#10 – Orgulho e Bifobia

Neste episódio falamos de Bifobia no mês do Orgulho (e no resto no ano), Black Pride e orgulho bissexual, com alguns spoilers do próximo mês de setembro!

Vem Bialogar connosco! 💗💜💙

Publicação: 11/07/2025 | Duração: 54min 11s | Produção: 12h | Legendas: no YouTube
Avisos: Contém menções de bifobia, apagamento Bissexual, homofobia, invalidação, invisibilidade, preconceitos, discriminação e bullying. Contém breves menções de racismo, xenofobia, capacitismo, machismo e transfobia.

Não houve pessoas convidadas neste episódio.

Personalidades

  • Fletcher: Cantora Queer Estadunidense.
  • JoJo Siwa: Cantora, dançarina, atriz e youtuber Queer e Não-binárie Estadunidense.
  • Pedro Sampaio: DJ e cantor Bissexual Brasileiro.
  • Billie Eilish: Cantora e compositora Bissexual Estadunidense.
  • Cara Delevingne: Modelo e atriz Queer, Pansexual e de Género-fluído Inglesa.
  • Ashley Benson: Atriz, realizadora e modelo Bissexual Estadunidense.
  • Halsey: Cantora, compositora e poetisa Bissexual Estadunidense
  • Lady Gaga: Cantora, compositora e atriz Bissexual Estadunidense
  • Alexandre O Grande: Foi um rei da Macedónia e Bissexual.
  • Freddie Mercury: Foi um cantor, pianista e compositor Bissexual Britânico.
  • Pilar Monteiro: Primeira mulher Trans cadeirante em Portugal e atleta federada de boccia.
  • Raquel: Ativista Queer-feminista Pansexual, dinamizadora do projeto cultural Queer as fuck.
  • Carlota: Mulher Trans Bissexual, ativista, fotografa, co-cordenadora do GRIT – Grupo de Reflexão e Intervenção Trans.
  • Daniela Costa: Jornalista Lésbica Luso-canadense.
  • Diego Jesus: Homem Trans, Bissexual e Personal Trainer Português.

Livros

  • “Os Sete Maridos de Evelyn Hugo”, de Taylor Jenkins Reid

Eventos e Datas

  • Dia da Visibilidade Bissexual: 23 de Setembro
  • Dia Internacional contra a Homofobia, Bifobia e Transfobia / Dia Internacional contra a Homofobia, Bifobia, Interfobia e Transfobia / Dia Internacional contra as LGBTfobias / IDAHOBIT (International Day Against Homophobia, Bifobia and Transfobia): 17 de Maio

(em edição)

[Alexandre] Alô, alô, sejam bem-vindes ao décimo episódio do podcast bialogar.
Eu sou o Alexandre.

[Sofia]
E eu sou a Sofia.
E neste episódio vamos falar sobre biofobia no mês do Pride.

[Alexandre]
E não só.

[Sofia]
E não só: no antes, no durante e no após.

[Alexandre]
E já agora, Sofia, já foste a bialogar.pt ?

[Sofia]
Temos um site?!

[Alexandre]
O coming out foi no final do mês de junho, progressivamente.
Mas sim, já temos um site.
Quem nos está a ouvir, podem aceder em bialogar.pt .
Já temos lá, neste momento, as informações sobre os nossos episódios.
Podem consultar as transcrições, quem foram as nossas pessoas convidadas,
referências que falámos no nosso episódio, sejam personalidades, personagens, livros.
Podem encontrar os trigger warnings [= avisos] dos episódios.
Brevemente, vamos também começar lá a partilhar notícias de coisas que estejamos aqui a fazer.
A versão em inglês ainda está em construção, assim como a tradução das nossas legendas para inglês.
Mas muito mais também nos espera, Sofia, não é?

[Sofia]
É verdade. Eu já tinha ido ao site e devo dizer que está muito bonito.
As cores da bandeira Bi ajudam.
Nós também gostaríamos de adicionar um menu para uma espécie de arquivo Bi,
onde queremos deixar-vos todas as referências que conhecermos sobre figuras históricas, livros, músicas, etc… ,
que se refiram à Bissexualidade.
E também pedimos que nos ajudem neste trabalho e que aquilo que conhecerem e gostassem de ver neste arquivo,
deixem nos comentários.

[Alexandre]
Sim, o objetivo é ser uma construção para toda a comunidade.
Termos também links para outras associações e coletivos, em termos de
apoio. E muito mais que pode ainda estar para vir,
mas disso falaremos na altura certa.

[Sofia]
Para as pessoas que nos viram nas banquinhas e também pediram um link para os stickers,
ainda não estão disponíveis no nosso site,
mas também estamos a pensar em eventualmente adicionar essa pequena lojinha online.

[Alexandre]
Sim, para nos poderem ajudar a contribuir para a continuidade deste projeto.
Visitem-nos em bialogar.pt .
Deixem os vossos comentários.
Se tiverem também sugestões de conteúdos ou melhorias que possamos fazer,
deixem-nos também
em mensagem no Instagram.

[Sofia]
E passando, então, para o episódio de hoje,
porquê que no episódio de julho estamos ainda a falar em junho?
Porque no mês de junho, ao contrário do que seria de esperar,
porque deveria ter sido um mês de celebração, de Orgulho para toda a comunidade,
deparamos-nos sempre com muitos exemplos
em que as pessoas Bissexuais continuam a ser rejeitadas da celebração deste mês,
principalmente quando se relacionam com pessoas de género oposto.
Portanto, o mês de junho é um mês em que as pessoas Bissexuais são lembradas muitas vezes
de que só são consideradas válidas pela comunidade LGBT
se estiverem a relacionar-se com alguém do mesmo género.

[Alexandre]
Até porque tu reparas que o foco que acontece muitas vezes com as celebrações durante o mês de junho,
ainda há bem pouco tempo houve o Pride em Budapeste
e os jornais portugueses tratam aquilo como “a celebração dos direitos Gays”.
Eu sei que há pessoas que utilizam como um termo abrangente,
mas é preciso entender que para fora da comunidade esse termo não é necessariamente abrangente.
E as pessoas quando veem aquele termo tentam encapsular todas as identidades da comunidade lá dentro
e nem todas as pessoas se identificam com esse termo.
Obviamente é um dia de celebração da Homossexualidade e das pessoas Gays,
mas também é das Lésbicas, também é das pessoas Bissexuais e das pessoas Trans,
das pessoas Pans, das pessoas Assexuais, das pessoas Não-binárias, das pessoas Agénero,
entre outras identidades.
E muitas das vezes,
isto para algumas pessoas, pode não refletir essa diversidade.
É preciso demonstrar que somos uma comunidade diversa.
E depois tu também vês que muitos festejos são virados muitas das vezes para os grupos dentro da comunidade
que já têm muita visibilidade, que continuam a precisar dela obviamente,
mas sinto que muitas das vezes abafa outras identidades da comunidade que também precisam de visibilidade.

[Sofia]
Sim, e mesmo não só outras identidades Queer, mas por exemplo também identidades negras,
outras identidades que nem sempre têm espaço
naquilo que é o chamado Pride.

[Alexandre]
As pessoas com deficiência.

[Sofia]
Exatamente.

[Alexandre]
As pessoas neurodiversas que, da própria comunidade, muitas das vezes nem todos os eventos
têm a capacidade de, ou às vezes a consciência de perceber que os eventos têm que se adaptar a todas as pessoas.
E quantos eventos é que nós temos que não são acessíveis a pessoas com cadeiras de rodas
ou com dificuldades de locomoção e que os percursos não são pensados nessas pessoas.
Quantas vezes é que se percebe que não há qualquer, ou que não se tem tanto em conta,
pessoas neurodivergentes, especialmente com autismo e outras situações neurosensíveis
e é preciso haver essa consciência e sinto que isso fica muito esquecido.

[Sofia]
Exatamente.

[Alexandre]
E também existem pessoas Bissexuais negras, pessoas Bissexuais com autismo,
pessoas Bissexuais com deficiência, pessoas Bissexuais que se interseccionam com outras identidades,
sejam ou não da comunidade, e é preciso perceber que quando estamos a invisibilizar a sua Bissexualidade,
também estamos a afetar a pessoa como um todo.

[Sofia]
Exatamente.
E nós estamos a falar de pessoas Bissexuais porque o podcast é sobre pessoas Bissexuais maioritariamente,
mas isto também acontece noutras identidades da comunidade.
Esta exclusão, em certa medida, ou falta de inclusão, porque às vezes não é uma exclusão propositada,
de pessoas negras, pessoas com deficiência, pessoas neurodivergentes.
Mas aquilo que eu vejo a acontecer com pessoas Bis é que para além desta falta de inclusão,
ou às vezes não se incluir em termos de palavras, ou às vezes não se falar sobre,
para além desta invisibilidade, acontece mesmo uma exclusão explícita das pessoas serem rejeitadas
de espaços Queer, sendo Bissexuais, quando se relacionam, por exemplo, com pessoas do género oposto.

[Alexandre]
Queres explicar melhor, até se calhar com algum exemplo?

