade,
mas eu também não gosto
que seja utilizado,
que é o termo de “transição”.
Eu não transicionei.
Eu não era um homem
para transicionar para uma mulher.
Eu fui uma mulher
que tive que viver como um homem durante muito tempo
e agora consegui fazer
o meu coming out, sair do armário.
Nunca fui um homem.
E quando a gente usa, especialmente a comunidade,
usa o termo transição,
quem ouve,
o receptor dessa mensagem,
vai automaticamente associar
que era uma coisa
e passou a ser outra.

[Alexandre]
Como se fosse uma transformação.

[Carlota]
Como o que era e o que é depois.

[Alexandre]
Exato.

[Carlota]
E isso não é uma realidade.
A realidade é que foi atribuído um género,
uma série de circunstâncias,
que fizeram com que aquela pessoa
tivesse uma vivência
dentro daquele estereótipo de género.
E essa pessoa, a determinada altura
da sua vida, quebrou isso
porque não se encaixava ali. Não é bem uma descoberta
também, mas é um empoderamento
de dizer
“basta, eu não caibo nesta caixa,
esta caixa está-me a deixar desconfortável
demais”.

[Sofia]
É uma libertação.

[Carlota]
E de libertação, é
mais esse.

[Alexandre]
Exato.

[Carlota]
O termo correto seria mesmo este,
de libertação, do que transição ou de descoberta.
Descoberta claro, vai acontecendo,
porque o que normalmente acontece
é que as pessoas a determinada altura
vêem que não encaixam,
uns mais cedo, outros mais tarde, é que vêem “mas eu não sou igual
aos meus pares,
eu não me encaixo com os meus pares,
eu não me encaixo bem em lado nenhum”.
O que acontece, se não houver um apoio,
especialmente nas fases de infância
e adolescência, essas pessoas vão se isolar.
Se havendo um apoio
não, essa pessoa já consegue encontrar pares,
já se consegue libertar
mais facilmente dessa carga.

[Alexandre]
E para haver, então, também esse apoio,
também é importante a visibilidade,
em que tu deres o enfoque
nesta exposição que falámos,
da “Essência Trans” que foi importante,
que ainda não referimos, que foi organizada por ti.

[Carlota]
sim, foi realizada,
foi organizada, foi fotografada
e todo o procedimento
é uma exposição
em que se tenta focar
nas pessoas e na sua essência.
Em que se foge
muito à expressão de género,
ninguém consegue saber
qual é a expressão de género
ou qual é que realmente é o género
de cada pessoa que está fotografada.
No entanto, vamos ver os rostos
das pessoas. E pronto,
e ‘tando na exposição toda a gente parte do
pressuposto que é toda a gente Trans, Trans
binária ou Não-binária, há
ali pessoas binárias e pessoas Não-binárias
retratadas, em que se passa
a sua essência, as pessoas como elas são
como elas gostam de estar no seu dia a dia,
independentemente de expressão,
independentemente
da orientação sexual
ou do próprio sexo,
que não é retratado. É só retratada a pessoa
e tentei que esses retratos passassem
a própria essência das pessoas,
como elas se sentem, como elas são.

[Alexandre]
E que é também importante.

[Carlota]
E já agora, de referir, que a exposição
está patente no centro
LGBT, durante o mês de março.
Começou dia 1, há de ir até dia 31,
para quem quiser visitar…

[Raquel]
Rua dos Fanqueiros, n.º40.

[Alexandre]
Exatamente! Falando também sobre isso,
também é importante o trabalho
de organizações como o GRIT,
o Grupo de Reflexão e Intervenção de Trans.

[Carlota]
Sim, o GRIT
é um grupo de reflexão e intervenção;
ele assenta em três pilares:
no GAP,
no Grupo de Apoio e Partilha,
para quem se identifica, para quem está em questionamento,
para ser um grupo
de partilha entre pares,
em que as pessoas
contam as suas experiências, ou só ouvem,
e as outras pessoas também dão sugestões
e também partilham as suas histórias,
e isso é importante para
as pessoas poderem crescer
e para as pessoas poderem… sentirem que estão em comunidade.
Uma outra parte,
do GRIT, é a parte do
Grupo de Reflexão e Intervenção.
É uma parte mais política,
não uma política partidária,
mas uma política daquilo que a gente faz todos os dias,
e sendo um grupo mais reflexivo,
sobre como é que as coisas estão
e o que é que podemos fazer
para que as coisas possam [estar] melhor
e refletir sobre elas.
E uma outra terceira parte,
que é uma parte até mais social
e também comunitária,
que é pegar algumas ideias do GRIT,
ou ideias próprias, e criar atividades.
Atividades não só para dentro da comunidade, mas para fora da comunidade também,
como estes eventos todos
do Mês da Visibilidade [Trans],
outros eventos que havemos fazer,
tanto integrados no Arco-Íris no Jardim,
no Arraial,
no Europride.
Onde quer que a gente possa ir fazer
a nossa visibilidade,
lá estaremos com certeza.
E outras atividades propostas pelas pessoas que fazem,
que querem fazer algum tipo de atividade:
querem fazer, organizar uma festa,
querem organizar um workshop,
quero mostrar as minhas coisas,
a gente também organiza,
com o apoio
e, sim, com muito apoio da ILGA [para]
conseguir fazer com que essas coisas aconteçam.

[Alexandre]
E que é tão importante para esta visibilidade
e para este sentimento de
pertença
e de apoio,
e, lá está, a mostrar este lado positivo,
que também existe das coisas.

[Carlota]
Sim, porque é só mesmo em grupo
e nesse sentimento de pertença
e o sentimento de família.
O slogan da ILGA, eu gosto muito,
porque é “Familga”.
E realmente muitas vezes a família é ali.

[Raquel]
Humhum.

[Carlota]
É ali com pessoas onde a gente se consegue conectar,
que nos apoiam quando a gente precisa
e que celebram connosco as nossas conquistas.

[Alexandre]
A família que nós escolhemos

[Raquel]
Humhum.

[Alexandre]
às vezes é muito mais
importante nas nossas vidas
do que a família que nós não escolhemos.

[Carlota ri]

[Raquel]
Humhum.

[Sofia]
Exatamente.
E fechamos, então,
este episódio com o reforço
da importância
de termos pessoas que nos apoiem
e sejam da nossa família de sangue,
sejam a nossa família escolhida,
e da importância da visibilidade Trans.
E reforço o convite
para que todas as pessoas venham à marcha,
inclusive, para quem está em Lisboa,
vai haver um convívio no Centro LGBT, pós-marcha.
Relembrar ainda que as pessoas Trans
fazem também parte da Bissexualidade
e da Pansexualidade,
tanto que a Carlota é uma mulher Trans
que se identifica enquanto Bissexual.
E nós também já referimos, em episódios anteriores,
que as pessoas Bissexuais podem sentir-se atraídas
por pessoas Trans,
não estão excluídas da Bissexualidade.

[Alexandre]
Os nossos episódios saem na 2.ª sexta-feira
de cada mês,
o próximo é dia 11 de abril.

[Todes]
Venham Bialogar connosco!

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