[Sofia]
Também vou querer falar de exemplos específicos, mas assim, neste junho que passou, diria que o exemplo que se falou mais,
a nível de redes sociais e do mundo da música e etc, por exemplo, foi a Fletcher,
que foi bastante criticada por lançar uma música sobre um relação, sobre um namorado, que ela tem neste momento,
e que muitos dos comentários que vi foi de género “mas lançar uma música sobre um namorado no mês do Orgulho”,
como se uma mulher Bissexual não pudesse falar do seu namorado no mês do Orgulho.
Como se não continuasse a ser Bissexual tendo um namorado.

[Alexandre]
Como se isso invalidasse a sua Bissexualidade de alguma forma,
ou como se ter um namorado, de repente, fosse o fim do mundo.
Parece que uma pessoa Bissexual não pode ter um namorado.

[Sofia]
E a música, e as introduções que ela fez à música,
do género “vais continuar a gostar de mim se souberes quem eu sou”,
até é um bocadinho já a falar e a antecipar este ódio que ela sabia que ela ia receber.

[Alexandre]
Esta bifobia toda…

[Sofia]
Sim, sim.

[Alexandre]
E um certo receio que algumas pessoas Bissexuais têm, porque isso reflete o receio das pessoas Bissexuais em assumirem a sua Bissexualidade.

[Sofia]
Sim, constantemente.

[Alexandre]
A sua invaliação quer pelos parceires, pelas pessoas com quem se relacionam,
quer pelas pessoas à sua volta, dentro e fora da comunidade.

[Sofia]
Constantemente. Eu faço muitos eventos dentro do ativismo, eventos sobre toda a comunidade.
Acabam por ser eventos mais virados para mulheres, sendo eu mulher porque me identifico mais,
mas sobre toda a comunidade, comunidade Bissexual independentemente de género,
outras identidades em que eu possa colaborar com pessoas nessas conversas,
mas há sempre aquele receio de “ok, eu agora estou a participar nestes eventos, nestes espaços queers,
estou a ser bem recebida.
Se eu tivesse um namorado, será que continuaria a ser bem recebida nestes espaços?”

[Alexandre]
Humhum. Também já pensei sobre isso que estás a falar, porque eu sinto que acontece-me, como estávamos a falar antes de gravar,
acontece-se mais essa invalidação nas mulheres, neste sentido que estamos a falar,
mas questiono-me também até que ponto é que não acontece com homens Bissexuais que estão com namoradas,
porque isso também acontece e há casos disso e tivemos quem também nos primeiros episódios nos falasse sobre isso,
quer nos comentários, quer em conversas pessoais, de haver também essa questão
e estes comentários virem de dentro da própria comunidade, acho que até o que mais me assusta,
porque de fora da comunidade eu sinto que no geral já estamos habituades, todas as pessoas da comunidade,

[Sofia]
Sim.

[Alexandre]
mas eu sinto que é mais assustador quando são comentários que vêm de dentro da própria comunidade
a atacar outras identidades da comunidade.

[Sofia]
Inclusive eu já escrevi um bocadinho sobre isso em alguns posts no meu blog,
porque foi uma coisa que desde muito cedo que observei.
Uma pessoa fica contente quando percebe “ok, afinal há outras pessoas como eu,
há pessoas que também gostam de pessoas do mesmo sexo como eu”
e depois chega lá à suposta comunidade a que pertence para perceber que não,
que aqui também não me compreendem, que aqui também não me aceitam totalmente,
porque há uma parte de mim que também é atacada dentro deste espaço.

[Alexandre]
Sim, e por exemplo, isso assusta um bocado no sentido em que acho que revela uma falta de empatia das pessoas,
porque por exemplo, eu não sou Trans, tu também não, mas eu acho que qualquer um de nós consegue,
até certo ponto, porque não temos a vivência de uma pessoa Trans,
mas conseguimos empatizar e perceber as dificuldades que essa pessoa passa.

[Sofia]
Sim.

[Alexandre]
E perceber que partilhamos flagelos e problemas na sociedade com essas pessoas.
Podemos não partilhar todos, mas partilhamos vários e conseguimos perceber o quão essas pessoas são discriminadas.
Eu não sou negro, mas consigo perceber também os flagelos que essas pessoas vivem
e como muitas dessas coisas se interseccionam também com aquilo que uma comunidade que é menosprezada,
que é marginalizada, sofre.
E é, sofremos todos os mesmos preconceitos?
Não, mas conseguimos perceber que há coisas que nos afetam em comum.
E para mim, quando eu olho para essas coisas que nos afetam em comum,
é isso que me motiva a lutar junto com essas pessoas pelos seus direitos.
Porque é do estilo: ok, eu não sei o que é a vivência Trans,
mas como tenho vários amigos Trans, como tenho familiares Trans,
essas pessoas falam comigo e eu percebo o que é que essas pessoas vivem.
Eu entendo e empatizo com isso.
Então: ok, eu vou também usar o meu espaço para falar sobre essas pessoas,
para também dar voz a essas pessoas e para lutar também para essas pessoas,
porque temos problemas em comum.
E acho que isto é uma tomada de consciência que muitas pessoas não têm.
Mas assusta-me quando é especialmente dentro da comunidade,
porque devíamos unir-nos, enquanto comunidade,
para alcançarmos, lá está, estes objetivos que nos são comuns, os direitos,
que são problemas que nos afetam a todos.
E não acontece isso.

[Sofia]
Exatamente.
Eu acho que esse exercício de empatia deve ser feito independentemente de termos amigos ou não,
daquelas identidades.

[Alexandre]
Sim, sim, sim.

[Sofia]
E que falha muito, por vezes, das pessoas também não quererem compreender
ou por também terem feridas suas e inseguranças suas,
acabarem por projetar em vez de tentar compreender o que é que se está ali a falar.
Por exemplo, se uma pessoa negra vier falar comigo sobre racismo dentro da comunidade LGBT,
é perfeitamente válido, porque existe.
Não quer dizer que todas as pessoas sejam racistas, mas que existe, não pode ser negado.
Tem que ser reconhecido e tem que ser combatido.

[Alexandre]
Sim, sim, sim.

[Sofia]
Enquanto pessoa branca, obviamente que nunca vou perceber na totalidade o que é que é sofrer de racismo.
Não tenho essa experiência.

[Alexandre]
Sim, porque não sofres.

[Sofia]
Exato. Mas tenho que aprender com quem a tem e com quem me quer transmitir esse conhecimento
e com quem também precisa de aliados nesta luta.

[Alexandre]
Sim.

[Sofia]
Por exemplo, quando surgem movimentos como o Black Pride,
há sempre argumentos do género:
“Mas porquê um Black Pride?”,
“Porquê esta divisão?”,
“Porquê esta ostracização?”…
E eu, em certa medida, compreendo
que era melhor que não houvesse esta necessidade,
que nos pudéssemos unir todos.
Mas eu não posso negar que existe, efetivamente, esta necessidade,
porque nem todas as pessoas negras se sentem bem-vindas e visíveis e respeitadas
em espaços Queer, maioritariamente brancos.

[Alexandre]
Sim.
E se pensarmos bem, esse questionamento de
“ah, mas porquê é que existe um Black Pride?”
é exatamente o mesmo questionamento de
“mas porquê é que existe um Dia das Mulheres?”,
“Mas porquê é que existe um Pride?”.

[Sofia]
Sim.

[Alexandre]
É o mesmo questionamento.
Porque, lá está, porquê é que existe um Pride?
Porque as pessoas LGBT ainda não conseguem viver livremente e serem quem são.
Porquê é que existe um Dia das Mulheres?
Porque as mulheres ainda vivem numa sociedade super-machista
e que lhes atira toda uma série de expetativas, responsabilidades, etc, etc, etc,
e toda a desigualdade que ainda existe.
E, obviamente, sim, era melhor que nenhuma destas coisas tivesse que existir.
Era ótimo que vivéssemos, tipo, numa sociedade que respeitasse todas as pessoas
e em que todos fôssemos iguais.
Mas, lá está, estas iniciativas acabam por ter que existir,
porque estão a colmatar uma lacuna que falta na sociedade.

[Sofia]
Exatamente.

[Alexandre]
E aqui a situação do Black Pride é muito essa.
Claro que era preferível que não existisse e que não houvesse… que as pessoas negras não se sentissem
menosprezadas ou rejeitadas em outros espaços e celebrações de Pride,
mas isso acontece.

[Sofia]
Exatamente.

[Alexandre]
Quantas vezes nós não vemos eventos em que não existe qualquer visibilidade dessas pessoas,
em que nós vemos que as pessoas artistas que lá estão
são só pessoas brancas, maioritariamente, homens Cis.
Que é uma realidade.
Não é nenhum ataque.
É uma realidade.
E isso não quer dizer que agora vamos ter que ter um performer [= artista] de cada categoria,
de cada identidade que exista,
mas essa diversidade existe.
Existem pessoas artistas negras, existem pessoas artistas imigrantes, existem pessoas artistas mulheres,
Trans, etc, etc, etc.
Não é difícil encontrá-las.
Há bastantes.
E essa diversidade faz parte da comunidade.
Aliás, nós somos uma comunidade que luta para que a sociedade
demonstre essa diversidade, porque nós fazemos parte da sociedade.
Se lutamos para que haja personagens LGBT nos filmes, para que haja pessoas LGBT nos livros,
para que haja pessoas LGBT em cargos de poder,
e para que tenhamos essas liberdades e garantias,
não nos podemos esquecer que dentro da nossa própria comunidade ela também é diversa.

[Sofia]
Exatamente.

[Alexandre]
Feita de pessoas negras, de pessoas imigrantes, de pessoas brancas, etc, etc.

[Sofia]
Pessoas com deficiência, pessoas neurodivergentes.

[Alexandre]
Sim.
E que também são muitas vezes esquecidas e completamente apagadas,
como já estávamos a falar.

[Sofia]
Por acaso não sei
se as pessoas que nos estão a ouvir sabiam todas que existe um Black Pride.
Pelo menos em Lisboa esta é a segunda edição.

[Alexandre]
Eu não conhecia, até há pouco tempo.

[Sofia]
Eu creio que o ano passado também não ouvi falar, só este ano,
mas já é a segunda edição.
Este ano foi na Cova da Moura.
E eu só estive presente no dia 5, mas acho que teve programação em vários dias.
No dia 5 de julho.

[Alexandre]
E é preciso relembrar que nesta situação estas pessoas, além de já sofrerem LGBTfobia
pela sua sexualidade ou pelo seu género,
levam também em cima com outros preconceitos,
que tornam, se calhar, esta sua experiência Queer ainda mais difícil,
quer dentro das suas comunidades,
quer dentro da comunidade LGBT,
porque sofrem de racismo, de xenofobia, entre outros estigmas.
E que depois, também, quando se inserem na comunidade LGBT,
vão, provavelmente, com os mesmos receios que vão na sociedade em geral.

[Sofia]
Lá está.
De sofrerem racismo, xenofobia, entre outras situações.
E é preciso que nós, ao criarmos esta Visibilidade,
estarmos a criar espaços para essas pessoas se sentirem também confortáveis.

[Sofia]
E lá está.
E depois uma pessoa pensa:
“Ok, esta é também suposto ser parte da minha comunidade.
E depois chego aqui a pensar que vou ter um certo apoio.
E depois continuo a levar com os mesmos preconceitos com que levo fora da comunidade.”

[Alexandre]
Exato.

[Sofia]
No caso das pessoas negras, com racismo, xenofobia, etc.

[Alexandre]
E podemos transferir o mesmo para a bifobia.

[Sofia]
Sim.

[Alexandre]
Que era aquilo que estavas a falar e que tu tiveste, ao contrário de mim
que, felizmente, posso dizer que nunca tive muitas experiências neste aspecto
(bifóbicas) dentro da comunidade.
Tu tiveste imensas, que já falaste noutros episódios.
Desde mulheres que te disseram na cara que não acreditavam na Bissexualidade.
Desde pessoas que te disseram que as pessoas Bissexuais são super indecisas.
Ou aquele chat que tu falaste no primeiro episódio.

[Sofia]
Sim, e não só de mulheres,
de homens também,
a acharem sempre que vão chover ménages porque a mulher é Bi, etc.
Depois é… Uma pessoa pensa:
“Ok, supostamente há aqui um leque maior de potenciais pessoas
para me relacionar.
Mas depois…
Homens fetichizam a Bissexualidade, obviamente que não todos.

[Alexandre]
Claro.

[Sofia]
Mulheres Lésbicas muitas vezes não se relacionam com mulheres Bissexuais,
seja por que motivos for, obviamente que não todas.”

[Alexandre]
Claro.

[Sofia]
Mas isto acontece.
‘Tá logo diminuído.
E uma pessoa fica é com vontade de não se relacionar com ninguém. [risos]

[Alexandre]
Por isso é que há aquela piada que é tipo:
“Bisexual, but I don’t date everyone.
More like Bye-sexual”.

[Sofia, entre risadas]
Myself.

[Alexandre]
Não, “Bye-sexual”.
De “Bye”, tipo de adeus.
“Bye-sexual”.

[Sofia]
Ah! Sim, sim, sim.

[Alexandre]
Mas é muito isso o que disseste,
porque acaba por haver esse receio.
E depois uma pessoa tende a não se querer expor a essas situações.
Porque é tipo:
“Será que é outra vez que eu vou ter a minha sexualidade invalidada?”
“Será que…”.
E…
Muitas das vezes também quando se fala,
lá está, sempre nestes eventos,
eu sinto que as pessoas Bissexuais acabam sempre a ser muito esquecidas.
E não só mesmo no Pride.
Fora do Pride podemos falar no IDAHOBIT [Dia Internacional contra a LGBTfobia],
que agora já é muito falado como
o Dia Internacional Contra a LGBTfobia.
Mas que antes era o Dia Internacional Contra a Homofobia, Bifobia e Transfobia.
Nós podemos falar do contexto.
Isto surgiu em 2004 como o IDAHO,
que era o dia, isto em inglês, é International Day Against Homofobia.
Portanto em português, Dia Internacional Contra a Homofobia.
Só em 2009 é que incluíram a transfobia na sigla
e, portanto, IDAHOT,
Dia Internacional Contra a Homofobia e Transfobia.
Só em 2015 é que introduziram a bifobia na sigla,
ficando IDAHOBIT,
International Day Against Homofobia, Bifobia and Transfobia.
Porque fica mais fácil de dizer a sigla
e, ao mesmo tempo para seguir,
este terá sido o critério mais importante,
seguir a ordem das letras de LGBT.
Portanto o L e o G ficam representados na homofobia,
o B na bifobia e o T na transfobia.
Mas por exemplo em Portugal, como isto já foi tão mais tarde,
depois tens na celebração deste dia, e ainda aconteceu este ano,
quem fala só na homofobia,
quem fala só na homofobia e transfobia.
E às vezes há quem se lembre de falar na bifobia
e metem no final,
outros metem no meio.
Mas quando tu vês o grosso das mensagens,
especialmente em associações fora da comunidade,
é muito só ou só homofobia,
ou homofobia e transfobia.
A bifobia fica esquecida para canto.
As outras LGBTfobias ficam esquecidas também para canto.
E pode não parecer,
mas isto também é um problema.
Pode não ser bifobia,
mas é um pagamento.

[Sofia]
É uma invisibilidade sim.
E não dá para combater nenhum preconceito
se os ataques não forem visíveis.

[Alexandre]
Sim. E havia mesmo um artigo que eu li o ano passado,
do bi.org ,
que eles falavam
(isto foi em setembro do ano passado, a propósito da Visibilidade Bissexual)
que basicamente,
além dos vários estudos científicos que existem sobre a questão de sexualidade,
que são muitos,
e que identificam que a sexualidade é diversa em praticamente todas as espécies do reino animal que já foram observadas,
a sexualidade mais predominante é a Bissexualidade.
É uma realidade.
E o estudo que eles tinham lá era na América.
Eu não me lembro se nos Estados Unidos,
especificamente, e Canadá, se não me engano,
mas creio que também havia estudos noutros países,
em que era 86% das pessoas da comunidade identificavam-se dentro do espectro da Bissexualidade,
seja Bi, Pan, Omni.
E no entanto é das identidades que sofre mais invisibilidade,
face à grandeza e a quantidade de indivíduos que incorpora.

[Sofia]
Sim.

[Alexandre]
E isto também se torna um problema.

[Sofia]
Eu tenho notado que algumas pessoas Bissexuais ou Pan,
e dentro destas identidades,
às vezes preferem elas próprias, para se protegerem,
não trazer tanta visibilidade,
para se enquadrarem melhor nos espaços em que estão inseridas.
Há muitas pessoas que acabam por ser mais percepcionadas enquanto pessoas Homossexuais
e deixam-se estar ali,
apesar de serem Bissexuais ou Pans, etc.
E há pessoas que quando estão, então,
a relacionarem-se com pessoas de género oposto,
por não se sentirem bem-vindas nos espaços Queers ou na própria comunidade,
acabam até por se afastar da própria comunidade
e por viverem uma vida mais heteronormativa,
às vezes não por falta de apoio à comunidade,
mas por se sentirem rejeitadas da mesma.

[Alexandre]
Sim, sim, sim.
Eu acho que isso é um sentimento geral e
porque até muitas das vezes
quando essas pessoas tendem a criar visibilidade,
e eu já vi criadores de conteúdo,
isto falando de homens brasileiros e de outros países também a
falarem da Bissexualidade em inglês,
e teres imensos comentários…
Por exemplo, basta teres um criador desses
que não tem aquele aspeto
que as pessoas esperam de um homem super masculino,
é logo comentários a dizer que é Gay,
que é isto, que é aquilo.
A invalidar a Bissexualidade.
Se tens um homem Bissexual a dizer:
“Epá sim eu sou Bissexual…”
mas por exemplo “…gosto muito de me relacionar com homens.”,
lembro-me de um criador de conteúdo espanhol,
a falar precisamente sobre isso,
Ele disse: “sim. Eu sou Bissexual,
mas eu gostava de me casar com um homem,
porque eu gosto bastante de me relacionar com pessoas com um aspecto masculino”.
É logo carradas de comentários, tipo,
a inviabilizar a Bissexualidade dele.

[Sofia]
Enfim.
E…
Nesse seguimento, por exemplo,
uma pessoa criadora de conteúdos,
como estás a dar exemplos,
podem ter um canal sobre Bissexualidade,
podem ter um canal sobre vivências Queer,
e terem montes de apoios,
montes de visualizações.
Depois no dia em que assumem uma relação com alguém do género oposto,
tudo até então já foi para usar,
para tirar dinheiro à comunidade.
É visto como uma espécie de traição,
principalmente quando são mulheres a fazê-lo.
E é visto como a pessoa finalmente se está a assumir como é. [Alexandre concorda]

[Sofia]
Heteronormativa.
E não faz parte da nossa comunidade.
Portanto: “Vai lá para o teu privilégio,
vai lá para a tua heteronormatividade,
porque não és bem vinda aqui”.

[Alexandre]
Sim, isso acontece.
Eu noto que isso é uma situação
que acontece bastante.
E como tu dizes, eu sinto que isso acontece muito mais em mulheres,
não só porque não se fala tanto da Bissexualidade em homens.

[Sofia]
Sim. Há muita mais invisibilidade.

[Alexandre]
Começa também por aí.

[Sofia]
Sim.

[Alexandre]
Há uma exposição muito menor.
E as mulheres acabam por estar muito mais expostas,
porque são quem também mais fala sobre Bissexualidade,
quem mais assume a sua Bissexualidade.
E, lá está, eu sinto que depois acontece muito isso.
E diria que também tem a ver com o próprio machismo da sociedade.

[Sofia]
Sim.

[Alexandre]
Não só com as questões da Bissexualidade e da bifobia que estamos aqui a falar.
Machismo no sentido daquilo que são as expectativas que a sociedade coloca numa mulher
e muito esta situação, que já falámos em episódios anteriores,
da relação com homens ser mais valorizada.
E a mulher passa a ser vista como uma hétero que estava confusa
e que esteve a enganar todas estas outras mulheres,
ao dizer que era Bissexual e gostava de mulheres.

[Sofia]
Exato. E quando falamos de ser mais valorizada
é mais no sentido de “dá-se mais credibilidade”.
Porque uma mulher Bissexual que ande com homens
não é valorizada dentro da comunidade LGBT por andar com homens.
É excluída.
Mas vem do mesmo pressuposto,
que aquela relação tem mais credibilidade
do que todas as relações anteriores que ela teve com mulheres.
E ainda nesse sentido…
Eu fico sempre super revoltada com este tipo de comentários
Bifóbicos, não é.
E depois houve uma coisa que me deixou um bocadinho chocada:
foi compararem a situação da Fletcher
fazer uma música sobre um namorado no mês do Orgulho,
com as questões que já tinham sido atacadas em relação à JoJo,
que foi uma cantora que…
Primeiro foi uma cantora que identificava-se como Lésbica.

[Alexandre]
Humhum.

[Sofia]
Coisa que a Fletcher creio que nunca fez,
identificava-se como Queer.

[Alexandre]
Humhum.

[Sofia]
Também acho que também nunca disse sou Bissexual.
ou sou Pansexual, ou sou o que seja.
Mas identificava-se como Queer.
E a JoJo, pelo que eu percebi,
identificava-se como Lésbica.
Mas depois num reality show qualquer
começou a andar com um homem,
enquanto tinha uma namorada cá fora.

[Alexandre]
Humhum.

[Sofia]
Portanto traiu efetivamente
a namorada que tinha.
E depois acho que disse qualquer coisa
tipo “fuck the L”.
Foi uma atitude mesmo lesbofóbica.

[Alexandre]
Exato.

[Sofia]
Mas imagina, a Fletcher…
Ok, dizer que a JoJo foi lesbofóbica. Certíssimo!

[Alexandre]
Sim.

[Sofia]
Agora, a Fletcher, dizerem que está a ser lesbofóbica,
ou que está a ir contra a comunidade,
porque lançou uma música sobre um homem no mês do Orgulho.

[Alexandre]
Sendo ela uma pessoa que gosta de homens.
Mesmo que não gostasse. tipo…
É tipo, qual é o ponto?
Ou seja, ‘tamos a comparar tipo duas cenas incomparáveis,
quer dizer:
tu tiveste a JoJo que foi claramente lesbofóbica,
que é uma situação que tem que ser combatida,
que é um tipo de discriminação e de preconceito LGBTfóbico;
com alguém que lançou uma música.
E que aparentemente é uma música que não faz quaisquer menções de comentários LGBTfóbicos.
É uma música sobre…

[Sofia]
É uma música sobre ela ter um namorado.
Eu acho que também fez.
E isto também, pronto,
é preciso ser conversado.
Eu acho que fez alguma confusão,
porque quando ela está a explicar
que se sente mais evoluída
por ter finalmente aceito o facto de também gostar de homens,
sem o esconder.

[Alexandre]
Humhum.

[Sofia]
Eu acho que as pessoas interpretaram
como “ela agora está a dizer que é mais evoluída por gosta de homens”.
Isto não foi aquilo que ela disse.

[Alexandre]
Sim.
Não, o que ela disse é que se sente mais evoluída por se aceitar como é.

[Sofia]
Exatamente.
E também é daqui que vem, um bocadinho,
o Orgulho de que as pessoas Bis falam.
O facto de ela ter Orgulho
ou de poder fazer uma música sobre o Orgulho
de estar com um homem,
não é pelo “estar com um homem”.
É por ela aceitar-se dentro duma comunidade LGBT,
Em que também foi criticada
ou rejeitada,
por esta parte da sua identidade,
em que também gosta de homens.
E, felizmente, chegar a um ponto
em que não:
“Ok. Eu vou aceitar isto sobre mim,…”

[Alexandre]
Sim.

[Sofia]
“…porque tenho que me aceitar como sou!”.

[Alexandre]
Exatamente.

[Sofia]
Outra das questões que criticaram
(e eu também criticaria,
se não tivesse nenhuma explicação)
foi porque ela depois apagou todos os posts anteriores
em que tinha menções a mulheres e tudo mais
Mas depois, facilmente, alguém respondeu
que ela faz isto sempre que lança um álbum novo.
Portanto apaga tudo o que está para trás,
sempre que lança um álbum novo.
Mas foi associado a ela própria estar a apagar tudo que teve com mulheres.

[Alexandre]
O passado…

[Sofia]
Mas ela disse, nos posts atuais,
que não deixa de ser menos Queer
por estar com um homem.
Ela própria faz essa espécie de ativismo.

[Alexandre]
E não deixa! E não deixa!

[Sofia]
E não deixa.

[Alexandre]
Ponto!

[Sofia]
E depois outra coisa:
“Ah. Porque ela fez um boné a dizer «boy»”
e não sei o quê…

[Alexandre]
‘Tá bém, é o nome da música.

[Sofia]
É o nome da música. Ela anda com um boy.
Esses bonés podem ser comprados por homens gays também, que queiram.

[Alexandre]
Sim.

[Sofia]
Porque é que não pode ser um merchandising [=produto de promoção] do mês do Orgulho.
Não entendi…

[Alexandre]
Não. Acho que não tem…
Acho que não é para entender, como eu costumo dizer.

[Sofia]
Lá está.

[Alexandre]
E há outros exemplos,
até ao longo da história, de…
Por exemplo, no Brasil,
o músico Pedro Sampaio,
que assumiu a sua Bissexualidade,
que estava numa relação com homem,
e é também toda uma chuva de críticas e de
Bifobia.

[Sofia]
E homofobia também.

[Alexandre]
E… Sim. E eu sinto que este é um problema que gira…
Aliás, eu antes de assumi a minha Bissexualidade,
este era um problema que ecoava na minha cabeça.

[Sofia]
Sim, na minha também.

[Alexandre]
Que era, dada toda esta invisibilidade, dado a
todos estes preconceitos de que as pessoas Bis estão
confusas, que as pessoas Bis isto, que as pessoas Bis aquilo,
que as pessoas Bis têm que escolher, que não sei o quê,
e destas invisibilizações que nós vemos.
Isto cria nas pessoas
toda uma série de bifobias internalizadas
e Homofobias internalizadas, que nos deixa
num estado em que eu muitas vezes me questionava,
tipo, até que ponto é que eu quereria
assumir a minha Bissexualidade. E, nas primeiras vezes que o comecei
a fazer, era muito medo do que é que as pessoas iam
pensar, se iam validar
ou invalidar a minha Bissexualidade.

[Sofia]
Exatamente.

[Alexandre]
E isto acaba por ser um problema, porque há muito mais
pessoas Bissexuais do que aquelas que efetivamente se assumem,
muitas que só se assumem em círculos
privados, e obviamente ninguém tem que se assumir,
ninguém tem que ser visível,
obviamente, mas isso deve ser
uma escolha das pessoas pela sua própria
consciência, e não uma situação de
“eu não me quero assumir por causa
destes preconceitos com que tenho medo de levar”.

[Sofia]
Exatamente.

[Alexandre]
Poder ser uma escolha
das pessoas de, na sua consciência,
“Epá, eu não preciso de me assumir” e ninguém precisa,
mas é as pessoas poderem tomar essa
decisão por si próprias, no sentido de
“eu não quero fazer isto porque não quero”.
E está tudo bem. E que não seja
uma questão, que muitas pessoas têm, como nós também
já tivemos, e outras continuarão a ter,
de não querem assumir e vivenciar a sua Bissexualidade,
porque não estamos só a falar da questão de assumir, estamos a falar de
vivenciar a sua vida de forma livre, de vivenciar a sua
Bissexualidade, as suas relações,
tudo na sua vida e na sua
sexualidade de forma livre,
por se sentirem alvos deste preconceito.

[Sofia]
Exatamente.
E, por exemplo, uma pessoa Bissexual
é atacada na mesma pela
sociedade heteronormativa por gostar
de pessoas do mesmo género, e depois
é atacada dentro da própria comunidade por gostar
de pessoas do género oposto. E, por exemplo,
os comentários todos que tenho visto
da Fletcher, da Billie Eilish,
só porque foi apanhada aos beijos também com um homem.
Já há comentários a dizer que ela fez as
músicas para vender, como
se não pudesse ser Bi, ou não pudesse ser
Pan, e não pudesse ter uma música também sobre mulheres,
só porque agora foi apanhada aos beijos com um homem. E ela nem sequer
assumiu essa relação.

[Alexandre]
Sim, sim.

[Sofia]
Simplesmente ‘tava na sua vida. Tiraram uma fotografia
e choveu também uma
enxurrada de comentários à pala disso.
Eu lembro-me, por exemplo, quando
eu não sei se estou a dizer o nome bem, mas
há uma modelo que é a Cara Delevingne,
que andava com uma atriz
que é Ashley qualquer coisa,
que fez um papel em
Prelier Liars.
Elas andaram, uns tempos, depois
acabaram. Já tinham determinada relação,
passado uns tempos ela começou a namorar
com um rapper, que eu só conheço
porque também já namorou com a minha celebrity crush,
que é a Halsey.
E no mês do Orgulho, já não me lembro
de que ano, o post dela
foi simplesmente dizer
“Happy Pride”. Ela no mês do Orgulho,
sendo uma pessoa Bi, ou Pan, não sei como é que se
identifica, mas sendo uma pessoa que se relaciona com pessoas
de vários géneros, postou
“Happy Pride”. E as pessoas, principalmente
mulheres, nos comentários,
“Happy Pride, mas agora andas com aquele e não sei o quê”,
“mas Pride de quê?”,
“Mas tu já nem gostas de mulheres!”…

[Alexandre]
Ya, ya, ya.

[Sofia]
“Porque é que estás aqui a dizer
Happy Pride?”… Como se uma pessoa deixasse de ser
Bissexual ou Pansexual quando se relaciona
com alguém do género oposto.

[Alexandre]
Eu acho que se vem muito, lá está, desta
situação de muitas pessoas não
entenderem que a Bissexualidade existe e como é
que funciona e que as pessoas podem gostar de vários géneros,
porque sinto que parte bué daí.
Porque se pensares bem, é muito
isso que está sendo invalidado, lá está. É a bifobia,
é a invalidação da Bissexualidade.
Porque sinto que isto depois parte
de pessoas que querem muito ver,
ídolos Queer a namorar
fora daquilo que é, entre aspas,
“a heteronormatividade”.

[Sofia]
Humhum.

[Alexandre]
Mas a questão
é que as pessoas Bissexuais atraem-se
por vários géneros.

[Sofia]
Lá está…

[Alexandre]
E, portanto, há de haver a possibilidade
sempre dessa pessoa namorar com alguém
do género oposto. Isso é uma possibilidade.
E as pessoas têm que, de certa forma, perceber
que isso é normal e faz parte dessas pessoas.
A pessoa não deixa de ser Bissexual
por causa disso, nem deixa de ser
uma pessoa Queer, não deixa de ser uma pessoa da comunidade
por causa disso.

[Sofia]
Lá está.

[Alexandre]
Eu conheço
casais de pessoas Bis e pessoas Pans.
Em que ambas as pessoas fazem parte da comunidade,
homens e mulheres. Conheço um casal
de um homem Pan e de uma mulher Bi,
eles namoram. Mas eu sinto que,
se calhar, para muitas pessoas dentro da comunidade,
eles iriam sofrer uma invalidação completa.

[Sofia]
Olha que eu tenho, se calhar,
uma opinião um bocadinho diversa
porque, do género, se eles forem
percepcionados, efetivamente, como um casal hétero,
se calhar até são um tipo
os g’anda Allies [= Aliados], espetacular,
vieram ao Pride apoiar.
Só quando são percepcionados
como um casal Bi ou Pan,
mas que anda com o género oposto,
é que começam a ser criticados.

[Alexandre]
Claro. Sim, sim, sim. Mas era mesmo nesse sentido.

[Sofia]
Portanto, o problema nem sequer é a pessoa…
O problema das pessoas nem é com
estar ali alguém num espaço Queer
que namora com alguém do género oposto. É com as pessoas
serem Bissexuais.

[Alexandre]
Sim, sim, sim.

[Sofia]
Por isso é que falamos
em bifobia.

[Alexandre]
Sim. E pessoas Bissexuais
que namoram com o género oposto.

[Sofia]
Sim.

[Alexandre]
Porque, obviamente, já existe problema com as pessoas Bissexuais em geral,
a bifobia em geral, mas neste caso, em específico.
É como se não tivessem, lá está como
eu estava a dizer, não tivessem lugar ali.
E têm lugar ali.

[Sofia]
Lá está. Por exemplo, quando me perguntam
“ah, mas não achas que têm só
a ver com as inseguranças e tudo mais
e é normal as pessoas não gostarem
tipo, de serem confrontadas com
a heteronormatividade nos espaços Queers?”.
A minha resposta foi essa: “Não, porque se fosse
um casal hétero que vem com os amigos LGBT,
se são vistos como
Allies [= Aliados] super fixes,
porquê é que uma pessoa Bissexual
passa a ser criticada?

[Alexandre]
E não só. Tu dentro
de muitas relações de pessoas do mesmo
género dentro da comunidade LGBT,
tu hás de reparar que são relações
que se regem à mesma por uma certa
heteronormatividade.
No sentido de existirem
papéis dentro daquela relação, a forma como as pessoas
se relacionam.

[Sofia]
Às vezes sim.

[Alexandre]
Muitas das vezes tu observas
essa heteronormatividade que está ali…
É uma heteronormatividade
inconsciente, muitas das vezes,
mas ela existe.

[Sofia]
Sim.

[Alexandre]
E muitas pessoas da própria comunidade,
mesmo sendo pessoas Queer,
mantêm certos padrões
da sociedade heteronormativa.

[Sofia]
Sim, sim, também existe machismo,
sexismo e depois lá está…

[Alexandre]
Papéis de género.

[Sofia]
…papéis heteronormativos
dentro de algumas relações
do mesmo sexo, sem dúvida.

[Alexandre]
E isso não invalida essas pessoas,
obviamente. Há de haver muita coisa que precisa
ser desconstruída, obviamente,
mas isso não invalida
essas pessoas enquanto pessoas da comunidade.
E o mesmo se aplica às pessoas Bissexuais.
E, lá está, uma pessoa Bissexual
pode perfeitamente namorar com alguém
do género oposto. É uma possibilidade, como muitas
outras. E ninguém é mais nem menos
Bissexual por namorar ou não,
com quem quer que seja. É isto que as pessoas têm
que entender.

[Sofia]
Lá está.
Mas isso é uma preocupação que eu às vezes
também me apanho a ter, às vezes até
inconscientemente, do género: “ok,
eu estou inserida nestes espaços, ’tou a fazer
estes eventos, tenho este bloco.
Mas se tivesse um namorado, continuaria
a ter legitimidade para ter um
bloco sáfico, por exemplo?”

[Alexandre]
Sim!

[Sofia]
Claro que sim! Mas é uma insegurança que às vezes
tenho, porque há muitas pessoas que iriam dizer que não.

[Alexandre]
Humhum.

[Sofia]
Uma mulher Bissexual, principalmente se tiver
um namorado…
E obviamente que isto não é para todas as pessoas.

[Alexandre]
Claro.

[Sofia]
Mas uma mulher Bissexual,
principalmente se tiver um namorado, se quiser fazer
alguma tertúlia
dentro da comunidade ou algum
evento dentro da comunidade, vai ser vista
como não tendo credibilidade
para estar a falar de Queerness [= aspetos e questões Queer/LGBT+].

[Alexandre]
Sim. Ou quantas situações nós temos,
por exemplo, o caso da Lady Gaga, que já se assumiu
várias vezes como Bissexual,
que numa entrevista também a confrontaram com
“ah, mas nunca vimos nenhum relacionamento
teu com uma mulher”. E ela
responde “I don’t need to be eating pussy
in front of everyone for you to know
I’m bisexual”. Exato.
E é verdade. E isto, traduzindo,
ela não tem que provar,
não tem que mostrar que está com uma mulher
para provar que é Bissexual. Mas as pessoas
de certa forma andam atrás desta prova,
que é do estilo “então, mas eu só vi que tens relacionamentos com homens,
onde é que estão os relacionamentos com mulheres?”.

[Sofia]
Também fazem isso muito à Halsey. E do género, nós,
primeiro, nós não sabemos a vida das pessoas, não sabemos
se ela queria, efetivamente,
assumir alguma relação
e depois decidiram
entre as duas que não queriam, até porque sabem
que uma relação do mesmo sexo vai ser mais
atacada do que as relações que ela tem
com homens. Há há mil e umas
razões, obviamente.

[Alexandre]
E pode nunca
ter tido uma relação com uma mulher!

[Sofia]
Sim!

[Alexandre]
E isso não faz
dela mais ou menos Bissexual!

[Sofia]
Exatamente.
Eu acho que ela já teve, mas pode nem sequer ter tido.

[Alexandre]
Pode nunca ter tido.

[Sofia]
E continua a ser
Bissexual.

[Alexandre]
Exatamente.

[Sofia]
Lá está, uma pessoa que não tenha relações
não passa a ser Assexual
por não ter relações. Pode ser, pode não ser.

[Alexandre]
Exatamente.

[Sofia]
E acontece muito esse tipo de comentários:
ou porque “nunca a vejo com mulheres”,
ou porque “quando anda com mulheres
não assume”, etc, etc.

[Alexandre]
Há n situações que podem levar a pessoa
a não assumir. E, lá está, como tu
disseste, não é para uma pessoa não ter
tido relações que a sua sexualidade muda
e até mesmo as pessoas Assexuais,
também há pessoas Assexuais que têm relações amorosas
ou sexuais.

[Sofia]
Lá está.

[Alexandre]
Lá está,
porque a Assexualidade também é um espectro enorme
e isso dava todo o pretexto para outro episódio.
Mas é esta a questão.
É: as pessoas não têm que provar a sua sexualidade
a ninguém. Porque é a mesma situação:
se um homem vier a ter comigo e me disser que é um homem Gay,
eu não vou ter que perguntar: “então em quantos namorados eu tive este?”.

[Sofia]
Lá está.

[Alexandre]
Não, isso não é da minha conta.
Ele não tem que ter tido namorados
para me provar que eu não é Gay.

[Sofia]
Lá está.

[Alexandre]
E mesmo se aplica a uma mulher Lésbica
e a qualquer outra sexualidade.

[Sofia]
Mas às vezes parece que é preciso fazer quase
um currículo
com a lista das mulheres com que já andei,
se tiver andado com algumas.

[Alexandre]
E as fotos de referência. [ironia]

[Sofia]
Pois, isso nas fetichizações, então…

[Alexandre]
Sim.

[Sofia]
E quase que é preciso pedir uma carta de recomendação
de alguma ex-namorada.
[Alexandre, ironicamente]
Tens de ter um cartão
a identificar-te como Bissexual.
Tens que subscrever.

[Sofia]
Enfim…
E, lá está,
depois, aqueles estereótipos
que também já falámos em episódios anteriores,
como: as pessoas Bis vão sempre trair com alguém
do género oposto. Às vezes dá vontade de dizer
“ah pronto, ok, prometo que só te traio
com alguém do mesmo género”. Como se trair não fosse
errado de qualquer maneira.

[Alexandre]
Como se trair já não fosse
errado independentemente do género. Sim, sim, sim.
Até parece que as pessoas iriam valorizar
a traição se fosse com alguém do mesmo género, não é?
Parece que põem a traição
com o género oposto tipo como se fosse
o pior tipo de traição.
Não, as traições são todas más.

[Sofia]
Exato.

[Alexandre]
Seja com a pessoa do género oposto,
seja com o que for.
E outra situação também, que é outro preconceito,
que era as pessoas Bissexuais
e o Poliamor.
A questão que já falaste de quando é que as mulheres
há muita esta fetichização de ménages,
“ai que vão chover ménages”.
Há muito esta também: “Ai, não me quero relacionar com uma pessoa Bi,
porque as pessoas Bis só querem relações Poliamorosas”.
Pá não. Não necessariamente. Há pessoas Bis
Poliamorosas. Há pessoas Bis que não são
Poliamorosas e nem todas as pessoas Poliamorosas
são Bis.

[Sofia]
Exatamente.
Depois entra aí toda uma nova coleção de estereótipos
naquilo que é a não-monogamia…

[Alexandre]
É uma mixórdia…

[Sofia]
…e do que são as pessoas não monogâmicas.
E há pessoas Bissexuais que serão
não-monogâmicas e pessoas que não serão.
Não tem nada a ver.

[Alexandre]
Não tem a ver com a Bissexualidade.
A questão de quantas pessoas é que uma pessoa se relaciona
e o tipo de relações que tem, isso depende da própria pessoa.
Não tem nada que ver com a sexualidade.
Há pessoas heterossexuais que também são Poliamorosas.
Há pessoas Homossexuais
que são Poliamorosas.
Portanto, isso é independentemente da sexualidade.
Assim como traição e probabilidades de traição.

[Sofia]
Exatamente.

[Alexandre]
A questão de traição ainda advém mais é do próprio caráter
da pessoa, na minha opinião.

[Sofia]
Sim.
E voltando, por exemplo,
ao que estávamos a falar há bocadinho
sobre as pessoas assumirem ou não.
Obviamente que eu percebo às vezes (não é?)
a ferida que é olharmos para alguém
e vermos “ah, aquela pessoa a relações
com mulheres não assume”
Ou “aquela pessoa a relações com homens não assume”.
Mas primeiro, isto não tem a ver com Bissexualidade.
Porque as próprias figuras públicas
Homossexuais poderão às vezes não assumir
as suas relações pelo mesmo medo,
pelo mesmo receio do preconceito
que sabem com que vão levar.

[Alexandre]
Sim, represálias.

[Sofia]
E se nós quisermos, efetivamente,
lutar por esta visibilidade
e facilitar que as pessoas se
possam sentir seguras
para assumirem as suas relações,
não é a atacar as pessoas Bissexuais que o vamos fazer.

[Alexandre]
Claro. E é preciso também perceber
nessa questão das figuras públicas que tu falas,
é muito diferente: eu,
que não sou propriamente uma figura pública,
assumir a minha Bissexualidade e assumir
uma relação com um homem;
do que, se calhar, um jogador de futebol
super famoso, super conhecido.
Tem um impacto diferente.

[Sofia]
Lá está, pode perder a sua carreira.
Enfim.

[Alexandre]
Há um impacto diferente.
Lá está, como estás a dizer,
porque eu, praticamente ninguém me conhece,
não sou conhecido, não sou importante,
não vai acontecer provavelmente…

[Sofia, a brincar] Claro que és importante, Alexandre. [risos]

[Alexandre]
‘Tá bem, tu sabes o que eu estou a querer dizer. [risos]
Não me vai acontecer nada.
Agora, um jogador de futebol é como isso,
pode perder contratos, pode perder a sua carreira,
reputação,
e as pessoas têm que ter noção
que é uma exposição muito grande,
as figuras públicas estão expostas,
estão muito expostas.
Eu lembro-me de ouvir, não tem a ver,
não é uma pessoa propriamente da comunidade,
mas lembro-me de ver um jogador bastante conhecido,
que é o João Félix,
ele falar numa entrevista
sobre o bullying que ele recebia
depois de jogos em que não jogava tão bem
quanto as pessoas achavam que ele devia jogar.
O bullying que ele recebia
em mensagens tipo de Instagram.

[Sofia]
Humhum.

[Alexandre]
E é preciso perceber que as pessoas
que têm uma exposição pública grande
sofrem disto todos os dias.

[Sofia]
Sim.

[Alexandre]
Quando fazem alguma coisa
que na cabeça de alguém não está bem,
porque as pessoas parecem ter-se no direito
ainda mais de criticar essas pessoas.

[Sofia]
Lá está…

[Alexandre]
E é por isso que muitas dessas pessoas
também não assumem a sua sexualidade
ou não assumem as suas relações
ou evitam falar das suas relações em público,
porque vão ser criticadas, como se costuma dizer,
por ter e por não ter, por fazer e por não fazer.

[Sofia]
Sim.

[Alexandre]
E preferem resguardar-se
porque isso afeta imenso.
Se já nós, se recebermos esse tipo de comentários,
afeta, imaginando alguém…

[Sofia]
Sim, em larga escala…

[Alexandre]
Mas uma pessoa que tem uma
exposição enorme e que recebe uma chuva de críticas.

[Sofia]
Sim.

[Alexandre]
Porque para nós, se calhar,
é um ou dois comentários, mas
para essas pessoas, e basta ver ali o vídeo da Fletcher,
a quantidade de comentários que havia
e que nós vimos.

[Sofia]
E depois dizem: “ah mas as mulheres não são
atacadas por andarem com homens,
portanto não se façam de coitadinhas ou whatever“.
E depois de todos os comentários
é ela a ser atacada por andar com homens.

[Alexandre]
Sim. E tens muitas outras pessoas que também foram
atacadas ou com a sua Bissexualidade
invalidada e isto é um problema grave.

[Sofia]
Lá está. E assim, ok,
eu também percebo, às vezes,
aqueles sentimentos que se criam
de pessoas Homossexuais
terem a perceção de que
as pessoas Bissexuais têm mais privilégios,
que eu acho discutível em certas medidas,
mas esta questão até percebo,
porque podem,
num mundo, por exemplo, como este do espetáculo,
podem assumir
relações com pessoas de quem gostem,
quando são relações com pessoas
do género oposto, enquanto que pessoas homossexuais
em qualquer situação
em que queiram assumir uma relação
vão sempre levar
com homofobia.

[Alexandre]
Humhum.

[Sofia]
E, em certa medida, eu compreendo isto.
Agora, noutro aspeto,
quando uma pessoa Bissexual se apaixona
ou quer ter uma relação com alguém
do mesmo género, sofre exatamente
o mesmo preconceito, sofre exatamente
a mesma invisibilidade, sofre exatamente…

[Alexandre]
E eu diria que sofre em duplicado,
porque é homofobia e bifobia.

[Sofia]
E em duplicado, lá está, era isso que eu iria…

[Alexandre]
E não é só isso, porque ao mesmo tempo,
a situação que estavas a falar,
de, ok, as pessoas Bissexuais podem assumir
essas relações com pessoas do género oposto
sem levarem com tanto preconceito
e com tantas fobias
quanto as pessoas homossexuais,
mas isso não justifica
a ofensa, não justifica
o ataque. Até porque essas pessoas
não vão estar a sofrer o mesmo tipo de preconceito,
mas sofrem preconceito de dentro
da comunidade, que também é mau.

[Sofia]
E mesmo de fora, porque…
E eu ia completar, e acho que também já falei disto
em episódios anteriores.
Se a pessoa for assumidamente Bissexual,
há pessoas que não se assumem, mas há pessoas
Bissexuais, há pessoas homossexuais, há pessoas de qualquer
identidade da comunidade que não se assumem, seja por
que motivo for. E as pessoas não são obrigadas.
E a própria palavra
de assumir causa-me
algum desconforto, porque tipo nós não
temos que assumir nada, não cometemos
nenhum crime…

[Alexandre]
Exato.

[Sofia]
…para termos
que assumir alguma culpa.
Mas pronto, uso esta palavra porque é a mais
usada no sentido de
“afirmarmos a nossa identidade ou a nossa
orientação sexual”. Mas as pessoas
que se assumem ou que se identificam como
Bissexuais, mesmo
quando estão numa relação com
alguém do género oposto,
não deixam de sofrer com bifobia
por causa disso. Pessoas que falem abertamente
sobre a sua Bissexualidade.

[Alexandre]
E até de homofobia.

[Sofia]
E de homofobia também.

[Alexandre]
No caso dos homens, continuam a sofrer bastante com a homofobia.

[Sofia]
Sim, e homofobia e bifobia
porque podem ser vistos como
estando a usar aquela mulher
simplesmente para mascarar…

[Alexandre]
Para mascarar
uma inventada homossexualidade.

[Sofia]
Ou nos espaços em que se insiram,
se quiserem falar sobre a comunidade,
se quiserem defender a comunidade, vão ser na mesma
excluídas como o resto
da comunidade. Não é por serem Bissexuais
que não vão ser na mesma
ostracizados no mundo heteronormativo,
se forem pessoas que falem abertamente,
como qualquer orientação sexual.
Invisibilidade não é privilégio.

[Alexandre]
Exato.

[Sofia]
E é aqui que às vezes eu bato o ponto,
porque quando me dizem que eu tenho privilégio
por ser Bissexual…

[Alexandre]
Onde é que ele está? [sarcásmo] [risada]

[Sofia]
Lá está. E obviamente que são… Há questões diferentes.
Há preconceitos diferentes.

[Alexandre]
Claro.

[Sofia]
Obviamente que eu posso, efetivamente, ter algum
privilégio de poder inserir-me
mais facilmente em ambientes normativos
sem ser atacada por isso.

[Alexandre]
Uma certa passabilidade, por assim dizer.

[Sofia]
Sim, mas é se estiver calada.

[Alexandre]
Sim, e depois isso vai depender
de cada pessoa Bissexual, porque depois
também vai depender muito.
Essa, entre aspas, “passabilidade” também vai depender muito,
lá está, de se falas ou não, da tua expressão de género…

[Sofia]
Da expressão de género.

[Alexandre]
Etc, etc…

[Sofia]
Exatamente.

[Sofia]
Há muitas outras coisa, muitos outros fatores
aqui em jogo. E, lá está,
até em pessoas, por exemplo,
falámos há bocado do Freddie Mercury, que era uma pessoa Bissexual.
Ainda hoje a imagem que as pessoas têm dele
era de que era um homem Gay.
No próprio filme.

[Sofia]
No próprio filme, ela diz-lhe “tu não és Bi, tu és Gay”.

[Alexandre]
Portanto, mesmo o próprio filme sobre Alexandre O Grande,
que é uma personagem que historicamente
está mais do que provado que era Bissexual,
é retratado lá com o grande amor
dele e eles, sim, falam de amor,
mas tu não vês ali mais nada.
É tipo, então, mas o que é isto?

[Sofia]
Exato…

[Alexandre]
O que é isto?

[Sofia]
E isso também vem da homofobia, claro que sim.

[Alexandre]
Homofobia, bifobia, etc…

[Sofia]
Mas lá está, as pessoas Bissexuais também levam com homofobia.

[Alexandre]
Sim, levamos com as duas coisas:
é com a bifobia e com a homofobia.
E levámos desde sempre.

[Sofia]
E a bifobia, ao contrário do que algumas pessoas pensam,
não é só dentro da comunidade LGBT.

[Alexandre]
Sim, é fora.

[Sofia]
Também é fora.

[Alexandre]
Também vem de fora e nós não trouxemos aqui exemplos.

[Sofia]
Mas sim, obviamente que não posso negar
que é mais fácil para mim,
num contexto, por exemplo, laboral,
poder falar de relações que efetivamente existiram
e em que efetivamente estive com homens,
enquanto que uma mulher Lésbica não se pode integrar neste sentido.

[Alexandre]
Sim, o tema das relações torna-se um tema sensível.

[Sofia]
Sim, principalmente no trabalho, quando as pessoas falam das famílias.
Mas eu tenho na mesma, o mesmo receio de falar
das minhas relações com mulheres
e acho que esta invisibilidade que nós às vezes usamos como escudo
é alargada a qualquer uma das identidades
e invisibilidade não é propriamente um privilégio.
É negarmos uma parte de nós para podermos sentir-nos seguros
em determinado espaço. Isto não é um privilégio.

[Alexandre]
Sim, é como usares uma máscara para seres outra pessoa que não és.

[Sofia]
Até porque as próprias pessoas homossexuais às vezes utilizam essa máscara
e falam de relações que não existiram
ou relações que tiveram em que não se sentiram bem
mas que também tiveram essas relações como relações de fachada,
as chamadas relações de fachada.

[Alexandre]
Humhum.

[Sofia]
E fazem exatamente a mesma coisa. Agora sim,
o que eu vejo de privilégio é que eu posso fazer isto com relações
que foram efetivamente verdadeiras e as pessoas homossexuais não.

[Alexandre]
Humhum.

[Sofia]
Eu compreendo isso, mas não significa que as pessoas Bissexuais
não sofram na mesma dos mesmos preconceitos e ainda de outros.

[Alexandre]
Não e vamos pela parte: isso não significa que isso seja necessariamente um privilégio
do qual tu estejas a abusar ou a apoderar-te,
porque isso era algo que todas as pessoas deviam poder fazer.
O que é preciso lutar é para que todas as pessoas possam fazer isso.

[Sofia]
Sim, livremente.

[Alexandre]
Não é lutar para que tu não o possas fazer.
É lutar para que todos nós…

[Sofia]
Sim. Ou seja, isso não pode ser usado como uma desculpa para atacar pessoas Bissexuais.
Claro que não, exatamente.

[Alexandre]
Exatamente.

[Sofia]
É como, por exemplo, no livro da Evelyn Hugo, em que acho que há uma cena,
eu não me lembro bem, mas há uma cena em que ela própria diz à rapariga com quem ela estava,
que também teve algumas cenas de bifobia para com ela e depois ela se vinga
dizendo que para ela seria fácil estar numa relação heteronormativa,
coisa que a namorada não podia fazer.
Não podia fazer sentindo-se bem.

[Alexandre]
Humhum.

[Sofia]
E lá está, eu percebo este exemplo.
Isto é um exemplo que eu percebo.
Mas não invalida todo o resto.

[Alexandre]
Sim, e ao mesmo tempo não valida os ataques que são feitos.

[Sofia]
Exatamente.
Nem invalida expulsar e rejeitar pessoas Bissexuais dentro da sua comunidade.
Ou seja, uma pessoa que diz “ah, eu não ando com pessoas Bissexuais”.
Ok, não tem que andar, eu também não ando com pessoas bifóbicas, tudo bem.
Mas não é por isso que tem que andar a excluir ou a falar mal ou a comentar mal
sobre pessoas Bissexuais em espaços LGBT.

[Alexandre]
Até porque preferências todos nós temos, do tipo pessoas com quem nos queremos relacionar,
obviamente.
Mas isso não justifica nem valida alguma vez que eu possa ter este tipo de comportamentos,
seja bifóbicos, seja transfóbicos, seja de agressão e de exclusão para com outras pessoas.

[Sofia]
Exato.

[Alexandre]
Isso nunca é desculpa.
E como é que nós combatemos este tipo de situações?
Era como falávamos há bocado sobre a questão do racismo e da xenofobia,
é ouvindo as pessoas que sofrem destes preconceitos,
lendo sobre estes preconceitos e educando-nos, porque a educação é o mais importante.
E, de certa forma, trabalharmos a nossa empatia e sabermos colocar-nos também no lugar do outro,
porque, obviamente, só assim é que nós vamos perceber o que é que as outras pessoas também passam
e perceber que, lá está, uma pessoa Bissexual também não está melhor numa relação com o género oposto,
como estávamos a falar, ou não tem essa relação mais validada em termos de sociedade,
porque queira.
A pessoa Bissexual gostaria de ter todas as suas relações validadas.

[Sofia]
E nem tem, porque essas relações só são mais validadas quando a pessoa não fala da sua Bissexualidade.

[Alexandre]
Exato.
E também se combate a estas situações
dando visibilidade, porque quando nós afastamos as pessoas,
aquilo que estamos a fazer é tapar o sol com a peneira. [expressão]

[Sofia]
Sim.

[Alexandre]
Portanto, trazer as pessoas Bissexuais também para os espaços que elas têm que ocupar no Pride,
falar também sobre a Bissexualidade,
não excluir a Bissexualidade, a bifobia e as pessoas Bissexuais,
quando estamos a falar de dias celebrativos de toda a comunidade.
E, portanto, é criando estes espaços.
Temos que incluir as pessoas e temos que garantir que temos esta diversidade que representa efetivamente a comunidade.
E é falando sobre estes temas e educando as pessoas.
E também pela parte importante que é, nós só permanecemos ignorantes e fóbicos se quisermos.
Isso é uma escolha.

[Sofia]
Sim.
E atualmente o que está a acontecer muito é que quando uma pessoa Bissexual fala sobre estas questões,
é logo invalidada no sentido de não ter credibilidade para falar nelas,
porque não sofre tanto como o resto da comunidade, na percepção destas pessoas.
E depois também criam sentimentos de culpa, porque as pessoas Bissexuais,
ativistas e tudo mais, não querem ir contra a própria comunidade.
E às vezes há sentimentos de que o estão a fazer, se falarem sobre si,
que estão a falar contra outra pessoa. E isto não é verdade.
Não é por eu falar das minhas experiências que estou a invalidar as experiências de outra pessoa,
embora queiram fazer disso uma verdade.
E voltando ao exemplo da Fletcher, não é por ela falar das experiências dela com homens
que está a invalidar todas as experiências que teve com mulheres, ou que está a invalidar a comunidade.
Não é por ela falar sobre a Bissexualidade no mês do Orgulho que está a invalidar todas as outras identidades,
que também têm que celebrar o seu mês do Orgulho, ou de que está a invalidar todas as violências
que também são cometidas contra as restantes identidades da comunidade.
E é muito mais vantajoso se as pessoas efetivamente se unirem e lutarem pela liberdade de todas as pessoas,
do que estarmos umas identidades contra as outras.

[Alexandre]
Exatamente, até porque o objetivo de uma comunidade é esse, é lutarmos por um objetivo comum,
que neste caso é a liberdade de todas as pessoas viverem a sua orientação sexual,
o seu género e a sua identidade de género, e vivenciarem-se a si próprias sem preconceito.

[Sofia]
Exatamente. E estamos a chegar ao fim, não é Alexandre?

[Alexandre]
Estamos a chegar ao fim do episódio e desta temporada.
Este é o nosso último episódio desta nossa primeira temporada do podcast.
Tem sido muito bom ter-vos desse lado, a ouvirem-nos, a deixarem-nos também comentários, mensagens,
a conhecerem-nos nos eventos em que temos estado ao vivo.
Tem sido também uma enorme aprendizagem, porque sentimos que alguns episódios foram melhores,
outros não tanto.

[Sofia]
Que alguns queríamos ter dito coisas que não dissemos e depois que ficaram coisas que se calhar teríamos cortado.

[Alexandre]
Sim, coisas que devíamos ter falado com mais profundidade.
Obviamente, estamos sempre abertos às vossas sugestões e é muito importante.
Acho que há muito ainda por fazer

[Sofia]
Sim…

[Alexandre]
dentro da Visibilidade Bissexual.
Pretendemos regressar entre setembro e outubro com uma nova temporada, com novos formatos, novas coisas.
Ainda estamos aqui a planear, dêem-nos sugestões.
Se desse lado estiverem pessoas que queiram falar sobre Bissexualidade…

[Alexandre]
Contactem-nos, principalmente homens Bis, que não tiveram…
A maior parte das pessoas convidadas foram mulheres.

[Alexandre]
Homens Bis, onde andam? O que comem? Como se reproduzem? [risos]
Não, mas fora de brincadeiras, tem sido de facto difícil encontrar homens Bis que queiram falar sobre a sua Bissexualidade.
Por isso, se és um homem Bi e nos estás a ouvir, manda-nos uma mensagem.
Pessoas Não-binárias, também tem sido difícil encontrar algumas pessoas Não-binárias que queiram vir falar sobre a sua Bissexualidade.
Isso seria também importante.

[Sofia]
Sim, eu acho que…
Uma das críticas que eu nos faço em quase todos os episódios é que nós esquecemos-nos muito…
Como nos identificamos, como género feminino, género masculino,
às vezes esquecemos-nos muito que o nosso episódio está a ser demasiado binário.

[Alexandre]
Sim, isso é uma coisa que eu também às vezes reparo. ‘Tou a ouvir o episódio e tipo
“Epá, parece que ficamos não binários aqui”.
E obviamente, queremos também trazer essa visibilidade para essas pessoas e para toda a comunidade.
Por isso também, se és uma pessoa Não-binária e nos estás a ouvir, ou uma pessoa de género diverso,
queremos também trazer pessoas na próxima temporada, pessoas Não-binárias e Bissexuais.

[Sofia]
Sim, queremos que isto seja um espaço efetivamente inclusivo e uma plataforma onde as pessoas
possam falar das suas experiências e trazer visibilidade àquilo que são.

[Alexandre]
E obviamente, continuar a trazer mulheres Bissexuais também para falarem sobre a sua Bissexualidade.
Sinto que há tanto que ainda temos para falar.
E lançámos também agora o nosso site, como já falámos, em que também vamos criar as plataformas
para que possamos também difundir esta visibilidade.

[Sofia]
Queremos fazer alguns eventos em setembro.

[Alexandre]
Sim.

[Sofia]
O mês da Visibilidade Bissexual.

[Alexandre]
Exato, o mês em que se celebra a Bissexualidade.
E queremos organizar precisamente eventos, conversas, tertúlias e não só.
Por isso, se são pessoas Bissexuais e que gostariam de falar sobre a Bissexualidade, contactem-nos.
Homens, mulheres, pessoas Não-binárias, pessoas racializadas, pessoas com deficiência, pessoas neurodiversas.
Estamos à procura.

[Sofia]
Sim!

[Alexandre]
E precisamos para, precisamente, criarmos esta visibilidade.
Por isso, se tiverem ideias para a celebração da Bissexualidade em setembro,
coisas que gostassem de ver,
coisas que gostassem de fazer,
coisas que gostassem que fossem faladas,
ou se quiserem mesmo participar nestas conversas,
entrem em contacto connosco que vamos tentar ter as vossas sugestões em conta
e, assim que tivermos mais novidades, iremos divulgá-las nas nossas redes e no nosso site também.

[Sofia]
Exatamente.
E antes de terminarmos, não podemos deixar de agradecer às pessoas que aceitaram participar neste podcast connosco:

[Alexandre]
A Pilar, a Raquel, a Carlota,
a Daniela e o Diego.

[Sofia]
Um agradecimento especial também à Raquel e à Pilar por que disponibilizaram mesmo o seu próprio espaço,
e a Raquel em vários episódios disponibilizou o seu próprio espaço para podermos ter um sítio onde fazer estas gravações.

[Alexandre]
Sim, que era uma dificuldade que nós tínhamos e daí que o som nem sempre está estável em todos os episódios,
precisamente por causa dessas mudanças de espaço que tínhamos sistematicamente.
E muito obrigado também a todas as pessoas que nos têm acompanhado e que nos têm dado
feedback e que estão aqui sempre a ouvir-nos.
É para vocês que nós fazemos isto.
Nós não vamos desaparecer até setembro, não vamos hibernar. [risadas]
Vamos continuar a lançar algum conteúdo mais curto para vocês,
nomeadamente vamos lançar alguns bloopers,
vamos também lançar alguns vídeos em que fazemos uma retrospetiva dos episódios que tivemos
e vamos, obviamente, preparar aqui os eventos para a Visibilidade Bissexual em setembro.
Por isso, mantenham-se desse lado.

[Sofia]
Sim, não percam o próximo Bipisódio.
E muito, muito mesmo obrigada por Bialogarem connosco ao longo deste podcast.
E para o próximo episódio e para a próxima temporada.

[Todes]
Venham Bialogar connosco.

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